Educando Meninos
8. Perseguindo a lagarta
O GRANDE NATURALISTA FRANCÊS Jean-Henri Fabre conduziu, certa vez, uma experiência fascinante com lagartas processionárias, que recebem esse nome por andarem em fila. Ele as alinhou ao redor da beirada interna de um vaso e depois as monitorou cuidadosamente enquanto marchavam em círculo. No fim do terceiro dia, colocou no centro do vaso algumas agulhas de pinheiro, que são o alimento favorito das lagartas. Elas continuaram caminhando mais quatro dias sem quebrar a fileira. Finalmente, uma de cada vez, elas viraram de costas e morreram de
inanição a poucos centímetros da fonte de seu alimento ideal.1
Essas criaturas peludas me fizeram lembrar de alguma forma as mães de hoje. A maioria delas se arrasta em círculos de manhã à noite, exaustas e atormentadas, imaginando como poderão fazer tudo que precisam. Muitas trabalham em tempo integral enquanto ao mesmo tempo cuidam da família, são motoristas dos filhos, preparam as refeições, limpam a casa e tentam desesperadamente manter seu casamento, amizades, relações familiares e compromissos espirituais. É um trabalho árduo. Lamentavelmente, este estilo de vida sobrecarregado e de tirar o fôlego, que chamo de “rotina do pânico”, caracteriza a grande maioria de pessoas nos países ocidentais.
Você é uma dessas mulheres atormentadas que correm em círculos intermináveis? Você já se descobriu ocupada demais para ler um bom livro ou dar um longo passeio com seu cônjuge, ou carregar seu filho de 3 anos no colo enquanto lhe conta uma história? Tem tido tempo para estudar a Palavra de Deus — ter comunhão com ele e ouvir sua voz sussurrada? Você eliminou quase toda atividade significativa para lidar com a tirania da lista de “coisas para fazer” que nunca termina? Já perguntou a si mesma por que escolheu viver assim? Talvez tenha, mas não é um problema fácil de resolver. Vivemos como se estivéssemos em trens de carga barulhentos passando pela cidade. Não controlamos a velocidade — ou pelo menos pensamos que não —, portanto, nossa única opção é descer. Descer do trem e viver mais lentamente é muito difícil. Os velhos padrões morrem de fato com dificuldade.
Quando foi a última vez que suas amigas foram visitá-Ia inesperadamente? Para muitas faz tempo demais. Houve época em que as famílias tinham o hábito de entrar no carro e ir até a casa de um amigo passar a tarde conversando e comendo um pedaço de torta de banana. Esse era um dos pequenos prazeres especiais da vida.
Jamais esquecerei as vezes em que, quando menino, eu ouvia uma batida na porta e corria para ver quem era. A tela se abria alguns centímetros e uma voz familiar se fazia ouvir: — Tem alguém em casa? — Mamãe corria para pôr água no fogo para o café, e pelo resto da tarde ficávamos sentados conversando com os amigos — sobre nada e sobre tudo. Finalmente, chegava a hora de eles partirem, e nós os abraçávamos, convidando-os para voltar sempre. Esse tipo de camaradagem espontânea é difícil de conseguir no mundo apressado de hoje. As pressões e ocupações da vida praticamente destruíram o senso de comunidade que era antes comum entre as famílias e amigos. É raro, se é que o fazemos, visitar amigos sem aviso. E mesmo que fizéssemos isso, eles teriam provavelmente de cancelar uma série de compromissos a fim de estar conosco. Portanto, passamos os dias navegando pela vida, olhando para o relógio e imaginando por que quase não temos amizades íntimas.
Shirley e eu tivemos, recentemente, a bênção de morar ao lado de uma senhora de 80 anos chamada Jenny, que passamos a amar. Ela via nossas entradas e saídas e conhecia nossas muitas pressões. Jenny dizia repetidamente a Shirley: Querida, não se esqueça de tomar tempo para os amigos e a família. Você sabe, é importante não ficar ocupada demais para as pessoas. — Ela se sentia sozinha e estava falando de suas próprias necessidades. Nós a visitávamos e ocasionalmente jantávamos com ela. Cerra tarde, Shirley “tomou chá” com ela e tiveram uma conversa agradabilíssima. Mas era difícil dar a ela o que precisava. Nós estávamos viajando na via expressa de uma estrada e Jenny serpenteando por uma estrada rural naquele estágio da sua vida.
