Diva

José de Alencar · Capítulo 8 de 22

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Diva

Capítulo VIII

 

Passei alguns instantes a conversar com D. Leocádia j unto à m esa. O negociante sentara-se num a cadeira de palha à porta do terraço, onde regularm ente todas as noites fum ava seu charuto.

– Sr. Duarte! disse eu alteando a voz.

– Doutor!

– O senhor está lem brado do que se passou entre nós há três anos, logo depois do restabelecim ento de D. Em ília?

– A que respeito?...

– A respeito da m aneira generosa por que o senhor quis recom pensar os pequenos serviços que eu...

– Ah! lem bro-m e!...

– Pequenos serviços, doutor! acudiu D. Leocádia. Um irm ão não faria por sua irm ã o que o senhor fez por Mila.

– Fiz o m eu dever, m inha senhora, e nada m ais; um sim ples dever de m édico!

– Não! O senhor pode pensar com o quiser; m as eu sei que lhe devo a vida de m inha filha, doutor. Se não fosse o senhor...

– Que passou vinte e tantos dias, quase sem dorm ir, não pensando em outra coisa... Cuida que eu não vi o seu desespero quando Mila piorou? E até um a vez...

– Perdão, D. Leocádia! disse eu m uito contrariado. A senhora com preende que não vim lem brar o que se passou há tanto tem po para provocar elogios, que não m ereço, e que, desculpe, m e desagradam sem pre.

– É tal e qual: sobre isto não é capaz de ceder. Não o contrarie, m ana.

– Está bem , doutor, não se zangue; j á m e calo – respondeu a senhora com bondade.

– Repito – continuei –, não fiz m ais do que a m inha obrigação; e, quando recusei a recom pensa generosa que o Sr. Duarte m e ofereceu, tive para isso um a razão. Não sei se lhe disse?

– Creio que sim ; m as não m e recordo bem .

– Recusei por interesse...

– Ora, doutor!... m urm urou tim idam ente a tia de Em ília.

– É verdade, D. Leocádia, por interesse e am bição! Tam bém tenho as m inhas superstições! Acreditava, e ainda acredito, que a m inha prim eira cura m e devia dar felicidade, se eu a votasse com o pia oferenda à ciência e à hum anidade. E não m e enganei!... Foi sua am izade, Sr. Duarte, e a m aneira por que recom endou o m eu nom e aos seus am igos que m e fizeram conhecido e cham ado.

– Diga o seu talento; isto sim é que o fez conhecido e há de torná-lo um dos prim eiros m édicos do Rio de Janeiro.

– Não tenho tais pretensões. Já vê pois, D. Leocádia, que m eu desinteresse não passou de um a pequena especulação feita sobre a am izade e gratidão de sua fam ília!

Durante esta conversa eu não deixara de observar Em ília. Ela estava ainda na j anela; a princípio fez um m ovim ento para voltar-se, que logo reprim iu depois pendera a fronte na m ão e conservara-se im óvel.

As m inhas últim as palavras a arrancaram bruscam ente a essa atitude pensativa; atravessou a sala e veio sentar-se no sofá, defronte de m im . Toda ela era desdém e altivez. Nós cruzam os um olhar, com o dois adversários cruzam o ferro, com eçando o com bate.

– O doutor está gracej ando! disse-m e D. Leocádia.

– Dem ais, eu não fui tão desinteressado com o parecia, porque... Deve recordar-se, Sr. Duarte... Recusando naquela ocasião prom eti-lhe contudo que, se algum a vez m e achasse em em baraços, não recorreria a nenhum a outra pessoa...

– É exato! O senhor deu-m e a sua palavra... Mas infelizm ente ainda não chegou essa ocasião, e receio que nunca chegue.

– Pois chegou! disse eu corando, m algrado m eu.

Não obstante a punição que eu ia infligir a essa m oça, e a zom baria de m inha sim ulada cupidez, não m e pude exim ir ao vexam e de parecer um instante dom inado por m esquinho interesse pecuniário em face de pessoas que m e estim avam . Mas o prazer da vingança m e arrastava.

– Seriam ente, doutor? exclam ou Duarte. – Não sabe quanto isso m e alegra. Disponha francam ente de m im . Quanto precisa?

– Fale – acudiu D. Leocádia. – Não se acanhe. Mano José desej a sinceram ente m ostrar-lhe sua am izade.

Em ília m e fizera j ustiça; depois do que havia passado entre nós, ela sentia que eu era hom em a m orrer na m iséria antes de estender a m ão ao dinheiro do pai. Seu olhar fito em m im parecia querer arrancar-m e do fundo da consciência a m inha intenção oculta.

– Interesso-m e – dizia eu – por um a criança desvalida que perdeu os pais... Espero obter a sua entrada no recolhim ento das órfãs, e desej ava nessa m esm a ocasião fazer-lhe um pequeno dote...

– Muito bem , doutor! exclam ou D. Leocádia. – Não pode haver dinheiro m ais bem em pregado!

– E eu tenho o m aior prazer em concorrer para tão bela ação! De quanto será o dote que nós lhe devem os fazer?

– Com licença, Sr. Duarte! Eu protesto contra esse nós: o dote há de ser dado por m im só; quero ter o egoísm o dessa boa ação, a prim eira e talvez a única de m inha vida.

– Que teim oso que ele é! observou D. Leocádia rindo-se.

– Meu egoísm o porém não deve prej udicar a m inha protegida, privando-a da caridade de um a fam ília que tantos benefícios lhe pode fazer. Por isso desej o que tam bém a conheçam ...

