Educando Meninos
3. Qual é então a diferença?
3 Qual é então a
diferença?
VAMOS VOLTAR AGORA PARA as perguntas feitas no primeiro capítulo: “O que faz os meninos agirem como agem?”, “Que força interior os impele a oscilar à beira do desastre?” e “O que existe no temperamento masculino que leva os meninos a tentarem as leis da gravidade e ignorarem a voz do bom-senso aquela que diz: ‘Não faça isso, filho!’”. Poderíamos também perguntar por que os meninos tendem a ser competitivos, agressivos, afirmativos e a gostarem de carros, caminhões, armas e bolas. As respostas a cada uma dessas perguntas podem ser encontradas em três aspectos e processos físicos que operam internamente, como descrito a seguir. Fique comigo agora, porque a informação técnica fornecida pode não fazer vibrar o seu coração, mas é muito importante para a sua compreensão dos meninos.
O primeiro fator a ser considerado é o hormônio testosterona, em grande parte responsável pela virilidade (embora quantidades menores dele ocorram nos corpos das meninas e mulheres). Ele aparece seis ou sete semanas depois da concepção,
quando todos os embriões são tecnicamente “femininos”.1 É quando uma dramática injeção de testosterona ocorre naqueles que herdaram um cromossomo “Y” (ou masculino). Ele começa a masculinizar seus pequeninos corpos e os transforma em meninos. Num sentido real, este “banho hormonal”, como é algumas vezes chamado, na verdade danifica o cérebro em forma de noz e altera de vários modos a sua estrutura. Até a sua cor muda. O corpo caloso, que é o cordão de fibras nervosas que liga os dois hemisférios, fica menos eficiente. Isso limita o número de transmissões elétricas que podem ir de um lado do cérebro para o outro, e isto terá implicações vitais.
Mais tarde, o homem terá de refletir mais tempo sobre aquilo em que crê — especialmente sobre algo com um componente emocional. Ele pode nunca vir a compreender isso plenamente. A mulher, por outro lado, será tipicamente capaz de acessar sua experiência anterior de ambos os hemisférios e discernir quase instantaneamente como se sente a respeito dela.
Outra consequência desta inundação de testosterona no período pré-natal é a localização do desenvolvimento da linguagem. No homem destro, ela fica quase sempre isolada no hemisfério esquerdo do cérebro. Na mulher, é mais bem distribuída de ambos os lados. Por esta razão, ela será provavelmente mais articulada do que ele desde a tenra infância. Aprendi isso da maneira mais difícil. Tive um derrame em 1998, resultado de um pequeno coágulo de sangue que ficou preso ao lóbulo temporal esquerdo acima de minha orelha. Ele interferiu totalmente na minha capacidade para falar, escrever ou até pedir um copo com água. O neurologista disse que eu perdera o que é chamado de “córtex da eloquência”, ou a área do cérebro responsável pelo pensamento complexo e criativo. Graças à oração, alguns médicos maravilhosos e um remédio milagroso chamado TPA, recobrei-me quase inteiramente em 24 horas. Se o derrame tivesse ocorrido antes de o TPA ter sido descoberto, alguns anos antes, eu provavelmente teria sido sentenciado a um mundo de silêncio — pelo menos até ter-me submetido à terapia intensa da fala. Meu ponto é que minha capacidade de falar está obviamente localizada nessa pequena seção do cérebro esquerdo. Uma mulher com o mesmo distúrbio, entretanto, poderia ter retido alguma proficiência verbal. Em vista das funções cerebrais mais difusas, as mulheres retêm melhor do que os homens a compreensão da fala depois de um derrame, e pode ser demonstrado que num futuro próximo elas vão preservar a
capacidade motora da fala após o derrame pela mesma razão.2 A vida não é nada justa.
O impacto da testosterona terá muitas outras influências profundas sobre a mente e o corpo do rapazinho em desenvolvimento. De fato, ela vai afetar cada um de seus pensamentos e atos pelo resto da vida. Outra inundação de testosterona vai ocorrer no início da puberdade, e o transformará de menino em homem. (Depois da puberdade, a testosterona nos homens é quinze vezes maior do que nas mulheres, e o
estrogênio nas mulheres é de oito a dez vezes maior do que nos homens.)3 Esta segunda explosão hormonal é a principal responsável pelo súbito aparecimento de pelos faciais e púbicos, voz esganiçada, espinhas no rosto, músculos maiores, despertar sexual e, eventualmente, outras características da masculinidade adulta.
