Diva

José de Alencar · Capítulo 22 de 22

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Nota

 

1- NÚBIL – É o adj etivo latino nubilis, tão eufônico e elegante com o o seu equivalente pubere. Nenhum dicionário do m eu conhecim ento faz dele m enção; m as talvez j á fosse algum a vez usado por escritores portugueses.

2 - ESCUMILHAR – Dim inutivo do verbo escumar, com o o substantivo usado e conhecido escumilha é dim inutivo de escum a. Da m esm a procedência é fervilhar, de que falarem os adiante.

3 - PUBESCÊNCIA – Do latim pubesco laniginem, em ito. Não há outro vocábulo na língua portuguesa para exprim ir com tanta elegância e propriedade esse estado da cútis ou da m açã de certos frutos quando se cobrem de um a fina e m acia felpa.

4 - EXALE – Hesitei quando a pena escreveu este adj etivo desconhecido na língua portuguesa. Lem brava-m e sim das m ui j udiciosas observações do bom Filinto Elísio a respeito do uso dos adj etivos passivos, que ele tanto preconizou com o um a das belezas da língua. Mas os adj etivos passivos de que ele falava vinham do latim em linha reta; e o m eu não tinha por si o cunho da m estria rom ana. Refletindo m udei de pensar e arrisquei-m e.

Assim com o os bons clássicos latinos fizeram de infestatus, proecipitatus, exanimatus, occultatus, etc., os passivos irregulares infestus, proeceps, exanimis, occultus, podiam m uito bem ter feito de exhalatus, exhalis. Esqueceram -se; nem era possível que de tudo se lem brassem . Convinha suprir a lacuna, tanto m ais quanto exale é irm ão de extreme, entregue, e outros que não descendem do latim . Em conclusão, o vocabulário aí fica registrado. Os que, com o eu, têm o vício de esperdiçarem seu tem po e saúde a rabiscar papel, m uitas vez terão sentido a m onotonia das desinências uniform es dos particípios passados dos verbos, especialm ente da prim eira conj ugação. Esses, espero, serão indulgentes para o m eu obj etivo.

5 - PALEJAR – Escrevi este verbo persuadido que andava ele inserido nos dicionários, e fiquei surpreso de não o encontrar aí, porque nenhum é m ais do que ele necessário e genuíno na língua.

Talvez se lem bre alguém de opor-m e o verbo empalidecer, de igual origem , e j á sancionado pelo costum e; m as esse verbo está bem longe de exprim ir a ideia do outro que eu introduzi, se é que antes de m im alguém j á não fez este benefício.

Muitas são as desinências verbais da língua portuguesa, por m eio das quais variam os o sentido do vocábulo prim itivo, e exprim im os as diversas m odificações de um a ação. A desinência escer, de esco, que a língua latina adotou do grego, form a os verbos cham ados incoativos. Esco em grego tem a significação de crescer; j unto a um nom e ou verbo, indica um a ação contínua, m as lenta e gradual da ideia anterior. Assim alvorecer é o progresso que faz o alvor no oriente; embevecer o ato de ir bebendo aos poucos.

Ora, no período a que m e refiro, página 45, não era m inha intenção dizer que as luzes da sala iam a pouco e pouco tornando pálida a fronte da donzela; m as sim que lançavam -lhe reflexos ou ondulações que a faziam pálida. A ideia é m uito diversa; em vez de ação contínua, lenta e progressiva, eu quis exprim ir um a ação interm itente, rápida e igual. A desinência escer não servia para o caso; era m ister recorrer a outra.

Essa devia ser a desinência ejar, derivada do latim ago, e m uito usual em português. Ago, fazer, obrar, dá logo a ideia de iniciativa e poder criador; com unica ao nom e ou verbo a força de produzir de si m esm o a ideia exprim ida. Assim almejar é a alm a que sai de si m esm a excitada por um desej o; arquejar, a arca do peito que sai da sua posição natural; forcejar, a força em itida dos m úsculos; vicejar, o viço que se expande.

A desinência ago por isso m esm o que com unica o poder criador, a força ativa à palavra a que se j unta, indica a persistência da ideia ou da ação; e por isso os gram áticos cham am os verbos dessa term inação frequentativos. Assim arejar significa um a produção repetida do ar, murmurejar um m urm urar am iudado, etc.

