Diva

José de Alencar · Capítulo 9 de 22

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Diva

Capítulo IX

 

Adm irei-m e, chegando, da ausência de convidados, e especialm ente da fam ília de D. Matilde.

– Parece que não esperam ninguém m ais – respondeu-m e o criado. – O senhor m esm o j anta na cidade.

Entretanto a casa, cuj os reparos haviam com pletam ente term inado, estava preparada com o para grande recepção: notava-se em toda ela o ar de festa que expande a fisionom ia dos edifícios com o a das pessoas, porque os edifícios inspiram a alm a daqueles que os habitam .

D. Leocádia veio receber-m e.

– Já sei que está m uito curioso de saber o m otivo deste j antar?

– Creio que, apesar de não ser dos m ais atilados, j á o adivinhei!

– Deveras! Vam os a ver!

– É m ais um a prova da sua bondade para com igo, e de seus repetidos obséquios...

– Pois não acertou! Pretendíam os, logo que se acabassem as obras da casa, reunir aqui todas as pessoas da nossa am izade; porém m ano José não entende destas coisas, Geraldo é um a criança... E nós queríam os saber a opinião de um a pessoa de gosto... Talvez note algum a coisa que não pareça bem !

Era um pretexto. D. Leocádia repetia a lição que recebera da sobrinha. O im pério dessa m enina era tal que não im punha unicam ente obediência às pessoas que a cercavam ; obrigava-as a se identificarem com a sua vontade, anulando-se.

Em ília apareceu. Na sim plicidade extrem a de seu traj o ela parecia apenas vestida, tal era o realce de sua beleza nativa, e a sobriedade dos enfeites; entretanto nunca roupas de virgem foram assim avaras de encantos. A beleza não se m ostrava, transparecia.

Ela vinha, com o sem pre, coroada pela régia altivez, que era o gesto de sua form osura; porém nesse dia perpassava-lhe na fronte de ordinário tão lím pida um a tênue som bra, de um a m ágoa talvez.

Cortej ou-m e, não fria, m as séria; foi até a j anela, e veio depois sentar-se ao piano. Enquanto eu continuava a conversar com D. Leocádia, suas m ãos corriam lentam ente pelo teclado, que exalava uns arpej os frouxos e dolentes.

D. Leocádia saíra um instante.

O piano calou-se, enfim . Eu vi Em ília de pé no m eio da sala, hesitando no passo que a devia aproxim ar de m im :

– Perdoe-m e! disse-m e ela.

E a voz com que o disse tinha m odulações sublim es.

– Sei agora quanto o ofendi! Não sabia então quanto lhe devo! Minha tia contou-m e...

– A senhora nada m e deve, D. Em ília. Estou pago! Já recebi o m eu salário. Foi o preço de um a gratidão que tanto a incom odava!

– Não m e diga isso! Sej a sem pre generoso!

– Quem deve sou eu. Um doente rico tem à sua disposição todos os m édicos e os m elhores; m as, para um m édico principiante e desconhecido, um doente que paga bem é um a fortuna!

– Eu m ereci estas palavras, porque fui m á e inj usta... Fui até sem delicadeza!... Mas se lhe confessasse... teria pena de m im !

– Confessar-m e o quê, D. Em ília? perguntei com ovido.

A tia voltava.

– Logo!...

Ela articulou essa palavra, j á calm a e sem o m enor vexam e, com a voz tão clara, que D. Leocádia devia ter ouvido.

Eu ia de m istério em m istério. Que significava a estranha confidência de Em ília? Que exprim ia aquele m isto de franqueza e reserva, de placidez e em oção?

Depois de j antar fom os correr a chácara.

A am abilidade, ainda cerim oniosa, m as doce, com que Em ília m e tratava, foi tão sensível que D. Leocádia a notou, apesar da sua constante bonom ia.

– Ah! Já fizeram as pazes? disse-nos a senhora. – Muito bem !

– Nunca estivem os m al, m inha tia. Não nos conhecíam os; não é verdade? replicou Em ília voltando-se para m im .

A m aliciosa e gentil m enina, que dirigia o passeio, andava de propósito com extrem a rapidez para fatigar a tia: afinal o conseguiu.

– Não posso m ais! Estou m uito cansada! m urm urou D. Leocádia, deixando-se cair num banco de pedra.

Estávam os j unto de um a cascatinha, onde tinham arranj ado um a gruta, um pequeno lago e outros em belezam entos.

– Venha ver a cascata! m e disse Em ília.

