Diva
Capítulo XI
As vicissitudes de frieza e indiferença, com que Em ília m e tratava, não tinham nada que se parecesse com o j ogo bem conhecido das m oças loureiras, que desdenham quem as persegue e procuram quem as foge. Não havia regra nos seus caprichos. Quando ela queria vir a m im , vinha, sem afetação, francam ente, estivesse eu perto ou longe, em bebido a contem plá-la ou distraído ao braço de outra m oça.
Em ília não tinha rivais, não m e disputava a ninguém ; dom inava-m e na soberania de sua beleza, e atraía-m e ou arredava-m e a seu bel-prazer, com um cenho apenas da sua graciosa m aj estade.
Eu era para essa m oça com o um vaso onde ela guardava as essências de sua alm a para m ais tarde aspirar-lhes o perfum e. Quando chegavam as horas dessa afluência do coração, ela procurava-m e para vazá-la em m im : a sua palavra ardente abundava então do lábio vívido. Outros dias chegava-se m uda e absorta; parecia haver dentro dela um a grande solidão, onde seu espírito se perdia.
– Diga-m e algum a coisa! m urm urava ela. – Fale-m e... Fale do céu, das nuvens, do m ar, do que Deus criou de m elhor neste m undo!...
E eu falava; e ela bebia as m inhas palavras, que lhe m atavam a sede d'alm a.
Fora desses m om entos, em que sua alm a sentia um a necessidade irresistível de expansão ou de absorção, ela parecia esquecer-m e.
Foi por este tem po que eu tom ei um a grande resolução. Afagara sem pre a ideia de ter um a pequena chácara onde m e refugiasse às tardes, escapando ao burburinho da cidade.
Aproveitei esse pretexto para aproxim ar-m e de Em ília. Indo visitá-la um dia, vi com escritos um a casinha pendurada na aba da m ontanha, perto de sua chácara. Dali descortinava-se o seu j ardim , o terraço e as j anelas dos aposentos que ela ocupava na face esquerda do edifício. Com um óculo de alcance eu poderia vê-la a cada m om ento.
Alugada a casa, assaltou-m e o receio de desagradar-lhe. Sabia eu se era am ado? E quando o fosse j á, a im prudência que ia com eter não assustaria um a afeição nascente?
– Não im porta! pensei eu. – É um m eio decisivo de saber se ela m e am a.
Fui vê-la. Estava no j ardim com D. Leocádia; brincava com um grande cão da Terra Nova, e parecia sentir um indefinível prazer em irritar a cólera do tranquilo anim al. Um a vez corri, pensando que ela ia ser vítim a da sua im prudência; o cão irado rosnava, encolhendo o dorso, e rolando a pupila inj etada.
Em ília sorriu; a um gesto de sua m ão, o anim al foi deitar-se a seus pés, acariciando a fím bria do vestido. Ela atirou-lhe um olhar desdenhoso, e tocando-o com a ponta da botina obrigou-o a afastar-se. Depois voltou-se para m im com um a expressão indefinível de orgulho repassado de tédio:
– Não tenha receio... Tudo aqui m e obedece, até este bruto!... Por m ais que o irrite... Não passa disso!
Anunciei-lhe a resolução que tom ara de aproxim ar-m e dela; e o fiz trêm ulo e receoso. Respondeu-m e com sim plicidade:
– Melhor! Estarem os m ais perto! Estim o bem .
– Pois eu receava que isso lhe desagradasse!
– Por que m otivo?
– Já não tem m edo?... perguntei-lhe sorrindo.
– Do senhor?... Não!... De m im ... talvez.
Em ília tinha dessas frases incom pletas, proferidas com um a singeleza volúbil, das quais era im possível com preender o verdadeiro sentido.
Im agina que delícia foram para m im os dois breves m eses que passei naquele pitoresco retiro do Rio Com prido, onde eu m e abrigava todas as tardes com o no regaço da felicidade. Trabalhava então com entusiasm o. Os j úbilos que vertiam de m inha alm a sobrariam à vida m ais pródiga; eu tinha ventura em profusão, que chegaria bem para encher duas existências. E entretanto não ousara ainda confessar a Em ília o m eu am or!
Com o as plantas m im osas, a m inha ventura só floria na som bra. Era na intim idade e no isolam ento que Em ília vertia para m im os perfum es de sua alm a. Na sala, apesar de m arcar-m e com a distinção sutil e delicada que é um tato do coração, contudo eu sentia que o seu olhar soberano m e confundia entre a m ultidão, sobre que ela reinava pela form osura. As noites em que do seu lábio altivo fluíam ondas de fino sarcasm o, nem a m inha subm issa adm iração achava graça perante ela.
