Diva

José de Alencar · Capítulo 21 de 22

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Diva

Pós-Escrito

 

O autor deste volum e e do que o precedeu com o título de Lucíola sente a necessidade de confessar um pecado seu: gosta do progresso em tudo, até m esm o na língua que fala.

Entende que sendo a língua instrum ento do espírito não pode ficar estacionária quando este se desenvolve. Fora realm ente extravagante que um povo adotando novas ideias e costum es, m udando os hábitos e tendências, persistisse em conservar rigorosam ente aquele m odo de dizer que tinham seus m aiores.

Assim , não obstante os clam ores da gente retrógrada, que a pretexto de classicismo aparece em todos os tem pos e entre todos os povos, defendendo o passado contra o presente; não obstante a força incontestável dos velhos hábitos, a língua rom pe as cadeias que lhe querem im por, e vai se enriquecendo j á de novas palavras, j á de outros m odos diversos de locução.

É sem dúvida deplorável que a exageração dessa regra chegue ao ponto de elim inar as balizas tão claras das diversas línguas. Entre nós sobretudo naturaliza-se quanta palavra inútil e feia ocorre ao pensam ento tacanho dos que ignoram o idiom a vernáculo, ou tem por m ais elegante exprim irem -se no j argão estrangeirado, em voga entre os peralvilhos.

Esse ridículo abuso porém não deverá levar ao excesso os doutos e versados na língua. Entre os dois extrem os de um a enxertia sem escolha e de um a absoluta isenção está o m eio-term o, que é a lei do bom escritor e o verdadeiro classicism o do estilo.

A língua é a nacionalidade do pensam ento, com o a pátria é a nacionalidade do povo. Da m esm a form a que as instituições j ustas e racionais revelam um povo grande e livre, um a língua pura, nobre e rica anuncia a raça inteligente e ilustrada.

Não é obrigando-a a estacionar que hão de m anter e polir as qualidades que por ventura ornem um a língua qualquer; m as sim fazendo que acom panhe o progresso das ideias e se m olde às novas tendências do espírito, sem contudo perverter a sua índole e abastardar-se.

Criar term os necessários para exprim ir os inventos recentes, assim ilar-se aqueles que, em bora oriundos de línguas diversas, sej am indispensáveis; e sobretudo explorar as próprias fontes, veios preciosos onde talvez ficaram esquecidas m uitas pedras finas; essa é a m issão das línguas cultas e seu verdadeiro classicism o.

Quanto à frase ou estilo, tam bém se não pode im obilizar quando o espírito, de que é ela a expressão, varia com os séculos de aspirações e de hábitos. Sem o arrem edo vil da locução alheia e a im itação torpe dos idiotism os estrangeiros, devem as línguas aceitar algum as novas m aneiras de dizer, graciosas e elegantes, que não repugnem ao seu gênio e organism o.

Deste m odo não som ente se vão substituindo aquelas dicções que por antigas e desusadas caducam , com o se estim ula o gosto literário, variando a expressão que afinal de tanto repetida se tornaria m onótona. De resto, essa é a lei indeclinável de toda a concepção do espírito hum ano, sej a sim ples ideia, arte ou ciência, progredir sob pena de aniquilar-se.

Falem os particularm ente da língua portuguesa.

A escola ferrenha, que j á vai em debandada, m as há cerca de vinte anos tão grande cruzada fez em prol do classicismo, pretende que atualm ente, m eado do século XIX, discorram os naquela m esm a frase singela da adolescência da língua, quando a educavam os bons escritores dos séculos XV e XVI.

Não é isso possível; se o fosse, tornara-se ridículo.

A linguagem literária, escolhida, lim ada e grave, não é por certo a linguagem sediça e com um , que se fala diariam ente e basta para a rápida perm uta das ideias: a prim eira é um a arte, a segunda é sim ples m ister. Mas essa diferença se dá unicam ente na form a e expressão; na substância a linguagem há de ser a m esm a, para que o escritor possa exprim ir as ideias do seu tem po, e o público possa com preender o livro que se lhe oferece.

