Diva
Capítulo XIV
Havia grande reunião em Matacavalos.
Tinha visto Em ília de relance. Ela sofria j á a ebriedade das luzes, da m úsica e dos perfum es, que a dom inava sem pre em pleno salão. Nesses m om entos havia em toda a sua pessoa, na atitude e nos m ovim entos, anelos im petuosos. Parecia provocar as em oções. Seus lábios aspiravam então com avidez o am biente do baile.
Mas seu pudor suscetível não a abandonava nunca. Ela atravessava a m ultidão agitada, com o a borboleta que enreda o voo por entre as ram agens do rosal, sem ferir nos espinhos a ponta das asas sutis. O que a protegia na confusão, não era tanto o rápido olhar, com o um sétim o sentido, que só ela possuía: um a espécie de previsão dos obj etos que se aproxim avam .
Contudo, eu sofria m uito vendo Em ília assim esquecida de m im e engolfada nos prazeres que outros partilhavam . Essas horas do baile eram m eu lento suplício. Algum as vezes, bem com o nessa noite, eu evocava debalde as recordações dos dias passados, debalde m e acusava de egoísta; o ciúm e afinal m e vencia.
Foi j á quando o coração m e desfalecia que ela pela prim eira vez veio onde eu estava.
Notei sua grande palidez. O seio arfava precipitadam ente. A fadiga ou a em oção lhe havia um edecido a fronte. Seus olhos tinham um brilho vítreo que incom odava.
– O baile j á a fatigou?... Muito depressa!... disse-lhe com o riso am argo.
– Quase não dancei!... Mas não sei o que sinto!... Não m e acha m uito pálida?
– Há de ser o calor!... Esta sala é m uito abafada!
– O calor?... Se eu tenho frio... frio n'alm a!... É a febre que vem !... m urm urou com um riso singular.
Nessa ocasião o Dr. Chaves aproxim ou-se para oferecer-lhe o braço.
Hás de te lem brar dele, Paulo. É um brilhante talento de orador, que se revelou de repente na Câm ara por alguns triunfos bem notáveis. Moço ainda, elegante, com um a fisionom ia expressiva e o reflexo de suas glórias políticas, ele triunfava no salão, com o na tribuna.
Antes de aceitar-lhe o braço, Em ília m e disse a m eia voz, com um tom suplicante:
– Não fique tão longe de m im !... Eu lhe peço!
Segui-a por algum tem po; m as quando a vi suspensa à palavra sedutora de seu par, em balando-se docem ente à m úsica das frases talvez apaixonadas que ele lhe dirigia, tive a coragem de arrancar-m e a esse m artírio. Refugiei-m e no j ardim .
Havia ali encostados à varanda, e nos intervalos das sacadas, uns bancos de pedra cobertos por dosséis de um a trepadeira qualquer. Nos dias de baile, D. Matilde fazia ilum inar essa arcaria de verdura, que dava à casa um aspecto cam pestre.
Fum ava sentado num desses bancos. De repente ouço a voz de Em ília. Ela se recostara à j anela próxim a, e continuava com seu par um a conversa anim ada. A folhagem espessa m e escondia aos olhos de am bos; porém eu os via perfeitam ente no quadro ilum inado da j anela.
– Tudo isto, doutor, não é m ais do que um desses bonitos discursos, de que o senhor tem o talento adm irável...
– Então não m e acredita? disse o Dr. Chaves.
– Não posso!... Em um a vida com o a sua, tão cheia de glórias e am bições, o que resta para o am or?... As horas perdidas do baile!... Confesse!...
– Mas a senhora não sabe então, D. Em ília, que estes curtos instantes em que a vej o são os únicos que vivo? O resto, o tem po que sobra à m inha tão rápida felicidade, trabalho com entusiasm o, é verdade! Mas por quê? Porque trabalhar, para m im , é am ar ainda, e elevar-m e do pó, a fim de poder erguer os olhos para o céu sem ofendê-lo! Eu não era am bicioso, não! Foi o am or que m e deu esta sede de poder. Os m eus m ais belos triunfos, acredite-m e, senhora, não os sinto quando os alcanço, m as quando venho depô-los subm isso a seus pés. A m inha glória é essa unicam ente, fazer de quanto o m undo respeita e acata a hum ildade de m eu am or!...
Em ília escutava enlevada. Às vezes o orgulho vibrava sua fronte nobre com um gesto divino. Oh! que tirânica beleza é a dessa m ulher, que até m esm o quando eu a desprezo, m e força a adm irá-la!