Essas substâncias poderosas, referentes não só à testosterona como também ao hormônio feminino estrogênio, são responsáveis por pelo menos parte do comportamento estranho que enlouquece os pais. Elas explicam por que um menino ou menina feliz e prestativo(a) de 12 anos pode transformar-se subitamente em um adolescente emburrado e deprimido aos 13. A química humana parece perder o rumo durante algum tempo. Existe uma tendência por parte dos pais de se desesperar durante este período porque tudo o que tentaram ensinar parece não ter dado certo. Autodisciplina, limpeza, respeito pela autoridade, ética do trabalho e até a cortesia comum podem parecer causas perdidas por vários anos. Mas dias melhores estão por vir. Os mecanismos que incendeiam os garotos vão eventualmente esfriar. É por esse motivo que recomendo que não se apresse em buscar a pessoa em que seu filho vai tornar-se. É por essa razão também que acredito que os pais devem procurar “apenas ajudá-los a atravessar essa fase”, em vez de tentar corrigir tudo o que os incomoda como pais.
O fluxo de hormônios durante o período pré-natal e novamente no início da adolescência pode não ser um conceito novo para você. O que é geralmente menos compreendido é que o motor masculino e, num grau menor, a fisiologia feminina, continuam a ser abastecidos pela testosterona durante a vida inteira. Veja como isto foi descrito num artigo fascinante escrito por Andrew Sullivan e publicado no The New York Times.
O HORMÔNIO DELE
A testosterona [T] está claramente associada nos homens e nas mulheres com o domínio psicológico, a fisicalidade confiante e autoestima elevada. Nos ambientes mais combativos, competitivos, especialmente os físicos, a pessoa com mais testosterona vence. Coloque dois homens quaisquer juntos num aposento e o que tem mais testosterona tenderá a dominar a interação. As mulheres que trabalham têm níveis mais altos de testosterona do que as que ficam em casa, e as filhas de mulheres que trabalham têm níveis mais altos de testosterona do que as donas de casa. Um estudo realizado em 1996 descobriu que nos casais lésbicos em que um dos parceiros assume o papel de “homem” ou “sapatão”, e o outro assume o papel de mulher ou “fêmea”, a mulher “sapatão” tem níveis mais altos de testosterona do que a “fêmea”. Nos testes médicos da Marinha, os estudantes da academia naval apresentam níveis mais elevados de testosterona do que os calouros. Os atores tendem a ter mais testosterona do que os ministros, segundo um estudo de 1990. Entre setecentos presos do sexo masculino num estudo de 1995, os com níveis T mais elevados tendiam a ser os que entravam em mais problemas com as autoridades prisionais e que se envolviam em atos de violência não provocada. Isto se aplica tanto às mulheres como aos homens, segundo um estudo de 1997, de 87 internas numa prisão de segurança máxima.
Embora os níveis altos de testosterona estejam no geral em correlação com
o domínio nos relacionamentos interpessoais, isto não garante mais poder social. Os níveis de testosterona são, por exemplo, mais elevados entre os empregados de colarinho azul (operários) do que entre os de colarinho branco (funcionários administrativos), segundo um estudo de mais de 4.000 exemplares conduzido em 1992. Um estudo de 1998 descobriu que os advogados de acusação — com seu costume de combater, entrar em conflito e ares superiores — têm níveis mais altos de T do que os demais jurisconsultos. É até possível dizer quem ganhou uma partida de tênis, não por assistir ao jogo, mas por monitorar amostras de saliva com testosterona durante a partida inteira. O vencedor de qualquer jogo vê sua produção T subir; o perdedor a vê cair. O vencedor experimenta um surto de testosterona pós-jogo, enquanto o perdedor assiste a um colapso. Isto é verdade até para os que assistem a jogos esportivos. Um estudo de 1998 descobriu que os fãs que apoiavam o lado vencedor num jogo de basquete da faculdade e num jogo de futebol americano viram subir seus níveis de testosterona; os fãs que torciam pelos times perdedores nos dois jogos viram seus níveis caírem. Ao que tudo indica, existe algo como uma testosterona vicária.