Chegou a véspera de Corpo de Deus. Em ília estava sentada ao m eu lado:
– Am anhã não vou à cidade – disse-m e ela. – Se o dia estiver bonito com o o de hoj e, pretendo fazer um passeio, que há m uito tem po não faço. Quer acom panhar-m e?
– Ia suplicar-lhe esse favor, m as não m e anim ava.
– Irem os até o alto da m ontanha. Quando eu percorria só essas veredas escarpadas, os rum ores da m ata, as grandes som bras que oscilam pelas encostas, o erm o da profunda solidão, m e faziam cism ar, e sentir coisas que eu não com preendia. Desej ava ter ali, perto de m im , alguém a quem falar; um coração am igo que recolhesse o que transbordava do m eu, para m o restituir depois. Irem os j untos am anhã. Quero ver com o sentirei agora ao seu lado, o que sentia outrora no isolam ento de m inha alm a.
Às onze horas da m anhã eu esperava por Em ília, no lugar que ela m e designara na véspera. Era um bosque espesso de bam bus, que ficava distante da casa, m as dentro ainda de sua chácara. Para chegar ali, atravessei o m ato, que se estendia desde a m inha habitação pela encosta da m ontanha. Tom ara o disfarce de caçador, a fim de que o nosso encontro parecesse im previsto.
Instantes depois de chegado, ouvi rugir o palhiço dos bam bus que tapetava o chão; Em ília apareceu.
Vinha só.
Confesso-te, Paulo, que eu senti nesse m om ento tiritar-m e o coração de frio. Apesar do que Em ília m e dissera na véspera, o fato de querer ela achar-se a sós com igo num erm o m e parecia tão im possível, estava isso tão fora dos nossos costum es brasileiros, que eu repelira sem elhante ideia. Acreditava que ela se faria acom panhar de sua criada ao m enos, dando-m e assim unicam ente a liberdade da confidência, por que eu tanto suspirava.
Entretanto Em ília conservava a m esm a serenidade que tinha no salão; ao vê-la parecia que ela praticava o ato o m ais natural. Sorria graciosa. Nem um longe rubor no cetim da face; nem um a névoa nos olhos lím pidos e calm os.
E ela tinha razão, Paulo, de conservar essa plácida confiança.
Havia na sua beleza um m atiz de castidade, que a resguardava m elhor do que um severo recato. Eu sentia m uitas vezes, estando só com ela, a influência dessa força m isteriosa, que residia em sua tez m im osa; m as só te poderei explicar o que eu sentia por um a im agem .
Tens reparado na doce pubescência de que a natureza vestiu certos frutos? Se a nossa m ão a alisa, experim enta um a sensação aveludada; se ao contrário a erriça, o tato é áspero.
Assim era o pudor de Em ília.
Olhos puros e castos podiam espreguiçar-se docem ente por sua beleza, porque um a serena candidez a aveludava então. Ao m ais leve rubor, porém , a alm a de quem a contem plasse m agoava-se na aspereza daquela form osura, tão suave há pouco.
Não era preciso que Em ília dissesse um a palavra ou fizesse um gesto para recalcar no íntim o o pensam ento ousado que m al despontara. Um a dor íntim a acusava-m e de a ter ofendido, antes que eu tivesse a consciência disso.
Nunca se adorou de longe, na pureza do coração, com respeito profundo e um severo recato, com o eu adorava Em ília nas horas que tantas vezes passam os a sós, perdidos naquela solidão, onde não encontrávam os criatura hum ana.
Avalia do excessivo m elindre de Em ília por dois fatos que te vou contar.
Um dia, repetindo esse passeio da m ontanha, ela quis atravessar o leito em pedrado de um córrego que se precipitava pela frágoa (sic) escarpada. Seu pé resvalou; ela ia espedaçar-se. Estendi os braços para am pará-la. Repeliu-m e com violência, exclam ando irada:
– Deixe-m e m orrer, m as não m e toque!
Outra vez, um a noite de partida, eu dava-lhe o braço. Num a volta, a m inha m anga, inadvertidam ente, m al roçou-lhe o m arm óreo contorno do seio. Ouvi com o um débil queixum e, que exalaram seus lábios. Voltei-m e. Estava hirta e lívida, presa de um a rápida vertigem . Aniquilou-m e com um olhar de Diana; retirou o braço; deixou-m e im óvel e pasm o no m eio da sala.
