Educando Meninos
11. Vamos em frente!
SE VOCÊ TEM UM filho, aposto que ele é um competidor natural. Gosta de um desafio e nada o deixa mais satisfeito do que ganhar. Mesmo que lhe falte habilidade para vencer o mundo, vai tentar, provavelmente, fazer isso. Se você compreender este aspecto de seu temperamento masculino, grande parte do seu comportamento começará a fazer mais sentido.
Uma de minhas histórias favoritas foi contada por um homem chamado Bill Dolan, que disse: “Posso lembrar-me da noite em que estávamos à mesa do jantar, quando Tom não quis tomar o seu leite e eu fiquei zangado. Disse a ele:
— Você não vai sair enquanto não tomar o leite.
— Não quero o leite.
Isso não importa. Só vai sair da mesa depois de tomar o leite.
Estávamos num verdadeiro impasse irlandês. Então, finalmente, lembrei-me de que conhecia aquele garoto e levantei-me, peguei um copo e o enchi de leite. Disse a meu filho:
— Aposto com você.
— Está bem.
E bebemos o leite. Ele colocou o copo na mesa e disse:
— Vamos apostar de novo”.1
Este impulso competitivo é evidente nos “meninos” de todas as idades. Já mencionei meu sogro, Joe Kubishta, várias vezes. Ele tem 89 anos, mas ainda gosta de vencer. Joga golfe quatro a cinco vezes por semana e registra suas vitórias e perdas contra seus companheiros mais novos. É muito bom num jogo de cartas chamado vopas, que costumava jogar nas horas de folga, quando estava na marinha. Ele me ensinou o jogo quando Shirley e eu nos casamos, e nós o jogávamos sempre que estávamos juntos, mas Joe nunca revelou os segredos da vitória. Três anos se passaram antes que eu descobrisse por que ele sempre me vencia. Joe apenas ria, dizendo: “Vamos jogar outra vez”. Eu agora tenho um truque só meu. Quando Joe tem cartas boas, seu pescoço fica vermelho. Basta vigiar essa região abaixo de suas orelhas e posso adivinhar o que ele está tentando fazer. Veja bem, Joe não é o único que gosta de ganhar.
É impossível saber por que os homens fazem algumas coisas sem considerar sua natureza competitiva. De que outra forma podemos explicar as sangrentas campanhas militares que foram travadas por meio dos séculos? Enormes exércitos liderados por Alexandre, o Grande, Júlio César, Napoleão Bonaparte ou Adolf Hitler marcharam para lutar e morrer em campos estrangeiros — não com o propósito de defender sua pátria ou avançar uma determinada causa, mas simplesmente para conquistar e subjugar povos mais fracos. Por que fizeram isso? A motivação dos grandes generais é evidente: voltaram para casa com os despojos de guerra. Mas e as tropas da linha de frente? Elas suportaram terrível privação, soldo baixo, comida inferior, doenças devastadoras e o risco constante de ferimentos ou morte. Em troca, a maioria deles nada recebeu além de uma pequena parte na glória e respeito de seus iguais. Surpreendentemente, isso bastou. Em 1862, depois que o general Stonewall Jackson quase levou as tropas ianques até o Rappahannock, o general confederado Robert E. Lee declarou: “É bom que a guerra seja tão terrível; caso contrário, iríamos
nos afeiçoar demais a ela”.2
Esta sede masculina de conquista resultou não só em numerosas guerras, mas também em feitos ousados e temerários que beneficiaram a humanidade. Resultou na descoberta do Novo Mundo nos séculos 15 e 16 e outras grandes explorações da época. Um exemplo mais recente é descrito no esplêndido livro chamado Endurance [Persistência], escrito por Alfred Lansing. Ele registra uma expedição em 1914 até os confins do mundo. O navio em que viajavam, também chamado Endurance, acabou preso num mar de gelo que esmagou e afundou a embarcação. Os homens ficaram
ali perto numa banquisa enquanto seu único elo com o lar desaparecia.3 Esta história verdadeira descreve os esforços desesperados deles para voltar à Inglaterra. É uma leitura obrigatória. (Escrevi o prefácio de uma edição.)