Então, esta é a conclusão: a testosterona é um facilitador do risco físico,
criminal, pessoal. Sem a influência da testosterona pode parecer que o custo desse risco excede em muito os benefícios. Mas, com a testosterona comandando o cérebro, a precaução é atirada ao vento. A influência da
testosterona pode não levar sempre ao confronto físico aberto. Em homens com muitas opções, ela pode influenciar a decisão de investir dinheiro num empreendimento duvidoso, manter um caso sexual pouco recomendável ou contar uma clamorosa mentira. Na ocasião, todas essas decisões podem fazer
algum tipo de senso “testosteronado”.4
Essas conclusões foram extraídas de vários estudos científicos, embora alguns deles devam ser considerados preliminares. Há muito ainda a ser aprendido em relação à química do cérebro. Não existem dúvidas, porém, de que há um elo entre os hormônios e o comportamento humano. A testosterona, em particular, lidera o interesse masculino na corrida de carros, futebol profissional, hockey, basquete, luta livre, caçadas, pescaria, iatismo, alpinismo, armas de fogo, pugilismo, caratê etc. Muitas mulheres também apreciam essas atividades, mas um número muito menor delas se preocupa com elas ou é obcecada por elas. A testosterona, claramente, desempenha um papel no fato de que a vasta maioria dos crimes violentos são cometidos por homens, e que as prisões são ocupadas por um número vastamente desproporcional de indivíduos do sexo masculino.
Até mesmo na antiguidade já era sabido que certos comportamentos “indesejáveis” dos homens estavam de alguma forma ligados aos testículos. Os escravos e prisioneiros de guerra do sexo masculino eram transformados em eunucos (pela castração). Isto era feito para que perdessem o interesse sexual nas mulheres da realeza e para que tivessem menos probabilidade de agir com violência na corte do rei. Funcionava. Fazemos a mesma coisa hoje com cavalos, touros, carneiros e outros animais machos domesticados. Seu comportamento agressivo diminui quando o fluxo de testosterona é interrompido. Quando os níveis são altos, como durante a época de acasalamento, os machos costumam envolver-se em lutas ferozes e algumas vezes mortais.
Nos humanos, a testosterona é responsável, pelo menos em parte, pelo que poderia ser chamado de “predomínio social”. Gregg Johnson escreveu: “Entre as 250 culturas estudadas [pelos antropólogos], os machos dominam em quase todas. Os homens são quase sempre os que estabelecem as regras; são os caçadores, construtores, inventores de armas, trabalhadores em metal, madeira ou pedra. As mulheres são principalmente as que cuidam dos afazeres domésticos e as mais envolvidas na criação dos filhos. Suas atividades se concentram na manutenção e cuidado da casa e da família. Elas se dedicam mais vezes à fabricação de louça de barro, cestos, roupas e cobertores. Recolhem madeira, fazem conservas e preparam alimentos, transportam lenha e água. Colhem e moem cereais. Os dados apontam
para predeterminantes biológicos de comportamento relacionados com o gênero”. 5
Esta “predeterminação” biológica continua ativa nas nações sofisticadas e modernas? A evidência indica que sim. Depois de trinta anos de influência feminista e programas de ação afirmativa, só existem hoje sete funcionárias executivas em cargos de chefia entre as empresas da Fortune 500, nos Estados Unidos. É verdade,
493 são homens.6 Dentre os cem senadores norte-americanos, só onze são
mulheres. 7 Os Estados Unidos tiveram 43 presidentes, todos eles homens. A Organização Nacional de Mulheres salientou essas discrepâncias para “provar” o patriarcado e a discriminação que prevalecem na cultura. A explicação mais provável, todavia, é bioquímica e anatômica. Os homens, em cujo corpo o fluxo de testosterona é de dez a vinte vezes maior que nas mulheres, têm mais probabilidade de buscar riqueza, poder, fama e posição, em vista de serem impelidos nessa direção por forças internas. As mulheres, por outro lado, preferem ter filhos, o que as tira da corrida competitiva por algum tempo. Há exceções, é claro, mas as tendências óbvias são difíceis de negar.