Jenny já se foi agora, mas suas palavras ecoam em nossa mente. Será que as nossas atividades diárias eram realmente mais importantes naqueles anos do que tirar tempo para amar uma mulher especial ou estender-se aos muitos outros cujos caminhos cruzamos? Quando penso nesses termos, quero desplugar — soltar, livrar-me de todos os embaraços que pesam sobre mim. Eu daria tudo para voltar 25 anos e viver outro dia com as duas crianças que abençoaram nosso lar. Seria custoso, é claro, mover-nos mais lentamente. Eu não poderia ter construído uma organização chamada Foco na Família, para a qual senti que Deus me havia chamado, ou escrito alguns dos livros que levam o meu nome. Em vista de tudo o que foi colocado à nossa frente, fizemos um bom trabalho de preservar a vida familiar e participar do mundo de nossos filhos. Mas, quando reflito, não posso senão perguntar: “Teríamos encontrado um meio termo que permitisse que Shirley e eu fizéssemos algo ainda melhor?”. Não sei.
Nós não somos a única família com razões para fazer essa pergunta. Robert D. Putnam, professor de Ciência Política da Universidade de Harvard, trata da crescente tendência para o excesso de compromissos e isolamento em seu importante livro Bowling Alone: The Collapse and Revival of American Community. Ele entrevistou cerca de quinhentas mil pessoas nos últimos 25 anos e concluiu que estamos nos distanciando cada vez mais uns dos outros. A própria estrutura de nossos contatos sociais desabou verticalmente, empobrecendo nossa vida e nossas comunidades. Conhecemos menos os nossos vizinhos, socializamos mais raramente com os amigos e até nos distanciamos de nossas famílias. Só a lista de e-mails é que continuou a se expandir. O mesmo número de pessoas está jogando boliche, tanto quanto no passado (daí o título do livro de Putnam), embora um número maior delas esteja jogando sozinho. A participação nas ligas de boliche declinou 40% desde 1980. Na política, permanecemos espectadores razoavelmente bem-informados
sobre os acontecimentos públicos, mas muito menos realmente participam do jogo. 2 (Durante a eleição nacional do ano 2000 que incluiu candidatos presidenciais com diferenças dramáticas de opinião sobre a América e seu futuro, só 31% dos prováveis eleitores no Estado do Arizona se preocuparam em votar, 39% na Califórnia, 40%
no Havaí.)3 Na vida religiosa, “Os americanos estão indo menos à igreja do que há três ou quatro décadas e as igrejas que frequentamos estão menos envolvidas com a
comunidade mais ampla”.4
Ao mesmo tempo, a chamada “igreja eletrônica”, referindo-me aos serviços transmitidos pela televisão, rádio e internet, está ganhando popularidade. Embora alcance alguns espectadores e ouvintes que jamais iriam a um prédio de igreja, assistir de longe não substitui a comunhão dos crentes que existe no corpo da igreja. O autor de Hebreus escreveu: “Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações (animemos uns aos outros)” (Hb 10.25). Como podemos animar uns aos outros quando estamos adorando em nossas salas no Dia do Senhor?
