Educando Meninos
5. O pai essencial
VIMOS QUE OS MENINOS estão em grandes dificuldades hoje e que muitos deles estão sofrendo pressão emocional que contribui para a violência, abuso de drogas, atividade sexual precoce e outras formas de comportamento rebelde. Até alguns adolescentes que seguem as regras e parecem estar bem, na verdade se acham lutando silenciosamente com problemas de identidade e significado. A favor deles e para os meninos menores que ainda não se defrontaram com essas dificuldades, precisamos examinar as forças específicas que criaram tais ambientes pouco sadios para as crianças e, mais importante, o que fazer a respeito.
A principal das ameaças para esta geração de meninos é a dissolução da família. Todas as outras dificuldades que vamos considerar foram causadas por esta tragédia fundamental ou estão relacionadas com ela. Toda ênfase que lhe dermos nunca será demais. Temos salientado há anos que os casamentos estáveis, que duram a vida inteira, fornecem a base para a ordem social. Tudo que é de valor descansa sobre esse suporte. Historicamente, quando a família começa a se desintegrar numa dada cultura, tudo, desde a eficiência do governo até o bem-estar geral do povo, sofre um impacto negativo. É justamente isto que está acontecendo conosco atualmente. A família está sendo golpeada e destruída pelas forças ao seu redor. Alcoolismo, pornografia, jogo, infidelidade e outras infecções virulentas se insinuaram em sua circulação sanguínea. O divórcio consensual continua sendo a lei em vigor na maioria dos estados, resultando em milhares de rompimentos familiares desnecessários. Está claro que o lar se encontra com problemas. Como todos sabemos, os filhos é que estão sofrendo mais. Nas culturas onde o divórcio passa a ser comum ou grande número de homens e mulheres escolhem viver juntos ou manter relações sexuais sem preocupação em casar-se, um número incalculável de crianças são apanhadas no caos.
Se me permitirem oferecer minha opinião, por mais exagerada que pareça, creio que o futuro da civilização ocidental depende de como vamos lidar com esta crise atual. Por quê? Porque os pais estão criando a próxima geração de filhos que ou vão liderar com honra e integridade, ou abandonar tudo de bom que herdaram. Eles são a ponte para o futuro. As nações povoadas em sua maioria por homens imaturos, imorais, de vontade fraca, covardes e autoindulgentes não podem e não vão durar muito. Esses tipos de homens incluem os que geram e abandonam seus filhos; são infiéis à esposa; mentem, roubam e cobiçam; odeiam seus conterrâneos e não servem a outro deus senão ao dinheiro. Esta é a direção para a qual a cultura está levando os meninos atuais. Devemos fazer o investimento necessário para contrariar essas influências e edificar em nossos filhos qualidades duradouras de caráter, autodisciplina, respeito pela autoridade, compromisso com a verdade, crença na ética do trabalho e um amor inabalável por Jesus Cristo. A busca desses objetivos me levou a escrever este livro.
O impacto devastador da desintegração familiar sobre os filhos é indiscutível. Uma comissão norte-americana especial, consistindo de autoridades sobre o desenvolvimento infantil, reuniu-se na década de 1990 para examinar a saúde geral dos adolescentes. Este relatório, chamado de Código Azul, concluiu: “Nunca antes uma geração de adolescentes foi menos sadia, menos cuidada, ou menos preparada
para a vida”.1 A maioria das características censuradas pela comissão piorou ainda mais em nossos dias. Isto está ocorrendo, veja bem, em uma das nações mais ricas e privilegiadas da história do mundo. É resultado direto da desintegração conjugal e forças associadas que operam contra a família.
Sei que já apresentei a você muitas estatísticas até agora, mas as que passo a oferecer devem ser colocadas em letreiros de néon: Sessenta por cento dos recém-nascidos negros e 19% dos brancos nos Estados Unidos nascem fora do casamento. A maioria jamais conhecerá seus pais ou saberá como é ser amado por eles. Só 34% das crianças nascidas na América viverão com os pais biológicos até os 18 anos. Esta é uma receita para o infortúnio, especialmente quando consideramos o fato de que 62% das mães com filhos menores de 3 anos trabalham fora. O número era a metade em 1975! Mães de filhos com menos de 18 anos estão hoje empregadas,
cerca de 72% delas! 2 O fato de as mães trabalharem fora, combinado com o não envolvimento dos pais, significa quase sempre que não há ninguém em casa! Não é de surpreender que os meninos de hoje estejam em dificuldades.
