Educando Meninos
15. Proximidade
NO CAPÍTULO ANTERIOR, DESCREVI a cultura que está derrotando as famílias em toda parte e ameaçando o bem-estar de seus filhos. Ela colocou os pais numa posição difícil. Eles devem fechar os olhos e ignorar as influências prejudiciais que rodeiam seus filhos ou resolver como defendê-los. Vou apresentar algumas ideias para aqueles de vocês que pretendem resistir e lutar.
O ponto principal desta discussão soa tão óbvio que parece não oferecer nada de novo. Creio, porém, que há valor no que estou prestes a escrever. A essência da minha mensagem é que vocês como pais devem trabalhar mais do que nunca para construir relacionamentos satisfatórios e afirmativos com seus filhos. Devem fazer com que eles desejem ficar dentro dos limites da família e conformar-se ao seu sistema de crenças. Se falharem nesta tarefa, podem perder a batalha das vontades mais tarde. A lei favorece hoje os adolescentes rebeldes. Eles vão, provavelmente, prevalecer em qualquer confronto frente a frente entre as gerações, e isto talvez leve até à emancipação legal muito cedo. Isto é o que podem fazer para prevenir tal situação.
Quando eu era criança, os pais não tinham de depender tanto da comunicação e proximidade para manter os filhos na linha. Eles podiam controlá-los e protegê-los, mais ou menos, pela imposição de regras e do isolamento de suas circunstâncias. O fazendeiro John podia levar o atrevido Johnny para fora e endireitar sua mente. Só essa ameaça já era suficiente para impedir que a maioria dos adolescentes saísse do sério.
Meus pais compreendiam esse sistema. Eles tinham milhares de regras. Havia regulamentos e proibições para quase toda situação imaginável. Por pertencer ao lar de um ministro em uma igreja muito conservadora, eu não tinha permissão de ir ao cinema (que na época era bastante aceitável), ou a danças, nem sequer usar gíria leve. Droga era visto como um eufemismo para maldição, nada parecido com o nome de Jesus ou Deus podia ser pronunciado. Eu não ousava dizer nada que se parecesse vagamente com profundidade, mesmo que fosse sem sentido. Meu primo, que vivia sob o mesmo regime geral, inventou uma gíria chamada gerrit, que podia usar sem ser acusado de ter dito algo mau. “Estou cansado dessa escola gerrit”, ele dizia. A invenção não funcionou. Gerrit foi também banida.
Naqueles dias, a autoridade paterna servia tipicamente como grande escudo contra os males no que era chamado “o mundo”. Qualquer coisa considerada pouco sadia ou imoral era mantida fora da cerca branca, simplesmente resistindo a ela. Felizmente, a comunidade em volta era útil para os pais. Elas eram organizadas para manter os filhos no caminho reto e estreito. A censura impedia que os filmes fossem muito longe, as escolas mantinham disciplina restrita, as infrações eram levadas ao conhecimento dos pais, havia funcionários encarregados de vigiar os alunos para que não faltassem às aulas, damas de companhia geralmente preservavam a virgindade, álcool não era vendido a menores, e drogas ilícitas eram desconhecidas. Até os adultos fora da família consideravam como sua responsabilidade cívica ajudar a proteger as crianças de qualquer coisa que pudesse fazer-lhes mal, seja física, emocional ou espiritualmente. A maioria desses habitantes da cidade era, provavelmente, conhecida dos pais delas, sendo então mais fácil para eles interferir. Este sistema de apoio nem sempre resolvia o assunto, é claro, mas era geralmente eficaz.
Como vimos no capítulo anterior, porém, este compromisso com o bem-estar dos filhos praticamente desapareceu. Em vez de ajudar os pais em suas responsabilidades na criação dos filhos, a cultura na verdade conspira contra eles. Imagens e ideias perniciosas entram pela porta da frente ou, como discutimos antes, se esgueiram diretamente para o quarto de dormir por meio da mídia eletrônica. À medida que o mundo se tornou mais sexualizado e mais violento, as oportunidades para nossos filhos entrarem em problemas aumentaram muito. Além disso, inúmeras “vozes” estão lá fora seduzindo-os para fazer o que é errado.
