Diva

José de Alencar · Capítulo 19 de 22

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Diva

Capítulo XIX

 

 

Volto de sua casa.

Que noite, Paulo! Que noite de ira foi esta para m im !

Cheguei ao Rio Com prido quase ao escurecer. Estavam todos no j ardim . Depois de alguns instantes, Em ília ergueu-se e se afastou lentam ente do grupo. A algum a distância, parou para colher um a flor, voltou-se, e olhou-m e.

Aproxim ei-m e; ela continuou seu passeio solitário pela chácara. Chegando à cerca onde as m urtas form avam um bosque espesso em torno de assentos de pedra, voltou-se de novo para m im e sorriu. Com o eu hesitasse se devia segui-la, fez-m e um aceno gracioso.

Sentam o-nos: eram seis horas da tarde; um a som bra lum inosa ainda e de um a doçura im ensa derram ava-se por aqueles lugares.

As vozes de Julinha e das outras m oças que passeavam do lado oposto chegavam -nos através das folhas e da som bra com um a suavidade extrem a.

Mas essa doçura da tarde, a beleza de Em ília, os perfum es das flores, tudo que havia de suave ali, irritava-m e; eu tinha a alm a ulcerada, e não havia bálsam os, senão cautérios, para cicatrizá-la.

Falei-lhe com volubilidade, travada do fel que borbotava do coração.

– D. Em ília, nós estam os representando o papel de duas crianças, atorm entando-nos um ao outro, e talvez servindo de tem a à m alignidade alheia. Ontem , a senhora cuida que não ouviram suas palavras?

– Que as ouvissem !... Foi o senhor m esm o quem se denunciou!...

– Já lhe disse e repito, D. Em ília, eu não am o a senhora... Nunca a am ei!...

– Mentiu-m e, então?...

– Menti, confesso!...

– Creio antes que m ente agora. A m entira é irm ã do insulto.

– Desculpem o-nos m utuam ente, D. Em ília; am bos erram os; e para que estas cenas não se repitam , eu quero ser franco. A senhora m e fez um a vez, há tem po, sua confissão: quer ouvir a m inha?

– Fale! replicou Em ília com um tom de am eaça.

– Eu não sou inteiram ente pobre, m as tam bém não sou rico, e tenho acim a de tudo a am bição do dinheiro.

– Ah! fez ela cerrando as pálpebras e encostando a cabeça no recosto do banco para ouvir-m e im passível.

Seu olhar, coando entre os cílios e partindo-se em m il raios, cintilava sobre o m eu rosto, com o o trêm ulo rutilo de um a estrela.

– O que lhe vou dizer é talvez hum ilhante para m im ; m as eu m e sacrifico!

– Muito agradecida! Isso m e penhora. – respondeu-m e, inclinando-se com um sério im perturbável.

– À exceção do com ércio, a senhora sabe que não há no Brasil carreira algum a pela qual se possa chegar depressa... e honestam ente, à riqueza. A m inha m al dá para viver com decência. Portanto sendo eu honesto... porque tenho m edo da polícia, e não gosto que m e incom odem ... sendo eu honesto, repito, só havia um recurso à m inha am bição... Adivinha qual?

– Suspeito; m as diga sem pre.

– O do casam ento.

– É um recurso lícito e fácil.

– Não tanto com o lhe parece.

– Ora! Para o senhor?...

– Para m im , sim senhora; porque em bora am bicioso, eu não estou disposto a sacrificar à riqueza m inha felicidade; seria um absurdo, pois se eu quero ser rico é para ser feliz.

– E com o pretende conciliar isto? Deve ser curioso.

– É agora que eu preciso de toda a sua indulgência; vendo-a quando voltei da Europa, senti-m e atraído para a senhora por um a inclinação que eu considerei am or; e essa inclinação... Não devo ocultar coisa algum a para m inha m aior vergonha... essa inclinação aum entou involuntariam ente quando soube que os negócios do Sr. Duarte tinham prosperado por tal form a que ele era, se não o m aior, um dos m aiores e m ais sólidos capitalistas da praça do Rio de Janeiro... Não sei se deva continuar!...

– Por que não, doutor? Eu estou ouvindo-o com um prazer im enso!

– Mas eu m e acanho...

– É m odéstia própria dos hom ens de talento, que sabem viver. Mas nós nos conhecem os!...

– Bem ; eu continuo. Disse-lhe que a am ava j á m uito, m as isso não era nada em com paração do que senti depois... Um dia, alguém , creio que um corretor, assegurou-m e que o Sr. Duarte era nada m enos que m ilionário... duas vezes m ilionário...

– Ah! Eu ignorava!

