Educando Meninos

James Dobson · Capítulo 5 de 19

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Educando Meninos

4. Espíritos feridos

 

ALGUNS DE MEUS LEITORES podem estar perguntando a esta altura: Por que só os meninos? Por que não considerar também as necessidades das meninas? A resposta é que os meninos, mais do que as meninas, estão em perigo hoje. Temos ouvido durante três décadas sobre as meninas serem discriminadas, sexualmente molestadas, desrespeitadas e deixadas de lado na escola. Existe alguma verdade nessas afirmações, e providências estão sendo tomadas para lidar com elas. Mas um coro de cientistas sociais está advertindo agora sobre certa crise entre os homens, diferente de tudo o que vimos antes. Enquanto muitos jovenzinhos estão enfrentando-a adequadamente, uma considerável minoria vem lutando com pressões sociais e forças complexas que as crianças de ontem não tinham de suportar. Para alguns, apenas tentar sobreviver emocionalmente pode ser mais bem descrito como esmagador. Vamos examinar as descobertas que nos levaram a concluir que muitos rapazes estão soçobrando hoje — e a vasta maioria deles está sendo negativamente influenciada pela cultura.

Os meninos, quando comparados com as meninas, têm seis vezes mais probabilidade de ter dificuldades de aprendizado, três vezes mais de se viciarem em drogas e quatro vezes mais de serem diagnosticados como emocionalmente perturbados. Eles correm maior risco de esquizofrenia, autismo, vícios sexuais, alcoolismo, molhar a cama e todas as formas de comportamento antissocial e criminal. Têm doze vezes mais probabilidade de assassinar alguém, e o índice de acidentes automobilísticos deles é 50% maior. Cerca de 77% dos casos nos tribunais

relativos à delinquência envolvem homens. 1

Mais ainda. Os meninos abaixo de 15 anos têm duas vezes mais probabilidade

de dar entrada em hospitais psiquiátricos2 e cinco vezes maior probabilidade do que

as meninas de se suicidarem.3 Cerca de 80% dos suicídios nos Estados Unidos

envolvem rapazes de menos de 25 anos de idade. 4 O suicídio entre adolescentes

negros aumentou 165% só nos últimos doze anos. 5 Os meninos fazem parte de 90% dos programas de tratamento de viciados em drogas e 95% dos jovens que

comparecem aos tribunais de delinquência juvenil.6

O dr. Michael Gurian, psicoterapeuta e autor do best-seller The Wonder of Boys, disse que a confusão e o descontentamento masculinos são especialmente evidentes na educação pública.

Desde os graus elementares até o ensino médio, os meninos recebem notas mais baixas que as meninas. Os meninos da oitava série repetem 50% mais vezes que elas. No ensino médio, os meninos ocupam dois terços dos lugares nas classes especiais de educação. Menos meninos frequentam e terminam a faculdade. Cinquenta e nove por cento dos candidatos ao mestrado são agora mulheres, e a porcentagem de homens diplomados em cursos profissionalizantes está diminuindo a cada ano. Quando os alunos da oitava série são perguntados sobre o seu futuro, as meninas têm hoje duas vezes mais probabilidade do que os meninos de responder que querem uma carreira administrativa, profissões liberais ou negócios. Os meninos têm mais dificuldade para se ajustarem à escola, têm cerca de dez vezes mais probabilidade de sofrer de “hiperatividade” do que as meninas e representam

71% de todas as suspensões escolares. 7

Talvez, a evidência mais perturbadora da crise se encontre no recrudescimento da violência entre os jovens, especialmente os tiros aterradores nas escolas. Haverá, provavelmente, outros incidentes sangrentos a serem mencionados quando este livro for publicado. A maioria dos jovens assassinos até agora tem sido rapazinhos brancos que não puderam explicar por que desejavam matar seus colegas e professores. Quando foi pedido aos sobreviventes que explicassem os seus motivos, eles responderam simplesmente: “Não sei”. Vários se referiram a provocações dos colegas, similares às que nós, adultos, experimentamos e aprendemos a enfrentar quando crianças.

Um dos assassinos era um garoto de 15 anos chamado Kip Kinkel. Ele assassinou os pais e depois atirou em 27 de seus colegas da Escola Secundária de Springfield. Dois deles morreram.

Esta é uma transcrição parcial da entrevista com Kinkel, feita pelos investigadores algumas horas depois de ter matado o pai e depois a mãe.

Policial não identificado: Você foi por trás dele e atirou na cabeça, não é?

Kinkel: Basicamente, sim.

Policial: Quantas vezes atirou nele?

Kinkel: Uma vez.

Policial: E onde o tiro pegou?

Kinkel: Bem na orelha... Oh! meu Deus... eu amava meu pai; por esse motivo,

tive de matá-lo.

Policial: Você amava seu pai e por esse motivo cometeu o crime?

Kinkel: Sim oh! Meu Deus. Meus pais eram bons... Eu não sabia o que fazer

porque... Oh! Meu Deus, minha mãe estava chegando a casa... Oh! Meu Deus.

Policial: Você sabia que era errado?

Kinkel 8 : Não tive escolha. Era a única coisa que eu podia fazer.

Quem pode dizer com certeza o que levou Kip a matar o pai, apesar do amor que professava por ele? Sabemos, porém, que existe um denominador comum entre esse jovem e muitos outros que massacraram seus colegas. É uma raiva interior que quase desafia a explicação. Um pesquisador acredita que esses garotos não sabem

até o último minuto se vão cometer homicídio, suicídio, ou ambos. 9 Embora existam milhões de outros adolescentes que jamais vão recorrer a violência tão extrema, eles também estão lidando com seu próprio tipo de alienação.

É claro que alguma coisa deu completamente errado em nossos dias. Como podemos explicar este caldeirão de emoções que ferve dentro de muitos meninos e quem pode prever o que acontecerá quando se tornarem homens? O que justifica também o número crescente de adolescentes do sexo masculino que simplesmente não estão conseguindo um lugar ao sol no mundo de hoje? Essas são perguntas desconcertantes, e suas respostas são variadas e complexas. Vou falar nos capítulos seguintes sobre os fatores subjacentes e sugerir o que os pais e professores podem fazer para ajudar. Mas, primeiro, vamos examinar mais de perto a vida emocional dos adolescentes de hoje e a predominância de um fenômeno perturbador chamado “espíritos feridos”.