A autoridade dos pais é também erodida a cada passo. Por exemplo, quando os pais decidem não permitir que seus meninos vejam um filme desaconselhável, sua ordem vai, provavelmente, ser revogada. As crianças podem assistir à fita na casa de amigos ou no vídeo quando os pais estiverem trabalhando. E os adultos parecem trabalhar horas cada vez mais longas atualmente. Este é um dos pontos de maior perigo. É quase impossível para as mães e os pais filtrar os aspectos prejudiciais da cultura quando ficam um pouco em casa, na parte da tarde. Um garoto sem supervisão pode praticar mais travessuras num único dia do que seus pais podem consertar num ano.
Ao considerar como o mundo mudou, é duplamente importante construir relacionamentos com os meninos desde a mais tenra infância. Você não pode mais confiar em regras para afastá-los dos predadores no mundo mais amplo. Faz ainda sentido proibir comportamento nocivo ou imoral, mas essas proibições têm de ser apoiadas por certa proximidade emocional que faça as crianças desejarem praticar o que é certo. Elas devem saber que você as ama incondicionalmente e que tudo o que exige delas é para o seu próprio bem. É também útil explicar por que deseja que se comportem de certa maneira. “Estabelecer leis” sem este elo emocional não vai, provavelmente, adiantar.
O autor e preletor Josh McDowell expressou este princípio numa única sentença.
Ele disse: “As regras sem um relacionamento levam à rebelião”.1 Está absolutamente certo. Com todas as tentações rondando nossos filhos, dizer simplesmente “não” mil vezes cria o espírito de desafio. Temos de construir pontes até eles a partir do chão. A construção deve começar cedo e incluir diversão em família, rir, brincar, jogar jogos de tabuleiro, atirar ou chutar uma bola, atirar em cestos, jogar pingue-pongue, correr com o cachorro, conversar na hora de dormir e fazer mil outras coisas que tendem a ligar as gerações entre si. O difícil é estabelecer essas amizades e manter ao mesmo tempo a autoridade e o respeito paternos. Pode ser feito. Deve ser feito.
Construir relacionamentos com os filhos não exige grande quantidade de dinheiro. Um laço vitalício, no geral, emerge das tradições que dão significado ao tempo que a família passa junto. As crianças gostam de rotinas e atividades diárias do tipo mais simples. Elas querem ouvir a mesma história ou a mesma piada até que os pais não aguentem mais. Essas interações são, algumas vezes, mais apreciadas pelas crianças do que brinquedos caros ou eventos especiais.
O muito querido autor e professor dr. Howard Hendricks perguntou certa vez aos seus filhos adultos do que eles se lembravam com mais prazer da sua infância. Seriam as férias que passavam juntos ou as viagens aos parques temáticos ou ao zoológico? “Não”, disseram eles. Era quando o pai lutava com eles no chão. É assim que os meninos pensam. As atividades mais significativas na família são quase sempre essas interações simples que constroem laços duradouros entre as gerações.
Vamos descrever o que pretendemos dizer com tradições. Elas se referem àquelas atividades repetitivas que dão identidade e senso de pertencer a cada membro da família. No musical da Broadway, Violinista no Telhado, lembre-se de que o violinista estava empoleirado com segurança em cima da casa por causa da tradição. Isso dizia a cada membro da comunidade judia quem ele ou ela era e como lidar com as exigências da vida e até o que usar. Há conforto e segurança para as crianças quando elas sabem o que é esperado e como se ajustam no esquema das coisas.
Dois amigos, Greg Johnson e Mike Yorkey, ofereceram alguns exemplos de como não formar bons relacionamentos com seus filhos em seu livro Daddy’s Home [A casa do papai]. Estas sugestões foram escritas com ironia, mas penso que eles conseguiram marcar seu ponto.
