Diva

José de Alencar · Capítulo 15 de 22

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Diva

Capítulo XV

 

 

Ao nascer do sol, j á eu esperava Em ília.

Que longa noite!

Sofria horrivelm ente, m as com o um enferm o desacordado. O estupor do espírito, que m e fulm inou ouvindo a cruel revelação, continuava. Não podia com preender Em ília, o anj o do celeste pudor, a altiva rainha das m inhas adorações, transform ada de súbito num a desprezível nam oradeira de sala.

Havia m om entos em que eu achava dentro em m im a im agem de duas Em ílias, um a para o m eu desprezo, outra para o m eu am or. E m inha alm a, ora exaltava-se em seu orgulho para cuspir a baba da indignação às faces daquela, ora aj oelhava hum ilde e dolente para chorar seu infortúnio aos pés desta.

Passara um a parte da noite a reler os versos do Álvares; ainda os tenho de cor apesar dos esforços que faço para esquecê-los. Eles por aí correm num volum e de poesias, recentem ente publicado por esse m oço. Tem por epígrafe – A ela.

Quando o sol espancou as trevas, não sei que serenidade derram ou-se em m eu seio. Era talvez a saciedade do sofrim ento.

Em ília veio m eiga e serena, com o a tinha deixado na véspera. O baile longe de fatigar, repousava sem pre essa incom preensível criatura. Havia no sorriso dos lábios, no cetim das faces e na irradiação do olhar, o prim or de virgindade que têm as flores recentem ente desabrochadas. Quem visse essas lím pidas auroras de sua beleza, j ulgaria que ela acabava de nascer m oça, ao despontar do sol, com o as rosas e as borboletas. Tal era o frescor e o viço da sua form osura.

Quando a percebi de longe, senti que o m eu coração exauria-se; a indignação que o enchera até aquele m om ento fugiu dele. Tem ia que o prim eiro olhar de Em ília dissipasse a m inha cólera, e que sua prim eira palavra m e curvasse a seus pés hum ilhado ainda por um am or j á indigno.

– D. Em ília – disse-lhe eu – receio ofendê-la... Talvez o m elhor fosse calar-m e.

– O que m ais m e pode ofender de sua parte é o silêncio, quando o senhor tem um ressentim ento de m im . Fale, não tenha receio. Bem vê que eu estou tranquila.

– Pois então ouça-m e e desculpe. Sem dúvida a senhora j ulgará pouco nobre m eu procedim ento, surpreendendo um segredo alheio; m as lem bre-se de que eu a am ava!... E a am ava tanto, que tive a coragem de aviltar-m e ao m eu am or. Sinto este orgulho!

Pela prim eira vez Em ília pareceu surpresa:

– Não com preendo! Que fez o senhor?

Mostrei-lhe os versos e contei-lhe tudo quanto soubera na véspera, durante o baile; tím ido e balbuciante em princípio, ia-m e reanim ando à m edida que a evocação daquelas cruéis recordações m agoava m inha alm a ulcerada; o desespero prorrom peu afinal.

Em ília m e ouvira im passível.

– Bem vê que eu sei tudo, D. Em ília!

Ela não m e respondeu.

– Ouviria eu m al? Não com preenderia as suas palavras?

– Ora! O senhor é tão perspicaz!

– Assim não m e iludi? Esses hom ens a am am , e a senhora lhes corresponde?

– O senhor o diz!

– Meu Deus! Mas a senhora não sabe que nom e tem isso?...

Em ília ergueu-se de um ím peto. Seus olhos tinham raios lívidos, e sua fronte um luzim ento de m árm ore.

– O nom e?... exclam ou ela. – O nom e que isso tem ? Eu lhe digo! É a indiferença... Não! É o desprezo, que m e inspiram todas estas paixões ridículas que tenho encontrado em m eu cam inho! Ah! Pensa que am o a algum deles? Tanto com o ao senhor!... O am or, eu bem o procuro, m as não o acho. Ninguém ainda m o soube inspirar. Meu coração está virgem ! Tenho eu a culpa?... Oh! Que ente inj usto e egoísta que é o hom em ! Quando nos am a, dá-nos apenas os sobej os de suas paixões e as ruínas de sua alm a; e entretanto j ulga-se com direito a exigir de nós um coração não só puro, m as tam bém ignorante! Devem os am á-los sem saber ainda o que é o am or; a eles com pete ensinar-nos... educar a m ulher... com o dizem em seu orgulho! E ai da m ísera escrava que m ais tarde conheceu que não am ava!... Seu senhor é inexorável e não perdoa!... Basta-lhe um aceno, e a m ultidão apedrej a!

Eu assistia, deslum brado, às erupções que produzia o orgulho ofendido naquela alm a inteligente. Em ília parou um instante para respirar; e a palavra sarcástica frisou outra vez seu lábio m im oso:

– Os hom ens... Felizm ente aprendi cedo a conhecê-los; e os desprezo a todos; os desprezo, sim , com a indignação do am or im enso que eu sinto em m im , e que nem um deles m erece!... Cuida o senhor que é a m inha vaidade que m e arrasta pelas salas, com o tantas m ulheres, pelo prazer de se verem adm iradas e ouvirem elogios à sua beleza?... Oh! não, m eu Deus!... Vós sabeis quanta hum ilhação tenho tragado, eu que tenho orgulho de m erecer um nobre am or, vendo-m e obj eto de paixões m entidas e interesseiras!...

– Refere-se a m im , D. Em ília?...

– Ao senhor?... Se eu tivesse um tal pensam ento a seu respeito, j ulga que esperaria tanto tem po para lho declarar? Os outros têm o direito de m entir-m e porque m e são indiferentes... O senhor, a quem eu dei m inha am izade e confiança, não!... Seria um a indignidade!... Os outros podem m e fazer a vida am arga e triste sem que eu m e queixe. Mas o senhor...