Em preparação para a viagem, o capitão Earnest Shackleton colocou o seguinte anúncio nos jornais locais: “Procuram-se homens para dever arriscado. Salário baixo. Frio cortante. Longos meses de completa escuridão, perigo constante. Volta em segurança duvidosa. Honra e reconhecimento em caso de sucesso”. A resposta foi fenomenal. Mais de quinhentos homens se candidataram, dos quais 27 foram aceitos. Um clandestino também conseguiu fazer a viagem. Temos de repetir a pergunta: por que tantos homens estavam dispostos a arriscar tudo para tomar parte
nessa perigosa aventura? Acho que sabemos a resposta. 4
É provável que seu filho também possua uma dose deste espírito competitivo e aventureiro. Se você, como pai, compreende e responde a esta natureza, você e seu filho estarão mais em sincronia. Para começar, você deve ensiná-lo não só a ganhar, como também a perder graciosamente. Um bom meio de fazer isso é supervisionando cuidadosamente a sua participação em esportes organizados, usando jogos como estímulo para o que ensina. Os treinadores e pais devem dar exemplo de espírito esportivo, autocontrole e trabalho em equipe. Devem exibir essas atitudes e ensiná-las às crianças. Os melhores atletas entre eles devem ser proibidos de provocar os meninos menores e menos coordenados. A crueldade não tem lugar no campo de atletismo no mundo dos jovens, embora geralmente exista. Finalmente, os adultos devem resistir vigorosamente à ideia de “ganhar a qualquer custo”, que se tornou tão comum nos esportes organizados para crianças. É vergonhosa a maneira como pais e treinadores agem diante de meninos e meninas. Você pensaria que um campeonato nacional estava sendo travado.
Um artigo em manchete no jornal The New York Times descreveu recentemente o comportamento assustador de pais cujos filhos estão competindo no futebol, beisebol e basquete. Os árbitros, disse o escritor, estão pedindo demissão em números recorde devido à violência a que são geralmente sujeitos. As mães e os pais gritam, ridicularizam, cospem e brigam quando as decisões são contra seus filhos e suas filhas. O comportamento deles recebeu até um nome: raiva das arquibancadas. Um árbitro que pendurou há pouco seu apito disse que estava cansado de ouvir os espectadores gritarem: “Tire seu corpo gordo do campo”, “Você está cego”, “Você só quer dinheiro” e “Meu filho está de coração partido por sua causa”. Cerca de 15% dos jogos da juventude envolvem algum tipo de violência verbal dos pais ou treinadores,
comparados com 5% há cinco anos. É um quadro desanimador.5
Sua atitude como pai vai moldar o comportamento futuro de seu filho. Se ele vir você agindo como menino malcriado, gritando com o árbitro ou bandeirinha, caçoando dos outros jogadores e tendo ataque de nervos quando as coisas dão errado, seu filho vai comportar-se do mesmo jeito. Você deve lembrar-se do que está tentando ensinar seu filho mediante os esportes organizados. Vencer nessa idade não é nada; ensinar seu filho a lidar adequadamente com a sua ira, desapontamento e frustração é tudo. Isto não significa que você deve fazer pouco ou ignorar os sentimentos dele nos momentos difíceis. De fato, você nunca deve subestimar como seu filho se sente mal quando não tem bom desempenho nas coisas que considera importantes. A questão não é só que ele tenha perdido, mas que ficou constrangido por ter falhado. Isso fere o seu coração. Deixe que seu filho fale sobre a experiência e ajude-o a compreender que haverá ganhos e perdas pelo resto da sua vida. Os pais devem contar sobre as vezes em que eles jogaram bem e outros dias em que fracassaram. Ao fazer isso, o pai estará dando exemplo de como lidar com cada resultado. Rudyard Kipling, em seu grande poema “se”, referiu-se tanto ao desastre
como ao triunfo como “impostores”.6 Há sabedoria nisso. Nossos sucessos não são tão maravilhosos quanto parecem, nem os fracassos tão terríveis como parecem na ocasião.