As influências hormonais não só motivam o impulso pelo poder nos humanos, elas também causam impacto sobre nosso relacionamento mútuo. Quando vários homens se reúnem num local de tiro ao pombo, eles tendem a se concentrar em atingir o alvo seguinte. Brincam e conversam entre si, mas ganhar é o objetivo. As mulheres, em contraste, tendem a rir e aplaudir com entusiasmo os “acertos” umas das outras. Elas estão mais interessadas em relacionamentos do que em vencer. Essa diferença é vista em diversos ambientes. Considere a maior rivalidade no tênis profissional feminino na década de 1980, que em oitenta ocasiões colocou Chris Evert diante de Martina Navratilova. Veja como Martina descreveu sua amizade naquela época: “Sempre tivemos muito respeito em relação às vitórias da outra, e tristeza. Depois de uma partida, eu ia até ela e a consolava, outras vezes era ela quem me consolava. Ou me deixava um bilhete, ou eu lhe enviava um bilhete. Você sabe, só ‘Sinto muito’ ou outra coisa qualquer. ‘Tenho certeza de que vai ganhar da próxima vez.’ Nós os deixávamos nas nossas bolsas no vestiário. De vez em quando
oferecíamos champanhe uma à outra. Era tudo muito civilizado”. 8
Compare essa civilidade com a relação entre Jimmy Connors e John McEnroe durante os anos em que estiveram ao sol. John escreveu isto sobre as suas tiradas na lateral das quadras em seu livro Playing with Pure Passion:
Eu ficava eventualmente tão enfurecido que acreditava realmente estar fazendo a coisa certa. Mais tarde, tornou-se quase um vício, como não conseguir deixar de fumar. Acho que as pessoas estavam do meu lado. Sou um sujeito honesto e não um impostor. Quando estamos na quadra e faz 40 graus lá fora e um indivíduo está lançando bolas a 160 km por hora, no calor do momento você diz coisas diferentes das que diria quando se acalma mais tarde. Em meu primeiro torneio de Wimbledon, quando cheguei às semifinais e joguei com Jimmy [Connors], ficava aborrecido só de estar no mesmo vestiário e pensar que me venceria. Se olhares pudessem matar, eu estaria estendido no chão. Compreendi que há um jogo antes de chegar à quadra. Falar com a imprensa era algumas vezes mais difícil do que jogar. Naquela época, o Jimmy me intimidava. Mais tarde, porém, quando venci minha primeira grande partida, percebi que ou os jogadores eram muito piores do que eu pensava, ou eu é que
era muito melhor.9
Você pode imaginar John deixando um bilhete na mala de Jimmy, dizendo: “Sinto muito que você perdeu”, “Tenho a certeza de que vai pegar-me da próxima vez”? De jeito algum. A competição para eles não era apenas uma partida de tênis, era uma luta de titãs num campo de batalha. Nem todos os atletas do sexo masculino são tão explosivos quanto Connors e McEnroe, e algumas mulheres podem ser também bastante malcriadas na quadra. Mas o impulso competitivo dos atletas do sexo masculino tem mais probabilidade de manifestar-se na forma de confrontos. Eu costumava jogar basquete com um ex-jogador do time All American, que é uma das pessoas mais agradáveis que conheço. Ele lhe daria literalmente a camisa que usava. Mas, ao entrar na quadra, tornava-se mesquinho. Humilhava você caso fosse possível — e geralmente era. Eu costumava provocá-lo por causa do “fino verniz de civilização” que desaparecia quando estava no calor da disputa. Com certeza havia grandes doses de testosterona e adrenalina correndo em suas veias masculinas.
E sobre os meninos? Se o “hormônio masculino” pode ter este tipo de influência em homens adultos, como ele afeta o comportamento dos jovenzinhos? Do mesmo modo. A maioria dos especialistas acredita que a tendência dos meninos para correr riscos, ser mais afirmativos, brigar, competir, discutir, vangloriar-se e brilhar em certas habilidades, tais como solução de problemas, matemática e ciências, está diretamente ligada à maneira como o cérebro é formado e à presença da testosterona. Isto pode explicar por que os meninos têm “formigas nas calças” quando estão na sala de aula e por que as professoras os chamam de “bicho carpinteiro”. O problema é que os meninos são ensinados num ritmo tal que se torna difícil para eles ajustar-se. A testosterona também explica o desejo precoce dos meninos de serem o mais forte, o mais valente, o melhor atirador do grupo. Foi assim que Deus os fez.