Agora, mais do que nunca, os meninos estão passando por uma crise de confiança que atinge profundamente a alma. Muitos deles estão crescendo acreditando que seus pais não os amam e que são odiados ou desrespeitados pelos seus iguais. Isto resulta numa forma de ódio de si mesmo que no geral serve como prelúdio para a violência, uso de drogas, promiscuidade e suicídio. Ajuda também a explicar por que meninos e meninas fazem coisas que de outra forma não teriam sentido, tais como se cortar, fazer piercing em partes sensíveis do corpo, fazer tatuagem da cabeça aos pés, tomar drogas perigosas e/ou identificar-se com a morte, perversões e rituais satânicos. Alguns deles, foi dito, “choram ao atirar”.

Para alguns jovens, a síndrome do espírito ferido começa muito cedo, como consequência da violência e negligência. Meninos e meninas pequenos, cujas necessidades básicas permanecem insatisfeitas, talvez nunca se recuperem. Eles chegam a experimentar graves danos psicológicos e neurológicos, como veremos a seguir. Por que isto está acontecendo? Setenta e sete por cento dos pais que maltratam ou negligenciam os filhos se violentam mediante o uso excessivo de álcool ou por

serem viciados em outras substâncias que alteram a mente.10 É muito difícil que alguém ame ou cuide de uma criança enquanto está bêbado ou drogado.

Nem todo abuso está, porém, ligado ao uso de substâncias químicas. Muitos pais estão simplesmente ocupados demais, desatentos, ou são muito imaturos e egoístas para satisfazer as necessidades urgentes dos bebês e das criancinhas. O divórcio, quando ocorre, desvia a atenção dos adultos dos filhos e a enfoca em suas próprias circunstâncias penosas. Este distanciamento dos pais em nosso mundo de ritmo apressado e vertiginoso irá surgir repetidamente em nossa discussão sobre os meninos. Ele é o problema subjacente que constitui o flagelo das crianças de hoje.

A negligência crônica de meninos e meninas durante os dois primeiros anos de vida é devastadora psicológica e neurologicamente para eles. O cérebro é um órgão dinâmico e interativo que exige estímulo do mundo exterior. Quando as crianças são ignoradas, maltratadas ou atiradas de uma babá para outra, perdas terríveis ocorrem na capacidade mental. Quanto mais severo o abuso, tanto maior o dano.

Isto foi confirmado por centenas de milhares de dólares federais investidos na pesquisa médica e comportamental, enfocando não só as crianças pequenas, mas também os adolescentes que foram terrivelmente abusados quando crianças. Alguns deles foram deixados nos berços dias a fio, usando fraldas sujas que queimavam sua pele sensível, ou foram espancados e queimados por pais mentalmente enfermos ou viciados em cocaína. Negligência extrema ou rejeição desta natureza, conforme os pesquisadores, faz com que o corpo da criança produza quantidades significativas dos hormônios cortisol e adrenalina. Essas substâncias químicas, movendo-se por meio do fluxo sanguíneo, alcançam as áreas-alvo do cérebro responsáveis pela compaixão e consciência. Os danos feitos em pontos neurológicos críticos nunca são reparados e acabam por limitar a habilidade do indivíduo de “ter sentimentos” em relação a outros mais tarde na vida. Essa a razão de muitos dos jovens mais

violentos terem o “cérebro literalmente danificado”. 11

Esses estudos ajudam a explicar por que um número cada vez maior de adolescentes parece não ter consciência quanto a matar ou mutilar vítimas inocentes. Um garoto de 14 anos atirou num homem sentado em seu carro num cruzamento. Quando lhe perguntaram por que fizera isso, respondeu que o homem “olhara de modo estranho para ele”. Outro rapazinho assassinou um cliente numa loja só para

divertir-se vendo-o morrer. 12 Esses jovens assassinos são quase todos os homens e não expressam remorso nem lamentam a sua brutalidade. Robin Karr-Morse, coautor do livro Ghosts in the Nursery: Tracing the Roots of Violence, disse que uma nação de crianças ignoradas e emocionalmente rejeitadas “criou uma linha de

montagem [de crianças] que leva diretamente para as nossas prisões”.13

Existem outros fatores que ferem o espírito, é claro. Um deles é a extrema ênfase na imagem física que agora invade a alma de crianças bem pequenas. A vida pode ser difícil para um menino que seja estranho ou diferente de maneira óbvia — que tenha o nariz curvo, a pele cheia de marcas de espinhas, cabelo muito crespo ou muito liso, ou pés muito grandes; que seja vesgo, tenha orelhas de abano ou quadris muito grandes. Os que têm cabelo vermelho podem ser provocados desde a pré-escola. De fato, o jovenzinho pode ser fisicamente perfeito exceto por um único traço embaraçoso; todavia, sob uma barragem de provocações, ele vai preocupar-se com essa única deficiência como se ela fosse a coisa mais importante da vida. Durante certo período de tempo, ela é justamente isso.

O autor Frank Peretti cunhou o termo “espíritos feridos” e usou-o como título de seu excelente livro baseado nas experiências de sua infância. Ele nasceu com um tumor no queixo que o desfigurava e era objeto de provocações cruéis durante seus primeiros anos. Ele se considerava um “monstro”, porque era assim que as outras

crianças o chamavam.14 Frank é acompanhado por milhares de outros que passaram por anos de rejeição e ridículo por causa de uma anormalidade física ou característica pouco apresentável.

Esta vulnerabilidade aos iguais tem feito sempre parte da experiência humana, mas as crianças e adolescentes de hoje são ainda mais sensíveis a ela. A razão é que a cultura popular se tornou um dominador tirânico que exige cada vez mais conformidade ao seu ideal transitório de perfeição. Por exemplo, se você teve ocasião de assistir a um filme antigo de Elvis Presley, deve ter notado que as garotas que apareciam de biquíni eram um tanto gordinhas. Mas, ali estavam elas, rebolando com suas formas corpulentas para delícia de Elvis e dos outros membros exageradamente sexuais de sua banda. Essas atrizes, que pareciam tão atraentes em 1960, não poderiam trabalhar no seriado Baywatch hoje. A maioria delas teria de passar um ano ou dois na academia e colocar silicone nos seios para ser aceita. Na época do pintor Rembrandt, as mulheres consideradas excepcionalmente bonitas eram certamente gordas. Hoje, a extrema magreza e “corpos firmes” se tornaram o ideal — algumas vezes à beira da masculinidade. Em resumo, o padrão de perfeição mudou e ficou fora do alcance da maioria dos jovens.

