Diva
Capítulo IV
Poucas entradas tinha eu em casa de D. Matilde naquela época. O convite m e surpreendeu; e ainda m ais quando no dia seguinte recebi um cartão de visita da senhora com palavras afetuosas.
Tive m ais tarde a explicação dessa e m uitas outras finezas que recebi de toda aquela fam ília. O pai e as tias de Em ília queriam , com as repetidas provas de sua bondade, apagar qualquer ressentim ento que pudessem gerar no m eu espírito os m odos ríspidos da m enina, agora m oça. Muitas vezes procuravam desculpá-la com seu excessivo acanham ento.
O baile foi esplêndido. D. Matilde triunfava, no m eio de suas rivais e aos olhos de seus adoradores.
Lá estava Em ília.
Ainda a flor agreste de sua gentileza não se havia aclim atado à atm osfera do baile. Ela perdia à noite e no m eio do salão ornado pelas m ais elegantes form osuras da corte. Não tinha ali nem a suave lim pidez do desalinho, em que eu a vira antes; nem o fulgor radiante, que tanto adm irei depois. Era o crepúsculo m atutino de um a rosa, que abotoara à noite e ainda não desatara ao sol.
Estive conversando com D. Leocádia algum tem po; quando m e ergui, ela perguntou:
– Não dança, doutor?
– Pode ser, m inha senhora.
– Dance!... Olhe! Vá tirar Mila.
E a boa senhora m ostrou a sobrinha sentada a algum a distância.
Aproxim ei-m e. Já o baile tinha perdido a sim etria da entrada, no seio da confusão que é o seu m aior encanto: a m úsica, as vozes, os risos, os ruge-ruges das sedas, os burburinhos da festa, enchiam o salão.
No m eio dessa m ultidão j ovial, Em ília tinha um a atitude de corça arisca, eriçando os velos m acios e estrem ecendo aos rum ores vagos da floresta. A m enor palavra, um vestido que roçava, um a som bra a proj etar-se a assustavam . Contudo, às vezes à força de vontade, ela arrancava dessa m esm a tim idez audácias ingênuas, que não teria um a senhora: erigia a fronte com altivos desdéns, e fitava em face qualquer hom em que a olhava.
Cum prim entei-a. Inclinou a fronte, não para corresponder-m e, m as para esquivar-m e o rosto. Quando lhe pedi a contradança, creio que ela fez um grande esforço, porque o seu pescoço de cisne perdeu a doce flexibilidade: ergueu a cabeça com certa aspereza.
Pôs os olhos em m eu rosto, e correu-m e um olhar frio e gelado, que m e transiu.
– Não, senhor – disse com a voz seca e ríspida.
Ainda eu estava im óvel diante dela, quando chegou-se pressuroso o Barbosinha:
– Já tem par para esta contradança, D. Em ília?
– Ainda não tenho, não senhor; respondeu ela com a pronúncia clara e vibrante.
– Então, faz-m e a honra de dançar com igo?
Levantou-se para tom ar o braço do cavalheiro. Eu tive um a vertigem de cólera; era a segunda vez que essa m enina hum ilhava-m e.
D. Leocádia passou nessa ocasião.
– Ah! Não quis dançar com Mila?
– Ao contrário, não lhe m ereci essa fineza.
– Pois ela recusou? disse a senhora contrariada.
– Naturalm ente j á tinha par, D. Leocádia.
Em ília, que se colocara para a quadrilha a pequena distância, voltou-se rápida ao ouvir as m inhas palavras. Um fino sorriso de ironia passou-lhe fugace entre os lábios.
– Vou preveni-la para a seguinte – m e havia respondido a tia.
– Perdão, D. Leocádia! Teria com isso o m aior prazer, m as... eu m e retiro j á.
– Deveras, doutor? atalhou D. Matilde, que atravessava o salão. – Dê-m e o seu braço. Então, com o é isso? O senhor j á se retira?
– Estava nessa intenção, D. Matilde; m as agora adm ira-m e com o a pude ter.
– Ah! É cata-vento assim ?
– Quem deixará de o ser, quando o sopro vem perfum ado da m ais linda boca?
– Eu devia puni-lo por ser tão lisonj eiro, obrigando-o a dançar com igo esta contradança...
– Isso seria a m inha recom pensa.
– Parece-lhe?... Pois vou dar-lhe outra m ais doce.
D. Matilde fez com o leque um aceno à filha:
– Julinha?
– Mam ãe!
– Dança com o Sr. Am aral, e vê se consegues fazê-lo esquecer as horas.
– Ao m enos a punição é generosa: foge-m e o original, m as deixa-m e a cópia sua.
