Diva

José de Alencar · Capítulo 3 de 22

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Diva

Capítulo III

 

Voltando da Europa, a prim eira visita que recebi foi a do Sr. Duarte.

Tinha-m e despedido dele e de sua fam ília; nessa ocasião ainda, apesar dos esforços do pai, Em ília não m e quis aparecer. Tam bém eu j á não reparava na vergonhosa esquivança da m enina.

Visitando o negociante, vi ao entrar na sala um a linda m oça, que não reconheci.

Estava só. De pé no vão da j anela cheia de luz, m eio reclinada ao peitoril, tinha na m ão um livro aberto e lia com atenção.

Não é possível idear nada m ais puro e harm onioso do que o perfil dessa estátua de m oça.

Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém na m esm a delicadeza do porte esculpiam -se os contornos m ais graciosos com firm e nitidez das linhas e um a deliciosa suavidade nos relevos.

Não era alva, tam bém não era m orena. Tinha sua tez a cor das pétalas da m agnólia, quando vão desfalecendo ao beij o do sol. Mim osa cor de m ulher, se a aveluda a pubescência j uvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escum ilha de róseo m atiz. A dela era assim .

Um a altivez de rainha cingia-lhe a fronte, com o diadem a cintilando na cabeça de um anj o. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublim e e excelso que a abstraía da terra. Contem plando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão.

Às vezes, porém , a im pressão da leitura turbava a serena elação da sua figura, e despertava nela a m ulher. Então desferia alm a por todos os poros. Os grandes olhos, velutados de negro, rasgavam -se para dardej ar as centelhas elétricas do nervoso organism o. Nesses m om entos toda ela era som ente coração, porque toda ela palpitava e sentia.

Eu tinha parado na porta, e adm irava: afinal adiantei-m e para cum prim entá-la. Ouvindo o rum or dos m eus passos, ela voltou-se.

– Minha senhora!... m urm urei inclinando-m e.

As cores fugiram -lhe. Ela vestiu-se com o de um a túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionom ia anuviou-se, e eu vi lam pej os fuzilarem naquela densidade de um a cólera súbita.

Fulm inou-m e com um olhar augusto e desapareceu.

Acreditas, Paulo, que essa m oça que te descrevi fosse Em ília, a m enina feia e desgraciosa que eu deixara dois anos antes? Que sublim e trabalho de florescência anim ada não realizara a natureza nessa m ulher!

Em ília teria então dezessete anos. Sentia-se, olhando-a, a influência m isteriosa que um espírito superior tinha exercido na revolução operada em sua pessoa. O traj o, ainda nim iam ente avaro dos encantos que ocultava, era de um m olde severo; m as havia, no gracioso da form a e na com binação do enfeite, uns toques artísticos, que se revelavam tam bém no basto trançado do luxuoso cabelo negro.

Voltei im pressionado por essa visão de sala em pleno dia.

Se a transform ação de Em ília produzira em m im um a adm iração grande, m aior foi a hum ilhação que sofri com o seu desdém . Já não era um a m enina; estava m oça, e não m e devia só a cortesia a que tem direito o hom em delicado, devia-m e gratidão.

– Talvez ignore! disse eu com igo.

Nos dias que se seguiram , surgiu algum a vez em m eu espírito aquela im agem de m oça; m as essa lem brança m e incom odava.

Um a tarde encontrei-m e com o irm ão:

– Ia à tua casa! disse-m e Geraldo.

– Pois vam os.

– Não. Já que te encontrei poupa-m e essa m açada. Minha tia m anda-te dizer que am anhã tom a-se chá em sua casa. Julinha faz anos.

– Ah! D. Matilde?...

– Sim . Adeus.

–- Espera.

– Não posso. Ainda vou à chácara, e tenho de voltar para o teatro.

D. Matilde é casada com um irm ão de Duarte. Seu m arido vive constantem ente na fazenda, trabalhando para tirar dela os avultados rendim entos necessários ao luxo que sua fam ília ostenta na corte.

Ainda m oça, bonita e m uito elegante, ela é perdida pelo cortej o e galanteio de sala. Nunca a honra conj ugal sucum biu a essa fascinação, m as a casta dignidade da esposa foi sacrificada sem reserva.

Sua casa nobre em Matacavalos é ponto de reunião diária para um a parte da boa sociedade do Rio de Janeiro. Todas as noites as salas ricam ente adereçadas se abrem às visitas habituais. Nos dom ingos há j antar para um círculo m ais escolhido. De m ês em m ês aparece um pretexto qualquer para um baile.

Não te falo desta casa som ente por ter sido um a cena no dram a de m inha vida. Foi tam bém , com o soube depois, um a escola para Em ília.

Essa m oça tinha desde tenros anos o espírito m ais cultivado do que faria supor o seu natural acanham ento. Lia m uito, e j á de longe penetrava o m undo com olhar perspicaz, em bora através das ilusões douradas. Sua im aginação fora a tem po educada: ela desenhava bem , sabia m úsica e a executava com m estria; excedia-se em todos os m im osos lavores de agulha, que são prendas da m ulher.

– Eu nasci artista!... m e disse ela m uitas vezes sorrindo.

E realm ente, havia em sua alm a a centelha divina que form a essas grandes artistas de sala, que nós cham am os senhoras elegantes: artistas que por cinzelarem im agens vivas e talharem em seda e veludo, não são m enos sublim es que o escultor quando talha no m árm ore a beleza inanim ada.

Mas faltava ainda à inteligente m enina o tato fino e o suave colorido que o pintor só adquire na tela e a m ulher na sala, a qual tam bém é tela para o painel de sua form osura. Foi nas reuniões de D. Matilde que Em ília deu os últim os toques à sua especial elegância.

Não copiou, nem im itou. Com eçando a aparecer em casa da tia pouco tem po antes da m inha volta, ela observava. Seu bom gosto se apurou; um belo dia surgiu outra; a elegância teve nela um m olde seu, próprio e original.

Quando aos dezoito anos ela pôs o rem ate a esse prim or de escultura viva e poliu a estátua de sua beleza, havia atingido ao sublim e da arte. Podia então, e devia, ter o nobre orgulho do gênio criador. Ela criara o ideal da Vênus m oderna, a diva dos salões, com o Fídias tinha criado o tipo da Vênus prim itiva.