Diva

José de Alencar · Capítulo 17 de 22

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Diva

Capítulo XVII

 

Foi ontem .

Deixara Em ília na véspera descontente por causa de um dos nossos conflitos de subm issão recíproca.

Achei-a porém j á esquecida dessa pequena contrariedade, e satisfeita. Contudo, tinha certa gravidade no olhar e na fronte que anunciava o peso de m uitos pensam entos ali concentrados.

Falou com sua graça costum ada; falou do passado, recordando de leve as fases por que passara nosso am or. Era sua história íntim a, o rom ance de sua alm a, que ela esboçava a traços finos e delicados.

Depois de com parar sua existência anterior tão agitada com o atual isolam ento e tranquilidade, fixou-m e nos olhos, enquanto m e dirigia com a voz lenta estas palavras:

– Está satisfeito? Não foi cegam ente obedecido?

– Oh! Mila! Obedecido, não! Não m e atrevia a pedir tanto... É um a graça que m e concedeu... e eu a recebi de j oelhos!...

– Ah! fez ela com um a expressão indefinível de tédio.

Geraldo entrava nesse m om ento. Depois de apertar-m e a m ão:

– Diz-m e um a coisa, Am aral? Por que razão proibiste a Mila de sair de casa?

– Ora, Geraldo! respondi eu enfadado. Nunca hás de ter j uízo.

– Foi ela quem m e disse!...

– D. Em ília?...

– E tu acreditaste! disse Mila ao irm ão com um riso irônico.

Isto passava-se ontem .

Hoj e à tarde, chegando à sua casa, achei o carro à porta e ela na sala pronta para sair; só esperava por D. Leocádia.

– Vai sair? perguntei-lhe triste.

– Não vê? respondeu correndo os olhos pelo seu traj o.

– Volta cedo?

– Não! Vam os ao teatro.

– Ah!... Tinha-m e... prom etido não, m as habituado j á a vê-la longe do m undo, bonita e risonha só para m im !...

– É verdade; m as os hábitos sem pre continuados ao final trazem a m onotonia.

Tive um terror pânico. Ouvindo as palavras desdenhosas de Em ília e vendo-a calçar as luvas, não sei que alucinação foi a m inha; se m e afigurou que essa m oça ia outra vez ser-m e arrebatada pela vertigem do m undo; que eu a ia perder, e agora para sem pre.

– Mila, não sei que tristeza profunda m e causa esta sua ida ao teatro... É um a esquisitice m inha!... Que coisa m ais sim ples do que ir ao teatro?... Mas... Não com preendo este tem or... Eu lhe suplico!... Antes de partir dê-m e coragem ! Diga-m e essa palavra que eu espero há tanto tem po!

Ela esquivou a m ão, que eu procurava, vestindo-se da dignidade fria que a envolvia às vezes com o túnica de gelo.

– Tem m uita pressa de ouvir essa palavra!... Há de querer tam bém um j uram ento solene... que firm e seus direitos... Poderá então im por-m e sua vontade, e que rem édio terei eu se não suj eitar-m e!... Mas ainda é cedo. Espere, m eu senhor!

Súbita e profunda revolução se operou em m im ; subj ugado por ela eu apenas pude pronunciar um a frase; m as que profusão de sentim entos, que riqueza de paixão, a alm a não verte num a só palavra, m esm o vulgar!...

– Basta, senhora!

Não sei se m inha voz ecoou n`alm a de Em ília, com o ressoava na m inha; era o grito de um a paixão na agonia.

Em ília cam inhou para m im , absorta em dolorosa em oção: senti sua m ão pousar no m eu om bro, os seus olhos nos m eus, o seu hálito nas m inhas faces, a sua palavra caindo a um a e um a no m eu cérebro. Mas eu estava tão profundam ente m ergulhado em m im m esm o que não com preendia naquele instante nem o que olhava, nem o que ouvia.

– Augusto! Seu am or é um nobre e santo am or, com o eu pedia a Deus que m e desse a fortuna de inspirar!... Responder-lhe com um a dessas afeições banais a que o coração reserva apenas as horas vagas que deixam o cálculo e a vaidade, seria um a profanação indigna!... Espero e lhe peço que espere, para não causar por um engano a sua e m inha desgraça; para não ser obrigada a dizer-lhe um dia: “Eu m e iludi! Esta vida que lhe dei, não a podia dar, não m e pertencia, m as àquele de quem a roubei e agora a reclam a! Traí a um , m enti ao outro; falhei m eu destino; só m e resta m orrer!” Eis por que eu lhe digo que espere.

Calou-se um instante.

– Talvez m e iluda!... Há horas em que duvido ainda com o outrora. Quero esperar um ano ainda... Acha m uito? Para decidir de duas existências?... Se daqui a um ano eu conhecer que não am o, a esta m esm a hora, no lugar onde o senhor estiver, eu irei dizer-lhe: “Deus negou-m e a ventura de am ar; m as o senhor m e am a; se a m inha vida é necessária à sua felicidade, tom e-a; eu lhe dou com prazer; eu lhe pertenço, sem am or, m as cheia de dedicação!” Ouviu, Augusto?... Quer um j uram ento?

– É inútil! Eu j á a não am o!

Fui sincero nesse m om ento. Aquele sarcasm o com que Em ília respondera à m inha súplica, o egoísm o frio que ela revelara, tinham traspassado m inha alm a, e escoado o am or até a últim a gota. Eu acabava de ver, a nu, o aleij ão repulsivo daquele coração de m oça.

– Acredite – repeti com desprezo. – Acabou, e j á nem m e lem bro que am ei! Está agora tão longe de m im esse passado!...

Ela m ostrou um a ligeira perturbação; m as im ediatam ente sua altivez a serenou. Então, Paulo, passou-se o que só pode com preender quem viu essa m ulher sublim e. Fez-se nela com o um j ubileu de graça e luz. Aquela radiante form osura expandiu-se vertendo de si nova e m ais esplêndida form osura. Im agina um a apoteose da beleza.

Em ília assim transfigurada teve um sublim e gesto de dúvida.

– É im possível!...

D. Leocádia entrava. Despedi-m e e parti.

São duas horas da noite. Tive a coragem de não aparecer no teatro. Lem brando-m e que Em ília lá estava e desenhando em m eu espírito a im agem de sua fulgurante beleza, achei-m e calm o; perscrutei m eu coração, e encontrei-o forte.

Realm ente j á não am o essa m ulher, ou se a am o ainda, sem elhante afeição está sepultada debaixo de outras paixões que acabarão por aniquilá-la com pletam ente.

O que eu sinto agora é só um desej o frio de vingar-m e e pagar a Em ília desprezo por desprezo.

Eis a história do m eu prim eiro e talvez único am or, Paulo; precisava derram ar no teu seio as lágrim as que ainda neste m om ento afogam m eu coração.