Putnam diz que o fator mais importante por trás do crescente isolamento está no número de famílias em que os dois pais trabalham, distanciando assim os homens e as mulheres de suas redes sociais tradicionais. Bingo! Simplesmente não há tempo para muita coisa além de trabalhar e manter a casa. A televisão, a internet e outras formas de comunicação eletrônica enfraqueceram também o elo entre as gerações e interferiram na transmissão de tradições familiares. Quando consideradas em conjunto, elas tiram grande parte do significado e prazer da vida. Em resumo, Putnam diz que o “capital social” da América está encolhendo, resultando em mais
divisão e um colapso geral da confiança mútua. 5
Outros estudos confirmam as mesmas tendências e conclusões. O excesso de compromissos e isolamento são pandêmicos. O Plano de Saúde Oxford de Nova York, Nova Jersey e Connecticut descobriu que um em cada seis empregados dos Estados Unidos está tão sobrecarregado de trabalho que não pode sequer tirar férias por causa das exigências do emprego. “Os americanos”, disseram os peritos em sondagem da opinião pública, “já são o povo mais necessitado de férias no mundo industrializado, com uma média de 13 dias de férias por ano, comparados com 25 ou mais no Japão, Canadá, na Grã-Bretanha, Alemanha e Itália. O estudo revelou que 32% dos pesquisados declararam que trabalham e almoçam ao mesmo tempo, e outros 32% disseram que não saem mais do prédio depois que entram. Cerca de 34% dos pesquisados disseram que seu emprego é tão exigente que não têm intervalos ou folgas enquanto trabalham. Outros 19% afirmaram que seu trabalho os faz sentir-se mais velhos do que realmente são. Dezessete por cento dizem que o trabalho os faz perder o sono à noite. Dentre os entrevistados, 17% contaram que é difícil tirar licença ou deixar o trabalho mesmo numa emergência, e 8% acreditam
que se ficassem gravemente enfermos, seriam despedidos ou rebaixados”. 6 Estamos nos matando de trabalhar.
Considero essas descobertas de Putnam importantíssimas do meu ponto de vista. O estilo de vida estressante que caracteriza a maioria dos ocidentais leva não só ao isolamento das pessoas entre si na comunidade mais ampla, como é também a principal razão para a dissolução da família. Os maridos e esposas não têm tempo um para o outro e muitos mal conhecem seus filhos. Eles não se reúnem com parentes, amigos ou vizinhos em vista de serem tiranizados por uma lista infindável de “coisas para fazer”. Durante minhas pesquisas para escrever este livro, que levou mais tempo do que tudo que já escrevi, defrontei-me repetidamente com o mesmo triste fenômeno. Os pais estão simplesmente muito ansiosos e exaustos para protegerem e cuidarem dos filhos.
O pesquisador George Barna também observou evidência desta tendência. Ele escreveu: “Está se tornando menos comum hoje que um adolescente tenha tempo para uma interação definida com os membros da família. A maior parte do tempo que passam com a família é o que se poderia chamar de ‘família e tempo’: família e TV, família e jantar, família e lição de casa etc. A vida de cada membro da família é no geral tão sobrecarregada que a oportunidade de passar tempo juntos fazendo atividades específicas — falando sobre a vida, visitando lugares especiais, jogando e compartilhando explorações espirituais — tem de ser programada com antecedência.
Poucos fazem isso”. 7
Percebo que as crianças e jovens hoje estão famintos da vida familiar como costumava ser — mas quase nunca é. Meus sogros, Joe e Alma Kubishta, têm 89 e 90 anos de idade, todavia, minha filha e suas amigas gostam de visitá-los. Por quê? Porque tudo ali é divertido. Eles têm tempo para jogar jogos de mesa, rir, comer e conversar sobre o que interessa aos jovens. Ninguém tem pressa. Quando são chamados ao telefone, estão sempre dispostos a conversar. Uma de suas visitas frequentes é um homem solteiro chamado Charlie que ama os Kubishtas. Quando teve de mudar, ele dirigiu 96 km com uma roseira, que plantou no quintal deles. Só queria ter certeza de que Joe e Alma não se esqueceriam do amigo ausente. Esse homem e mulher idosos, a quem eu também amo, dão algo aos mais jovens que não é encontrado absolutamente em outro lugar. Que tristeza!
Falei numa conferência na Casa Branca há alguns anos, em que o outro orador era o dr. Armand Nicholi, um psiquiatra da Universidade Harvard. Seu tema naquele dia, como o meu, era a condição da Família Americana. O dr. Nicholi explicou como uma existência que nos afasta completamente uns dos outros produz o mesmo efeito que o divórcio. Os pais nos Estados Unidos passam menos tempo com seus filhos do que em quase todos os outros países do mundo. Resultado: ninguém está em casa para suprir as necessidades dos pré-escolares solitários ou das crianças que têm a chave de casa. O dr. Nicholi salientou a ligação inegável entre a interrupção dos relacionamentos entre pais e filhos e o aumento dos problemas psiquiátricos que estamos vendo agora. “Se a tendência continuar”, disse ele,
“problemas de saúde graves serão inevitáveis na nação”.8 Nos hospitais nos Estados Unidos, 95% dos leitos serão ocupados por pacientes psiquiátricos se a incidência de
divórcio, abuso, molestamento e negligência de crianças continuar aumentando.9
O excesso de ocupação e o isolamento da família não são problemas novos, é claro. As mães e os pais vêm lutando para controlar as pressões da vida desde a Segunda Guerra Mundial, mas a abordagem deles mudou. A maioria das mães com 50 anos e no início da casa dos 60 deu prioridade à família sem se importar com os custos. Essa a razão de tantas delas terem ficado em casa em tempo integral para cuidar dos filhos. Elas também serviam como “gerentes” da casa, mantendo tudo em ordem e limpo. Com o advento da revolução sexual, porém, as mães com perspectivas mais liberais começaram a reconsiderar as suas opções.