Acom panhei-a até a m argem do tanque; ficávam os a alguns passos apenas de D. Leocádia, porém o rum or das águas que latiam entre as rochas abafavas nossas palavras. Em ília esteve a brincar, com um as flores aquáticas que vegetavam nas fendas, saltando de pedra em pedra. Eu vi-a oscilar sobre um a ponta de rochedo coberto de m usgos e batido pelas águas.

De repente voltou-se:

– O senhor m e j ulga m uito ingrata?

– Eu, D. Em ília?

– Oh! Não negue! Eu sinto!... Pois enganou-se! O que eu sou... Talvez não lhe saiba dizer...

Ela abaixou os olhos para os borbotões de espum a que se esfrolavam a seus pés.

– Sou... um espírito que duvida, um coração que vacila!

Eu não com preendia; estava surpreso.

– Esta gratidão que eu lhe consagro há três anos – continuou ela – tem sido a m inha única alegria!

– Com o é possível, D. Em ília? Não acredito!...

– Pois creia! Tenho um a testem unha...

– Qual?

– Conhece?...

– A m inha carta!...

Ela passara rápida pelos m eus olhos a carta que eu tinha escrito ao pai logo depois do seu restabelecim ento.

– Está assim am arrotada... Não sabe por quê? É ela que envolve os cabelos de m inha m ãe!

Em udecem os am bos. O papel desapareceu outra vez; tinha-o escondido no seio. Passado um instante Em ília falou de novo, m as absorta, com o se falara consigo m esm a num recolho íntim o:

– Não acredito no am or!... Algum a coisa m e diz que não am arei nunca!... Entretanto o coração sente... tem necessidade de um a afeição criada por ele só, e que não venha do sangue. Há um a porção d'alm a que pertence à fam ília e vive nela, com o as raízes desta planta, no seio da terra que a produz... Mas a outra porção, essa é nossa unicam ente e tam bém precisa de sentir e viver! Não é assim ?

– Deus quis que fosse assim , para que a hum anidade existisse.

– Deus quis... Mas por que m e pôs ele n'alm a esta dúvida cruel?... Tenho dezessete anos, e j á m e sinto órfã das m inhas esperanças!

– A senhora, D. Em ília? Que lhe falta? Espírito, form osura e riqueza, tudo que o m undo adm ira...

– Eu quisera não ser adm irada, m as...

Ela hesitou e reprim iu a palavra que ia pronunciar.

– Não falem os nisso. Já lhe disse que não acredito em paixões. Durante o ano que passou, esperdicei por aí, por essas reuniões, m eus sonhos, m inhas alegrias, m inha alm a! Sabe o que eu trazia? A desilusão!... Quando entrava em m im não achava senão um a lem brança doce e pura... Era a m inha boa gratidão, o reconhecim ento que eu lhe votava... E não sabia tudo ainda... Não tinha ainda aqui com o agora suas lágrim as!...

– Obrigado, D. Em ília!

– Oh! Não m e agradeça!... Escute-m e! Essa gratidão, esse sentim ento bom e puro, era um a coisa m inha, oculta e desconhecida, que eu dedicava no silêncio de m inha alm a à sua m em ória... porém não ao senhor!

– Ah!

– Do senhor, eu tinha m edo, quando o via. Tinha m edo que m e arrancasse tam bém do espírito m ais essa doce ilusão. Desculpe-m e: eu não o conhecia então. Duvidava...

– Mas por que m otivo? Percebeu algum a vez em m im a m enor intenção de abusar?...

– Nunca!... Era um a coisa que não estava em m im ! Um tem or vago e indefinível... Parecia-m e que o hálito de sua prim eira palavra vinha m urchar em m inha alm a a única flor de sentim ento que brotara nela... E eu defendia-m e afastando-o... Naquela noite... não o entendi... Disse aquelas m ás palavras... Perdoe-m e! Eu tam bém sofri... Sofri m ais porque elas não eram vingança, não. Gem idos, sim , de quem tanto perdia!...

Fui eu então, eu insultado e escarnecido, que pedi a essa m ulher o perdão de m inha vingança.

A tarde caía. A solidão com eçava a encher-se de som bras, de perfum es, de eloquentes silêncios. Em ília sorveu com delícias esse respiro dos cam pos na hora do crepúsculo.

– Que linda tarde!... m urm urou. – Aqui... parece-m e que eu poderia crer... Mas lá!...

Seu lábio desfolhou um triste sorriso.

– Vam os, Mila! disse D. Leocádia.

– Sim , m inha tia.

Ela estendeu-m e entre as rendas de seu lenço a ponta dos dedos que eu apertei de leve.

– Sej a m eu am igo!

E desceu com o um silfo, voando sobre as pedras da cascata.