Gil Vicente não seria aplaudido se em seus autos falasse a linguagem do tem po de D. Diniz; tam bém o autor dram ático que tivesse a ousada pretensão de fazer representar atualm ente um a com édia no estilo de Antônio José acharia talvez os espectadores que enchem as nossas plateias, convidados pelos pom posos anúncios; m as auditório, não.

O erro grave da escola clássica está em exagerar a influência dos escritores sobre seu público. Entende ela que os bons livros são capazes de conter o espírito público e suj eitá-lo pelo exem plo às sãs lições dos clássicos. É um engano; os bons livros corrigem os defeitos da língua, realçam suas belezas, e dão curso a m uitos vocábulos e frases, ou esquecidos ou ainda não usados.

Mas escritor algum , fosse ele Hom ero, Virgílio, Dante, ou Milton, seria capaz de fazer parar ou retroceder um a língua.

O gênio, por isso m esm o que paira em um a esfera superior, pode atravessar um a época sem que ela o com preenda, nem m esm o o conheça; m as adiante está a posteridade que o vinga. Ora , se em vez de avançar para o futuro, ele retroa-se ao passado, quem o há de ler e apreciar? Os túm ulos das gerações transidas? Eis porque o gênio pode criar um a língua, um a arte, m as não fazê-la retroceder.

Suscitasse a Providência nesta era outro Shakespeare, e ele não havia de saber aquela expressão cheia de vigor e energia que falam Ham let, Otelo, Rom eu e outros personagens do grande trágico; e isso pela razão m uito sim ples, de que as paixões daqueles heróis seriam anacronism os literários nesta época. Quisesse-as ele não obstante arrem edar, e não seria Shakespeare, m as algum desconhecido e extravagante versej ador.

Mas para que outro argum ento além daquele que nos oferece a nossa m esm a língua?

A literatura portuguesa não teve de m il e quinhentos a m il e seiscentos um a longa série de elegantes autores, entre os quais se nom eiam de preferência Barros, Couto, Lucena, Garcia de Rezende, Heitor Pinto, Luís de Souza, Cam ões, Jacinto Freire, Bernardes, Azurara? Entretanto, sob a influência atual desses m odelos do estilo quinhentista, não se foi m odificando a língua consideravelm ente?

Exauriu-se depois daqueles escritores o bom gosto literário, que se tornaram tão raros os im itadores deles? De form a algum a; hom ens de incontestável superioridade escreveram depois, com o Vieira, Garção, Bocage, Francisco Manuel, Diniz e outros; m as am oldaram -se às tendências de sua época, na qual a língua, com o todos os laços do exclusivism o nacional, j á declinavam (sic) para a transfusão universal das ideias que devia operar a civilização m oderna.

Em conclusão: público e escritor exercem um a influência recíproca; e essa lei m oral tem um exem plo m uito frisante em um fenôm eno físico. A atm osfera atrai os átom os que sobem da águas estagnadas pela evaporação, e depois os esparze sobre a terra em puro e cristalino rocio. São da m esm a form a as belezas literárias dos bons livros; o escritor as inspira do público, e as depura de sua vulgaridade.

Coisa singular é que ninguém conteste estas verdades triviais a respeito da arte e da literatura, e m uitos as repilam em relação à língua. Aqueles m esm os escritores que rom peram com a escola m itológica tão em voga na poesia portuguesa, para aceitarem a escola m oderna, que foi iniciada sob o título de rom antism o, por um a singular contradição se j ulgaram adstritos à linguagem clássica usada pelos antigos m odelos.

O estilo quinhentista tem valor histórico; é um estudo de costum es, que no rom ance do gênero adquire súbito valor com o o provaram Alexandre Herculano e Rebelo da Silva. Fora disso é apenas um a fonte, m as não exclusiva, onde o escritor de gosto procura as belezas de seu estilo, com o um artista adiantado busca nas diversas escolas antigas os m elhoram entos por ela introduzidos.

Feita esta confissão plena de m eus pecados em m atéria de estilo, direi por que escolhi antes esta ocasião do que outra qualquer para pôr-m e bem com a m inha consciência.