Um artigo publicado no exemplar de maio de 1981 da revista Vogue apresentou algumas das ideias revolucionárias que estavam sendo aceitas na época. O título era: “New Sanity — Mother’s Lib” [A Nova Sanidade — Libertação das Mães], escrito por Deborah Mason. Segundo Mason, as mães da década de 1980 não sentiam mais necessidade de viver de acordo com as expectativas “irreais” da maternidade e seriam a primeira geração a pôr de lado a ideia da “Supermãe”, da “santa/tirana que é tudo para seu filho — e cujo filho é tudo para ela”. No artigo, Mason entrevistou a dra. Phyllis Chesler, uma psicóloga que encorajou as mães a procurarem e protegerem a sua individualidade, “separando-se” mais dos filhos. Chesler acreditava que a ideia da “mãe sempre-presente” era uma “insanidade relativamente moderna” e insistia com as mães para compartilhar suas responsabilidades com outros, inclusive avós, tias, irmãos e vizinhos. “Meu filho, Ariel, sempre teve quatro ou cinco adultos que eram importantes para ele”, disse ela. “Durante um período de dois anos [minha
assistente] foi como uma segunda mãe para ele.”10
De acordo com a filosofia da época, o artigo insistia para que as mães fossem mais abertas com os filhos, tanto emocional como sexualmente. “Persiste a ideia de que você deve desistir de alguma forma do sexo para ser mãe: não deve praticá-lo na frente dos filhos, não deve praticá-lo em vez de estar com os filhos”, escreveu ela. “A ideia é que se você é mãe, a vida sexual é frívola, autoindulgente e levemente obsoleta. Mas as mulheres estão aprendendo... As mães casadas estão dizendo aos filhos, por exemplo, que nas manhãs de domingo o quarto dos pais é proibido até as 10 horas da manhã. As mães solteiras estão permitindo a si mesmas a liberdade de convidar
um homem para passar a noite com elas.” 11
Sou absolutamente contrário a quase tudo que é dito sobre a maternidade neste artigo. Não é assim fácil — ou desejável — libertar-se dos filhos. Os comentários da dra. Chesler particularmente contêm em si uma dose de tristeza. Com respeito à assistente que se tornou a “segunda mãe” de Ariel, só podemos adivinhar o que deve ter acontecido quando a mulher a quem ele se apegara seguiu seu caminho e deixou o menininho aos cuidados da mãe aflita. Quanto ao quarto dos pais ser proibido até as 10 horas da manhã de domingo, fico imaginando quem preparou o café para o filho, quais os programas de televisão que ele assistiu e quem impediu que fizesse algo perigoso enquanto a mãe e talvez um namorado estavam dormindo. Em resumo, este artigo revela os conflitos que estavam começando a surgir na década de 1980 e as conclusões ilógicas que se originaram deles. Algumas mulheres se convenceram de que seus filhos oderiam perfeitamente viver sem muita atenção e que até ficariam melhor se a mãe estivesse menos envolvida. Mães zangadas me disseram na ocasião que se ressentiam da obrigação de criar os filhos e não queriam filhos à sua volta.
Por favor, entenda que simpatizo com as frustrações e pressões que produziram essas reações. Elas foram precipitadas, de fato, pela competição insana que descrevi. Como reconheci no capítulo anterior, muitas mulheres precisam trabalhar fora de casa atualmente, por razões financeiras ou emocionais. Mesmo assim, estou aqui para expressar nos termos mais forres possíveis a crença de que as mães continuam sendo tão necessárias para o desenvolvimento sadio dos filhos quanto sempre foram e que as crianças não podem criar a si mesmas. Elas exigem quantidades enormes de tempo e energia durante toda a infância. Qualquer esforço para libertar-se delas será em detrimento dos filhos.