Palejar portanto é o verbo que servia ao m eu pensam ento; a palidez que as luzes lançavam de si obre a fronte da donzela, palidez que devia ser rápida, trêm ula e interm itente com o a oscilação da cham a; todas estas circunstâncias aí estão no vocábulo.

Quanto à sua genealogia, talvez haj a quem o preferisse derivado do adj etivo pálido, com o empalidecer; entendi eu que o extraía bem do verbo palleo, donde saiu o adj etivo pallidus, e o verbo pallesco. E por que havia eu de fazer o m eu verbo neto do verbo radical quando o podia fazer filho?

6 - ROFADO – Não sei por que não m encionam os dicionários o verbo rofar, do latim rufo, quando dão os nom es respectivos, rofo, prega, e rofo, rugado. Esse verbo foi adm itido no com posto arrufar com um a ortografia m ais sem elhante à etim ologia. Prefiro rofar, para distinguir de rufar, tocar ruflas no tam bor.

7 - GÁRCEO – Não é o adj etivo garço ou zarco, que significa azul esbranquiçado; m as o derivado de garça, com o róseo foi derivado de rosa.

8 - GARRULAR – Da propriedade que tem nossa língua de criar novos verbos j á falou com m uito critério o autor do Gênio da língua portuguesa. Facilm ente se adapta um a desinência verbal a qualquer nom e, verbo. É o que se fez ao adj etivo gárrulo, criando-se assim o verbo para suprir a falta que nos faz o radical latino garrio, que bem se podia traduzir garrir.

De resto garrular tem procedência igual à de escapulir, que provém de escapulo em prim eiro grau e de escapar em segundo.

9 - OLÍMPIO, do latim olympius, a, um.

Para que esta novidade? Não tem os j á olím pico?... que?...

Tem os, sim ; m as agora m esm o acabo eu de sentir quanto são incôm odas e vexatórias para o escritor consciencioso essas palavras term inadas em sílabas ásperas, especialm ente com o em prego frequente do relativo que. A harm onia é um a das prim eiras belezas da língua. Para m im ela vale m ais do que todos os escrúpulos clássicos; desde que na língua m ãe se deriva um adj etivo irm ão que exprim e a m esm a ideia com m ais eufonia, havia eu de rej eitá-lo por cortesia a um a só letra, e um a letra rude e áspera, especialm ente nas palavras esdrúxulas?

10 - ELANCE – É bem possível que algum leitor enxergasse nessa palavra um a tradução ridícula e extravagante do vocábulo francês élan, e se horrorizasse do galicism o.

Mas espero que repare tal inj ustiça com etida contra o inocente autor.

A língua latina tem a palavra lancea, lança, da qual derivaram as seguintes: lanceo, m eter a lança; lancisco, ferir com a lança.

Passaram essas palavras com pequena m odificação para a língua portuguesa, a qual, pela propriedade que tem de criar substantivos verbais, de lançar tirou logo lançamento, com o de defender, mover, conceber, aparecer, derivou defendimento, movimento,, concebimento, aparecimento, e m uitos outros desconhecidos no latim .

Outra propriedade preciosa da nossa língua é com unicar ao nom e a ideia de atividade ou passividade da ação verbal por m eio de certas desinências em que ela é m uito rica. Assim essa desinência em ento, talvez corrupção do gerúndio latino agendus, exprim e um m ovim ento sucessivo, ainda não acabado. Exem plo: revolvimento. A desinência em ão, de actio, indica o m ovim ento rápido e consum ado. Exem plo: revolução. A essas duas desinências ativas correspondem outras duas passivas, em ado ou ada, ido ou ida, de actus, que significa o obj eto que j á sofreu o m ovim ento do verbo. Exem plo: mandado. A outra é um a desinência irregular, ou antes não é desinência, m as ausência dela, e contração dos nom es em ento para designar o m ovim ento passivo, ou o efeito do anterior m ovim ento, com o mando, que é o efeito de mandar.

Sobre estas desinências pode-se ver a obra j á citada, Gênio da língua portuguesa, a qual contudo não é com pleta.