SEROTONINA
Vamos examinar brevemente outro hormônio que afeta o comportamento humano. Seu nome é serotonina e carrega informação de uma célula nervosa para outra, sendo, por esse motivo, também chamado de “neurotransmissor”. O propósito da serotonina é apaziguar ou aliviar as emoções e ajudar o indivíduo a controlar seu comportamento impulsivo. Ela facilita também o bom-senso. Estudos em macacos na floresta revelaram que os com baixos níveis de serotonina tinham mais probabilidade de dar saltos perigosos de galho em galho. (Parecem muito com os homens, não é?) Os ratos com níveis inadequados de serotonina tendiam a ser mais agressivos e violentos. Os estudos da coluna espinhal de assassinos indicaram que muitos deles têm níveis baixos deste hormônio, assim como os incendiários e os de temperamento irascível. A depressão e as tendências suicidas estão relacionadas com
a insuficiência de serotonina.10
Se a testosterona é o combustível que faz funcionar o cérebro, a serotonina reduz a velocidade e ajuda a pessoa a dirigir. E você já adivinhou. As mulheres possuem tipicamente mais dela do que os homens.
A AMÍGDALA
O terceiro aspecto da neurobiologia que nos ajuda a compreender as diferenças entre homens e mulheres diz respeito a uma parte do cérebro conhecida como amígdala. É uma estrutura do tamanho de uma amêndoa que funciona como um pequeno, mas poderoso “computador emocional”. Quando uma ameaça física ou emocional é percebida pelos sentidos, a amígdala imediatamente ordena às glândulas adrenalinas e outros órgãos defensivos que entrem em ação. Isto é feito regulando a liberação de vários hormônios que maximizam as chances nas crises de perigo iminente. Há também evidência de que a amígdala nunca se esquece de um momento de medo, sendo esta a razão pela qual as pessoas que sofrem trauma no geral acham tão difícil
superar suas experiências traumáticas.11
O que torna a amígdala interessante para nós é seu papel de regularizar a agressão. Ela fica situada bem no meio do hipotálamo, na base do cérebro, que é a sede das emoções. Quando a amígdala percebe uma ameaça ou desafio, ela envia impulsos elétricos por meio dos neurônios para o hipotálamo que a deixou de mau humor. Adicione testosterona a essa situação e é criado um potencial para uma reação impetuosa. Quero enfatizar este ponto: a amígdala só pode responder ao que está em seu banco de memória. Ela não pensa ou raciocina, mas emite uma resposta química e elétrica “irracional”, que pode salvar a sua vida numa emergência —
podendo também precipitar a violência e piorar muito as coisas.12
Aqui vamos nós outra vez. A amígdala é maior nos homens do que nas mulheres, o que ajuda a explicar por que os meninos têm mais probabilidade que as meninas de serem explosivos e se envolverem no que o psicoterapeuta Michael
Gurian chamou de “comportamento de risco moral”. 13
Para recapitular, consideramos três componentes essenciais da neurofisiologia masculina: a testosterona, a serotonina e a amígdala. Juntos, eles determinam o que significa ser masculino e por que os meninos são uma “espécie à parte”. Tendo considerado o que poderia ser visto como o lado negativo dessas características, devo apressar-me a dizer que os meninos e homens têm também o seu quinhão de vantagens neurológicas. Em vista da especialização do seu cérebro, os homens são tipicamente melhores que as mulheres em matemática, ciência, relações espaciais, lógica e raciocínio. É por isto que a maioria dos arquitetos, matemáticos e físicos são homens. É também interessante que os homens sejam mais suscetíveis às histórias do que as mulheres. Quando se reúnem, eles compartilham experiências que possuem significado emocional para eles, enquanto as mulheres quase nunca fazem isto. As mulheres falam mais sobre os seus sentimentos em vez de jogar o jogo chamado “Você Consegue Superar Isto?”. Em resumo, os sexos são muito, muito diferentes de maneira que, talvez, nunca venham a ser compreendidos.
E então? A masculinidade é boa ou má? Certa ou errada? Os meninos são biologicamente defeituosos? À primeira vista, pareceria que as meninas têm tudo certo. Elas cometem em média menos erros, aceitam menos riscos, são melhores estudantes, são mais atenciosas com os outros e são menos impulsivas do que os meninos. A testosterona foi um dos grandes erros de Deus? Seria melhor se os meninos fossem mais como as meninas e os homens mais como as mulheres? Os homens deveriam ser feminilizados, emasculados e “maricas”? É justamente isto que algumas feministas e outros liberais sociais parecem pensar e querem que acreditemos. Como vimos, alguns deles estão tentando reprogramar os meninos a fim de torná-los menos competitivos, menos agressivos e mais sensíveis. Essa é uma boa ideia? Absolutamente não. Primeiro, porque isso contradiz a natureza masculina e jamais terá sucesso, e, segundo, porque os sexos foram cuidadosamente destinados pelo Criador para contrabalançar as fraquezas um do outro e satisfazer as necessidades recíprocas. Suas diferenças não são resultado de um erro evolutivo, como é geralmente suposto hoje. Cada sexo tem um propósito único no grande esquema das coisas.