Felizmente, há crescente evidência de que as mães e os pais estão questionando as suposições das décadas de 1980 e 1990 que os conduziram a correr mais depressa e comprar mais. Essa reconsideração de velhas ideias foi expressa num artigo publicado em junho de 2000 em outra revista feminina, a Cosmopolitan, que, em minha opinião, apoiou historicamente a linha ultraliberal.
Segundo uma pesquisa recente da Youth Intelligence, uma empresa de pesquisa de mercado e de tendências de Nova York, 68% das 3.000 mulheres casadas e solteiras afirmaram que deixariam de trabalhar se pudessem. Uma pesquisa da Cosmopolitan de 800 mulheres revelou a mesma estatística surpreendente: duas em cada três entrevistadas preferiam ficar em casa a subir a escada empresarial. “Não é uma fantasia passageira — essas mulheres sinceramente aspiram pela vida doméstica, e muitas conseguem concretizar seu sonho”, diz Jane Buckingham, presidente da Youth lntelligence.
Neste caso, descobrimos a outra ponta do universo com os pontos de vista defendidos pela dra. Chesler e os editores da Vogue. Que diferença faz vinte anos!
O contraste entre a rejeição da maternidade pela dra. Chesler em 1981 e a fantasia da Cosmo sobre ficar em casa em 2000 é cômico para mim. O teto de uma mulher é o chão de outra, como dizem. O artigo da Cosmo era assumidamente mais sobre uma vida fácil do que dedicar-se desprendidamente aos filhos e ao marido. Mas a sedução da maternidade de tempo integral estava insinuada em todo ele. Helen Gurley Brown, editora há muito tempo da Cosmopolitan e feminista avant-garde, escreveu em 1982 um livro intitulado Having It All. Como todas as suas outras excêntricas noções, esta foi bastante esquisita. Ela afirmava que as mulheres podem fazer tudo ao mesmo tempo sem precisar fazer escolhas difíceis. Como é interessante notar que as sucessoras de Brown no novo milênio estão pensando: Talvez tenhamos mordido mais do que queremos mastigar.
Houve outras indicações em meados da década de 1990 de que estava ocorrendo uma volta gradual do pêndulo na direção da família tradicional. Segundo um estudo conduzido nessa época pelos sociólogos da Universidade Cornell, quase três quartos dos 117 casais com renda média no interior de Nova York estavam reformulando seu trabalho por causa dos filhos. Tiravam mais tempo de folga e, quando necessário, baixavam seu padrão de vida para acomodar a perda da renda. Um número duas vezes maior de mulheres no estudo disse que havia deixado o trabalho depois do nascimento de seu primeiro filho, fazendo da carreira do marido a fonte de renda principal. Os homens tendiam a avançar em seus compromissos profissionais até ter alcançado um “nível aceitável de flexibilidade e autonomia em suas
carreiras”.12 Muitas famílias pareciam reconhecer que algo estava quebrado e precisava de conserto.