Isto foi dito enquanto a m enina trocava algum as palavras com um a am iga. D. Matilde esperava o m eu cum prim ento, e o agradeceu com terno sorriso:
– Antes que m e esqueça, doutor – disse-m e ela –, nós estam os em casa todas as noites que não forem de baile ou teatro lírico; e nas quintas-feiras com especialidade.
A prim a e com panheira de infância de Em ília era um a m oça m uito galante. Parecia-se com a m ãe som ente no rosto: o talhe não o tinha, nem alto nem esbelto, m as adm iravelm ente torneado.
Julinha nunca foi loureira; faltava-lhe para isso o orgulho de sua form osura, e a invej a da form osura alheia. Mas educada na sala, aos raios da galanteria m aterna, perdera cedo o casto perfum e. Desde m enina habituou-se a ser am im ada ao colo e beij ada por quantos frequentavam a casa.
Deus a tinha feito nim iam ente boa e com passiva; por isso, quando chegou a idade do coração, ela não soube recusar ao am or as carícias, que foram brincos da infância. Suas afeições eram sem pre sinceras e leais; nunca traiu nem por pensam ento o seu escolhido; m as tam bém se este a esquecia e m udava, ela facilm ente se consolava, porque em naturezas com o a sua o am or não cria raízes profundas, e só vegeta à superfície d'alm a.
Continuei a frequentar a casa de D. Matilde. Ali, durante um m ês, Em ília não perdeu ocasião de crivar-m e o coração com os alfinetes de sua cólera fem inina.
Um a noite de reunião, servia-se o chocolate. Ela ia tom ar um a xícara da bandej a que passava, quando o criado, sem perceber o m ovim ento, seguiu. Se visses o m eigo im pério do olhar que m e lançou, com preenderias por que, apesar de m eu ressentim ento, apressei-m e a servi-la.
Entretanto, quando lhe ofereci o chocolate, recebeu-o inteiram ente distraída, sem m e olhar.
– Muito agradecida! disse-m e, atirando a palavra da ponta do beiço o m ais lindo, e tam bém o m ais desdenhoso.
Retirei a m ão, j ulgando que ela sustinha entre os dedos delicados a xícara; m as esta acabava de espedaçar-se no chão m anchando a saia acham alotada de seu rico vestido de seda azul.
Em ília ficou im passível. Volvendo lentam ente o rosto, atirou-m e por cim a do om bro estas duas palavras que vieram afogadas no escárnio:
– Com efeito!... – e retirou-se da sala.
Ela tinha deixado cair a xícara de propósito; m as naquela ocasião estava bem longe de suspeitá-lo. Lancei toda a culpa sobre m im ; e tive-m e em conta do m aior desastrado.
Procurei-a: j á tinha partido. Na próxim a quinta-feira, logo que cheguei, dirigi-m e a ela para lhe pedir perdão de m inha inadvertência:
– Peço-lhe m il desculpas, m inha senhora, pelo que sucedeu!
– Quando?
– Quinta-feira passada.
– Não m e lem bro.
– Aquela m inha distração de deixar cair a xícara...
– Ah! foi o senhor?... Nem reparei! disse-m e com a m aior indiferença.
Esta palavra m e ofendeu m ais que tudo quanto m e tinha feito essa m oça. Nem sequer com seu ódio ela se dignava m e distinguir!
De dia em dia a sua aversão tornou-se m ais clara. Ela procurava sem pre esquivar-se ao m eu cum prim ento, e quando de todo não podia evitá-lo, recebia com fria altivez. Se estava ao piano e eu chegava, erguia-se, deixando suspensos os que a ouviam tocar ou cantar. Inventava então qualquer dos pretextos em que era fértil seu espírito vivaz; porém o verdadeiro m otivo deixava-o bem transparente. Se eu m e aproxim ava do círculo onde ela conversava, cham ado por algum a palavra am ável de D. Leocádia, calava-se im ediatam ente, e no prim eiro m om ento favorável eclipsava-se.
Duas ou três vezes, chegando à casa de D. Matilde, achei-a entretida a brincar com a prim a e algum as am igas. Vendo-m e entrar na sala, levantou-se bruscam ente, e despediu-se das outras surpresas:
– Adeus! Adeus!... Vam os, Geraldo!
Tom ava o chapéu; o irm ão contrariado a seguia; entravam no carro, e partiam para a chácara, apesar de ter ela prom etido passar o dia com Julinha, e serem j á horas do j antar.
Tudo isso m e convenceu, afinal, que o procedim ento de Em ília não era filho de um a sim ples antipatia, m as de um propósito firm e de hum ilhar-m e.
Parecia um sistem a de perseguição acintosa. O instinto de defesa acordou em m im , e com ele o desej o da vingança. De longe e disfarçadam ente com ecei a estudar essa m oça, resolvido a descobrir o seu ponto vulnerável.