A mídia e a indústria de entretenimento são em grande parte responsáveis pela investida que estamos testemunhando hoje. Elas enaltecem as imagens de perfeição corporal, como nas “supermodelos”. O efeito nas crianças e adolescentes é profundo, não só neste país, como também ao redor do mundo. Vimos isso ilustrado dramaticamente quando a transmissão do satélite de TV ocidental penetrou nas ilhas do Pacífico Sul pela primeira vez. Ele projetou imagens de atrizes atraentes, muito magras, que atuavam nas séries Melrose, Beverly Hills 90210 e outras destinadas aos adolescentes. Quatro anos mais tarde, uma pesquisa entre 65 garotas das ilhas Fiji revelou como as suas atitudes haviam sido moldadas (ou deformadas) pelo que tinham visto. Quase imediatamente, as meninas começaram a se vestir e pentear o cabelo como as mulheres ocidentais. A dra. Anne Beecher, diretora de pesquisas do Harvard Eating Disorder Center, também observou grandes mudanças nos hábitos alimentares entre as adolescentes dessas ilhas. As que assistiam TV três vezes por semana ou mais tinham 50% mais probabilidade de se considerarem “muito

grandes” ou “muito gordas” do que as que não assistiam.15 Mais de 62% haviam

tentado fazer regime nos trinta dias anteriores. 16

Um jovem não precisa ser obeso para sentir esta pressão. Um estudo conduzido na Universidade da Califórnia há alguns anos revelou que 80% das meninas da

quarta série estavam tentando fazer regime por acharem que eram gordas.17 Outro estudo, este também defasado agora, revelou que metade das crianças na escola

elementar, com idades de 8 a 11 anos, afirmaram insatisfação com seu peso.18

Acredito que esses números seriam ainda mais chocantes hoje. A dra. Mary Sanders e suas colegas da Stanford University School of Medicine especularam que as causas básicas da anorexia nervosa, bulimia e outros distúrbios da alimentação talvez se encontrassem nessas primeiras experiências. A médica e suas colegas acreditam que a juventude de hoje “está imersa numa cultura onde as mensagens

sobre dieta predominam”. 19 Adivinhe o porquê! Porque as mensagens sobre “gordura” são tão incrivelmente ameaçadoras que até os magros se aterrorizam com a possibilidade de ganhar peso. Não é de admirar que esses distúrbios estejam difundidos entre os jovens.

Esta obsessão com o peso parece ter afetado a falecida princesa Diana, do Reino Unido, que, alguns diriam, era a mulher mais charmosa e linda do mundo. Ela foi certamente uma das mais fotografadas, como evidenciado pelos paparazzi, que a perseguiram até o momento final de sua vida. Ninguém gerou o nível de apoio às causas de caridade tanto quanto Diana, princesa de Gales. Em vista de seu glamour e beleza e sua enorme influência em todo o mundo, não é quase incompreensível que Diana tivesse uma baixa imagem de seu corpo — que não gostasse do que via no espelho e que, durante algum tempo, lutasse com um distúrbio de alimentação? Como uma mulher tão rica e popular poderia chegar a odiar a si mesma e cair em depressão?

A maneira como Diana se via talvez não fosse tão estranha como poderia parecer. Nosso sistema de valores é tal que poucas mulheres sentem-se satisfeitas com o seu corpo. Até as competidoras dos concursos para Miss América e Miss Universo admitirão, se forem sinceras, que se preocupam com suas imperfeições físicas. Se aquelas que são abençoadas com grande beleza e charme lutam muitas vezes com sentimentos de imperfeição, imagine como os seus adolescentes imaturos, desajeitados, sentem-se com relação aos corpos imperfeitos com que nasceram. O culto à beleza é uma maldição internacional que faz com que centenas de milhares de pessoas, a maioria delas jovens, sofram de complexo de inferioridade. Até a falecida

princesa foi vítima.20

Os exemplos que forneci se concentram principalmente nas meninas e mulheres. Por que eles são também relevantes para os meninos e homens? Porque esta preocupação com a perfeição física e a imagem corporal se tornou um problema tão sério para os homens quanto para as mulheres. A pesquisa revela que não existe

mais diferença entre os sexos neste sentido.21 Os meninos querem desesperadamente ser grandes, poderosos e belos. Aos 4 anos eles já flexionam seus pequenos bíceps, fechando os punhos e mostrando a elevação onde um músculo irá crescer um dia (espera-se que sim). — Ponha a mão aqui, papai — dirão eles. — É mesmo, filho — os pais irão supostamente responder —, você é realmente forte.

Os garotinhos usam capas do Super-homem e do Batman, roupas de caubói e as pequenas e engraçadas tangas que Tarzan usava para mostrar que são “poderosos” — quer dizer, legais. Este “desejo de poder” masculino é que leva os meninos a brigar, trepar, lutar, empertigar-se e exibir-se. É assim que são. É por tudo isso que quando o desenvolvimento do menino é lento ou ele é mais baixo que os amigos, ele passa no geral a sofrer de baixa autoestima. Coloque-se na posição de um menininho que é provocado e empurrado pelos colegas de classe — que é até menor do que as meninas, que não tem força para competir nos esportes —, que é chamado de “Tampinha”, “Coisinha” ou “Mosquito”. Depois de alguns anos, seu espírito começa a sangrar.

Lembro-me de ficar sentado no carro num restaurante fast-food, comendo um hambúrguer e batatas fritas. (Isto foi antes do ataque cardíaco que tirou a minha alegria de comer!) Olhei para o espelho retrovisor a tempo de ver um gatinho minúsculo e sujo andando numa mureta atrás do meu carro. Ele parecia frágil e doente. Eu sempre me compadeci dos desfavorecidos e não pude resistir àquele. Saí do carro, peguei um pedaço do meu sanduíche e atirei-o ao gatinho. Mas, antes que pudesse alcançá-lo, um gato adulto enorme pulou dentre os arbustos e engoliu-o. Senti pena do coitadinho, que se virou e se escondeu nas sombras. Embora eu tivesse chamado e oferecido outro pedaço, ele teve medo de sair de novo. Lembrei-me imediatamente de meus anos como professor do ensino médio. Via todos os dias adolescentes assim necessitados, destituídos e perdidos como aquele gatinho. Eles não estavam procurando alimento; precisavam de amor, atenção e respeito. Alguns ficavam até desesperados por isso. Quando tinham coragem de se abrir e “pegar um prêmio”, tal como pedir alguém em namoro ou ir a um evento esportivo, um ou mais dos garotos populares os intimidavam e faziam com que voltassem correndo para as sombras, amedrontados e sozinhos. Isso acontece sempre em todas as escolas.