Como foi incrivelmente criativo da parte de Deus colocar uma forma diferente de domínio em cada sexo, a fim de que haja equilíbrio entre ambos! Quando eles se juntam no casamento para formar o que a Escritura chama de “uma só carne”, eles complementam e suplementam um ao outro. Não seria monótono se homens e mulheres fossem idênticos, como afirmaram as feministas? Não é verdade, e graças a Deus que não é.
Considere novamente as tendências básicas da virilidade e da feminilidade. Por ser o privilégio e bênção das mulheres conceber filhos, elas se inclinam para a previsibilidade, estabilidade, segurança, cautela e firmeza. A maioria delas dá valor às amizades e à família acima das realizações e oportunidades. É por tudo isso que no geral não gostam de mudanças e resistem a mudar de uma cidade para outra. O temperamento feminino se presta a nutrir e cuidar, à sensibilidade, ternura e compaixão. Essas são exatamente as necessidades de seus filhos durante seus anos de crescimento. Sem a doçura da feminilidade, o mundo seria um lugar mais frio, legalista e militarizado.
Os homens, por outro lado, foram destinados a um papel diferente. Eles dão valor à mudança, oportunidade, risco, especulação e aventura. Foram destinados a prover fisicamente para suas famílias e protegê-las dos danos e perigos. O apóstolo Paulo disse: “Se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8). Esta é uma designação divina. É ordenado também aos homens na Escritura que exerçam a liderança em seus lares, expressando isto na forma de serviços prestados à família. Os homens são no geral (mas nem sempre) menos emotivos numa crise e mais confiantes quando desafiados. Um mundo sem homens seria mais estático e desinteressante. Quando meu pai morreu, minha mãe disse com os olhos marejados: “Ele trouxe tanto movimento à minha vida”. Essa característica quase sempre atrai as mulheres.
Quando esses temperamentos ligados pelo sexo operam como pretendido na família, eles equilibram e fortalecem os defeitos mútuos. Por exemplo, o homem fica, às vezes, excitado com uma aventura empresarial ou uma ideia que se apresenta. Ele pode usar todos os recursos da família impulsivamente num simples jogo de dados. Sua mulher, por outro lado, vê os riscos. Ela é mais cética e cautelosa. Sua relutância se baseia em certa habilidade para perceber o perigo ou os resultados negativos. Ela é especialmente boa para ler o caráter das pessoas. Uma mulher dirá: “Há algo em Clark (ou Jack, ou Mary) que eu não gosto. Não confio nele”. Ela talvez não possa explicar a razão desse sentimento, mas sua intuição está quase sempre certa. O homem que não leva pelo menos um pouco, em consideração, a perspectiva da esposa está se privando de informação valiosa.
Por outro lado, se a mulher tiver de endossar uma ideia antes que ela fuja, o marido pode perder oportunidades reais que poderiam ser aproveitadas. Há ocasiões em que seu espírito de aventura deveria superar o ceticismo dela. Em resumo, nem a mulher, nem o homem têm o monopólio da verdade. Seus temperamentos individuais foram destinados a moderar um ao outro, não só nas questões de negócios, como também em quase todos os aspectos da vida. Conversei recentemente com certo casal que compreendia muito bem essas inclinações contrastantes. Eles disseram que ele era o “acelerador” e ela o “freio”. Ambos são vitais para a operação segura de um carro. Se tiverem apenas o acelerador, é certo que vão se acidentar. Se tiverem apenas a habilidade de parar, nunca se movimentarão.
Minha mãe e meu pai eram como “yin e yang”. Eles discordavam, respeitosamente, em quase tudo — desde como carregar o carro para a viagem, até o hotel a ser escolhido. Felizmente, eles usavam suas perspectivas diferentes com proveito. Meu pai dizia: “Qualquer proposta que tenha a aprovação de nós dois deve ser muito boa”.