Quando saiu à estam pa a Lucíola, no m eio do silêncio profundo com que a acolheu a im prensa da corte, apareceram em um a publicação sem anal algum as poucas linhas que davam a notícia do aparecim ento do livro, e ao m esm o tem po a de estar ele eivado de galicism os. O crítico não apontava porém um a palavra ou frase das que tinham incorrido em sua censura clássica.

Passou.

Veio anos depois a Diva. Essa, creio que por vir pudicam ente vestida, e não fraldada à antiga em sim ples túnica, foi acolhida em geral com certa deferência e cortesia. Da parte de um escritor distinto e am igo, o Dr. Múzio, chegou a receber finezas próprias de um cavalheiro a um a dam a; entretanto não se pôde ele esquivar de lhe dizer com delicadeza que tinha ressabios das m odas parisiense.

Segunda vez a censura de galicism o, e dessa vez de um crítico excessivam ente generoso, que se algum a preocupação nutria era toda em favor do autor do livro.

Desej ei tirar a lim po a questão, que por certo havia de interessar a todos que se ocupam das letras pátrias. O distinto escritor, solicitado em am izade, capitularia os pontos da censura. Se em m inha consciência os achasse verdadeiros, seria pronto em corrigir m eus erros; senão, produziria a defesa, e não fora condenado sem audiência.

Muitas e várias razões m e arredaram então daquele propósito; a atualidade da questão passou; eu correria o risco de não ser lido saindo a público para discutir a crítica antiga de um a obra talvez j á subm ergida pela constante aluvião de fatos que ocupam o espírito público.

Ao dar à estam pa esta segunda edição da Diva, pareceu-m e azado o m om ento para escrever as observações que aí ficam , pelas quais desej a o autor ser j ulgado em m atéria de estilo quando publique algum outro volum e. Não basta acoim arem sua frase de galicism o; será conveniente que a designem e expendam as razões e fundam entos da censura.

Com prom ete-se o autor, em retribuição desse favor da crítica, a rej eitar de sua obra com o erro toda aquela palavra ou frase que se não recom ende pela sua utilidade ou beleza, a par da sua afinidade com a língua portuguesa e de sua correspondência com os usos e costum es da atualidade; porque são estas condições que constituem o verdadeiro classicismo, e não o sim ples fato de achar-se a locução escrita em algum dos velhos autores portugueses.

Quem quer que percorra ligeiram ente o dicionário português m ais castiço, o de Morais, achará nele cópia de palavras de origem francesa, que se aclim ataram bem em nossa língua e passaram à categoria de clássicas, som ente pela razão de as reconhecerem necessárias e bonitas os autores quinhentistas. Pois nós os m odernos escritores, com o eles artistas da palavra e do discurso, não terem os o m esm o direito?

Não há contestar; é o direito da inspiração e do gosto, exerça-se ele sobre a ideias ou sobre a palavra. Ao público cabe a sanção; ele desprezará o autor que abuse da língua e a trucide, com o despreza aquele que é arrastado às m onstruosidades e aleij ões do pensam ento. Da m esm a form a aplaudirá as ousadias felizes da linguagem , com o aplaude as harm onias originais e os arranj os do pincel inspirado.

Na língua portuguesa o escritor de m ais fino quilate, o superior Garrett, deu o exem plo dessa independência e espontaneidade da pena. Muitos de seus com etim entos ficaram na língua sancionados pela força e prestígio de seu talento popular. Garrett aplaudido pela sua época é um clássico de tão boa têm pera com o os m elhores do século XV, e de m aior voga por ter florescido em nossos dias.

Cinj o-m e a estas poucas páginas para não dar ao pós-escrito as proporções de um a m em ória ou dissertação, coisas de sua natureza fastidiosas, sobretudo depois da leitura de um rom ance. Grande prova de paciência j á terá dado aquele que até aqui m e acom panhou para que por m ais tem po não abuse de sua ním ia com placência.

Concluindo, cham o sua atenção para a nota j unta, em que eu j ustifico algum as inovações de que m e tornei réu, nos dois volum es referidos. Não quero que m e sej am elas relevadas a pretexto de erros tipográficos; com eti-as m uito intencionalm ente.

Rio de Janeiro, 1º de agosto de 1865.