Uma mãe telefonou-me há algumas semanas para contar que estava extremamente preocupada com seu filho de 12 anos, Brad. Ela o vira chorando duas noites antes e o pressionara para dizer-lhe a razão. O menino admitiu relutante, por entre lágrimas, que não queria viver e estava procurando um meio de matar-se. Ele lera que pasta de dentes podia ser perigoso quando engolida e estava, então, pensando em ingerir um tubo inteiro. Esta família era uma das mais fortes e impressionantes que tive o privilégio de conhecer; todavia, seu precioso filho estava considerando suicidar-se bem debaixo do nariz dos pais. Brad sempre fora um ótimo menino, com muitos amigos, todavia encontrara um problema que não conseguia enfrentar. Depois de usar muita habilidade, os pais souberam que um colega de escola estava caçoando das orelhas de Brad por serem um tanto salientes. O provocador o fizera sentir-se como o maior idiota da escola. Quando Brad passava pelo corredor, o garoto punha as mãos nas orelhas e as empurrava para a frente.

Alguns de meus leitores podem ter achado a crise pessoal do Brad uma tolice.

Já ouvi pessoas dizerem em situações semelhantes: “Vamos. Isso é coisa de menino. Ele vai superar. Todos tivemos episódios assim”. Elas têm razão. A maioria de nós foi provocada ou ridicularizada pelos colegas. Mas nunca devemos subestimar a aflição que pode ocorrer no que não parece “coisa muito importante” para um adulto. No caso de Brad, chegou até a tirar sua vontade de viver. Os pais nunca devem ignorar uma experiência desta natureza, nem ameaças de suicídio devem ser tomadas levianamente. Mesmo que esteja criando seus filhos num ambiente seguro, amoroso, deve manter os olhos e os ouvidos abertos durante a adolescência deles. As emoções do adolescente são explosivas e podem levar a situações perigosas que surgem não se sabe de onde. Os meninos, com mais frequência que as meninas, passam a ter comportamento antissocial quando empurrados contra a parede.

O que você deve, então, fazer quando vê um garoto perseguido pelos colegas? No caso de Brad, aconselhei a mãe dele a falar com a mãe do provocador. Em vez de atacar o filho dela verbalmente, o que convidaria à retaliação instantânea e mais problemas, sugeri que a mãe de Brad explicasse que ela tinha um problema e gostaria da ajuda da outra mãe para resolver a situação. Foi o que ela fez. As duas mulheres conversaram e discutiram suas preocupações mútuas. Embora a mãe do outro menino ficasse um tanto na defensiva, a provocação parou e as coisas se acalmaram. A família de Brad procurou também aconselhamento profissional para ajudar o filho a lidar com os problemas mais profundos de autoimagem e inseguranças pessoais que haviam surgido.

Sugeri igualmente a essa mãe que ela adquirisse um exemplar do meu livro e série de fitas-cassete intitulados Preparing for Adolescence. Eles não são para os pais, mas para os pré-adolescentes. O primeiro capítulo e fita tratam do ataque à autoestima, que é quase certo ocorrer no começo da adolescência. Dizem também ao menino ou menina como se preparar para essas experiências. Se nós, como adultos, soubermos que esses anos difíceis estão chegando e não fizermos um esforço para preparar nossos filhos para eles, não estamos cumprindo nossa missão. Os detalhes estão todos no livro e nas fitas. Espero que os considere úteis.

A propósito, o conselho que dei à mãe de Brad foi um tanto arriscado. Eu sabia que ela teria sucesso por ser uma senhora sábia e nada ameaçadora. Mas sua conversa com a outra mulher foi difícil e poderia ter falhado. As mães ursas podem ficar extremamente irritadas quando alguém critica seus filhotes. Além disso, algumas mães não têm controle sobre seus filhos desobedientes e não poderiam resolver o conflito mesmo que quisessem. Nesses casos, outras abordagens podem ser tentadas. Algumas delas não são úteis. Quando eu era psicólogo escolar, conheci uma mãe que ficou tão zangada com a perseguição ao filho que envidou todos os esforços a fim de que o seu filho encostasse o criminoso na parede. Ela trabalhou como um sargento da marinha treinando um recruta. Encontrei o provocador alguns dias mais tarde e ele estava ainda pálido. — O que a sra. Jordan disse a você? — perguntei. Ele respondeu: — Ela... ela... disse que se não deixasse o filho dela em paz iria me matar. Essa não foi obviamente a melhor solução. Mas, vou contar-lhe isto, a sra. Jordan fez-se entender muito bem e a perseguição acabou.

Deve haver um meio melhor de preservar o espírito de seu filho. Isso pode exigir medidas extraordinárias e inconvenientes. Quanto a mim, não permitiria que meu filho permanecesse num ambiente abusivo se percebesse que se tratava de mais do que briguinhas comuns entre crianças. Se os colegas começarem a se agrupar contra seu filho e magoarem seu coração dia após dia, eu o tiraria desse ambiente. Procuraria uma escola em que fosse bem acolhido, ou uma escola cristã, ou até mudaria de cidade se necessário. (Por falar nisso, as provocações num campus cristão podem ser tão predominantes quanto nas escolas públicas.) Sempre que seu filho for ameaçado, uma mudança de cenário poderá ser boa. Qualquer que seja a medida tomada, você deve proteger o espírito de seu filho. Eu já vi pessoalmente o que uma matilha de lobos pode fazer contra um cordeiro indefeso.

Ao falar de lobos, vou contar outra história de animais que julgo relevante. Nossa cadela Mindy não era de raça pura nem uma campeã. Seu pai tinha sido um cão sem pedigree, portanto, não sabíamos muito sobre os seus ancestrais. Ela não passava de um filhote assustado quando apareceu na porta da frente de nossa casa certa noite, depois de ter sido maltratada pelos donos e atirada para fora de um carro. Nós não estávamos realmente precisando de outro cachorro, mas o que fazer?

Pusemos Mindy para dentro e ela em breve cresceu para tornar-se um dos melhores cachorros que já havíamos tido. Mas nunca perdeu a fragilidade emocional que adquirira por causa dos maus-tratos. Mindy não conseguia aceitar críticas ou repreensões quando fazia acidentalmente algo errado. Ela pulava em nosso colo e escondia os olhos. Certo verão, viajamos durante duas semanas e a deixamos no quintal. O menino do vizinho lhe dava comida e água, mas Mindy ficava sozinha o resto do tempo. Nós na verdade subestimamos o que este isolamento representaria para ela. Quando voltamos, nós a encontramos deitada junto à casa num cobertor. Ao seu redor estavam cerca de sete animaizinhos velhos de pelúcia que tinham pertencido à minha filha e que ela encontrara guardados na garagem. Mindy os levara um a um para a sua cama e se cercara desses pequenos amigos.

Se um cão velho precisa de amor e amizade desta forma, quanto mais todas as crianças desta terra? É nossa tarefa como adultos verificar que cada uma delas encontre a segurança de que precisa. Nunca devemos esquecer as dificuldades de tentar crescer no mundo competitivo em que a criança vive. Tome um momento para ouvi-la, cuidar dela e dirigi-la. Esse pode ser o melhor investimento da sua vida.