Nada m ais natural, em vista do expendido, que a língua portuguesa tendo criado o nom e verbal lançamento o apassivasse por contração e fizesse lance para exprim ir o efeito do m ovim ento do verbo, com o o outro exprim ia esse m esm o m ovim ento continuado. Igual operação ideológica houve na palavra realce, engaste, encaixe, disfarce, transe, contração de realçamento, engastamento, encaixamento, disfarçamento e transimento. Nenhum desses nom es contraídos e passivos tem equivalentes no latim .

Tal é a verdadeira etim ologia da palavra portuguesa lance; e não a que dá Morais, derivando-a do francês élan, ou a que procurou Constâncio arbitrariam ente e conform e seu costum e na palavra grega laxis. Que

necessidade tinha a língua de socorrer-se de elem ento estranho, quando em si própria tinha o necessário para dar raiz lancea tirar por gradações o vocábulo lance?

Ao passo que em português a radical era assim desenvolvida, no francês produzia o verbo lancer, o nom e lancement, e segundo pretende Bescherelle e os m elhores dicionários esse outro nom e com posto élan e seus derivados élancer, etc. Quanto a m im , élan parece antes um a corrupção por transposição de an-helus; a sua significação de ím peto ou salto arrebatado é figurada e não prim itiva.

Com o quer que for, tenham os franceses feito o seu vocábulo élan ou lancea ou de anhelus, com o nós fizem os o nosso de lance, não podem os nós os portugueses explorar m ais essa fonte para dela haurir as riquezas que existam sem incorrer em crim e de galicism o? Porque os franceses com puseram a raiz, e criaram élan, élancer, élancement, não é perm itido ao escritor português usar de igual direito e prerrogativa?

Quando de lance fizeram os bons autores relance, relancear, j untando o prefixo que indica repetição, concederam autoridade para todos aqueles com postos que forem necessários e harm oniosos. Elance está nesse caso; ele é parente próxim o e eflúvio, efeito, efúgio, efusão, elisão, emanação, e tantos outros form ados da preposição e ou ex que exprim e a em issão ou produção externa da ação.

11- RUTILO – De restilar, brilhar, trilar, fizeram restilo, brilho e trilo; de cintilar, cintila ou centelha. Por que razão o verbo rutilar, um dos m ais belos da língua portuguesa, não havia de ter um só nom e substantivo, quando outros têm -os os três e quatro? Nada de privilégios, nem m esm o para os vocábulos; igualdade perante a língua, com o perante a lei.

12- ROÇAGAR – Este verbo, se não m e engano, j á foi usado; eu m esm o o escrevi frequentes vezes sem investigar dos seus títulos e diplom as. De feito, sendo o particípio presente roçagante consagrado, parece que não pode ele existir sem o verbo, cuj o é. Constâncio diz, é verdade, que deriva roçagante de roçar; m as creio que não obstante seus devaneios em m atéria de etim ologia, não pretendeu ele que fosse o particípio daquele verbo.

Aqui aparece a desinência ejar de que falam os em outra nota, m ais aproxim ada da radical ago. Essa desinência, com o foi dito, com unica ao verbo a ideia de iniciativa e atividade; e por dedução a ideia de frequência e repetição. Roçagar é pois um a variante de rocegar ou rossejar; variante de grande estim ação pela beleza e harm onia. Sua verdadeira significação deve ser a seguinte: produzir roçam ento frequente e repetido.

Daí veio cham ar-se roçagante a roupa talar e am pla, não som ente porque arrasta no chão, com o dizem Morais e Constâncio, m as porque suas m uitas dobras tocando-se de leve um as às outras produzem um roçam ento repetido, rossejam. Na significação usual foi usada a palavra neste volum e da Diva, página 171; porém afastei-m e dela em Lucíola, página 195: “Avistando-m e, roçagou o véu, e disse com um triste sorriso, etc.”

Com o se vê da frase, não se tratava de obj eto que arrastasse no chão, e que por conseguinte tirasse daí a significação atribuída ao vocábulo; m as era algum a coisa flutuante, cheia de rugas e pregas, com o são os véus; o m ovim ento da pessoa que o quisesse colher, para descobrir o rosto, havia por força produzir o contínuo e repetido roçam ento.