Quando a voz que a raptava em udeceu, ela ficou suspensa um instante. Depois fitou os olhos no Chaves.
– E se eu exigisse, o senhor teria a coragem de sacrificar tudo a um capricho m eu?
– Ordene!
– Não tenho esse direito – respondeu sorrindo. – Se o tivesse... não seria assim egoísta. Quisera ao contrário partilhar com o m undo inteiro os seus triunfos!
– Mas esse direito... lhe pertence! Tom e-o. Eu lhe suplico!
– Não m e sinto com forças.
– Sem pre essa cruel palavra!
Com o eu sofria, Paulo... Mas não! Sofri depois, ainda agora sofro! Naquele instante, nada, nada absolutam ente! O que a revelação cruel produziu então em m im não foi nem dor nem indignação, m as um estupor d'alm a! Eu ali fiquei, no idiotism o das m inhas em oções.
O diálogo do Dr. Chaves fora interrom pido pela aproxim ação do Álvares, que vinha buscar Em ília para a prom etida quadrilha. O deputado teve de ceder o lugar.
Depois de um curto silêncio, durante o qual o j ovem poeta esteve sob a influência do olhar soberano de Em ília, ele anim ou-se a falar-lhe em voz subm issa:
– D. Em ília... A senhora leu os m eus versos?
– Li – disse ela. – São m uito bonitos, m as não são verdadeiros.
– Tem razão! Não dizem nem a som bra do que sinto! Mas sou eu o culpado? O verbo divino do m eu am or, não há na linguagem dos hom ens palavra que o exprim a!
– Não por certo! Não é possível exprim ir o que não se com preende.
– Oh! D. Em ília!
– Oh! Os poetas! Eu os conheço! O que eles am am neste m undo é unicam ente sua própria im aginação, o ideal sonhado: todos têm sua Galateia, e nós não som os para eles senão estátuas, que os seus versos devem anim ar, com o centelhas do fogo sagrado!
– Se a senhora tivesse lido a poesia que eu ontem escrevi, não pensaria assim , D. Em ília!
– Dê-m e! Quero vê-la!
– Não a trouxe!
– Procure bem ! disse Em ília sorrindo.
O Álvares tirou com efeito do bolso um pequeno papel dobrado; m as com a faceirice dos escritores, recusou entregá-lo, quando Em ília estendia a m ão para recebê-lo.
O m ovim ento vivo que ele fez soltou-lhe dentre os dedos o papel, que veio cair no j ardim .
Ela riu e afastou-se exclam ando:
– Bem feito!
O Álvares correu à porta da varanda, m as chegou tarde. Não sei que instinto da m inha então em brutecida natureza m e fez precipitar ligeiro sobre o papel, com o fera sobre a presa.
Fui esconder-m e no fim do j ardim , e ali passei um a hora palpando aquele papel aveludado, com o sentim ento do suicida tateando o punhal que o deve im olar. Nem m ais m e lem brava do que se passara com o Chaves. A prim eira dor envelhecera j á.
Quando m e supus calm o e senhor de m im , voltei à sala.
Do prim eiro olhar, vi Em ília sentada na outra extrem idade, sem pre bela e resplandecente; m ais por certo que nunca, pois nesse instante eu a adm irava com olhos de m aldição. Recostado ao um bral da porta, estava um hom em , que a devorava com a vista, esperando im paciente a oportunidade para falar-lhe. Era o tenente Veiga, de quem j á te falei.
– Ainda outro, m eu Deus! soluçou m inha alm a agonizante.
Julga do m eu sofrim ento, Paulo, pela vileza a que m e arrastava o desespero. Acabava de roubar um papel que m e não pertencia; não era bastante; fiz-m e espião. Dei volta pela varanda de m odo a aproxim ar-m e da porta sem que os dois m e pressentissem . Não cheguei j á a tem po de ouvir, m as vi...
Em ília desprendera um a violeta de seu ram o e deixara-a cair aos pés intencionalm ente: o oficial curvou-se, apanhou rápido a flor, que beij ou e prendeu com orgulho ao peito da farda ornada de condecorações.
Tudo isto fora feito com tão delicado disfarce, que ninguém m ais na sala o viu, nem suspeitou.
Vaguei pelo salão conversando com um e outro, cum prim entando algum as senhoras de m eu conhecim ento, procurando assim gastar ao atrito dos indiferentes as em oções dolorosas que m e pungiam .
Depois sentei-m e à m esa do j ogo.