A razão para achar que os adultos devem proteger as crianças umas das outras é porque tenho boa memória. Depois de uma infância feliz e segura, entrei no ensino médio e levei vários contras de alguns estudantes mais velhos. Certo dia, lembro-me de ter chorado o caminho inteiro para casa por causa do que dois garotos e uma menina me disseram. Aquilo me atirou numa crise de insegurança que meu pai teve de me ajudar a lidar com ela. Tendo visto tantas crianças lutarem com as mesmas pressões que enfrentei, digo quase sempre aos que estão nesses anos de escola que, se puderem sobreviver ao décimo terceiro e décimo quarto anos de idade, depois disso poderão lidar com tudo o que a vida puser em seu caminho. Olhe que não estou só brincando!

Quando me refiro a meu pai me “ajudar” quando estava desesperado, minha experiência ilustra a importância de ter uma família forte e leal para ajudar uma criança a sobreviver às pressões da adolescência. Uma das razões de os adolescentes reagirem com violência e brutalidade é que não há ninguém em casa para evitar que “caiam no precipício”. Tudo volta, mais cedo ou mais tarde, à qualidade da vida familiar. Esse é o grande problema.

Eu acabei aprendendo a defender-me dos ataques. Durante o terceiro ano do ensino médio, minha família mudou e fui matriculado em outra escola. Quase imediatamente tive de lidar com vários provocadores que me consideravam uma presa fácil. Um deles me seguiu pelo corredor nos intervalos das aulas, me provocando e atormentando. Aquilo foi demais. Eu me virei de repente e atirei meus livros no rosto dele. Quando conseguiu ver-me, eu já estava em cima dele. Felizmente, eu já tinha crescido e sabia me defender. Esse foi o fim do nosso conflito. A história logo se espalhou pela escola e os outros valentões me deixaram em paz. Mas se eu fosse mais magro e mais baixo, teria continuado a ser alvo daqueles provocadores. É esse o mundo em que os meninos adolescentes vivem. Como a Pequena Órfã Annie cantou na peça da Broadway, “É uma vida dura e injusta”.

Quero admitir, de passagem, que eu também achei divertido caçoar de alguém um dia. Eu era um aluno imaturo da nona série que tinha passado um ano difícil, como descrito. Parecia razoável que fizesse o mesmo com outra pessoa. Escolhi um que parecia um bom candidato e comecei a persegui-lo. Denny tinha o meu tamanho, mas eu o achava um covarde. Certo dia, antes da aula, eu o atormentei quanto pude. Infelizmente, ele se mostrou muito mais forte do que eu pensava. Denny me deu repentinamente seis socos na cabeça, antes que eu soubesse o que estava acontecendo. Ele me deu um dos maiores choques de minha vida e desisti de minha carreira de valentão na hora. Meu coração não servia para isso.

Por que os meninos provocam e intimidam uns aos outros desse modo? Angela Phillips explicou desta maneira: “O efeito da intimidação é fazer com que as outras crianças desçam ao mesmo nível de impotência por meio do medo. A criança que vive com medo é incapaz de aprender. O provocador reduziu, então, sua vítima ao

seu próprio nível disfuncional”.22 Foi exatamente isso que tentei fazer com Denny. Eu só escolhi a vítima errada, nada mais.

Esta é outra razão por que os provocadores provocam. O The Journal of Developmental Psychology publicou um estudo de 452 meninos da quarta, quinta e sexta séries. Ele revelou que os meninos que atormentavam colegas mais fracos e eram agressivos e rebeldes na escola eram, no geral, os mais populares com seus colegas de classe. Poder e audácia nos meninos são as características que as crianças tendem a admirar.

O dr. Phillip Rodkin, da Duke University, explicou o motivo. Disse ele: “Esses meninos podem internalizar a ideia de que agressão, popularidade e controle andam naturalmente juntos, e talvez não hesitem em usar a agressão física como estratégia

social por ter dado certo no passado”.23 Em outras palavras, os valentões são recompensados socialmente por atormentar crianças que estão abaixo deles na ordem das bicadas, o que provavelmente explica por que muitos fazem isso. Outros estudos mostraram que o comportamento atrevido e rebelde entre as meninas não resultou em muita popularidade. Só os meninos são admirados por quebrar as regras. Um ou mais deles talvez lhe pertençam!

Qualquer que seja a razão, há muitos valentões jovens à nossa volta para fazer sua tarefa vil. Um estudo da psicóloga Dorothy Espelage revelou que 80% dos estudantes tomam pane nas provocações e 15% dos alunos da sétima e oitava séries

dizem que atormentam alguém regularmente.24 Num estudo mais antigo, foi mostrado que os meninos tinham quatro vezes mais probabilidade do que as meninas de serem responsáveis por ataques físicos e muito mais prováveis de serem

vítimas de ataques. 25 Num estudo patrocinado pela Kaiser Foundation, 74% das crianças entre 8 e 11 anos e 86% dos adolescentes afirmaram ter sido objeto de

provocações ou caçoadas de seus iguais.26 Uma criança em cada quatro é

amedrontada na sala de aula.27 Esse é um dos problemas dos jovenzinhos nos colégios hoje. Ele desempenha também papel significativo na violência que continua a afligir a nação. Nas últimas quatro décadas, tem havido aumento de 500% nos

índices de homicídio e suicídio.28 Estou convencido de que muitos que se matam e matam outros sofrem de espírito ferido. Andy Williams, o jovem atirador que matou dois colegas na Santee High School, foi atormentado impiedosamente por ter

um “corpo anoréxico”. 29 Alguns jovens conseguem esquecer-se desse tipo de ridículo, mas outros transformam isso em ódio que dura a vida inteira.

Os que se tornam violentos ou se comportam de outras maneiras antissociais no geral saem do fundo da pirâmide social. Adrian Nicole LeBlanc, autor de um artigo intitulado “The Outsiders” (Os Intrusos), ofereceu conceitos valiosos sobre a provocação, como segue:

As hierarquias tradicionais operam [na escola]: os garotos populares tendem a ser mais ricos e os meninos entre eles tendem a ser atletas. Certas garotas

escolhidas pela sua posição compõem o grupo de namoradas desejáveis, muitas delas sendo também atletas. Abaixo da turma popular, em uma ordem mutável de insignificância relativa, estão os viciados (drogados, hippies ou neo-hippies), assim como uma série de outros mais conhecidos como aberrações. Há também desordeiros, perdedores e paraquedistas — garotos que passam de grupo em grupo. Os verdadeiros perdedores são invisíveis.