As mulheres relataram estar cansadas do estilo de vida atormentado, exaustivo e caótico que caracterizava a família com dois ordenados. Algumas delas perceberam que sobrava pouco dinheiro depois dos impostos, mensalidades das creches e despesas afins. Um artigo no Barron’s calculava que 80% do salário da mulher é gasto com esses custos relacionados ao trabalho e concluiu: “Depois de ter pagado tudo, desde lingerie até transporte — algumas vezes na forma de um segundo carro —, o trabalho poderia tornar-se um passatempo dispendioso”. Portanto, disse Barron’s, “[homens e mulheres estão] refinanciando suas obrigações mensais mais elevadas [suas casas], não para consumir mais, mas para ‘fazer uma mudança no
estilo de vida em longo prazo’”.13
Este era o título de um artigo na publicação Working Women: “As Filhas da Supermulher: elas não querem seu emprego. Não querem sua vida. Tudo o que as mulheres de 20 anos para cima querem é mudar a maneira como a América trabalha”. Foi dito que as mulheres que estão deixando o emprego não podem ser compreendidas sem considerar como foram criadas. “As gerações são impelidas por aquilo de que foram privadas quando crianças. As com menos de 30 anos tiveram muito pouco tempo com os pais. Assim sendo, as mulheres mais jovens parecem determinadas a não cometer esse mesmo erro com seus filhos.” Continuando: “Enquanto as mulheres da época dos Boomers (bebês nascidos logo depois da Segunda Guerra Mundial) consideravam suas mães de 50 anos como prisioneiras da rotina doméstica, os Busters (os nascidos logo após a guerra do Vietnã, em 1960) consideram a si mesmos (ou a seus amigos) como vítimas da negligência dos pais; 40% destes foram criados por pais divorciados ou separados. Embora a sabedoria convencional da época tenha sido a de que se os pais ficassem mais felizes, as crianças também o seriam, os filhos dizem outra coisa. ‘Não senti que tinha realmente uma família enquanto crescia’, diz Cindy Peters, uma babá de 25 anos de São Francisco. ‘Meus pais se divorciaram quando eu tinha 2 anos e só via meu pai
talvez uma ou duas vezes por ano’”.14
Essas eram tendências fascinantes quando entraram em cena na década de 1990. Infelizmente, elas parecem ter agora estagnado. A prosperidade sem precedentes e as oportunidades de emprego gozadas nos países ocidentais podem ter sido difíceis de ser ignoradas pelas mulheres. Qualquer que seja a razão, a volta à posição de dona de casa e maternidade de tempo integral não se desenvolveu em grande escala até hoje. Nem a instituição da família encenou uma volta. Vamos discutir as descobertas mais recentes no próximo capítulo.
O sistema de valores materialista da América do Norte está profundamente arraigado na cultura. Se a volta vier a transformar-se em um movimento, porém, esse será um bom presságio para o futuro da família! Ele deveria resultar em menos divórcios e mais harmonia doméstica. Os filhos recuperarão a posição que merecem e seu bem-estar será intensificado em todas as frentes. Não alcançamos ainda todas essas metas, mas oro para que isso aconteça. Estou convencido do seguinte: a maioria das mães contemporâneas se importa mais com suas famílias do que com suas carreiras. O casamento, a paternidade e a maternidade ainda superam tudo o mais, especialmente para a geração que cresce em lares ocupados, disfuncionais, orientados para a carreira. Eles querem algo melhor para si mesmos e para aqueles a quem amam.
Ao encerrar, permita que eu enfatize novamente que os problemas que estamos tendo com nossos filhos estão ligados diretamente à rotina do pânico e ao crescente isolamento e distanciamento de vocês, pais. Além disso, os meninos sofrem tipicamente mais sob essas condições do que as meninas. Por quê? Porque é mais provável que os meninos se desviem quando não são guiados e supervisionados cuidadosamente. Eles são mais volúveis e menos estáveis emocionalmente. Afundam em circunstâncias caóticas, não supervisionadas e indisciplinadas. Os meninos são como os automóveis que precisam de motorista ao volante a cada passo da jornada, movendo delicadamente meia polegada aqui e um quarto de polegada ali. Necessitarão desta orientação pelo menos durante 16 ou 18 anos, ou até mais. Quando deixados por conta própria, tendem a desviar-se, comportando-se mal ou correndo riscos. Ainda, 59% das crianças vão hoje para uma casa vazia. É um convite para travessuras, ou desastre para os meninos turbulentos, e quanto mais velhos ficam, tanto maiores as oportunidades para se envolverem em problemas. Hoje, quando a cultura está numa luta decisiva com as famílias para o controle de nossos filhos, não podemos nos descuidar quanto ao cuidado e treinamento deles.
