Diva
Capítulo VI
Esperei com im paciência a próxim a quinta-feira. Estava resolvido a explicar-m e com Em ília.
Durante o princípio da noite, conservei-m e sentado na varanda; m as via, por um espelho fronteiro à porta, D. Leocádia e a sobrinha em seu lugar do costum e, a um canto do salão. Depois do chá realizou-se o que eu esperava; ficou vaga um a cadeira entre am bas; ocupei-a logo.
Em ília estrem eceu; voltou-se toda para falar a outra m oça, que lhe ficava à esquerda; senti que sua cadeira se afastava da m inha por um m ovim ento im perceptível.
– D. Em ília! disse de m odo que m e atendesse.
Ela olhou-m e.
– Desej o fazer-lhe um pedido.
Não m e respondeu; m as um a ligeira inflexão do rosto parecia indicar-m e que se dispunha a ouvir
– Diga-m e, D. Em ília, se algum a vez involuntariam ente a ofendi, para que lhe suplique m eu perdão?... Mas creio antes que tive a infelicidade, e não a culpa, de desagradar-lhe... Se isso é verdade, farei que a m inha presença não a im portune m ais!
Levantei os olhos para ela. Parecia não m e ouvir, nem m esm o ter consciência de que eu ali estivesse e lhe falasse. Sua alm a passava no olhar, e ia ao outro lado da sala. Havia em sua fisionom ia e atitude a expressão pasm a que deixa a alheação ou o recolho dos espíritos.
– Não m e responde, D. Em ília? insisti ainda.
Continuou im passível. Estive algum tem po observando-a: depois voltei-m e para D. Leocádia.
– A senhora tem notado algum a alteração na saúde de D. Em ília?
– Não, doutor; por quê? perguntou-m e assustada.
– As m oléstias graves, com o a que ela sofreu, costum am afetar alguns órgãos im portantes. Por exem plo, algum as vezes deixam um a surdez incôm oda...
– Pois ela, não! Ouve até m uito bem !
– Ah! há pouco m e pareceu o contrário!
Em ília ergueu-se:
– Tam bém a m im m e parecia que o Sr. Dr. Am aral era m íope; m as agora conheço que enxerga m uito e longe!
– A senhora ouviu?... Desculpe! Cuidei que estava distraída.
– Enganou-se ainda desta vez! disse-m e e afastou-se.
Um a das alusões de Em ília, eu tinha com preendido perfeitam ente: ela m e qualificava de m íope por não ter percebido logo quanto eu a im portunava. Que sentido porém tinham aquelas outras palavras – enxerga muito e longe?
Devia ter breve a explicação.
Julinha estava ao piano; conversávam os.
A voz dessa m enina tinha não sei quê de bom e m avioso, que penetrava o coração de suaves eflúvios. Era quase sem pre ela quem m e aplacava as cóleras suscitadas pelos m otej os da Duartezinha.
Esta passeava na sala pelo braço de um m oço de vinte anos, ridículo arrem edo de hom em , que a m oda transform ara num elegante boneco. Em ília, na sua fria e incisiva ironia, retratava-o com um m onossílabo. Ela dizia por exem plo: – Nós som os um perfeito cavalheiro de sala, Sr. Barbosinha. Nós traj am os no rigor da m oda. Este nós era o pronom e da fatuidade e efem inação do m oço.
Passando por diante do piano, Em ília soltou um a risada bem alta e dirigiu-se a Julinha:
– Não lhe parece, prim a?
– O quê, Mila?
– Eu dizia aqui ao senhor que a gratidão é um sentim ento m esquinho.
– Com o m esquinho? Não entendo!
– D. Em ília quer dizer que não passa de um fingim ento – acudiu o Barbosinha.
– Nós nos enganam os, Sr. Barbosinha! replicou Em ília sorrindo. – Eu digo, prim a, que isso de gratidão não é um sentim ento nobre e elevado; pelo m enos eu nunca desej aria inspirá-lo a alguém !
– Por que razão, prim a?