Isso nos leva de volta para a compreensão dos meninos. Lembre-se de que eles são homens em treinamento. Sua natureza agressiva tem um propósito. Ela os prepara para os papéis de “provisão e proteção” que vão desempenhar. Essa positividade também acrescenta cultura quando adequadamente canalizada. Recomendo a vocês pais a não se ressentirem ou tentarem eliminar a natureza agressiva e excitável que pode ser tão irritante. Esse temperamento faz parte do plano divino. Devem celebrá-lo. Agradecer a Deus por ele. Mas devem compreender também que ele precisa ser moldado, formado e “civilizado”. É esse o nosso intento nos capítulos seguintes.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Nosso pediatra nos disse que acredita que nosso filho pode estar sofrendo de TDAH (transtorno do déficit de atenção devido à hiperatividade). O senhor pode dizer-nos o que se sabe sobre este problema?
DDA, ou distúrbio do déficit de atenção, parece ser uma síndrome neurológica herdada que afeta aproximadamente cinco por cento das crianças nos Estados
Unidos.14 Ela se refere a indivíduos que se distraem facilmente, têm baixa tolerância para o tédio ou frustração e tendem a ser impulsivos e caprichosos. Alguns deles são também hiperativos e, portanto, são diagnosticados como tendo TDAH (transtorno do déficit de atenção devido à hiperatividade).
Essas crianças têm um padrão de comportamento que as leva ao fracasso na escola e conflito com os pais. Elas têm dificuldade em terminar tarefas, lembrar-se de detalhes, concentrar-se num livro ou trabalho, ou até permanecer sentadas por mais de alguns minutos. Algumas parecem ser internamente dirigidas enquanto correm desvairadamente de uma coisa para outra. São, no geral, inteligentes e criativas, sendo, todavia, consideradas preguiçosas, destrutivas e terrivelmente desorganizadas. As crianças com TDAH ou DDA quase sempre sofrem de baixa autoestima por terem sido tachadas de irresponsáveis ou anarquistas que se recusam a seguir as regras. Elas no geral têm poucos amigos, porque conseguem enlouquecer quase todo mundo — até os de sua própria idade.
Como posso saber se meu filho tem TDAH?
Não é recomendável tentar fazer um diagnóstico do próprio filho ou filha. Há muitos outros problemas, psicológicos e físicos, que podem causar sintomas similares. Desordens da tireoide, por exemplo, podem tornar a criança hiperativa ou preguiçosa; a depressão e a ansiedade podem causar a desatenção associada à DDA. Portanto, você deve ter a assistência de um médico, um especialista em desenvolvimento infantil, ou um psicólogo que possa confirmar o diagnóstico.
Se observar em seu filho os sintomas que descrevi, recomendo que ele seja examinado por um profissional. Repito, você não deve fazer o diagnóstico de seu filho! Quanto mais cedo puder levá-lo a um profissional especializado nesta área será melhor.
O que causa o distúrbio de déficit de atenção?
Acredita-se que seja herdado. Russell Barkley, do Centro Médico da Universidade de Massachusetts, calcula que 40% das crianças com DDA (e, por implicação, TDAH) têm um dos pais com sintomas similares, e 35%, um irmão ou irmã afetados. Se um gêmeo idêntico é afetado, as probabilidades são entre 80% e 92% de que o outro também o será. A DDA é de duas a três vezes mais provável de ser diagnosticada
nos meninos do que nas meninas.15
A causa da DDA é desconhecida, sendo, porém, provavelmente associada a leves diferenças na estrutura do cérebro, nas vias nervosas, química, suprimento sanguíneo ou sistema elétrico. Enquanto escrevo, algumas hipóteses interessantes estão surgindo, embora conclusões definitivas não tinham sido ainda alcançadas.
Ouvi falar que a DDA é controversa e que pode até não existir. O sr. evidentemente discorda.
Discordo, embora o distúrbio tenha se tornado moda e tende a ser excessivamente diagnosticado. Mas, quando a criança tem realmente este problema, asseguro-lhe de que seus pais e professores não têm de ser convencidos disso.