Ser um garoto intruso é não ser “homem”, ser feminino, ser fraco. Os

valentões funcionam como um tipo de polícia de iguais, reforçando o código social. O refrão “vingança dos nerds” — que assegura aos garotos não populares que se apenas conseguirem terminar o ensino médio, a lista de vencedores vai mudar — não questiona a hierarquia que coloca os intrusos em perigo. Os meninos sobrevivem então pela sua energia, algumas vezes pelos seus punhos, mas principalmente, se tiverem sorte, com a ajuda da “família”

que criaram entre os amigos.30

Le Blanc continuou com trechos reveladores de uma entrevista com Andrew, que estava no fim da fila:

— No começo as pessoas me perseguiam porque eu era realmente esperto — diz Andrew, apresentando a sequência como evidente por si mesma. — Eu lia o tempo todo. Lia durante a aula de matemática. — Naquela época, no ensino médio, ele tinha a companhia do escritor Tom Clancy e um amigo íntimo com quem podia falar de tudo. Ele diz que as coisas estão melhores agora; durante as aulas, ele fica com os intrusos. Todavia, os dias rotineiros que descreve não parecem ter melhorado. Andrew é empurrado brutalmente, atirado contra o quadro-negro e jogado na lata de lixo de cabeça para baixo. Numa dança da escola, na presença de monitores e policiais, R. levantou Andrew e arrancou um bolso de suas calças. Num dia sou uma “bicha”, no outro um “retardado” — diz ele. Uma menina que costumava ser sua amiga agora grita quando ele se aproxima: — Saia daqui, ninguém quer você!

Andrew entrou no time de corrida que atravessa o país de ponta a ponta,

mas a miséria o seguiu nos treinamentos. Ele não vai mais participar no próximo ano, embora goste do esporte. Há pouco tempo, ele e outros meninos foram suspensos por serem suspeitos de usar drogas. Segundo Andrew, ele usou para ganhar notas A; agora recebe quase sempre notas C e D. Ele não associa o vício com as mudanças em sua vida.

Andrew também não conta nada aos pais. Ele acha que pensam que ele é

popular. — Se tentar explicar a meus pais, eles dirão: “Oh! mas você tem muitos amigos”. Isso não é verdade. Mas eles não conseguem entender. Seus amigos intrusos, porém, entendem.

Um deles é Randy Tuck, um estudante de 1,84m do segundo ano, cabeludo

e com as faces vermelhas de acne. Ele resgatou Andrew de um “banho” (dois meninos o agarraram pelos tornozelos e se encaminharam com ele para o vaso sanitário).

Andrew disse que o ostracismo o “deixa fervendo por dentro. Algumas

vezes a gente fica realmente zangado com algo que não tem tanta importância, como se fosse a última gota”. Ele poderia compreender os matadores, Dylan Klehold e Eric Harris, se a miséria deles não tivesse dado mostras de terminar, mas Andrew permanece otimista. Afinal de contas existem alguns que não têm

mesmo amigos.31

Não é difícil entender como meninos com espíritos feridos — os intrusos — podem se descontrolar sob pressão intensa e causar danos inconcebíveis a outros. Não estou desculpando ou justificando o comportamento deles, é claro. A maioria dos estudantes faz esta viagem difícil sem recorrer à violência. Alguns, porém, guardam tamanho rancor que atiram não só naqueles que os atormentaram, como em todo mundo que esteja ao seu alcance. A seguir, eles voltam a arma para si mesmos como ato derradeiro de ódio. Em quase todos os casos de violência a esmo nos campus escolares, os jovens perpetradores foram ridicularizados e perseguidos pelos colegas. Como mencionado por Andrew, foi isto que aconteceu na Escola Secundária Columbine, em Littleton, Colorado, naquela tarde trágica, em abril de 1999. Doze alunos e um professor foram assassinados antes que os dois atiradores

de 17 anos cometessem suicídio.32 Embora sejam os responsáveis pelo massacre, não se pode estudar as circunstâncias subjacentes sem considerar a evidência da rejeição pelos colegas mais populares. Enquanto matavam os outros estudantes, Klebold gritou, conforme citado: “Isto é para todos os que nos provocaram”. Harris disse: “Esses garotos me humilharam, me constrangeram. Todos vão morrer (tiro,

tiro, tiro), todos vão morrer. Sou Deus e decido o que é verdade”.33 A ira reprimida evidentemente transbordou, resultando em muitas mortes. Isto está se tornando um padrão familiar.

Outro fator determinante é a predominância da violência na mídia, que ensinou às crianças a maneira errada de lidar com os atormentadores. Os adolescentes, inclusive os que têm o espírito ferido, vivem todos os dias com imagens de morte, envenenamento, mutilação, decapitação, esfaqueamento, acidentes e explosões. Isso está em toda parte, no teatro, televisão a cabo, nos vídeos musicais e na internet. Um dos filmes mais populares há alguns anos foi Pânico, produzido pela Miramax — uma subsidiária pertencente, é triste dizer, à Disney Corporation. O filme começava com o assassinato brutal de uma jovenzinha. Seu corpo foi estripado e pendurado

num varal para ser descoberto pela mãe.34 Milhares de adolescentes viram esse filme durante os seus anos mais impressionáveis. Pânico 2 e Pânico 3 foram depois produzidos. Obrigado, Disney, por fazer isto para nossos filhos. Seu fundador iria revirar na sepultura se soubesse o que estão fazendo com a sua boa reputação. Continuem. Peguem o dinheiro e corram. Mas, quando forem, lembrem-se de que o sangue de vítimas inocentes vai manchar para sempre as suas mãos. Ressinto-me profundamente desta desmoralização e exploração dos jovens que o presidente da Disney, Michael Eisner, e outros magnatas do cinema e televisão perpetraram à custa dos mais frágeis entre nós.

Em vista da difusão da violência na mídia, por que nos surpreendemos quando crianças que assistiram a tais programas e os ouviram durante toda a infância algumas vezes agem de maneira violenta? As crianças aprendem que matar é a maneira como devem agir quando insultadas e frustradas. “Venham”, gritam elas quando provocadas, “tomem isto!”, seguindo-se então o ratatá de um rifle automático.