Sirva como sua máquina humana de moedas no fliperama. Deixe o jogo da NBA ligado enquanto joga Monopólio com eles. Leia o jornal enquanto os ajuda nos seus problemas de álgebra. Vá até o campo de futebol da escola praticar seu jogo de golfe e mande as crianças pegarem as bolas depois que terminar. Sugira que tirem uma soneca com você numa linda tarde de domingo. Vá com eles à reunião dos lobinhos e leia uma revista no carro enquanto eles recebem instruções sobre como dar nós. Leve-os ao seu escritório no sábado e faça com que desenhem enquanto
você trabalha. 2
É claro que há muitas maneiras de fingir — parecendo se importar e estar “envolvido” enquanto está na verdade apenas servindo de babá. Garanto, porém, que seus filhos não vão ser enganados por muito tempo. Eles enxergam por meio dos pretextos dos adultos, algo parecido com uma visão de raio-X. E vão lembrar-se se você estava ou não junto deles quando o buscavam. Alguém disse que amar é dar a alguém sua completa atenção. Que grande definição esta!
Esta é outra ideia importante para os relacionamentos que julgo fazer muito sentido. É chamada de “primeiros cinco minutos” e se baseia num livro publicado há muitos anos. Sua tese é de que os primeiros cinco minutos que ocorrem entre as pessoas estabelecem o tom para tudo o que se segue. Por exemplo, um orador público tem poucos momentos para convencer sua plateia de que possui realmente algo valioso a dizer. Se ele for cansativo e formal, seus ouvintes vão desligá-lo como a uma lâmpada, e ele jamais saberá a razão. Pretende-se usar de humor durante o discurso, deve dizer algo engraçado bem depressa, ou eles não vão acreditar que pode fazê-los rir. A oportunidade do momento fica perdida. Felizmente, sempre que começamos uma nova interação, temos a chance de restabelecer a boa disposição.
Este princípio simples tem a ver também com os membros da família. Os primeiros cinco minutos da manhã determinam igualmente como a mãe vai interagir com seus filhos nesse dia. Rispidez ou queixas quando os filhos se reúnem para o desjejum vai azedar o relacionamento com eles durante horas. Receber os filhos depois da escola com palavras bondosas e um lanche gostoso será lembrado durante décadas. No fim do dia, quando o homem chega em casa do trabalho, a maneira como cumprimenta ou não cumprimenta a esposa vai influenciar o relacionamento deles à noite. Uma única crítica tal como: “Outra vez ensopado de atum!” estragará o relacionamento deles até a hora de dormir. Os homens que se queixam que suas esposas não são afetuosas nessa hora deveriam pensar nos primeiros momentos em que se encontraram no fim da tarde. Eles, talvez, tenham perdido grandes possibilidades com seus primeiros comentários impertinentes.
Tudo começa com os primeiros cinco minutos.
Para resumir, uma família unida é o que mantém os meninos presos quando o mundo insiste para que se libertem. Nestes dias, você não ousa ser desconectado quando tudo está ligado.
Enquanto estamos falando de relacionamentos, há outra questão que devemos discutir. Ela se refere ao grande poder das palavras. Elas são tão fáceis de pronunciar, sendo, no geral, despejadas sem muita razão ou prudência. Os que atiram críticas ou hostilidade a outros podem até nem sequer querer dizer ou crer no que disseram. Seus comentários podem refletir uma inveja, ressentimento, depressão, fadiga ou vingança momentâneos. Não importa a intenção, as palavras duras picam como abelhas selvagens. Quase todos nós, inclusive você e eu, já passamos por momentos em que o pai, o professor, o amigo, o colega, o marido ou a esposa disse algo que nos atingiu em cheio. Essa mágoa está selada agora para sempre no banco de memórias. Essa é uma propriedade surpreendente da palavra pronunciada. Mesmo que a pessoa esqueça a maior parte de suas experiências diárias, um comentário especialmente penoso pode ser lembrado durante décadas. Em contraste, o indivíduo que fez o estrago talvez não se lembre mais disso, alguns dias depois.