Tirei da carteira a lem brança dada a Geraldo pela irm ã.

Em ília, que m udara de cores desde que eu falei na m enina, fez um gesto, com o se ao prim eiro im pulso se quisesse precipitar para m e arrebatar das m ãos o papel que eu lia. Mas em vez desse m ovim ento o talhe descaiu, com o um corpo a que desm aia a vida: a sua altivez sucum bia vencida.

– Deste m odo, Sr. Duarte, eu persisto ainda na m inha prim eira ideia ... na m inha superstição. Especulo ainda! A m inha prim eira cura será sem pre o m elhor m om ento da m inha vida; com o preço dela poderei rem ir da desgraça a um a pobre criatura! Ao m esm o tem po livro-o da violência que fiz à sua generosidade, recusando outrora o pagam ento dos m eus serviços.

Destas palavras, aquelas que tinham um a significação pecuniária, m inha voz as pronunciava com tal aspereza que parecia querer dar-lhes o tinido m etálico de m oedas.

– Aqui tem a m inha conta – concluí.

Em ília estrem eceu.

– Que é isso, doutor? exclam ou o negociante ressentido. – Cem m il-réis?...

– Pelo tratam ento de Em ília? acudiu D. Leocádia.

– Acha que é m uito?

– Ora, o senhor está zom bando conosco! Pois havem os de lhe dar som ente essa ridícula quantia pelo trabalho im enso que teve...

– Que trabalho! Um as vinte visitas, que para um m édico principiante são generosam ente pagas a cinco m il-réis!

– O que é que você cham a visitas, doutor? Passar as noites em claro...

– Olhe lá, D. Leocádia. Eu m e agasto com a senhora!

– Decididam ente, Dr. Am aral, não lhe pago esta conta. Se quiser acrescentar um a cifra, bem !

– Neste caso ficarem os com o dantes.

– Mas escute, doutor...

– O m elhor é não falarm os m ais disso! atalhei eu.

Em ília ergueu-se arrebatadam ente.

– Papai, dê-m e essa conta! disse ela. Sua m ão trem ia segurando o papel, que ela devorou com a vista, de pé, j unto à m esa.

Tu adivinhas, Paulo, o sentim ento e a intenção com que escrevera eu essa conta: seu nom e, sua pessoa, sua vida, posso dizê-lo, sua vida de m oça bela, rica e adorada, ali estava cotada no m esquinho algarism o! Eu lhe dava plena quitação do seu reconhecim ento!

Ela esteve m uito tem po a ler; depois as róseas pálpebras, franj adas de longos cílios, desvendaram os olhos, que ela pôs em m im , úm idos da tênue m arugem de um a lágrim a estalada.

– Sou eu quem devo pagar-lhe! disse-m e, vibrando a voz.

E ao m esm o tem po o papel voou em pedaços sobre a m esa.

– Mila!... m urm urou D. Leocádia.

Em ília atravessou o salão e desapareceu.

– Ela tem razão! disse o pai erguendo-se. – Entre nós, doutor, não há necessidade de contas, nem de recibos. Vou dar-lhe...

– O quê, Sr. Duarte?

– O m enos que é possível... as seis cifras.

– É escusado! Já disse... falem os de outra coisa.

Esta cena, que eu acabava de representar, m e fatigara horrivelm ente. Mudei de conversa. Veio o chá, e Mila não voltou à sala. Retirei-m e triste.

No dia seguinte m andei um procurador receber do Sr. Duarte com um a ordem m inha os cem m il-réis. Esse suj eito ia prevenido; disse ao negociante que para evitar dem oras adiantara aquele dinheiro no recolhim ento, de m odo que tratava-se de um reem bolso. O pai de Em ília foi obrigado a ceder.

Tive nesse dia alegrias pueris. Com o um a criança... E eu o era então; hom em para a razão sim , m as criança ainda para a paixão que não m e tinha encanecido a alm a!... Ria-m e só, enchia a im aginação das ideias m ais extravagantes... Não te revoltes, Paulo! Já te confessei: essa m ulher, que devia envelhecer-m e o coração, com eçava fazendo-m e m enino.

Desde então percebi em m im um desej o novo, um desej o vivo e ardente de ver Em ília. Não podia voltar à casa de seu pai, que eu visitava de longe em longe, sem m ostrar afã que não devia. Esperava encontrá-la em Matacavalos; m as nessa quinta-feira deixou de ir à partida de D. Matilde.

A m enina entrara para o recolhim ento; eu cum prira a prom essa feita a Geraldo com o se nada houvera passado. Disse-m e ele que a irm ã não lhe fizera a m enor observação; m as ela soube pela velha que eu tinha acrescentado, sem pre em seu nom e, o dote da sua protegida.

Fazia j ustam ente um a sem ana que eu tinha ido ao Rio Com prido; m uito cedo ainda, às sete horas da m anhã, recebi um bilhete de D. Leocádia.

Dizia-m e ela:

"Nós o esperam os hoj e para j antar. Não lhe digo o m otivo deste convite de propósito, para que a curiosidade de saber o obrigue a vir sem falta e m ais cedo."

A letra era de Em ília.

Eu trem i! É verdade, Paulo! Não conhecia ainda o caráter dessa m enina; m as sabia j á que ousadias tinha seu orgulho de m ulher form osa, habituada a ver o m undo aplaudir-lhe todos os caprichos.

Que nova hum ilhação m e reservava ela!