– Pois não, Julinha! Pode haver nada m enos generoso e m ais ridículo do que um indivíduo, porque prestou um serviço, m esm o que salvasse a vida a alguém ... arrogar-se um a certa superioridade sobre o outro e j ulgar-se com direito a tudo... à estim a e à am izade de um a pessoa?... Não é um a espécie de hum ilhação que se im põe àqueles que não pediram , nem desej avam seus favores, e talvez os podiam pagar?
Em ília falava com um a natural volubilidade, com o se estivera conversando de coisas indiferentes. Seu lábio desfolhava, de envolta com as palavras, breves e finos sorrisos, que eram com o os espíritos m aus de suas palavras. Eu a escutava de parte, sentindo os dardos do escárnio que ela m e atirava de revés. De repente, vi passar-lhe pelos olhos vivo e súbito lam pej o.
– E alguns há desses generosos – continuou ela – que não perdem ocasião de lem brar o beneficio feito, com receio de que o possam esquecer! Se não é um a infelicidade, parece um a...
Eu vi clara e distinta a palavra especulação na boca de Em ília; e estava de pé, alheio de m im , antes que ela a pronunciasse. Que ia eu fazer? Que podia eu, contra o insulto de um a m ulher, e ali no m eio de um a sala? Nada. Erguera-m e por esse m ovim ento involuntário e m isterioso que nos m om entos solenes erige a estatura do hom em , com o a expansão natural de sua força e dignidade. Sentados parece que nos curvam os à inj úria, e a deixam os pesar sobre nossa cabeça; erguidos, com o que lhe ficam os sobranceiros, e a olham os do alto, e a calcam os aos pés!
Em ília vendo-m e levantar arrebatado, m ediu-m e com um olhar provocador, soltando com estudada lentidão a palavra suspensa:
– Um a especulação!
Já eu tivera tem po, não de reprim ir, m as disfarçar a em oção. Disse-lhe folheando ao acaso um álbum de m úsicas:
– Tem razão, D. Em ília; atualm ente com tudo se especula, de tudo se zom ba. Ganhar m uito dinheiro para ter o direito de rir dos outros, eis a grande questão!...
Havia decerto em m eu rosto algum a coisa, sintom as do refrangim ento de um a alm a angustiada, que assustou Em ília. Ela desviou de m im os olhos e esquivou-se tím ida e sobressaltada. Parti im ediatam ente da casa de D. Matilde; tinha gelo no coração e fogo nas faces.
A m inha resposta ao insulto de Em ília m e parecia ridícula e parva; outras réplicas m ais frisantes m e acudiam , que eu desej ava ter podido lançar ao rosto daquela m oça. Envergonhei-m e do ridículo papel que fizera.
– Se ela am asse alguém !... pensava então. Eu a insultaria na pessoa dele.
Decorreram dias; em todos eles m eu prim eiro pensam ento, abrindo os olhos, era dessa m ulher. Foram m aus dias esses, que tiveram suas m anhãs de ódio. Enfim , voltou a calm a; o rancor se ocultara no coração, com o a fera no covil, para espreitar sua vingança.
Pouco tem po depois, Geraldo, j antando em m inha casa, disse-m e de repente no m eio de um a conversa:
– Agora m e lem bro!... Hás de fazer-m e um favor, Am aral?
– Farei, podendo.
– Mas olha que é segredo. Se disseres um a palavra, está tudo perdido! Mila é capaz de ficar m al com igo; e eu antes quero estar m al com m eu pai, do que com ela.
– Pelo que vej o tua irm ã tem parte nisto?
– O negócio é dela. Eu te conto. A senhora m inha irm ã tem a m ania de dar esm olas.
– Ah! Não sabia!
– Pois fica sabendo; m as cuidado!... Não dês o m enor sinal de que eu te disse sem elhante coisa!
– Que interesse tenho eu em te com prom eter? Podes estar descansado. Mas então, D. Em ília é tão caritativa assim ? Em um a m oça, adm ira!