Os cientistas comportamentais só recentemente começaram a entender como os pais são importantes para o desenvolvimento sadio dos meninos e das meninas. Segundo o psiquiatra Kyle Pruett, autor do livro Fatherneed, os pais são tão importantes para os filhos quanto as mães, mas de maneira muito diversa. Estas são outras descobertas surpreendentes que surgiram da pesquisa cuidadosa sobre o papel dos pais:
Existe um elo inegável entre os pais e as crianças desde o nascimento. As crianças com seis semanas já sabem diferenciar a voz da mãe e a do pai.
Com oito semanas, os bebês já podem distinguir entre os cuidados que lhes são dispensados pela mãe e pelo pai.
As crianças nascem com o impulso de encontrar o pai e ligar-se a ele. Quando começam falar a palavra para “pai”, quase sempre precede a palavra para “mãe”. As razões disto são desconhecidas. Quando começam a andar, a necessidade do pai fica especialmente óbvia: elas vão procurar o pai, perguntam por ele quando ausente, ficam fascinadas com a sua voz no telefone e investigam cada parte do seu corpo quando lhes é permitido.
“Os adolescentes expressam a necessidade do pai de maneiras ainda
mais complexas, competindo com o pai e confrontando os seus valores, crenças e, naturalmente, limites. Para tantos filhos e filhas, só na morte do pai é que eles descobrem a intensidade e longevidade da sua
necessidade paterna, especialmente quando ela não foi reivindicada.”3
Embora os filhos de todas as idades — de ambos os sexos — tenham uma necessidade inata de contato com os pais, quero enfatizar novamente que os meninos sofrem mais com a ausência ou não envolvimento do pai. De acordo com o Centro Nacional para Crianças Desfavorecidas, os meninos sem pais têm duas vezes mais probabilidade de abandonar a escola e de serem presos. E quase quatro vezes mais probabilidade de precisar de tratamento para problemas emocionais e
comportamentais do que os meninos que têm pais. 4
Durante minha revisão da última pesquisa para este livro, encontrei repetidamente a mesma questão perturbadora. Os meninos estão em dificuldades atualmente, principalmente porque seus pais e mães, especialmente o pai, estão confusos, trabalhando demais, exaustos, desinteressados, viciados em substâncias químicas, divorciados ou simplesmente incapazes de enfrentar os problemas da vida. Como indicado anteriormente, todos os demais problemas que atormentam os jovens do sexo masculino estão ligados a esses fatos da vida no século XXI. A principal entre as nossas preocupações é a ausência de um modelo masculino e a orientação que os pais deveriam prover. As mães, que tendem também a viver à beira do precipício, são obrigadas a fazer um trabalho para o qual têm pouco treinamento ou experiência. Por nunca terem sido meninos, as mulheres quase sempre possuem apenas uma vaga noção de como criar um deles. Os meninos são os grandes perdedores quando as famílias se dividem.
O Centro Nacional de Vícios e Abuso de Substâncias, da Universidade de Colúmbia, descobriu que filhos de famílias com os dois pais e que tiveram relacionamento regular ou fraco com os pais tinham 68% mais probabilidade de fumar, beber e usar drogas do que adolescentes que tiveram uma relação boa ou excelente com pais. Em comparação, numa família chefiada só pela mãe, em que havia uma excelente relação entre filhos e mães, o risco do abuso de drogas era 62% menor em relação aos que viviam numa família com ambos os pais, mas onde
existia relacionamento regular ou fraco com o pai. 5
A influência de um bom pai é primordial.