A ex-primeira dama Hillary Rodham Clinton contou uma história sobre seu pai, que nunca a apoiara quando criança. Quando ela estava na escola secundária, levou para casa um boletim com notas dez. Hillary mostrou-o ao pai, esperando por um elogio. Em vez disso, ele comentou: “Sua escola deve ser fácil”. Trinta e cinco anos mais tarde, essas palavras ainda queimam na mente da sra. Clinton. A reação irrefletida dele pode não ter sido mais do que um gracejo casual, mas criou uma
mágoa que dura até hoje. 3
Se você duvida do poder das palavras, lembre-se do que o discípulo João escreveu sob inspiração divina. Ele disse: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). João estava descrevendo Jesus, o Filho de Deus, identificado pessoalmente com palavras. Mateus, Marcos e Lucas registram, cada um, a declaração profética relacionada feita por Jesus, que confirma a natureza eterna de seus ensinamentos. Ele disse: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mt 24.35). Lembramos o que ele disse até agora, mais de dois mil anos mais tarde. As palavras claramente importam.
Existe também sabedoria sobre o impacto das palavras no livro de Tiago. A passagem diz:
Ora, se pomos freios na boca dos cavalos, para nos obedecerem, também lhes dirigimos o corpo inteiro. Observai, igualmente, os navios que, sendo tão grandes e batidos de rijos ventos, por um pequeníssimo leme são dirigidos para onde queira o impulso do timoneiro. Assim, também a língua, pequeno órgão, se gaba de grandes coisas. Vede como uma fagulha põe em brasas tão grande selva! Ora, a língua é fogo; é mundo de iniquidade; a língua está situada entre os membros de nosso corpo, e contamina o corpo inteiro, e não só põe em chamas toda a carreira da existência humana, como também é posta ela mesma em chamas pelo inferno.
TIAGO 3.3-6
Você já pegou fogo com as faíscas que caem da sua língua? Mais importante ainda, você já incendiou o espírito de uma criança, enchendo-a de ira? Todos nós já cometemos esse erro caro. Sabíamos que havíamos errado no momento em que o comentário saiu da nossa boca, mas era tarde demais. Mesmo que tentássemos cem anos, não poderíamos apagar um único comentário. No primeiro ano de meu casamento com Shirley, ela ficou muito zangada comigo sobre algo que nenhum de nós pôde lembrar. Na frustração do momento, ela declarou: “Se isto é casamento, não quero nada com ele”. Ela não queria dizer isso e arrependeu-se quase imediatamente. Uma hora mais tarde nos reconciliamos e perdoamos um ao outro, mas as palavras de Shirley não podiam ser retiradas. Rimos a respeito no correr dos anos, e a questão é quase inconsequente hoje. Mesmo assim, não há nada que nenhum de nós possa fazer para apagar o pronunciamento feito naquela hora.
As palavras não são só lembradas a vida inteira, mas, se não forem perdoadas, vão perdurar além das águas frias da morte. Lemos em Mateus 12.36: “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo”. Podemos ser gratos porque aqueles de nós com um relacionamento pessoal com Jesus Cristo têm a promessa de que os nossos pecados — e nossas palavras cruéis — não mais serão lembrados contra nós e serão afastados “quanto dista o Oriente do Ocidente” (SI 103.12). Em separado dessa expiação, porém, nossas palavras nos seguirão para sempre.
Não pretendi pregar um sermão, porque não sou ministro nem teólogo. Mas encontro grande inspiração para todos os relacionamentos familiares na grande sabedoria das Escrituras. Isso acontece também com o impacto do que dizemos. O que amedronta a nós pais é que nunca sabemos quando o videotape mental está funcionando, durante essas interações com as crianças e os adolescentes. Um comentário que parece pequeno para nós na ocasião pode “grudar” e ser repetido muito depois que estivermos mortos e longe. Em contraste, as coisas afirmativas e amáveis que dizemos sobre nossos filhos podem ser uma fonte de satisfação durante décadas. Tudo está, então, sempre no poder das palavras.
Esta é mais uma coisa para lembrar. As circunstâncias que precipitam um comentário doloroso para a criança ou o adolescente são irrelevantes ao seu impacto. Deixe-me explicar. Embora a criança o faça chegar ao seu limite, frustrando-o e irritando-o até o ponto da exasperação, você terá, não obstante, de pagar o preço se reagir exageradamente. Vamos supor que perca a compostura e grite: “Não aguento você! Gostaria que pertencesse a outra pessoa”. Ou: “Não acredito que foi reprovado em outro exame. Como um filho meu pode ser tão idiota!”. Mesmo que todo pai normal fique agitado nessa situação, seu filho não vai lembrar-se do erro no futuro. É provável que esqueça o que fez para provocar sua explosão. Mas vai lembrar-se do dia em que você disse que não o queria ou que ele era estúpido. Isso não é justo, mas a vida também não é.