– Oh! nem tu fazes ideia! Ela tem um a porção de velhas, suas protegidas, que não se saem da porta. E não contentes j á de pedirem para si, pedem tam bém para os outros. Desde criança que Mila se acostum ou, quando m eu pai volta da cidade, a tirar-lhe todo o dinheiro que ele traz solto na algibeira; e m eu pai deixa de propósito um a porção de m oedinhas de prata, além do que lhe dá sem pre que ela pede. Pois quase todo esse dinheiro é filado pelas tais velhas.
Geraldo suspirou:
– Que dinheiro tão m al gasto. Podia-m e servir ao m enos para charutos!
– Mas que relação tem isso com o teu pedido?
– É verdade! Um a das tais velhas descobriu, ou inventou, o que é m ais certo, a história de um a m enina que perdeu pai e m ãe, e está na m iséria, sem parentes que olhem para ela. E de que havia de lem brar-se? De m etê-la no recolhim ento das órfãs!
– Foi um a boa lem brança.
– Achas que sim ? Melhor, porque és tu quem hás de arranj ar isto.
– Com o? Tua irm ã?...
– Ela aprovou m uito a ideia, e incum biu-m e de obter a adm issão da m enina, com um dote, que deve receber quando se casar. Vê que extravagância! Eu tenho lá tem po para cuidar dessas coisas? Mas não há rem édio senão fazer-lhe a vontade. Há m uitos dias que estou para te falar nisso, e felizm ente agora lem brou-m e... Tu andas lá pela Misericórdia, conheces aquela gente...
Tive um a inspiração.
– Pois bem , Geraldo. Fica ao m eu cuidado.
– Prom etes então arranj ar o negócio?
– Dou-te a m inha palavra; e quase te posso assegurar que é coisa feita.
– Muito bem ; m as que sej a logo! Mila não m e deixa, e eu não sei j á que desculpas invente!
– Am anhã m esm o tratarei disso. Com o se cham a a m enina?
– Hom em ! Se queres que te diga, não sei. Mila deu-m e um papel, que eu nem abri. Deve estar no bolso do m eu redingote.
– Pois isso é indispensável, assim com o a idade, filiação...
– Eu vou para casa, e te m ando o papel hoj e m esm o.
Esperei até a noite com febril im paciência. Geraldo não cum priu a prom essa; m as no dia seguinte por volta de um a hora ele apareceu.
– Aqui tens! disse-m e tirando da carteira a nota. – E adeus.
– Aonde vais j á? Não queres j antar?
– Hoj e não. Vou j antar ao Jardim ; tem os lá esta noite um pagodezinho sofrível.
Ao descer a escada, voltou-se:
– Sim ! Eu prom eti a Mila que o negócio não passaria desta sem ana. Vê se m e deixas ficar m al!
– Vai descansado – respondi-lhe sorrindo.
Reli a nota que Geraldo m e havia dado. Era um a m eia folha de pequeno velino, onde a m ão de Em ília traçara algum as linhas com elegante e fina escritura. Conservei este papel por m uito tem po; creio que o queim ei sem querer de envolta com outros. Nem j á m e lem bra o nom e da m enina, que teve, sem o saber, um a influência rápida, m as decisiva na m inha vida.
Um a carta da m ulher que eu am asse talvez não produzisse em m im a em oção que senti lendo aquelas palavras. Sorria de contentam ento, e um a vez m achuquei o papel aos lábios. Cuidei então que afagava a m inha vingança; m as quanto m e enganei! Sorvia o filtro dos ódios fugaces de um am or espezinhado!
– Ah! Ela é boa e com passiva! m urm urava eu. – Estou vingado!...
Até então, Paulo, cuidava que um egoísm o frio forrasse a alm a dessa m enina; e tinha m edo, porque todo o desprezo que eu pudesse am assar em m eu coração para afrontá-la iria bater e pulverizar-se nessa crosta im penetrável.
Recolhi um instante em m im para refletir. Concertado m eu plano, a execução foi im ediata. Tudo m e favorecia: era um sábado, dia em que o Sr. Duarte se recolhia m ais cedo; por outro lado o passeio de Geraldo m e assegurava da sua ausência.
Cheguei à casa do negociante com as prim eiras som bras da noite.