O verbo arregaçar não exprim e tanto nem tão bem ; é m ais do que colher e seus com postos, pois é colher fazendo seio ou regaço; m as não dá a ideia de ondulação contínua, e nem a da rej eição do véu por sobre a cabeça. Arregaçar o véu é levantá-lo apenas; roçagar é atirá-lo para as espáduas. Em idêntica significação o em preguei à página 22, “...enquanto a m ão ligeira roçagava os am plos folhos da seda que rugia arrastando.” Traduza-se: enquanto a m ão ligeira rejeitava fazendo roçar uns nos outros repetidas vezes os am plos folhos, etc.”

 

13 - FRONDES – A palavra latina frons, ondis, que significa propriam ente a folha superior e recente, o renovo-gérm en, arborum, hervarum et florum. Introduzida na linguagem científica por Lineu, foi logo adotada, com o m erecia, pela linguagem literária e artística, onde ela vem aum entar a fam ília de vocábulos que receberam do latim os nossos clássicos frondear, frondejar, frondente, frondoso, frondífero, etc.

Para exprim ir os renovos das palm eiras ela é sobretudo de grande beleza, porque acrescenta a ideia de elevação.

14 - AFLAR – A virtude ou vício desse vocábulo m e deve ser im putado, porque fui eu o prim eiro que o transportei para a nossa língua ex auctoritate qua scribo.

Afflo vel adflo, ad aliquid spiro, vel flatu contingo, com posto de ad, para, e flo, soprar. Se acharem na língua portuguesa um verbo que exprim a ao m esm o tem po, com tanta propriedade, elegância e beleza im itativa, o m ovim ento produzido pelo bafej o da aragem sobre as folhas, ou a ondulação de certos obj etos que agitam o ar, com o o leque, os folhos de um vestido, etc., eu confessarei que com eti um a superfluidade em prestando do latim essa palavra nova.

Mas duvido que achem term o nessas condições. Eu conheço soprar, arejar, bafejar, arar, espirar e seus com postos, ventilar, e talvez outros que m e não recordem agora. Nenhum deles satisfaz: soprar, arejar, ventar e ventilar têm a significação genérica de em itir sopro, ar ou vento; bafejar é o ar ligeiro que expelim os pela boca, ou figuradam ente o que se lhe assem elha pela brandura e tepidez; espirar, respirar, suspirar significam várias m odificações no m ovim ento do ar vital; arfar exprim e a ondulação produzida pelo ar interior.

Aflar porém reúne a significação de m uito desses verbos. Ele indica a em issão do ar, acrescentando a ideia de um lugar para, ad. Afla a brisa, sopra para, dirige-se a outro lugar. Indica tam bém , com o arfar, um a ondulação produzida pelo ar, m as não é de expansão, e sim de deslocação. O seio arfa porque se intum esce de ar; a palm a afla porque o sopro interm itente a em balança.

A grande beleza porém do vocábulo está na onom atopeia; afla é o som harm onioso de certos m ovim entos que o verbo sej a cham ado a exprim ir: afla um m im oso leque m eneado lentam ente, um vestido de cham alote com a ondulação do andar gracioso, um a bandeira agitada pela brisa, etc.

15- RUBESCÊNCIA – Já se tratou da desinência verbal escer, que designa continuação gradual, progressiva e lenta. A essa desinência verbal corresponde a dos substantivos derivados encia, que exprim em a m esm a ideia.

A língua portuguesa foi parca em seu em préstim o da latina quanto à fam ília deste vocábulo; apenas tom ou o substantivo rubor, o adj etivo rúbido, e o verbo com posto enrubescer; desprezou o verbo rubir, de rubeo, ser verm elho, o substantivo rubidino, is, rubidez, que outros adotaram quando sentiram a necessidade, e com tão bom direito com o foram adotados languir e languidez.

Eu lim itei-m e a adotar o verbo sim ples rubescer e seu substantivo rubescência, porque careci dele para exprim ir a m inha ideia. Rubor exprim e o efeito da ação verbal rubeo. O outro derivado, rubidez, se fosse adm itido, exprim iria um estado ou qualidade, conform e a ação. Rubescência porém indica a gradação da cor que se vai acendendo nas faces até chegar a ser rubor.

16- FERVILHAR – É palavra conhecida e usada; é o dim inutivo de ferver. Essa propriedade de dim inuir a significação dos verbos, com o de a aum entar pela desinência, é outro privilégio da língua portuguesa.

- FIM -

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