Chegou finalm ente a quadrilha que eu devia dançar com Em ília, a sexta, se não m e engano. Um a das finezas que ela m e fazia nesse tem po, era não dançar m ais em um baile, depois de ter dançado com igo; por isso m e reservava sem pre a últim a de suas quadrilhas.
– Com o o senhor está pálido, m eu Deus! exclam ou ela tom ando-m e o braço.
– Não; há de ser o efeito das luzes sobre este papel escarlate – respondi sorrindo. – E o seu acesso? Já passou?
– Que acesso? perguntou surpresa.
– Não disse há pouco... que tinha febre n'alm a?
– Ah!... Sim ! Já passou! replicou sorrindo. – O senhor é tão bom m édico de m inha alm a, que bastou sua lem brança para curar-m e.
– Então lem brou-se de m im ?
– Que rem édio, se não lem brar-m e? Procurei-o tantas vezes com os olhos, e não o vi!... Onde esteve o senhor todo este tem po?
– Pois deveras reparou em m inha ausência, D. Em ília? Juraria o contrário!
– Jurava falso! Se não fosse verdade, por que lho diria?
– Quem sabe?
– Quem m elhor do que o senhor!
A voz de Em ília nessa conversa era doce e m eiga. Seu olhar m acio acariciava-m e com delícias. Em toda a sua pessoa derram ava-se um celeste eflúvio de ternura, que m anava de sua alm a, e rorej ava a flor nativa de sua ingênua altivez. Nunca eu a vira assim m aviosa, nem m esm o nas horas em que estávam os sós.
– E não m e quer dizer onde esteve? perguntou de novo com branda queixa.
– Estive j ogando.
– O senhor?... o senhor que aborrece o j ogo? Que lem brança foi esta?
– Aborreço o j ogo, é verdade! É de todos os vícios o que m ais revolve os instintos m aus. Porém às vezes é necessário. Os venenos tam bém são rem édios... perigosos, sim ... Quando não curam , m atam .
– Queria esquecer-m e! disse Em ília com terna exprobração. – Ingrato!... Quando m inha alm a o cham ava!...
Esta palavra exacerbou-m e o coração:
– Para que, D. Em ília? Para que m e cham ava a senhora? Não tenho nem posição brilhante, nem glória, nem talento, para depor a seus pés. O m eu am or?... Esse fora um m esquinho triunfo para quem alcança os m ais brilhantes. Um am or banal... Mas perdão! Não devo m ais profanar o m eu sentim ento com esse nom e. Cham arei am izade, com o a senhora. Não m e disse um a noite, por outras palavras, que a m inha afeição era um a flor m uito m odesta para se fazer dela ram alhetes e grinaldas de baile?... Tinha razão!... No cam po, por desfastio, em algum dia m onótono, pode excitar a curiosidade. Não lhe parece?... Assim foi m elhor que eu m e conservasse longe; devia m esm o não voltar. Tenho receio de envergonhá-la com um a paixão ridícula!
Em ília cravara em m im seu olhar inteligente e soberano, que m e trespassou a alm a todo o tem po que eu levei a proferir estas palavras. Havia nesse olhar, de um a fixidade im portuna, arrogância e curiosidade ao m esm o tem po. Ela parecia querer recalcar-m e no coração m inha palavra sarcástica, e ao m esm o tem po arrancar dali o segredo da súbita m udança operada em m im .
Depois de um a pausa com eçou com a palavra triste e lenta:
– Não m e fale assim ! Eu tenho, o senhor bem sabe, um espinho em m inha alm a; é o orgulho. Quando tocam nele o fel se derram a, e eu m e sinto m á!... Não quero responder-lhe. Posso dizer-lhe algum a palavra dura e m agoá-lo... Depois sofrerem os am bos. Não é m elhor a franqueza, do que estarm os aqui com o duas crianças a ferir-nos com pontas de alfinetes, que podem entrar no coração? O senhor tem algum a coisa que o aflige e que eu ignoro. Fale!
Em ília deu à sua voz um a terna inflexão para pronunciar estas últim as palavras:
– Se eu o ofendi, Augusto, acuse-m e! Não será a prim eira vez que lhe peça perdão!
Eu sentia, aos sons m aviosos dessa voz celeste, m eu coração hirto em brandecer-se com o um a cera; m as de repente o toque do papel que eu tinha no bolso o enregelou.
– Não posso falar aqui – respondi trêm ulo. – Não estam os sós.
– Pois am anhã – m e disse Em ília. – Às sete horas, j unto aos bam bus.
Estim ei essa dem ora; naquele m om ento, tão próxim o ainda da am arga decepção, sentia que não poderia ter a dignidade da m inha dor.