O dr. William Pollock, psicólogo da Harvard e autor da obra Real Boys, conclui que o divórcio é difícil para os filhos de ambos os sexos, mas é devastador para os do sexo masculino. Ele diz que o problema básico é a falta de disciplina e supervisão na ausência do pai e o fato de não estar disponível para ensinar o que significa ser homem. Pollock acredita também que os pais são indispensáveis para ajudar os meninos a controlarem as suas emoções. Como vimos, sem a orientação e direção do pai, a frustração do menino no geral leva a variedades de violência e outros
comportamentos antissociais.6
Grande número de pesquisadores concorda que perder o pai (ou nunca ter tido um) é catastrófico para os meninos. Há trinta anos acreditava-se que a pobreza e a discriminação eram as principais responsáveis pela criminalidade juvenil e outros problemas comportamentais. Sabemos agora que a ruptura da família é a verdadeira culpada. Apesar de todas as bandeiras vermelhas que nos advertem dos perigos, as atitudes levianas em relação à gravidez pré-conjugal, divórcio, infidelidade e coabitação são habituais.
Don Eilum, autor de Raising a Son, diz que o tema comum em relação aos meninos perturbados são os pais distantes, que não se envolvem, e, por sua vez, as
mães que tomam mais responsabilidade para cobrir a brecha.7
O sociólogo Peter Karl acredita que em razão de os meninos passarem 80% do tempo com mulheres, eles não sabem agir como homens quando crescem. Quando isso acontece, o relacionamento entre os sexos é diretamente afetado. Os homens
tornam-se indefesos e cada vez mais se parecem com crianças crescidas.8
Essas estatísticas e tendências não podem ser plenamente apreciadas até que vejamos como são traduzidas na vida dos indivíduos. Estive conversando recentemente com uma pessoa assim — um homem de 58 anos que descreveu a infeliz lembrança que tinha do pai. Seu pai fora um pastor consumido pelo trabalho e outros interesses. Este pai nunca ia aos eventos esportivos ou quaisquer outras atividades de que o filho participava. Ele não foi disciplinado nem afirmado pelo pai. Quando o menino chegou ao fim do ensino médio, ele fazia parte de um grande time de futebol da escola. Quando seu time se classificou para o campeonato estadual, o menino queria desesperadamente que o pai o visse jogar. Ele implorou: “Por favor, você vai ao estádio na sexta-feira à noite? É muito importante para mim”. O pai prometeu ir.
Na noite do grande jogo, o menino estava se aquecendo no campo quando viu o pai entrar no estádio acompanhado de dois outros homens usando ternos. Eles ficaram conversando por um momento ou dois e depois saíram. O homem que me contou esta história tinha lágrimas nos olhos, que correram pelo rosto, enquanto revivia aquele momento difícil ocorrido havia tanto tempo. Quarenta anos se passaram depois daquela noite, todavia, a rejeição e o desapontamento que sentira quando adolescente continuavam vivos em seu coração. Um ano após nossa conversa, o pai desse homem morreu, aos 83 anos. Meu amigo ficou sozinho diante do caixão do pai no velório e disse tristemente: “Pai, podíamos ter compartilhado tanto amor juntos — mas nunca o conheci realmente”.
Voltando à noite do jogo de futebol, fico imaginando o que aquele pai considerou mais importante do que a sua presença para o filho. A sua lista de “coisas a serem feitas” era na verdade mais urgente do que satisfazer as necessidades do menino que levava o seu nome? Quaisquer que fossem as razões, aquele homem permitiu que os anos passassem sem cumprir suas responsabilidades em casa. Embora tenha partido, seu legado é como o de inúmeros pais que estão ocupados demais, egoístas demais e desatentos demais para cuidar dos menininhos que procuravam estar com eles. Seu registro agora está nos livros. Se apenas pudessem voltar e fazer tudo diferente. Se apenas... ! Se apenas... !
Um pai tem um poder imenso sobre a vida dos filhos, para o bem ou para o mal. As famílias compreenderam esse fato durante séculos. Alguém disse: “Nenhum homem parece tão alto como quando se abaixa para ajudar um menino”. Outro sábio observador afirmou: “Coloque um menino junto ao homem certo e ele quase nunca dará errado”. Ambos estão corretos. Quando perguntados sobre quem são os seus heróis, a maioria dos meninos que têm a felicidade de ter pai dirá: “Meu pai”. Por outro lado, quando o pai não se envolve — quando não ama nem cuida de seus filhos —, isso cria um sofrimento, um anseio, que perdurará durante décadas. Sem minimizar quanto as meninas precisam dos pais, o que também reconhecemos, os meninos são emocionalmente formados para depender dos pais de maneiras que não foram compreendidas até recentemente.
