Diva

José de Alencar · Capítulo 20 de 22

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Diva

Capítulo XX

 

 

“Sim , Augusto, eu te am o!... Já não tenho outra consciência de m inha vida. Sei que existo, porque te am o.

Naquele m om ento, de j oelhos, a teus pés, essa grande luz encheu m eu coração. Acabava de ultraj ar-te cruelm ente; detestava-te com todas as forças de m inha alm a; e de repente todo aquele ódio violento e profundo fez-se am or! Mas que am or!

Desde então m e sinto com o inundada por este im enso j úbilo de am ar. Minha alm a é grande e forte; guardei-a até agora virgem e pura; nem um a em oção fatigou-a ainda. Entretanto receio que ela não baste para tanta paixão. É preciso que eu derram e em torno de m im a felicidade que m e esm aga.

Por que m e fugiste, Augusto?... Segui-te repetindo m il vezes que te am ava; confessei-o a cada flor que m e cercava, a cada estrela que luzia no céu. Minha alm a vinha aos m eus lábios para voar a ti nestas abençoadas palavras: eu te am o! Tudo em m im , m eus olhos cheios de lágrim as, m inhas m ãos súplices, m eus cabelos soltos, se tivessem um a voz, falariam para dizer-te: Ela te am a!

Beij ei na areia os sinais de teus passos, beij ei os m eus braços que tu havias apertado, beij ei a m ão que te ultraj ara num m om ento de loucura, e os m eus próprios lábios que roçaram tua face num beij o de perdão.

Que suprem a delícia, m eu Deus, foi para m im a dor que m e causavam os m eus pulsos m agoados pelas tuas m ãos! Com o abençoei este sofrim ento!... Era algum a coisa de ti, um ím peto de tua alm a, a tua cólera e indignação, que tinham ficado em m inha pessoa e entravam em m im para tom ar posse do que te pertencia. Pedi a Deus que tornasse indelével esse vestígio de tua ira, que m e santificara com o um a coisa tua!

Vieram encontrar-m e subm ergida assim na m inha felicidade. Interrogaram -m e; porém eu só ouvia os cânticos de m inha alm a cheia das m elodias do m eu am or. Não lhes falei, com receio de profanar a m inha voz, que eu respeito depois que ela te confessou que eu te am o. Não deixei que m e tocassem para não te ofenderem no que é teu.

Quero guardar-m e toda só para ti. Vem , Augusto: eu te espero. A m inha vida term inou; com eço agora a viver em ti.

Tua Em ília.”

São onze horas.

Recebo agora esta carta, aqui na cidade.

Quando fugi ontem de Em ília, tinha tão grande terror de m im m esm o, que não m e anim ei a ficar no Rio Com prido.

Acabando de ler o que ela m e escrevera, pedi a Deus que m e desse coragem para resistir:

– Senhor! Vós sabeis que eu não devo am ar essa m ulher! Seria um a infâm ia!...

Achei Em ília sentada em um a cadeira, absorta em seu enlevo. Vendo-m e, toda essa bela criatura assum iu-se num só e inefável sorriso para cair aos m eus pés, difundindo sua alm a nestas palavras im petuosas:

– Eu te am o, Augusto!

Depois continuou repetindo um a e m uitas vezes a m esm a frase, com o se estudasse um a m odulação de voz que pudesse exprim ir quanto havia de sublim e naquele grito d'alm a.

– Sim ! Eu te am o!... Eu te am o!...

Eram as notas da celeste harm onia que seu coração vibrava, com o o rouxinol canta na prim avera e as harpas eólias ressoam ao sopro de Deus.

Quando ela desafogou sua alm a desta exuberância da paixão, falei-lhe :

– Mas reflita, Em ília. A que nos levará esse am or?

– Não sei!... respondeu-m e com indefinível candura. – O que sei é que te am o!... Tu não és só o árbitro suprem o de m inha alm a, és o m otor de m inha vida, m eu pensam ento e m inha vontade. És tu que deves pensar e querer por m im ... Eu?... Eu te pertenço; sou um a coisa tua. Podes conservá-la ou destruí-la; podes fazer dela tua m ulher ou tua escrava!... É o teu direito e o m eu destino. Só o que tu não podes em m im , é fazer que eu não te am e!...

Enfim , Paulo, eu ainda a am ava!...

Ela é m inha m ulher.