A DDA desaparece quando as crianças crescem? Costumávamos acreditar que o problema era eliminado com o início da puberdade. Foi isso que aprendi no ensino médio. Sabe-se agora que a DDA é uma condição para a vida inteira, geralmente influenciando o comportamento desde o berço até a sepultura. Alguns adultos com DDA aprendem a ser menos desorganizados e impulsivos com a idade. Eles canalizam a sua energia para as atividades esportivas ou profissões em que funcionam bem. Outros têm dificuldade em estabelecer-se numa carreira ou manter o emprego. A persistência permanece um problema, pois eles esvoaçam de uma tarefa para outra. São particularmente inadequados para o trabalho de escritório, posições contábeis ou outros serviços que exijam atenção aos detalhes, longas horas sentados e a capacidade de jogar muitas bolas ao mesmo tempo.
Outra consequência da DDA na adolescência e idade adulta é a ânsia de envolver-se em atividades arriscadas do tipo que descrevi neste capítulo. Mesmo quando crianças, as pessoas com DDA são inclinadas aos acidentes. Quando ficam mais velhas, subir em pedras, bungee jumping, corridas de carro, andar de motocicleta, fazer rafting e atividades afins estão entre as suas ocupações favoritas. Os adultos com DDA são algumas vezes chamados de “viciados em adrenalina” por estarem obcecados pelos “altos” produzidos pelo fluxo de adrenalina associado com o comportamento perigoso. Outros são mais suscetíveis ao uso de drogas, alcoolismo e outros comportamentos viciados. Cerca de 40% das pessoas com DDA serão
presas aos 18 anos de idade.16
Alguns dos possuidores de DDA apresentam também um risco maior para o conflito conjugal. Pode ser muito irritante para um marido ou esposa compulsivo, altamente organizado, ter como cônjuge um “desordeiro” — alguém cuja vida é caótica e que se esquece de pagar as contas, consertar o carro ou manter documentos para o imposto de renda. Um casal assim, geralmente, precisa de aconselhamento profissional para ajudá-los a aprender a trabalhar juntos e tirar proveito dos pontos positivos um do outro.
Que tipo de tratamento existe?
O tratamento envolve uma série de fatores, começando com a educação. O adulto com DDA fica no geral muito aliviado ao saber que tem uma condição identificável e que pode ser tratada. O dr. Robert Reid, da Universidade de Nebraska, a chama de “rótulo do perdão”. Ele declarou: “Os problemas da criança não é a falta dos pais,
dos professores, nem dela própria”.17 Estas são boas notícias para a pessoa que ouviu durante toda a sua vida que é tola, idiota, preguiçosa, detestável, “estraga-prazer”.
O primeiro passo para reconstruir o autoconceito de um adulto é então compreender as forças que operam internamente. Meu conselho para esse indivíduo e sua família é ler, ler, ler!
O senhor se preocupa com a ideia de o remédio Ritalina e outros serem receitados em excesso? Devo hesitar em dá-los a meu filho de 10 anos muito hiperativo? Eu realmente me preocupo em dar essas drogas por capricho e pelas razões erradas.
Há relatórios de algumas classes onde até 10% das crianças as estão tomando.18 Esse é um enorme sinal vermelho. Remédios com receita têm sido usados como uma panaceia para todos os tipos de comportamento. Isso é lamentável. Suspeito que alguns pais e professores medicam as crianças rebeldes porque deixaram de discipliná-las como deviam ou porque preferem vê-las sedadas. Todo medicamento tem efeitos colaterais indesejáveis e só deve ser administrado depois de cuidadosa avaliação e estudo. O Ritalin, por exemplo, pode reduzir o apetite e causar insônia em alguns pacientes. Não obstante, é considerado notavelmente seguro.
Se o seu filho foi avaliado e diagnosticado como tendo DDA por um profissional experiente no tratamento deste problema, aceite então sem hesitar sua receita para um medicamento apropriado. Algumas mudanças comportamentais dramáticas podem ocorrer quando a substância certa é identificada para uma determinada criança. Um menino que fica sentado olhando para longe ou outro que trepa em paredes estão desesperadamente necessitados de ajuda. Dar a esse indivíduo o controle mental interno e concentrado é uma bênção. A medicação muitas vezes funciona exatamente desse modo quando o diagnóstico adequado é feito.
Acredito pessoalmente que alguns dos meninos sob suspeita de DDA e TDAH não têm o distúrbio. Pelo contrário, seus sintomas são causados por terem sido tirados da segurança de suas casas e colocados em situações de aprendizado estruturadas antes de estarem prontos. Se permitirmos que esses meninos imaturos fiquem em casa mais um ano ou dois, penso que a incidência de meninos irrequietos
e desatentos diminuirá. 19