Sei que estou criando uma ponta de culpa com esses comentários. (Minhas palavras também são poderosas, não são?) Meu propósito, entretanto, não é feri-lo, mas fazê-lo lembrar de que tudo o que diz tem significado duradouro para seu filho. Ele pode perdoá-lo mais tarde por “começar o incêndio”, mas como teria sido melhor permanecer calmo. Você pode aprender isso com oração e prática.
Vai ajudar você a compreender que iremos, provavelmente, dizer algo que machuca quando estamos visceralmente zangados. A razão é devida a uma poderosa reação bioquímica interna. O corpo humano está equipado com um sistema de defesa automática chamado mecanismo de “luta ou fuga”, que prepara todo o organismo para a ação. Quando estamos perturbados ou com medo, a adrenalina é bombeada na corrente sanguínea, iniciando uma série de reações fisiológicas no corpo. Em questão de segundos, o indivíduo é transformado de uma condição serena para um estado de “reação de alarme”. O resultado é um pai ou mãe de rosto vermelho que grita coisas que ele ou ela não tinha intenção de dizer.
Essas mudanças bioquímicas são involuntárias, operando em separado da escolha consciente. O que é voluntário, porém, é nossa reação a elas. Podemos aprender a recuar num momento de excitação. Podemos decidir reter a língua e remover-nos de uma situação de prova. Como já ouviu, é sábio contar até dez (ou quinhentos) antes de responder. É extremamente importante fazer isto quando estamos lidando com crianças que nos irritam. Podemos controlar o impulso de revidar verbal ou fisicamente, fazendo o que iremos certamente lamentar quando a paixão tiver esfriado.
O que devemos fazer quando tivermos perdido o controle e dito algo que feriu profundamente uma criança? A resposta é: devemos consertar o dano o mais rápido possível. Tenho muitos amigos fanáticos por golfe que tentaram em vão ensinar-me seu jogo maluco. Eles nunca desistem, apesar de ser uma causa perdida. Um deles me disse que eu devia substituir imediatamente o torrão arrancado pelo bastão depois de cavar outro buraco com o meu bastão. Ele disse que quanto mais depressa eu colocasse aquele tufo de grama de volta no lugar, tanto mais rapidamente suas raízes iriam religar-se. Meu amigo estava falando de golfe, mas eu estava pensando em pessoas. Quando você fere alguém, quer seja uma criança, um cônjuge ou um colega, deve fazer um curativo antes que se instale a infecção. Peça desculpas, se for o caso. Converse sobre o assunto. Procure reconciliar-se. Quanto mais o tufo arrancado queimar ao sol, tanto menores suas chances de recuperar-se. Não é um pensamento interessante? É claro que o apóstolo Paulo chegou lá antes de nós. Ele escreveu há quase dois mil anos: “Não se ponha o sol sobre a vossa ira” (Ef 4.26). Essa Escritura tem sido muitas vezes aplicada aos maridos e esposas, mas acho que é também válida para os filhos.
Antes de concluir o tema das palavras, quero tratar da questão das difamações. Acho inquietante ver como a baixaria e o sacrilégio se infiltraram em nossas palavras nas nações ocidentais. Maldições e grosserias são tão comuns hoje que até alguns pré-escolares falam como os marinheiros de ontem. Não foi sempre assim. Na época em que lecionava, numa escola secundária pública, a linguagem vulgar não era permitida. Sei que talvez isso acontecesse quando os alunos estavam sozinhos, mas quase nunca onde os professores pudessem ouvir. Certo dia, uma de minhas melhores alunas usou o nome de Deus de modo sacrílego. Fiquei muito desapontado com ela. Acredite ou não, tendo ensinado várias centenas de crianças por ano, aquela foi a única vez em que me lembro de ter ouvido um menino ou menina falar desse modo. Disse a ela que os Dez Mandamentos nos ensinavam a não usar o nome do Senhor em vão e que devíamos ter cuidado com nossas palavras. Penso que acreditou em mim. Isso ocorreu em 1963.