A maneira como vocês pais reagem aos momentos penosos vai torná-los melhores ou piores. Meu amigo Dick Korthals contou uma história sobre sua ida a um show de cães que ilustra a abordagem apropriada. Como parte da competição, cerca de uma dúzia de cães tiveram ordem de “Pare!” e tinham de ficar como estátuas durante oito minutos, enquanto os donos saíam do ringue. Os juízes davam notas em relação à compostura deles durante a ausência dos donos. Depois de cerca de quatro minutos, Dick notou um cachorro na extremidade, um magnífico pastor alemão chamado Jake. Ele parecia estar perdendo a pose, deixando-se cair lentamente no chão. Quando o treinador voltou, o pobre Jake estava deitado sobre o estômago, com a cabeça entre as patas. Jake notou imediatamente a decepção nos olhos do dono e começou a arrastar-se de barriga na direção dele. Todos estavam esperando que o treinador repreendesse o cão pelo seu mau desempenho. Mas, em vez disso, ele abaixou-se, pegou a cabeça do cachorro nas mãos e disse depois com um sorriso: “Tudo bem, Jake. Vamos melhorar da próxima vez”. Foi um momento muito tocante.
Há uma lição aqui para todo pai, não só com relação aos esportes, mas a tudo o mais. As crianças vão nos desapontar. Essa é uma parte inevitável da juventude. Quando o fizerem, nossa reação natural será gritar com elas: “Por que você fez isso?” e “Como pôde ser tão idiota?”. Mas, se formos sábios, vamos lembrar que se trata apenas de pequenos seres humanos imaturos como costumávamos ser. Há ocasiões em que devemos dizer com amor e cordialidade: “Não faz mal, filho. Você vai fazer melhor da próxima vez”.
Este é mais um conselho que talvez seja considerado também controverso: acho um grande erro pedir aos meninos que entrem em competição com as meninas em esportes de equipe. O sociólogo George Gilder explica a razão. Ele acredita que esportes coeducacionais desmoralizam e desanimam os meninos mais fracos, sem ajudar as meninas. Este ponto de vista contraria o que está acontecendo em muitas escolas americanas onde a educação física coeducacional é comum. Gilder disse: “Isto não passa de uma idiotice que surpreenderia qualquer antropólogo que saísse da floresta para observar o comportamento peculiar dos americanos em nossa
sociedade”.7 Concordo plenamente.
Apresso-me em dizer que as meninas precisam tanto de oportunidades atléticas quanto os meninos, e que os esforços recentes nos Estados Unidos para abrir essas portas para meninas e mulheres têm sido recomendáveis. Ao mesmo tempo, porém, os rapazes perderam algo valioso no processo. Os esportes têm sido o domínio dos homens durante séculos. No ginásio e no campo de atletismo, eles encontraram uma válvula de escape para a identidade masculina e o orgulho pessoal. Essas coisas continuam disponíveis para eles, é claro, mas esse mundo foi invadido e, de algumas formas, dominado. De fato, os sexos começaram a tentar sobrepujar um ao outro.
Em 1999, depois de as mulheres americanas terem vencido a Copa Mundial de Futebol, foi colocada na capa do exemplar de 19 de julho da revista Newsweek uma grande faixa proclamando: “As Mulheres Dominam”. Em destaque puseram uma fotografia de Brandi Chastain toda musculosa em seu momento de vitória sobre a equipe chinesa, quando ela subitamente tirou a camisa, caiu de joelhos, fechou os punhos e gritou em triunfo. O editorial da revista explicava a manchete: “Dos campos suburbanos do futebol veio um novo grito de batalha: As Mulheres
Dominam”. 8 Descrevia também anúncios patrocinados pela Gatorade, que destacava o tema: “Posso fazer melhor”, destacando outra jogadora do time, Mia Hamm, em oposição à estrela da NBA Michael Jordan. Os dois superastros participaram de uma série de competições esportivas, desde tênis até artes marciais, e Mia se igualou a Michael passo a passo. Rick Burton, professor da Universidade de Oregon, declarou o seguinte: “Temos o maior ícone dos esportes norte-americanos
colocado ao lado dessa mulher que está dizendo: ‘Posso vencer você’”.9
Eu comemorei a vitória dos Estados Unidos no futebol quando aconteceu e, de fato, minha mulher e eu ficamos assistindo e aplaudindo durante o evento televisionado. Mia e suas companheiras mereceram os elogios feitos a elas pelo seu desempenho. Há, porém, algo que me perturba na maneira como a competição foi descrita. Colocar homens e mulheres um contra o outro é um erro. Ao proclamar: “As Mulheres Dominam”, temos de perguntar sobre quem elas dominam agora. Sobre os homens? A implicação é que os homens foram “destronados”, o que quer que isso signifique. Nossa cultura politicamente correta afirma aos jovens do sexo masculino de centenas de maneiras que eles são inferiores.