Sabemos, agora, que existem dois períodos críticos durante a infância em que os meninos são particularmente vulneráveis. O mais óbvio ocorre no início da puberdade, quando membros dos dois sexos experimentam uma explosão emocional e hormonal. Meninos e meninas nessa época precisam desesperadamente da supervisão, orientação e amor do pai. O divórcio nessa fase, mais do que em outras, é tipicamente devastador para os meninos. Mas, segundo a dra. CaroI Gilligan, professora da Universidade de Harvard, há outro período crítico mais cedo na vida — que não é compartilhado pelas meninas. Os meninos bem pequenos se aquecem na feminilidade e natureza feminina da mãe durante a tenra infância. Os pais são importantes então, mas as mães têm a primazia. Por volta dos 3 a 5 anos, porém, a criança se afasta da mãe e das irmãs num esforço para formular uma
identidade masculina. 9 Trata-se de um processo conhecido como “desconexão e diferenciação”, quando, como Don Elium escreve, “o impulso interior do plano de desenvolvimento do homem o lança fora do ninho da mãe por sobre uma ponte
precária para o mundo do pai”.10 É típico que os meninos dessa idade, e ainda menores, busquem a atenção e o envolvimento do pai e tentem imitar seu comportamento e modos.
Lembro-me de meu filho identificando-se claramente com a minha masculinidade naquele período entre o jardim de infância e a primeira série. Por exemplo, quando a família se preparava para sair de carro, Ryan dizia: “Olhe, pai, nós dois vamos no banco da frente e as meninas no de trás”. Ele queria que rodos soubessem que era um “homem” como eu. Eu percebia claramente que era o seu padrão de comportamento e masculinidade. Essa é a maneira em que se supõe que o sistema funcione.
Mas aqui está o nó: quando os pais estão ausentes nessa época, ou se são inacessíveis, distantes ou violentos, os meninos só têm uma vaga noção do que significa ser homem. Enquanto as meninas têm um modelo quase sempre disponível para imitar o comportamento e as atitudes femininas (a não ser que criadas por pais sozinhos), os meninos que vivem só com a mãe são deixados para formular sua identidade masculina do nada. É por isto que o divórcio muito cedo na vida do casal é devastador para os meninos. A escritora Angela Phillips acredita, e eu concordo, que a alta incidência de homossexualidade que ocorre nos países ocidentais está relacionada, pelo menos em parte, à ausência de influência masculina positiva quando os meninos estão atravessando a primeira crise do desenvolvimento
infantil. 11 Um dos principais objetivos dos pais é ajudar os meninos a identificarem sua orientação sexual e compreender o que significa ser homem. Devemos voltar a esse ponto quando examinarmos num capítulo posterior os antecedentes da homossexualidade.
Tive a bênção de ter um pai maravilhoso que se mostrou acessível para mim, desde os primeiros anos da infância. Fiquei sabendo que, quando tinha 2 anos, minha família morava num apartamento de um quarto e minha cama ficava ao lado da de meus pais. Meu pai contou mais tarde que era comum naqueles dias ele acordar no meio da noite ouvindo uma vozinha sussurrar: — Papai? Papai? Meu pai respondia baixinho: — O que foi, Jimmy? — E eu dizia: — Pegue a minha mão! — Meu pai estendia a sua no escuro e procurava minha mão, envolvendo-a finalmente na sua. Ele disse que no momento em que prendia minha mão com firmeza, meu braço amolecia e minha respiração se tornava profunda e regular. Eu voltava imediatamente a adormecer. Como vê, eu só queria saber se ele estava lá!
Tenho um catálogo de lembranças agradáveis de meu pai desde os anos da pré-escola. Certo dia, quando tinha quase 3 anos, estava em casa com minha mãe e ouvi uma batida na porta da frente.
— Vá ver quem é — disse ela com um sorriso no rosto.
Abri a porta e lá estava meu pai. Ele tomou minha mão e disse: — Venha comigo. Quero mostrar-lhe uma coisa. — Levou-me então para o lado da casa, onde escondera uma linda bicicleta azul. Foi um dos momentos maravilhosos de minha vida. Outra vez, no mesmo ano, lembro-me de estar caminhando ao lado de meu pai grandão (ele tinha 1,95 m de altura) e me sentindo muito orgulhoso de estar na companhia dele. Lembro-me até de como a sua mão parecia imensa segurando a minha.