Como as coisas mudaram radicalmente desde então! Agora quase todo estudante, ao que parece, usa essa linguagem — referências repulsivas sobre as funções corporais e o comportamento sexual. As meninas dizem palavrões como os meninos. Desde a escapada do presidente Bill Clinton com Monica Lewinsky na Casa Branca, até as crianças da escola elementar têm falado abertamente sobre sexo oral,
como se não fosse uma coisa tão importante assim.4 Mais do que nunca, um número maior de meninas tem tentado essa prática. Na verdade, doenças sexualmente transmissíveis da boca e garganta estão alcançando proporções epidêmicas entre os estudantes do curso fundamental e médio. Tornamo-nos um povo profano e imoral, tanto os jovens como os mais velhos. Não obstante, os mandamentos antigos não mudaram. As Escrituras nos dizem o seguinte sobre o uso casual do nome de Deus:
Farei conhecido o meu santo nome no meio do meu povo de Israel e nunca mais deixarei profanar o meu Santo nome; e as nações saberão que eu sou o SENHOR, o Santo em Israel.
EZEQUIEL 39.7
A meu povo ensinarão a distinguir entre o santo e o profano e o farão discernir entre o imundo e o limpo.
EZEQUIEL 44.23
Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.
MATEUS 5.37
Se devemos crer na validade dessas e de outras passagens da Bíblia, nossa profanidade é uma ofensa a Deus. É terrível arrastar os nomes de Deus, de Jesus e do Espírito Santo no esgoto, usando-os como palavrões ou para pontuar sentenças na conversa diária. Até cristãos dizem: “Deus”, em ocasiões casuais. Algumas vezes, quando ouço o que é sagrado sendo aviltado e ridicularizado, digo uma oração silenciosa, pedindo ao nosso Pai celestial que perdoe o nosso desrespeito e cure a nossa terra. Está na hora de defendermos aquilo em que cremos e ensinarmos essas verdades eternas a nossos filhos.
Estou recomendando aqui que você dê muita ênfase à linguagem de seus filhos. Ainda há lugar para a linguagem limpa, sadia, respeitosa: você não deve especialmente permitir que seus filhos caçoem do nome de Deus. A principal razão para as Escrituras citadas é a de ajudar você a ensinar esses conceitos bíblicos em sua casa. Leia e discuta “a Palavra” para estabelecer este princípio vital. Ao ensinar reverência pelas coisas santas, você está demonstrando que sua fé deve ser levada a sério e que dará contas ao SENHOR pelo seu comportamento. É também o meio de ensinar princípios de civilidade que devem ser o objetivo central da sua liderança no lar.
Eu me desviei um pouco do meu tema dos relacionamentos, mas acho que a discussão sobre as palavras foi importante. Voltando ao assunto, está chegando o dia em que os que têm filhos pequenos terão de apoiar-se nos fundamentos de carinho e amor que construíram. Se o ressentimento e a rejeição caracterizaram os primeiros anos, a adolescência pode ser um pesadelo. A melhor maneira de evitar esta bomba-relógio adolescente é desligá-Ia na infância. Isso é feito com o equilíbrio sadio de autoridade e amor no lar. Comece agora a construir um relacionamento que vai ajudá-lo a atravessar as tempestades da adolescência.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Sou um dos pais desanimados de que falou. Minha mulher e eu nos esforçamos ao máximo para ser bons pais, mas agora nosso filho de 16 anos é teimoso, desrespeitoso e desafiador. Ele está com problemas sérios com a lei e não temos ideia de onde erramos.
Antes de culpar-se por tudo o que ocorreu, insisto que pare e pense no acontecido. Todos nós que trabalhamos com crianças temos observado que o comportamento rebelde de um adolescente, às vezes, não resulta dos erros ou das falhas dos pais, mas de más escolhas feitas por sua própria iniciativa. Seu filho pode ser um desses adolescentes.