– D. Em ília!... balbuciei com ovido.

– Não m e queixo, não; nem preciso que m e consolem ! exclam ou arrebatada. – Para quê? O que eu sofro agora, Deus m o levará em conta para o m eu am or, quando eu am ar um dia, na terra ou no céu.

Em ília afastou-se; e eu a segui involuntariam ente. Esperei debalde que voltasse o rosto; por fim a cham ei; ela parou.

– Ao m enos, D. Em ília, não consinta m ais que esses hom ens lhe falem de sua paixão. Prom ete-m e?

– Não, senhor!

– Bem !

– Se m e quer am ar com o eu sou, com os m eus caprichos...

– Não posso!

– Tem razão! É m elhor assim ! respondeu sorrindo.

– Então adeus, D. Em ília!

Ela derram ou sobre m im num só olhar todo o seu desdém , dizendo com voz pausada:

– E m e tinha am or!... Pois eu, se o am asse, m e desprezasse o senhor em bora, eu o acom panharia até aos pés da m inha rival para suplicar-lhe as m igalhas de seu am or! Eu sim ! Mas felizm ente para nós am bos, não o am o, e creio agora que não o am arei nunca!

Desatando o passo augusto, deixou-m e sepultado naquele desengano cruel.

Não m e retirei com pletam ente da casa de Duarte; porém as m inhas visitas a pouco e pouco foram sendo m ais raras. Era outra vez em casa de D. Matilde que eu m e encontrava agora m ais frequentem ente com Em ília.

Ela, ou de propósito ou porque não tivesse m ais reservas a guardar com igo, atirou-se com sofreguidão aos cortej os de sala. Todas as noites a cercava a grande roda dos seus apaixonados, aos quais ela de repente despedia com um gesto ou um a palavra, para atrair novos, que eram logo substituídos.

Eu sofria, assistindo a essa profanação de m eu belo ideal, um suplício cruel. Era m eu am or que a pouco e pouco se despegava do coração, arrancando-lhe as fibras e escalpelando-o. Quando esse am or fugir de todo, o que m e restará de coração? Um a úlcera apenas!..

Julinha m e com preendera e m e consolava. A boa m enina, vendo-m e infeliz, com eçou ingenuam ente a am ar-m e, m as sem consciência e sem egoísm o, unicam ente por um a força invencível de sua extrem a sensibilidade. Cheguei a iludir-m e; pensei que tam bém am ava essa m enina, m as o que eu am ei em Júlia foi só o que vinha de Em ília, o que ela conversava com igo a respeito de sua prim a.

– Não se aflij a! Mila gosta do senhor, eu sei! dizia-m e Julinha.

– Ela confessou-lhe algum a vez?

– Não; ela nunca m e fez confidências; m as eu a conheço m uito!

– Gosta de m im , com o daqueles que a cercam neste m om ento. Olhe!...

– Não acredite! Zom ba de todos eles.

Em ília viu a m inha assiduidade j unto à prim a. Mas percebeu ela o que se passava em m im , apesar dos m eus esforços para sim ular indiferença?

Não sei.

Um a noite aproxim ou-se para dizer-m e com um sorriso am eno:

– Os seus novos am ores não toleram nem m esm o as antigas am izades?

Confesso-te a m inha vergonha, Paulo. Nunca o im pério dessa m ulher sobre m im foi tão tirânico com o nesse tem po em que m e violentava para arrancar m inha alm a à sua funesta influência.

Em ília tinha seduções tão poderosas, que era im possível resistir. Eu chegava; vinha com um a resolução firm e de m ostrar-lhe m inha com pleta indiferença, e fazê-la acreditar que realm ente am ava Julinha.

Pois quando estava m ais entregue a esse j ogo do coração, e à força de falar de am or, eu m e atordoava a ponto de supor que o sentia pela filha de D. Matilde; pois j ustam ente nessa ocasião, Em ília, não sei com o, arrancava-m e de perto da prim a e arrastava-m e a seus pés.

Bastava-lhe para isso um nada, um sorriso, um a doce inflexão do seu colo, um gesto gracioso da m ão afilada brincando com um anel dos cabelos ou com um a fita do vestido.

Oh! Essa m ão gentil, quando ela a despia da luva, tinha um a alm a; m ovia-se em torno de sua beleza, com o um anj o que descera do céu para acariciá-la. Aos toques suaves dos dedos m ágicos parecia que sua lindeza debuxava-se m ais brilhante.

E eu ficava sem palavra e sem m ovim ento, todo olhar, a contem plá-la de longe.

Afinal, quando ela m e via assim alheio de m im e cativo de sua graça, cham ava-m e com um a im perceptível vibração de fronte.

De ordinário, vendo-m e chegar obediente, se dem udava por tal form a que estupidava-m e; era então fria e glacial, com o um a estátua de gelo. Já não m e via, nem m e ouvia: eu voltava tragando em silêncio a m inha vergonha.

Outras vezes, não: recebia-m e risonha e am ável.

– Julinha está zangada! Vá dançar com ela! dizia-m e então.

Enfim , Paulo, essa m ulher escarnecia de m im , a fazer pena. Tratava-m e com o ao cão da Terra Nova que havia em sua chácara, e com o qual a vira tantas vezes brincar. Enxotava-m e com a ponta do pé, para ter o prazer de m e fazer voltar, lam bendo o chão por onde ela passava.

E eu vivia esprem endo em m inha alm a o fel dessas hum ilhações, a ver se irritava aí a dignidade abatida.