Recordo-me também dos momentos deliciosos em que brincava com meu pai ao modo masculino. Muitas mães não compreendem por que esse tipo de brincadeira é importante, mas é. Assim como os filhotes de lobo e de leopardo brincam e lutam uns com os outros, os meninos de todas as idades também gostam desse tipo de luta. Quando eu tinha 5 anos, meu pai e eu costumávamos horrorizar minha mãe rolando no chão e dando chutes com força. Isso mesmo. Lutas de chutes! Ele pesava 81quilos e eu cerca de 22, mas nos atirávamos um contra o outro como lutadores de sumô. Ele me atiçava a chutar suas canelas e depois, inevitavelmente, impedia meu arranco com a planta do pé. Isso me fazia atacá-lo com mais força. Então meu pai tocava em minha canela com o dedo. Acredite ou não, eu achava maravilhoso. Acabávamos rindo histericamente, apesar das pancadas e contusões em minhas pernas. Minha mãe exigia que parássemos, não tendo ideia da razão de eu gostar tanto dessa brincadeira. Era apenas uma coisa de homem.
O departamento de proteção de crianças iria hoje processar um homem que lutasse dessa maneira com os filhos. Alguns talvez dissessem que esta “violência” dentro de casa poderia levar ao comportamento criminoso. Assim também, muitos concluíram que o castigo corporal, mesmo quando administrado num ambiente de amor, ensina as crianças a machucarem outras. Estão errados. Não são as brincadeiras de lutar nem a disciplina medida que predispõem os meninos ao mau comportamento. É mais frequentemente a ausência de um pai que possa ensiná-los a ser homens e corrigi-los com autoridade quando estão errados.
Quero ilustrar este princípio com uma descoberta recente do mundo da natureza. Além dos cães, que sempre amei, os animais que mais me fascinam são os elefantes. Essas magníficas criaturas são muito emotivas e surpreendentemente inteligentes. Suponho que é por essa razão que ficamos perturbados ao vê-los sofrendo a invasão da civilização.
Isso está acontecendo no Parque Nacional de Pilanesberg, no noroeste da África do Sul. Os guardas florestais informaram que os jovens elefantes machos nessa região se tornaram cada vez mais violentos em anos recentes — especialmente com os rinocerontes brancos à sua volta. Sem qualquer provocação, o elefante atira o rinoceronte de costas e depois se ajoelha e o fere com as presas até matá-lo. Este não é um comportamento típico da espécie e tem sido muito difícil de explicar.
Mas agora os guarda-caça pensam ter descoberto a razão. Aparentemente, a agressividade é resultado dos programas do governo para reduzirem as populações desses animais, matando os mais velhos. Quase todos os elefantes perigosos ficaram órfãos quando pequenos e privados do contato com adultos. Em circunstâncias normais, os machos mais velhos dominam os mais novos e os mantêm na linha, servindo igualmente de modelo para eles. Na ausência dessa influência, os
“delinquentes juvenis” crescem para aterrorizar os vizinhos.12
Sei que é arriscado aplicar o comportamento animal muito liberalmente aos seres humanos, mas o paralelo aqui é muito impressionante para ignorar. Permita que eu diga mais uma vez: a ausência de supervisão e disciplina logo no início é no geral catastrófica — tanto para os adolescentes como para os elefantes.
As prisões estão cheias, principalmente, de homens que foram abandonados ou rejeitados pelos pais. O orador motivacional e escritor Zig Ziglar cita seu amigo Bill Glass, um evangelista dedicado que aconselhou quase todos os fins de semana, durante 25 anos, homens encarcerados, dizendo que dentre os milhares de prisioneiros que conhecera, nenhum deles amava sinceramente o pai. Noventa e cinco
por cento dos que estavam no corredor da morte odiavam seus progenitores.13 Em 1998, havia 1.202.107 pessoas nas prisões federais ou estaduais. Desse número, 94% eram homens. Dos 3.452 prisioneiros esperando execução, só 48 eram mulheres.
