Diva

José de Alencar · Capítulo 16 de 22

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Diva

Capítulo XVI

 

Tinha caído num a tal prostração de ânim o, que Em ília se com iserou de m im .

Um a noite veio sentar-se a m eu lado, e seu olhar envolveu-m e daquela ternura com passiva e protetora, que dava à sua virgem beleza um perfum e de ideal m aternidade.

– Com o eu o tenho feito sofrer, não é verdade? m e disse ela com pungida. – Tam bém eu sofro! Que natureza é a m inha? Parece que tenho prazer em m e contrariar e afligir a m im m esm a. Mas não m e queira m al, Augusto. Eu lhe prom eto ser outra daqui em diante; o que perturbou nossa am izade não sucederá nunca m ais.

– Deveras!... Prom ete repelir os seus adoradores!

– Eu os afastarei tanto de m im , que nem a som bra deles se possa interpor entre nós.

– Obrigado, D. Em ília! Obrigado pela senhora, unicam ente; não por m im .

– Então isso lhe é indiferente.

– Vem tarde! O m al está feito.

Em ília teve um dos seus gestos de rainha.

– Ah! se eu houvesse profanado a m inha alm a nesses arrem edos de am or com que as m oças se divertem antes de casar; se eu estivesse em m eu quarto ou quinto nam oro, quando o senhor m e conheceu, talvez m e j ulgasse digna de sua afeição. Mas eu, que procuro preservar m inha alm a dessa profanação, m ostrando-lhe ao vivo o egoísm o, a cupidez e a baixeza que escondem as paixões im provisadas num a noite de baile e calculadas friam ente no dia seguinte. Eu, que m e guardo para aquele a quem am ar, virgem de am or e im aculada... Sim ! im aculada até dos olhares que resvalam sem penetrar-m e!... Eu, não sou digna de sua estim a, Augusto! Para m im , é tarde!

– Perdão, Mila!... Eu sou um insensato! Mas m eu am or é um a tão pura adoração, eu a coloquei tão alto na m inha veneração, que as palavras apaixonadas desses hom ens m e pareciam denegri-la com o o fum o de um torpe incenso... Loucura!... Eu devia saber que elas não chegavam ao seu coração, com o não chegam a Deus as blasfêm ias do ím pio!...

Em ília respondeu-m e com um sorriso delicioso, pousando a m ão sobre a m inha:

– Não m e eleve tanto, para que outra vez não m e deixe cair de tão alto!... Esses hom ens eram apenas livros para m im ; às vezes tinha lido na véspera sua cópia im pressa. Terá ciúm es, Augusto, dos rom ances que eu leio? Sofreu vendo-m e no teatro assistir à representação de um a com édia?

– Já lhe supliquei m eu perdão. Eu estava louco!

Ela foi nessa noite e nos dias seguintes de um a bondade inexaurível para m im . Voltam os aos nossos antigos passeios e às conversas íntim as. Eu estava outra vez terno e am ante a seus pés, m as orguIhoso e contente do m eu triunfo.

Em ília cum prira sua palavra de um m odo que eu não ousaria esperar. Apareceu ainda algum as noites em casa de D. Matilde, com o para m ostrar-m e o m odo significativo por que despedia os seus adoradores; realm ente soube arredá-los a tal distância que nem um deles se anim ou a voltar. As horas que ali passou esteve com pletam ente isolada, ou perto de m im e ao m eu braço.

Por fim deixou de sair, e fez que cessassem as reuniões em sua própria casa, até nos dom ingos. Desde então parecia que ela se poupava ao m undo, e guardava toda, para entregar-se sem reserva às expansões de m eu am or.

Assim voaram dois m eses de felicidade.

Durante todo esse tem po, Em ília foi de um a subm issão e docilidade que m e punha sem pre atônito, e m uitas vezes afligia.

Tom ava para com igo um a atitude de vítim a resignada e contrita; parecia que m inha vontade a tiranizava, quando era eu m ísero quem suportava a tirania de seus caprichos. Mas ela sentia não sei que íntim o prazer em hum ilhar-se aos m eus olhos; e tinha o talento de, cativando-m e o coração e o pensam ento, insinuar que obedecia ao m ínim o aceno m eu.

Sucederam m uitos acidentes, com o o que te vou referir.

Encom endava ela à sua m odista algum elegante vestido, ou com prava qualquer novidade parisiense recentem ente chegada. A prim eira vez que nos víam os logo m e fazia algum a pergunta neste gênero:

– Qual é a cor m ais de seu gosto?

Ou então:

– Acha bonita a nova m oda de vestidos?

Respondia-lhe com volubilidade, sem dar grande im portância à questão. Acontecia às vezes que o vestido era da cor ou da m oda não preferida por m im ; ela o im olava sem piedade; em folha, com o estava, fazia dele presente a algum a m oça, ou sepultava-o nos recantos de um a côm oda.

Entretanto o vestido era lindo; e fosse feio, que eu o achara divino, traj ado por ela.

Se eu incom odava-m e com estes novos caprichos de hum ildade, tão aversos dos anteriores suspirados no orgulho, e com o eles tão im perativos, ela insistia im paciente, e não tolerava da m inha parte a m ínim a observação. Muitas vezes por essa causa nos separam os tristes e m agoados.

Em nossos m útuos devaneios, quando m e cabia a vez de falar, vazando as expansões de m eu coração cheio, aj oelhava todo m eu ser ante o ídolo de sua graça.

Ela, antes m eiga e dócil à m inha palavra, j á a não escutava; e abstraía-se às ferventes adorações para se refugiar em não sei que penosa e am arga cism a. O que encantara outra m ulher, parecia enfastiá-la; derram ava-se por seu rosto um a nuvem de tédio e desgosto.

Quase sem pre esquivava-se logo, e, deixando-m e só alguns instantes, rom pia a conversa.