Sua tarefa, como mãe, em conjunto com seu marido, é construir um homem com as matérias-primas disponíveis nesse menino encantador, pedra após pedra. Não suponha nem por um momento que você pode “fazer o que quiser” sem sérias consequências para ele e sua irmã. Creio que esta tarefa deve ser sua prioridade máxima durante certo tempo. Ela não vai durar para sempre. Antes que perceba, essa criança a seus pés vai tornar-se um jovem que fará as malas e dará seus primeiros passos vacilantes para entrar no mundo adulto. Daí, então, é a sua vez. Segundo as expectativas, você deverá ter décadas de saúde e vigor para investir no que Deus a chamar para fazer. Por enquanto, porém, há um chamado maior. Sinto-me obrigado a dizer-lhe isto, quer minhas palavras sejam ou não populares. Criar os filhos que nos foram emprestados por breve momento supera qualquer outra responsabilidade. Além disso, viver de acordo com essa prioridade quando os filhos são pequenos vai produzir as maiores recompensas na maturidade.
Espero que saiba que não estou tentando dizer-lhe como dirigir sua vida. Você e seu esposo podem discernir o que é melhor para a sua família. Ninguém pode dizer-lhe que estrada seguir. Algumas mulheres são emocionalmente ajustadas para fazer carreira e não desejariam ser mães que ficam em casa, mesmo que tenham os recursos para isso. Elas se ressentem de críticas à sua opção de fazer carreira, e não as culpo. É uma decisão pessoal, e ninguém deve interferir. Penso, entretanto, que deve haver um meio de evitar viver em perpétuo caos. É difícil para os adultos, mas destrói as crianças. Da minha perspectiva, praticamente qualquer coisa é melhor do que perseguir a primeira lagarta da fila, interminavelmente, ao redor do vaso de flores.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Sou uma daquelas mulheres que gostariam de ficar em casa com meus filhos, mas é absolutamente impossível viver com o salário de meu marido. O senhor pode oferecer algumas sugestões sobre como eu poderia “descer do trem”, como o chamou, sem enfrentar a falência?
Há um meio de fazer isso. Donna Partow, autora do livro Homemade Business, ofereceu conselhos específicos sobre começar seu próprio negócio, que poderia envolver editoração eletrônica, cuidados de bichos de estimação, costura, consultoria, transcrição de documentos legais ou até vendas por reembolso postal. Escolher o negócio certo é a primeira de três etapas preparatórias. Considere preparar uma lista de aptidões e interesses pessoais para identificar suas habilidades e descobrir o que você gostaria de fazer. O segundo passo é pôr-se em campo. Pesquise a área escolhida. Examine livros, revistas e artigos de jornal. Converse com outras pessoas que tenham feito o que está considerando. Participe de uma organização deste segmento. Assine publicações especializadas. Segundo a sra. Partow, o terceiro passo é conseguir o máximo de apoio que puder. Faça seus filhos, seu marido e seus amigos ficarem do seu lado. Estabelecer um pequeno negócio pode ser estressante, e você vai precisar de todo encorajamento possível. Depois, reúna os seus recursos e vá
em frente. 15 Um negócio em casa pode vir a oferecer o melhor dos dois mundos.
Em minha opinião, estamos fazendo nossos filhos crescerem depressa demais. Parece que os pais dos amigos de meus filhos estão com muita pressa de fazer com que as crianças se tornem adolescentes. Eles chegam a arranjar “encontros” para os filhos de 10 ou 12 anos e dão a eles materiais de leitura para adultos. Estou certa em resistir a esta tendência de apressar meus filhos para saírem da infância? Concordo totalmente com você. Os pais no passado tinham uma compreensão melhor da necessidade de progressão ordeira ao longo da infância. As crianças nessa época tinham tempo suficiente para brincar, rir e ser elas mesmas. Havia “marcadores” culturais que determinavam as idades em que certos comportamentos eram apropriados. Os meninos, por exemplo, usavam calças curtas até os 12 ou 13 anos. Esses marcadores agora desapareceram ou foram rebaixados. As crianças são retratadas na TV como tendo mais discernimento e maturidade do que os mais velhos. Elas são atiradas, prontas ou não, do útero para a creche e para o mundo adulto a uma velocidade arriscada. Esta corrida para a maturidade deixa a criança sem base forte sobre a qual construir, porque leva tempo construir um ser humano sadio. Quando você apressa o processo, seus filhos têm de lidar com pressões sexuais dos amigos para as quais eles ainda não estão preparados. Há outro problema com a ideia de fazer as crianças crescerem depressa demais. Quando você as trata como se fossem adultos, torna-se mais difícil estabelecer limites para o seu comportamento de adolescente mais tarde. Como você pode marcar a hora de dormir para um rebelde de 12 anos que foi ensinado a pensar em si mesmo como seu igual?