Duas coisas ficam claras a este respeito. Primeiro, os pais aceitaram rapidamente o crédito ou a culpa pela maneira como os filhos se comportam. As mães e pais que estão criando jovens e brilhantes superastros se inclinam a estufar o peito e dizer: “Vejam o que conseguimos!”. Os que têm filhos irresponsáveis se perguntam: “Onde foi que eu errei?”. É bem provável que nenhuma dessas afirmações seja correta. Embora os pais tenham enorme influência na vida dos filhos, eles são apenas um componente na montagem dos filhos.
Os cientistas comportamentais têm sido demasiadamente simplistas em sua explicação do comportamento humano. Apesar de suas teorias em contrário, somos mais do que a qualidade de nossa alimentação. Somos mais do que nossa herança genética. Somos mais do que a nossa bioquímica. E, certamente, somos mais do que o agregado de influências dos pais. Deus nos criou como indivíduos únicos, capazes de pensamentos independentes e racionais não atribuídos a qualquer fonte. É isso que torna a criação de filhos tão desafiadora e gratificante. No momento em que pensa que conhece completamente seu filho, é melhor preparar-se! Algo novo vai aparecer em seu caminho.
Qual o papel que a hereditariedade desempenha no comportamento de um filho como o meu?
Os especialistas em desenvolvimento infantil argumentaram por mais de um século quanto à influência relativa da hereditariedade e do ambiente, ou o que tem sido chamado de controvérsia da “natureza-nutrição”. Agora, finalmente, essa questão pode ter sido estabelecida. Os pesquisadores da Universidade de Minnesota passaram muitos anos identificando e estudando cem conjuntos de gêmeos idênticos que foram separados logo depois de nascidos. Eles foram criados em culturas, religiões e locais diferentes por uma variedade de razões. Em vista de cada conjunto de gêmeos compartilhar a mesma estrutura genética, foi possível para os pesquisadores examinarem o impacto da herança comparando as suas semelhanças e diferenças em muitas variáveis. A partir desses e outros estudos tornou-se claro que grande parte da personalidade, talvez 70% ou mais, é herdada. Nossos genes influenciam qualidades como criatividade, sabedoria, bondade, vigor, longevidade, inteligência e
até a alegria de viver.5
Vamos considerar os irmãos conhecidos como “gêmeos Gem”, que ficaram separados até os 39 anos de idade. Suas semelhanças eram surpreendentes. Ambos se casaram com mulheres chamadas Linda. Ambos tinham cães chamados Toy. Ambos sofriam de enxaqueca. Ambos fumavam sem parar. Ambos gostavam de cerveja. Ambos dirigiam Chevrolets e ambos serviam como subdelegados. Eles até compartilhavam um senso estranho de humor. Por exemplo, os dois gostavam de
fingir espirros no elevador para ver como as pessoas reagiam. 6 Este grau de semelhança na personalidade de gêmeos idênticos, criados separadamente, mostra a notável influência das características herdadas.
A estrutura genética da pessoa é tida como influenciando até a estabilidade de seu casamento. Se um gêmeo idêntico se divorcia, o risco de o outro também divorciar-
se é de 45%. 7 Todavia, se um gêmeo fraterno se divorcia, por compartilhar menos
da metade dos genes, o risco para o outro é somente 30%.8
O que essas descobertas significam? Somos simples fantoches numa corda, desempenhando um curso predeterminado sem livre-arbítrio ou escolhas pessoais? É claro que não. De modo diferente dos pássaros e mamíferos que agem segundo o instinto, os humanos são capazes de pensamento racional e ação independente. Não agimos de acordo com todo impulso sexual. O que fica claro é que a hereditariedade providencia um empurrão numa determinada direção um impulso ou inclinação definidos —, mas que pode ser controlado pelos nossos processos racionais.
Essas descobertas são evidentemente de enorme significado para nossa compreensão das crianças. Antes que você aceite todo o crédito ou culpa pelo comportamento de seus filhos, lembre-se de que desempenhou uma parte importante nos anos formativos — mas de modo algum a única parte.
Quanto ao seu filho rebelde de 16 anos, sugiro que lhe dê algum tempo. Ele vai, provavelmente, acomodar-se ao entrar na casa dos 20. A oração é que não faça nada com implicações em longo prazo, antes que termine a adolescência.