Um a sem ana não m e quis falar. Quando afinal obtive o m eu perdão, ainda m e lem bro do m odo estranho por que m e recebeu:
– É a segunda vez que lhe tenho ódio!
Soltando essa palavra, seu lábio túm ido parecia sugar dela um gozo ignoto. As róseas narinas titilaram , enquanto os olhos, velando-se, afogavam num fluido lum inoso.
Nessa m esm a noite, com o um a com pensação do que a sua severidade m e fizera sofrer, concedeu-m e um a graça que eu nunca ousara esperar.
Dançava-se. Em ília sofria com o sem pre a vertigem do baile, que era poderosa em sua organização.
Apesar da sutileza de beij a-flor com que ela esvoaçava, não deixando as puras asas roçarem pelo m undo torpe, eu tinha ciúm es da graça que esparzia assim para todos. E sofria cruelm ente, assistindo aos triunfos da sua beleza.
Ela percebeu, e veio a m im :
– Por que está triste?
– Porque sou egoísta, e não tenho o direito.
Em ília sorriu:
– A nossa am izade é um a flor m uito suave para este clim a da sala. Não lhe parece?... Por força há de sentir aqui.
Fazia um a linda noite, sem luar. As copas escuras das árvores nadavam no azul diáfano, borrifado pela doce luz das estrelas.
Em ília recostou-se à j anela e, enquanto falava, seus olhos se banhavam na suave lim pidez do céu.
– Com o está estrelada a noite!... Ali naquele silêncio a alm a pode abrir-se; não é verdade? Não há rum or que a assuste, nem esse vapor que abrasa!... Eu gosto da noite!... É m ais doce que o dia. É quando eu sinto, quando sei m elhor sentir, é à noite; sobretudo nas noites escuras, com o esta, em que só há estrelas! O sol m e alegra, com o a grande claridade das salas, e m e anim a. Eu creio que as horas, em que sou m ais bonita, é ao m eio-dia no cam po e à m eia-noite no baile! Não sabe por quê? Tenho bebido m uita luz; a luz é um alim ento para m im . Mas a hora em que sou m ais bonita, não é a hora em que m e sinto m elhor, acredite! Na som bra sim , conheço que m eu coração é bom . Pareço-m e com as flores. De dia as cores m ais vivas; de noite o perfum e m ais suave!
Eu escutava Em ília, enlevado com o sem pre que, em nossas conversas íntim as, ela fazia cintilar a graça de seu espírito volúbil. E se vinham de envolta alguns raios dessa fragrância, que ela cham ava perfum es de sua alm a, eu os recolhia santam ente no coração.
Enquanto ela falava, eu reprim ia a respiração para não perturbar a m elodia de suas palavras. Se m e perguntava algum a coisa, tinha m edo de responder-lhe; parecia que m inha voz ia dissipar o m eu êxtase.
– As m elhores horas da m inha vida, vivo-as de noite. É quando Deus m e visita. Ele desce nos raios das estrelas, e entra em m inha alm a, aberta para recebê-lo. Tenho-o sentido aqui dentro tantas vezes!... Veio-m e agora um capricho!... Olhe!... Quando essas luzes se apagarem , e todos recolherem , quero gozar desta bela noite... Mas há de ser lá, à som bra daquelas j aqueiras, à beira do lago.
As j aqueiras de que falava Em ília ficavam m uito distantes da casa. Insensivelm ente m ovi a cabeça com um gesto de dúvida.
– O senhor não acredita?... Pois vá até lá.
– Consente!...
Seu olhar casto pousou em m im , com o um a linda criança conchegando-se no regaço m aterno.
– À um a hora. Eu o espero.
Que estranha e bizarra criatura, Paulo! Com que desdém , ela frágil m enina de dezessete anos, pura com o um anj o, calcava aos pés todas as considerações sociais, todos os prej uízos do m undo! Ela dava-m e a m aior prova de confiança, e o fazia singela e natural, apenas com um a dignidade m eiga de rainha com passiva. Arriscava por m im sua reputação, e nem o m ais leve receio-lhe perpassava na fronte serena.
Enfim , Em ília dava-m e esta entrevista, alta noite, em um erm o, com o m e convidara para o passeio a Santa Teresa, com o m e dera a prim eira contradança que dançam os, com o m e daria um a flor, um sorriso, um olhar.
E tinha razão.
Não estava ela em qualquer lugar m ais protegida pelo seu pudor celeste do que tantas m ulheres desvalidas dele no m eio de um salão?