Além disso, qual é na verdade a pressa? Acho que está certa em saborear esses anos da adolescência e permitir que o processo de desenvolvimento marche ao toque do seu tambor interno.
Meu filho de 16 anos quer ir a uma excursão supervisionada, durante três semanas. Os meninos vão comer o que encontrarem na medida do possível e aprender como lidar com a natureza em seus próprios termos. Estou relutante em deixá-lo ir. Fico com medo ao pensar nele lá longe, fora do meu alcance no sentido de poder ajudar se encontrar dificuldades. Parece mais seguro mantê-lo em casa. Estou certa em recusar?
Estou certo de que você sabe que, dentro de alguns anos, seu filho vai para a faculdade ou alguma outra ocupação, talvez o serviço militar, e ficará completamente fora do seu alcance. Por que não dar a ele uma pitada dessa independência agora, enquanto ele está ainda sob os seus cuidados? Será melhor que ele vá deixando devagar a sua influência do que chegar ao fim de súbito.
Houve uma época, durante minha adolescência, em que minha mãe e eu vivemos um conflito similar. Eu tinha 16 anos e fora convidado para trabalhar num barco de pesca de camarão durante o verão. O capitão e os tripulantes eram pessoas rudes que não admitiam besteiras. Era um mundo masculino, e senti-me atraído por ele. Minha mãe relutou muito em permitir porque achava que haveria riscos no Golfo do México durante quatro dias. Ela estava prestes a dizer “não” quando eu disse: — Por quanto tempo a sra. vai me tratar como o seu garotinho? Estou crescendo e quero ir. — Ela cedeu então. Acabou sendo uma boa experiência, durante a qual aprendi o que é trabalhar com ou sem disposição, e comecei a compreender melhor como o mundo adulto trabalha. Voltei sujo e cansado, mas sentindo-me muito bem comigo mesmo. Minha mãe reconheceu mais tarde que fizera a coisa certa, embora tenha ficado preocupada o tempo inteiro.
Acho que deve deixar que seu filho vá à essa excursão, especialmente por ser uma viagem supervisionada. “Soltar as rédeas” funciona melhor como processo gradual. Está na hora de começar.
Sua descrição da lagarta se ajusta perfeitamente à minha família. Vivemos num ritmo alucinado, mas não conseguimos encontrar meio de parar. Fico até deprimida, às vezes, por ver como trabalhamos demais e quão pouco tempo temos para nós mesmos. O senhor tem alguma última palavra de conselho para nós? Vou compartilhar algo que pode ajudar você e seu marido a tomar decisões difíceis das quais um estilo de vida mais moderado poderia depender. Você se lembra de Vince Foster, que cometeu suicídio no início da administração Clinton? Ele era conselheiro do presidente antes da trágica noite da sua morte em 20 de julho de 1993. Oito semanas antes dessa data, Foster tinha sido convidado para falar na formatura dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Arkansas. Foi isto o que disse aos estudantes naquela ocasião:
Uma palavra sobre a família. Vocês já demonstraram amplamente que são empreendedores, dispostos a trabalhar arduamente durante longas horas e deixar de lado sua vida pessoal. Isso me faz lembrar daquela observação de que ninguém jamais foi ouvido dizer num leito de morte: “Gostaria de ter passado mais tempo no escritório”. Equilibrem sabiamente sua vida profissional e sua vida familiar. Se tiverem a felicidade de ter filhos, seus pais vão adverti-los de que seus filhos vão crescer e partir antes que percebam. Posso comprovar que isso é verdade. Deus só permite um determinado
número de oportunidades com nossos filhos para ler uma história, sair para
pescar, jogar bola e orar juntos. Tentem não perder nenhuma delas.16
As palavras de Vince Foster ecoam agora até nós da eternidade. Enquanto estiver subindo a escada do sucesso, não se esqueça de sua família. Esses anos com seus filhos em casa desaparecerão num segundo. Faça tudo o que for necessário para agarrar esses momentos preciosos, quer exijam mudança de emprego, morar numa casa menor ou desistir de oportunidades lucrativas e fascinantes. Nada vale a perda de seus filhos. Nada!