Como eu mudaria esta situação se pudesse? Não sei. Estou em conflito quanto a isso. Sou pai de uma filha que participou de corridas e outros eventos esportivos e reconheço o valor dessas atividades para as meninas e mulheres. Os esportes organizados não seriam acessíveis a elas há uma ou duas décadas, e isso teria sido lamentável. Só desejo que houvesse mais coisas que os homens pudessem fazer para definir a sua masculinidade. Uma a uma, áreas que antes eram únicas desapareceram até que não restasse quase nada que identificasse a virilidade. Nem mesmo o combate é responsabilidade exclusiva do homem hoje. Muitos aspectos da nossa cultura se tornaram unissexuais. Não é de admirar que os meninos tenham só uma vaga ideia do que significa ser homem.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Meu filho fez um teste para a equipe de basquete quando estava no segundo ano do ensino médio. Quando não conseguiu entrar, Josh ficou tão magoado e constrangido que nunca mais competiu. Ele é um atleta natural e poderia ter-se saído bem em vários esportes, mas não tem a confiança necessária para tentar. O senhor tem alguma sugestão?
O grande arremessador de beisebol Orel Hershiser foi entrevistado em nosso programa de rádio há alguns anos e contou uma história sobre a sua primeira experiência em esportes competitivos. Você talvez queira contar esta história a seu filho como pano de fundo para uma discussão sobre não desistir.
Orel disse que, quando estava na escola, tinha peito côncavo e podia “segurar a bola de basquete” com os ombros. Ele se considerava um “inseto rastejante” que não conseguia sequer uma namorada e tinha baixíssima autoestima. Todavia, este é o mesmo homem ao qual o gerente do L. A. Dodger, Tommey Lasorda, daria mais tarde o apelido de “Buldogue” por ser um competidor tão ardente. O que fez a diferença entre o fato de ser perdedor ou ganhador? Orel disse que foi por não ter desistido. Continuou tentando. Ele me contou que, se tivesse fracassado no beisebol, acredita que teria conseguido em algum outro esporte, porque sempre foi esforçado,
alguém que “tenta”, alguém que “faz”. 10
Essa mesma atitude poderia transformar seu adolescente num campeão. Há alguma coisa que ele pode fazer adequadamente. Descubra o que é, talvez com a ajuda de um técnico ou de um treinador, e insista que persevere. Ele talvez não venha a ser uma estrela da Série Mundial como Orel Hershiser, mas, por outro lado, talvez seja.
Meu filho é o do meio numa família de três meninos e ele parece estar mais “perdido” do que os outros dois. Há alguma coisa nessa posição na família? Nem todo filho do meio tem dificuldade para se encontrar, mas alguns têm. Seu filho pode ser um deles. O desconforto resulta do fato de que não gosta da posição do mais velho nem da atenção dada ao mais novo. Quando chegou à idade em que começou a andar ou logo depois, seu território foi invadido por um esperto recém-nascido que roubou a mamãe dele. É de admirar que todo filho do meio pergunte frequentemente: “Quem sou eu e qual meu lugar na vida?”.
Eu gostaria de recomendar que você assegure a identidade de todos os seus filhos, especialmente o do meio. Dê atenção a cada um de seus filhos todas as semanas, um de cada vez. Você pode jogar futebol, jogar basquete, comer pipocas ou pizza, ou visitar uma pista de skate. Não importa o que façam juntos, desde que seja algo que esse filho em particular goste e envolva só vocês dois. A escolha deve ser feita pela criança de quem é a vez.
O objetivo é novamente planejar atividades que enfatizem a individualidade de cada filho em separado de sua identidade no grupo. Aquele que mais necessita desta distinção é quase sempre o do meio. O seu pode ser um deles.