– Pois saiba que é. Viúvo, só com dois filhos... pensei eu... Então D. Em ília terá um m ilhão de dote! Um m ilhão! Desde esse m om ento m eu am or não teve m ais lim ites; tornou-se um a paixão digna de Rom eu, de Otelo, dos m ais celebrados heróis de dram as e rom ances. Com o sua form osura então revelou-se resplandecente aos m eus olhos!... Eu com preendi nessa ocasião os poetas que eu não com preendera nunca, e as suas com parações m inerais... Vi que seus dentes m im osos eram realm ente pérolas de Ceilão, seus lábios rubis de Ofir, e seus olhos diam antes da m elhor água! Sua voz argentina tinha aos m eus ouvidos essa m elodia inefável, que nem Rossini nem Verdi puderam ainda im itar, a m elodia do ouro... do ouro, a senhora bem sabe, a lira de Orfeu deste século!... Oh! Que paixão, D. Em ília! Era um delírio... um a loucura... Foi então que eu não pude m ais resistir e confessei-lhe que a am ava!

Em ília ergueu-se rápida:

– Ah! com preendo agora!...

Com o não fiquei ao ver aquela m ulher, exultando de j úbilo e orgulho ali, em face de m im , que pensava tê-la afinal hum ilhado com m eu frio sarcasm o.

– O que é que a senhora com preende, D. Em ília?

– Que eu vivo em sua alm a! E com o o senhor não pode arrancar-m e dela, procura rebaixar-m e a seus próprios olhos e hum ilhar-m e para ter a força, que não tem , de m e desprezar! O senhor am a-m e, e há de am ar-m e enquanto eu quiser... e há de esperar aqui, a m eu lado, até que chegue a hora em que m e perca para sem pre... Porque eu é que posso j urar-lhe: não o am o, não o am ei, não o am arei nunca...

A paixão, recalcada por algum tem po, ergueu-se indom ável em m inha alm a, e precipitou com o um a fera sedenta para essa m ulher. Toda a lia que o pecado original depositou no fundo do coração hum ano, revolveu-se e extravasou.

Eu avancei para Em ília; e m eu passo hirto, e m eu olhar abrasado deviam incutir-lhe terror.

– Pois bem ! – exclam ei eu com a voz surda e trêm ula. – A senhora quer! É verdade! Eu a am o! Mas aquela adoração de outrora, aquele culto sagrado cheio de respeito e adm iração... Tudo isso m orreu! O que resta agora neste coração que a senhora esm agou por um bárbaro divertim ento, o que resta, é o am or brutal, fam into, repassado de ódio... é o desespero de se ver escarnecido, e a raiva de querê-la e obrigá-la a pertencer-m e para sem pre e contra sua própria vontade!...

– Eu o desprezo!... respondeu-m e Em ília.

Era quase noite. A voz de Julinha soou no j ardim , cham ando a prim a. Eu ia dar um últim o passo para Em ília; hesitei.

– Fuj a, senhora!

Ela não se m oveu; ficou m uda enquanto os ecos da voz de Julinha continuando a cham á-la ressoavam ao longe. Quando o silêncio restabeleceu-se, e parecia que a prim a se tinha afastado, ela veio colocar-se em face de m im , e erigindo o talhe e cruzando os braços afrontou-m e com o olhar.

– O senhor é um infam e! disse com arrogância.

Fiz um esforço suprem o; inclinei-m e para beij ar-lhe a fronte. Seu hálito abrasado passou em m eu rosto com o um sopro de torm enta.

Ela atirara rapidam ente para trás a altiva cabeça, arqueando o talhe; e sua m ão fina e nervosa flagelou-m e a face sem piedade.

Quando dei acordo de m im , Em ília estava a m eus pés. Sem sentir eu lhe travara dos pulsos e a prostrara de j oelhos diante de m im , com o se a quisera esm agar. Apesar da m inha raiva e da violência com que a m olestava, essa orgulhosa m enina não exalava um queixum e; soltei-lhe os braços m agoados e ela caiu com a fronte sobre a areia.

– Criança!... E louca!... m urm urei afastando-m e.

Em ília arrastou-se de j oelhos pelo chão. Apertou-m e convulsa as m ãos, erguendo para m im seu divino sem blante que o pranto orvalhava.

– Perdão!... soluçou a voz m aviosa. – Perdão, Augusto! Eu te am o!...

Seus lábios úm idos das lágrim as pousaram rápidos na m inha face, onde a sua m ão tinha tocado. E ela ali estava diante de m im , e sorria subm issa e am ante.

Fechei os olhos. Corri espavorido, fugindo com o um fantasm a a essa visão sinistra.