Desde que a Duartezinha, com o a cham avam nos salões, apareceu nas reuniões de D. Matilde, foi logo cercada por um a m ultidão de adm iradores. Sua nobre altivez os m antinha em respeitosa distância. Ela conservava sem pre na sala, com o na intim idade, um m im o de orgulhosa esquivança, que afastava sem ofender.
Quando porém algum m ais apaixonado ou m enos perspicaz de seus adm iradores, ousava transpor aquela régia altivez e casta auréola em que ela resplandecia, então sua cólera revestia certa m aj estade olím pia que fulm inava.
Em ília não valsava; nunca nos bailes ela consentiu que o braço de um hom em lhe cingisse o talhe. Na contradança as pontas dos seus dedos afilados, sem pre calçados nas luvas, apenas roçavam a palm a do cavalheiro: o m esm o era quando aceitava o braço de alguém . Bem diferente nisso de certas m oças que passeiam nas salas reclinadas ao peito de seus pares, Em ília não consentia que a m anga de um a casaca roçasse nem de leve as rendas do seu decote.
Um a noite, dançando com o Am orim , sócio de seu pai, recolheu a m ão de repente, e deixou cair sobre ele um dos seus olhares de Juno irritada:
– Ainda não sabe com o se dá a m ão a um a senhora? disse com desprezo.
Proferidas estas palavras sentou-se no m eio da quadrilha, e nunca m ais dançou com ele. O Am orim em um a das m arcas, tinha-lhe inadvertidam ente tom ado a m ão, em vez de apresentar-lhe a sua.
Frequentava as reuniões de D. Matilde um m oço oficial de m arinha, o tenente Veiga. Tinha um a nobre figura e o cunho da verdadeira beleza m arcial. Era um dos m ais ferventes adoradores de Em ília. Tirando-a para dançar um a noite ela ergueu se e ia dar-lhe o braço; m as retraiu-se logo e tornou a sentar.
– Desculpe-m e. Não posso dançar!
– Por que m otivo, D. Em ília?
Ela calou-se; m as fitou-lhe as m ãos com olhos tão expressivos que o m oço com preendeu e corou:
– Tem razão. Tirei as luvas para tom ar chá e esqueci-m e de calçá-las.
Estes e m uitos outros pequenos fatos eram com entados no salão de D. Matilde pelas outras m oças, que não perdoavam a Em ília tantas superioridades, com o ela tinha; pois cingia-lhe a fronte a tríplice coroa da beleza, do espírito e da riqueza
Muitas vezes eu assistia calado aos tiroteios dessa guerra fem inina. Algum a rival, observando a suprem a delicadeza do gesto casto e gracioso de Em ília, ralava-se de invej a e dizia para as am igas:
– Ai, gentes! Não m e toquem !...
– É m esm o um alfenim ! acudia outra.
– Pois há quem suporte aquilo?
– Ora! É rica! Tem bom dote!
– Já repararam ? Nem ao m ano ela se digna apertar a m ão!
– Tem m edo que não lha quebrem , coitadinha!..
– Não falem assim ! dizia Júlia voltando-se com um gesto suplicante. Que m al lhes fez Mila?... Pois olhem ! Eu acho aqueles m odos tão bonitos!...
E Julinha, a flor exale da sua fragrância, tom ava a defesa da prim a, e fazia com um a doce m elancolia o elogio daquele suave m atiz de pudicícia, que ela, m ísera, tão cedo perdera. Ouvindo-a, eu m e sentia atraído para essa boa alm a, que Deus tinha feito para a fam ília e a m ãe desterrara para o m undo.
Apesar da esquivança constante de Em ília, eu observei, depois de algum as sem anas, que ela tinha um círculo especial de adm iradores, onde escolhia habitualm ente seus pares.
Esses felizes preferidos obtinham , além do favor da costum ada contradança, um largo intervalo de conversa íntim a.
Nessas ocasiões ela falava pouco; apenas de espaço a espaço dizia algum as palavras; m as escutava com visível interesse, séria um as vezes, outras sorrindo.
Quando confirm ei esta m inha observação, senti n'alm a o agridoce dos prazeres, que à sem elhança do vinho se derrancam no coração.
– É um a nam oradeira! m urm urou m inha alm a vingada, porém triste.
A beleza sem m ácula dessa m enina hum ilhava-m e; m as a profanação de sua alm a, que eu lobrigava naquelas preferências de sala, m e confrangeu o coração.
– Não é por ela que eu sinto – pensava eu – É por sua fam ília, especialm ente por seu pai, a quem estim o.
Com o procurava eu iludir-m e!