Muitas pessoas atribuem a violência na escola à disponibilidade de revólveres, motivo que as leva a lutar veementemente contra as armas de fogo. Não há dúvida de que a adolescência e as armas produzem um coquetel explosivo, mas isso não explica o que ocorre hoje. O rabino Daniel Lapin, presidente da Toward Tradition, disse que houve uma época em que os meninos em quase todas as escolas americanas levavam armas para a sala de aula. Eles as deixavam no vestiário até a tarde, quando as pegavam para caçar. As armas de fogo não eram um

problema.35 Agora há violência em quase todas as escolas, não porque as armas mudaram, mas porque os meninos mudaram. E qual a razão dessa mudança? A cultura popular ensinou-lhes que a violência é viril. Sylvester Stallone não foi violento em Rambo? Bruce Willis não foi violento em Duro de Matar? Arnold Schwarzenegger não foi violento em Comando? Nossos filhos não estão aprendendo desses modelos a se vingarem ou a matar os que atrapalham o seu caminho?

Proteger a família desta cultura de violência é muito difícil para os pais. É como tentar impedir que a chuva caia. Não obstante, devemos proteger nossos filhos da violência tanto quanto possível, especialmente quando eles são jovens. Quatro organizações nacionais de prestígio associaram a violência na televisão, na música, nos videogames e filmes ao crescimento da violência entre as crianças. São elas: a Associação Médica Americana, a Academia Americana de Pediatria, a Associação Americana de Psicologia e a Academia Americana de Psiquiatria da Criança e do Adolescente. Em sua declaração conjunta elas dizem, em parte: “Os efeitos [da violência] são mensuráveis e duradouros. Além disso, assistir por muito tempo à violência na mídia pode levar à dessensibilização emocional no que diz respeito à

violência na vida real”. 36

Uma declaração ainda mais forte foi emitida em separado pela Academia Americana de Pediatria. Steve Rubenstein, do jornal The San Francisco Chronicle, fez menção dela ao escrever: “Desliguem a TV, mães e pais, a saúde do seu filhinho corre perigo. Crianças com menos de 2 anos não devem assistir à TV porque ela pode interferir no ‘crescimento sadio do cérebro’, segundo uma nova regra emitida esta semana pela Academia Americana de Pediatria. ‘Os pediatras devem recomendar aos pais evitarem que seus filhos com menos de 2 anos assistam à televisão. Uma pesquisa sobre o desenvolvimento do cérebro nos primeiros anos mostra que os bebês e as crianças que começaram a andar têm necessidade crucial de interações diretas com [pessoas] para o crescimento sadio do cérebro’, afirma a diretriz”.

O relatório continua: “Em números anteriores da revista médica da associação, Pediatrics, os médicos advertiram que o fato de as crianças assistirem à TV pode levar ao comportamento violento, obesidade, apatia, baixa do metabolismo, diminuição da imaginação, prisão de ventre, e até à morte — no caso de a televisão cair em cima da criança. Mas esta é a primeira vez que a associação pediu uma proibição direta. O estudo também afirmou que a criança comum fica sujeita a 14.000 referências sexuais na TV por ano e exposta a 52 bilhões de anúncios de

bebidas em outras mídias anualmente”.37

O senso comum nos disse há décadas que ver regularmente imagens gráficas de sangue vivo e coagulado era prejudicial às crianças, mas só recentemente surgiu evidência científica digna de crédito suficiente para provar isso. As autoridades ligadas ao desenvolvimento da criança estão agora de acordo. A indústria de entretenimento colocou nossos filhos em perigo. A resposta de Hollywood, infelizmente, tem sido pouco mais que um bocejo. Vamos falar mais de sexo e violência na mídia num capítulo subsequente.

Quero agora oferecer alguns conselhos às mães e pais de espíritos feridos sobre o que podem fazer para evitá-los. Como disse antes, tenho insistido com pais e professores durante os últimos trinta anos para interferirem a favor das crianças que sofrem. Uma das tarefas mais importantes como pai é preservar a saúde mental e física de seus filhos. Vocês não permitiriam que alguém os machucasse fisicamente se pudessem evitar. Por que, então, ficam imóveis e permitem que o espírito de seu filho ou filha seja deformado e pervertido? O dano ao autoconceito que ocorre durante a adolescência pode perseguir o indivíduo pelo resto da vida.

Como professor, tornei claro para meus alunos que não admitiria provocações. Se alguém insistisse em ridicularizar outro estudante, teria de se haver comigo. Gostaria que todos os adultos fizessem o mesmo. Quando um professor forte e amoroso socorre a criança menos respeitada da classe, algo dramático ocorre no clima emocional da sala. Cada criança parece dar um suspiro audível de alívio. O mesmo pensamento passa pela cabecinha de todos: Se essa criança está livre das zombarias, eu também devo estar. Ao defender o aluno menos popular da classe, o professor está mostrando que respeita a todos e que vai lutar por quem quer que esteja sendo tratado injustamente.

As crianças gostam de justiça e ficam confusas num mundo de injustiça e violência. Portanto, quando ensinamos às crianças bondade e respeito por outros, insistindo em civilidade em nossas salas de aula e em nossos lares, estamos colocando fundamento para a bondade humana no mundo dos adultos que virão. É lamentável que a filosofia oposta seja evidente em muitas escolas hoje. Ela precisa mudar. Não me diga que nós, como adultos, não podemos impedir a provocação. É claro que podemos. Sabemos quem são as crianças indefesas. Podemos socorrê-las. Só precisamos da determinação para interferir quando uma criança mostra sinais de aflição. É nossa profunda obrigação fazer isso.

Esta é a parte difícil. Enquanto você trabalha por trás do cenário para proteger seu filho do abuso, não deve fazer com que ele ache que é uma vítima além da circunstância imediata. É fácil dar a um menino a ideia de que o mundo está pronto para atacá-lo. Esse sentimento abrangente de ser a vítima é terrivelmente destrutivo. Ele paralisa a pessoa e faz com que levante as mãos em desespero. Uma vez que ceda à noção insidiosa de que não pode vencer — que vai fracassar de qualquer jeito —, fica desmoralizada. O desejo de superar a adversidade enfraquece. Não fale com seus filhos sobre o mundo maior que está contra eles, mas ensine como lidar com a situação isolada que surgiu. Espero que isto tenha ficado claro. Você nunca deve deixar que seu filho pense que você acredita que ele está destinado ao fracasso e à rejeição. Pois vai acreditar!

Devemos identificar também as crianças e os adolescentes que parecem experimentar ódio contra si mesmos e nutrir profundo ressentimento e ira. Os sintomas a serem procurados incluem reações excessivas às pequenas frustrações, medo de novas situações sociais, uso de drogas ou álcool, dificuldade para dormir ou comer, extremo isolamento e reserva, roer as unhas, incapacidade de fazer amigos, desinteresse nas atividades escolares e perseguição de outros. Observe também sinais de ameaça de suicídio. Fique especialmente vigilante quando uma criança que mencionou matar-se, de repente, parece despreocupada e feliz. Isso significa, às vezes, que ela tomou a decisão de morrer e não está mais lutando com o que a preocupava. Em cada um desses casos, aconselho que procure ajuda profissional para essas crianças. Não se console com a ideia de que “ela vai sair dessa”. Esse jovenzinho pode necessitar desesperadamente de ajuda. Não perca a oportunidade de fornecê-la.