Isso soma 98,6% de homens. 14 Como disse Barbara Jackson, “é muito mais fácil
criar filhos fortes do que consertar homens destruídos”.15
Há alguns anos, os executivos de uma empresa de cartões de cumprimentos decidiram fazer algo especial para o Dia das Mães. Eles arrumaram uma mesa numa prisão federal, convidando cada interno que desejasse enviar um cartão grátis para a mãe. As filas eram tão compridas que eles tiveram de voltar à fábrica para pegar mais cartões. Devido ao sucesso do evento, eles decidiram fazer a mesma coisa no Dia dos Pais, mas dessa vez ninguém apareceu. Nenhum prisioneiro sentiu a necessidade de enviar um cartão para o pai. Muitos nem sabiam onde seus pais
estavam.16 Essa ilustração nos faz refletir sobre a importância do pai para os filhos.
Contraste esta história com a conversa que tive um dia com um homem chamado Bill Houghton, que era presidente de uma grande empreiteira. Com o passar dos anos, ele havia empregado e dirigido milhares de funcionários. Perguntei a ele: — Quando você pretende admitir um empregado — especialmente do sexo masculino —, o que procura? — A resposta dada me surpreendeu: — Examino primeiro a relação entre o homem e seu pai. Se ele se sentia amado por seu pai e respeitava a sua autoridade, será provavelmente bom empregado. — Em seguida, acrescentou: — Não vou empregar um jovem em rebelião contra o pai. Ele vai ter dificuldades comigo também. — Eu observei que o relacionamento entre um menino e seu pai estabelece o tom para muito do que está por vir. O pai tem essa importância em casa.
Enquanto escrevia este capítulo, meus pensamentos se voltaram repetidamente para as mães que estão criando meninos sozinhas. Tenho certeza de que as descobertas mencionadas sobre os pais e sobre o divórcio devem ter sido profundamente perturbadoras para algumas. Peço que me perdoem por isso. Suas circunstâncias já são bastante difíceis sem que eu as piore ainda mais. A pergunta principal para vocês é: “Como posso compensar a ausência de um pai que deveria estar presente para ensinar aos meus meninos a essência da masculinidade?”. Essa não é uma pergunta fácil, mas há respostas para ela.
Apesar de tudo o que falei, há esperança para as mulheres que estão criando filhos sozinhas. Admitimos que a tarefa é terrivelmente difícil, mas milhões de mães fizeram isso admiravelmente, vencendo graves limitações e obstáculos. Falaremos mais sobre esses tópicos nos capítulos futuros, mas, por ora, quero simplesmente dizer que a vida familiar quase nunca é ideal. Esta é a razão de cada um de nós ter de enfrentar desafios e problemas únicos. Alguns pais são confrontados todos os dias com a doença, alguns com a pobreza, outros com um cônjuge alcoólatra e outros, ainda, com um filho ou pai inválido. Nessas situações e muitas outras, as famílias devem avaliar as suas circunstâncias e decidir como aproveitá-las ao máximo. Recomendo a você, pai ou mãe sozinhos, que aplique esta abordagem à sua família. Deus ama seus filhos ainda mais do que você, e ele vai ajudá-Io(a) a criá-los. Há também meios de substituir um pai ausente, e ofereço algumas dessas ideias e sugestões no capítulo 16. Espero que as considere úteis.
Antes de continuar, quero incluir uma carta que me foi escrita há alguns anos por uma mãe que perdera o marido. Eu a incluo para o benefício dos pais que estão lendo conosco. Ela ilustra o papel vital que os homens desempenham na vida dos filhos e por que é importante contribuir ao máximo na vida de seus filhos enquanto têm oportunidade. Esta é a carta que chegou da srta. Karen Cotting:
Prezado dr. Dobson:
Em seu programa, o senhor sempre encoraja os seus ouvintes a escreverem.
Nossa família nunca fez isso até hoje. Nós temos uma história para contar.