Os comentários acima se referem mais aos adolescentes. Vou me concentrar agora nas crianças. Costumava-se pensar que a maioria das crianças era basicamente feliz e despreocupada. Isso está mudando. Segundo o psicólogo e autor dr. Harchibald Hart, estamos vendo agora mais sinais de depressão grave nas

crianças, às vezes com apenas 5 anos.38 Se uma criança de 5 a 10 anos está deprimida, pode mostrar sinais de letargia: talvez não queira sair da cama de manhã, fique andando infeliz pela casa, não mostre interesse em coisas que normalmente a deixariam vibrando. Distúrbios do sono e estômago são também sinais de alerta. Outro sintoma pode ser ira declarada, hostilidade e raiva. Ela pode explodir subitamente com as pessoas ou coisas ao seu redor. Se você suspeitar que seu filho está deprimido, deve ajudá-lo a colocar seus sentimentos de tristeza ou frustração em palavras. Fique à disposição dele para ouvir sem julgar ou depreciar os sentimentos expressos. Só o fato de ser ouvido pode fazer muito para melhorar a depressão da criança. Mais importante, você precisa procurar a fonte por detrás da aflição. O que está acontecendo na escola de seu filho pode ser a resposta.

Vou referir-me finalmente à colunista Kathleen Parker para o conselho final sobre como criar meninos sadios em nosso mundo caótico. Ela disse que isso pode ser conseguido “sendo razoável, inteligente e completamente alerta. Reduzindo a exposição dos meninos à violência, estando em casa quando voltam da escola, ajudando-os na lição de casa, perguntando como foi o seu dia, deixando que chorem se necessário, dando apoio quando estão tristes, ajudando-os a ver as opções, ensinando-os a lidar com armas de maneira segura se as tiver em casa, recompensando o bom comportamento, aplicando consequências significativas ao comportamento inaceitável, fazendo exigências razoáveis, expressando expectativas morais, falando com os professores, [e] abraçando esses rapazinhos sempre que puder. Não peça a eles que sejam homens quando não passam de meninos, mas mostre como podem ser homens de verdade demonstrando aquilo que nós, como sociedade, parecemos ter perdido: o autocontrole. Este é o maior dom e não é sequer

tecnologia avançada, mas simplesmente uma boa criação de filhos”. 39

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Pode dar-me conselhos mais específicos sobre como saber se meu filho corre o risco de suicidar-se?

O Family Research Council forneceu a seguinte lista de verificação que pode ser útil para você. Faça a si mesmo estas perguntas:

A personalidade de seu filho mudou dramaticamente? Ele está tendo problemas com a namorada? Ou com o relacionamento com outros amigos ou parentes? Ele se afastou das pessoas com as quais costumava ter intimidade?

A qualidade das suas tarefas de escola está piorando? Ele deixou de corresponder aos seus próprios padrões ou aos de outra pessoa quanto às notas da escola, por exemplo?

Ele parece sempre entediado e está tendo dificuldade para concentrar-se? Ele está agindo como rebelde de modo inexplicável e grave? Ele está tendo problemas em enfrentar uma importante alteração de vida, tal como uma mudança ou a separação dos pais? Ele fugiu de casa?

Seu adolescente está usando drogas ou álcool?

Ele está se queixando de dores de cabeça, de estômago, e outros sintomas que podem ou não ser reais?

Seus hábitos de comer ou dormir mudaram?

Sua aparência mudou para pior?

Ele está dando algumas de suas coisas mais preciosas? Está escrevendo bilhetes e poesias sobre a morte? Ele fala sobre suicídio, mesmo em tom de brincadeira? Já disse coisas como: “Essa é a última gota”, “Não aguento mais” ou “Ninguém se importa comigo”? (Ameaças de acabar com a vida precedem quatro em cada cinco suicídios.)

Ele já tentou cometer suicídio antes?40

Se você está percebendo um padrão dessas características em seu filho, recomendo que procure imediatamente um profissional para ele. Muitos suicídios acontecem como um choque arrasador para os pais surpresos. Será prudente que você permaneça vigilante quanto aos sinais e sintomas que de outra forma poderiam deixar de ser notados. Ter uma família sólida e envolvida é o melhor preventivo, não só para o suicida em potencial, como também para a maioria dos outros comportamentos antissociais. Infelizmente, este tipo de família é o que milhares de jovens não possuem.

Meu filho começou a andar com alguns garotos da pesada que o iniciaram na maconha. Ele não nega o que está fazendo porque diz que é inofensivo. O senhor pode dar-me a sua opinião?

Seu filho recebeu informações muito erradas que estão sendo passadas por aqueles que promovem a legalização da maconha. É uma mentira. O dr. Harold Voth, psiquiatra sênior da Menninger Foundation em Topeka, Kansas, deu a explicação certa.

Ele disse, primeiro, que cinco cigarros de maconha têm a mesma capacidade de causar câncer que 112 cigarros convencionais. Segundo, a parte do cérebro que permite à pessoa enfocar, concentrar, criar, aprender e conceituar num nível avançado está ainda crescendo durante os anos da adolescência. O uso contínuo da maconha durante certo período de tempo vai retardar o crescimento normal dessas células do cérebro. Terceiro, um estudo conduzido pela Universidade de Colúmbia revelou que as mulheres que fumam maconha ficam com o DNA, o código genético, bastante prejudicado. Foi também descoberto que os óvulos reprodutores são especialmente vulneráveis a danos provocados pela maconha. Quarto, um segundo estudo dessa universidade descobriu que as pessoas que fumavam um único cigarro de maconha em dias alternados durante um ano tinham uma contagem de glóbulos brancos 39% menor do que o normal, prejudicando assim o sistema imunológico e

tornando o usuário muito mais suscetível a infecções e enfermidades. 41 Fumar maconha é um passatempo perigoso.

Duvido que seu filho fique satisfeito com esta resposta, embora deva transmiti-la a ele. A sua motivação está provavelmente mais relacionada com a pressão dos amigos do que na crença de que a droga é inofensiva. O perigo está em que ele venha a “graduar-se” e passar a algo mais forte e que vicie mais. Se eu fosse você, faria tudo para afastar meu filho da turma com quem está andando agora, mesmo que tivéssemos de mudar de casa. Ele está aparentemente num momento crítico da sua vida.