Meu marido, Cliff, foi piloto de uma importante companhia aérea durante
os últimos onze anos. Numa viagem de quatro dias em outubro último, e com algum tempo livre antes do início do terceiro dia, ele decidiu sair para correr. Infelizmente, essa foi a sua última corrida. Enquanto corria, teve um infarto fatal. Cliff só tinha 38 anos e excelente saúde. Sempre comeu bem e procurava exercitar-se o mais que podia. Não houve sinais de advertência. Quando recebi o telefonema do vice-presidente de operações da empresa aérea, foi um enorme choque para mim. Nossa família não estava preparada para isso. Meu marido estava no apogeu de sua vida. Nossas três filhas tinham menos de 6 anos. Como Deus pôde fazer isso para nós? Como ele pôde levar embora o meu melhor amigo e o cabeça de nosso lar? No mês que se seguiu à sua morte e em
cada dia que se passa, Deus está revelando algumas das respostas enquanto confio na sua fidelidade.
Cliff era uma pessoa amorosa e atenciosa. Ele tinha imenso amor pela
família. Nossas três filhas, Nicole, Anna e Sarah, e eu éramos a menina dos seus olhos. Detestávamos quando ia viajar porque ficaríamos sem a sua presença de dois a quatro dias. Mas ficávamos à espera da sua volta, e ele era sempre recebido com gritos de alegria pelas meninas (e até um uivo ou dois de nossa pastora alemã, Tess). De todas as lembranças que ficaram, a que se destaca mais é a de suas brincadeiras com as filhas. Ele sempre terminava exausto e fazia uma pergunta brincalhona: — Qual a coisa mais importante do mundo? — E as meninas gritavam juntas: — Conhecer a Deus. — Cliff ficava satisfeito com o fato de as filhas saberem que um relacionamento pessoal com Cristo era o fundamento para a eternidade delas.
Deus revelou-me algumas coisas que eu nunca soube sobre meu marido. Em
seu funeral, demos tempo para que, quem quisesse, compartilhasse suas lembranças de Cliff. Fiquei surpresa com o número de funcionários da empresa que encheram a igreja e quase todos compartilharam como ele tinha sido um bom amigo, como sempre podiam contar com ele para ajudar. Soube também que durante as horas de trabalho ele falava com frequência de mim, das filhas e do seu amor por Deus. Eu não sabia que Cliff tinha essa coragem de compartilhar sua fé com outros. Sempre pensei que ele falava dos regulamentos da companhia ou de golfe no trabalho.
Quase sete meses se passaram desde que ele foi para casa estar com o
SENHOR, e finalmente consegui examinar sua mala de voo. Nela estava a data, 9 de outubro de 1999, o dia em que saiu para correr pela última vez. Chorei, pensando em como ele levava a sério a sua responsabilidade como piloto, como estava sempre preparado, desde pedir que suas camisas fossem passadas na véspera de um voo matutino, até conferir seu horário de cada dia. Ele estava preparado e pronto para o trabalho no dia 9 de outubro. Mas, mais importante, ouvi Deus sussurrar para mim por entre as minhas lágrimas: — Ele estava preparado para mim.
Esse pensamento confortou minha família. O espírito e a carne lutam em
meu íntimo todos os dias. Sinto terrível falta dele enquanto trabalho em meio a lágrimas de tristeza por sua ausência. Ele foi meu esteio de muitas maneiras. Todavia, meu espírito está consolado com a verdade de que Cliff se acha na presença de nosso Pai e anda com Cristo atualmente. Cliff estava preparado para o dia mais glorioso que viria a experimentar.
Estou aprendendo que, por meio daquilo que pode parecer uma experiência
devastadora, devemos aprender a nos apoiar em Deus para receber forças, mesmo quando achamos que não sentimos a sua presença. A Bíblia consolou nossa família com o Salmo 27.5: “Pois, no dia da adversidade, ele me ocultará no seu pavilhão; no recôndito do seu tabernáculo, me acolherá; elevar-me-á sobre uma rocha”. Mesmo com a ausência de Cliff, Deus me mostrou que ele jamais abandonaria nossa família, como em Jeremias 29.11-14: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o SENHOR; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então, me invocareis, passareis a
orar a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós, diz o SENHOR.
Enquanto Deus revela coisas maravilhosas sobre o seu caráter e o quanto
ele ama nossa família, queremos encorajar seus leitores que talvez não conheçam Cristo pessoalmente. Ele jamais “o deixará, nem desamparará”. Todos temos a vida eterna. A questão é onde escolhemos passá-la e se estamos preparados para nos encontrar com nosso Criador. Não hesite.
Nossa família sempre recebeu muito encorajamento por meio do seu
programa e da sua revista mensal. Deus o abençoe, à sua equipe e suas famílias.
Sinceramente,
Karen S. Cotting 17
Compartilhei esta carta principalmente em benefício dos pais jovens entre os meus leitores. Se estiver entre eles, quero lembrá-lo de que só Deus sabe quanto tempo você vai ficar nesta terra. A vida pode ser inesperadamente curta. Não desperdice as oportunidades de hoje de relacionar-se com seus filhos ou ensiná-los sobre a sua fé. Não deixe que sua carreira absorva todos os seus recursos e torne você um estranho virtual em sua casa. Que as lembranças que deixar para trás, quer viva mais uma hora ou muitas décadas, sejam tão boas e amorosas como as criadas por Cliff Cotting. O registro dele já está nos livros, o seu falta ainda ser escrito.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Sei que o divórcio é difícil para os filhos quando acontece, mas quais são as implicações em longo prazo de uma separação na família? Os filhos não “superam” rapidamente?
Gostaria de poder afirmar que os filhos voltam ao normal depois da separação dos pais, mas a pesquisa nos diz outra coisa. É indiscutível hoje que o desenvolvimento emocional das crianças está diretamente relacionado com a presença de uma interação calorosa, prolongada e contínua com ambos os pais. Qualquer coisa que interfira na relação vital com qualquer dos pais pode ter consequências duradouras para o filho. Por exemplo, um estudo muito bem feito revelou que 90% dos filhos de lares divorciados sofreram choque agudo quando ocorreu a separação, inclusive profundo sofrimento e temores irracionais. Cinquenta por cento deles afirmaram terem-se sentido rejeitados e abandonados. E, de fato, metade dos pais nunca tinha ido ver os filhos três anos depois do divórcio. Um terço dos meninos e das meninas sentiu-se abandonado pelo pai remanescente e 66% tinham saudades do pai ausente com intensidade que os pesquisadores descreveram como “esmagadora”. O mais importante é que 37% dos filhos continuavam ainda mais infelizes e insatisfeitos cinco
anos depois do divórcio do que tinham sido dezoito meses após a separação.18 Em outras palavras, o tempo não curou suas feridas.
Essas estatísticas resultaram de pesquisas feitas pela dra. Judith Wallerstein, a maior autoridade no tema filhos do divórcio. Ela começou a estudar meninos e meninas há 25 anos e os acompanhou até os dias atuais. Seu livro recente revelou
que 40% deles não se casaram, comparado com 16% de famílias intactas.19 Os filhos do divórcio, descobriu ela, tinham menos chances na faculdade, mais tendência a usar drogas e álcool antes dos 14 anos e mostravam menos competência social. As meninas com pais divorciados tinham experiências sexuais mais cedo. Ficou então claro que o impacto causado pela separação da família dura a vida inteira.
Há mais um fator que pode interessar. Estudos recentes mostraram que o divórcio está ligado ao comportamento promíscuo durante a adolescência. Os pesquisadores do Centro de Estudos Sociais do Estado de Oregon observaram o comportamento de duzentos meninos do ensino médio que viviam em zonas de alta criminalidade. Eles descobriram que os meninos que tinham intercurso sexual precoce tendiam a ser aqueles que haviam passado por duas ou mais mudanças de pais — divórcio, novo casamento, novos parceiros e assim por diante. Só 18% dos rapazinhos promíscuos eram de famílias intactas. Em contraste, 57% das virgens
procediam de famílias onde não ocorrera o divórcio.20 Um estudo similar descobriu que existia uma forte correlação entre as mulheres jovens que tiveram filhos fora do casamento e aquelas que haviam passado por uma mudança na estrutura familiar
enquanto estavam crescendo.21 Foi concluído que os estresses do divórcio e novo casamento sobre os filhos causaram impacto direto sobre os nascimentos fora do casamento.
Mais uma vez estamos vendo que o divórcio, criação de filhos por só um dos pais e separação da família são coisas terrivelmente difíceis para os filhos. Isto não tem a intenção de criticar os que se encontram nessas circunstâncias difíceis, mas não é possível também negar que as famílias intactas, com os dois pais, são mais saudáveis para os filhos e contribuem diretamente para uma sociedade estável.