Educando Meninos

James Dobson · Capítulo 18 de 19

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Educando Meninos

17. A suprema prioridade

 

CHEGOU A HORA DE concluirmos nosso trabalho juntos. Espero que você tenha apreciado este olhar em zigue-zague sobre os maravilhosos desafios de criar meninos. Não há nada que se compare ao privilégio de trazer filhos preciosos ao mundo e depois guiá-los passo a passo em seus anos de crescimento e em direção à maturidade. Escrevi no início de nossa discussão que nosso objetivo como mães e pais é transformar nossos filhos de “jovenzinhos imaturos e volúveis em homens honestos, atenciosos, que vão respeitar as mulheres, ser leais e fiéis no casamento, cumpridores dos deveres, líderes fortes e decididos, bons trabalhadores e seguros em sua masculinidade”. É um encargo difícil, mas que pode ser cumprido com sabedoria e orientação do Pai. O principal mecanismo pelo qual esses alvos são atingidos é a aplicação de liderança e disciplina confiantes em casa, temperadas com amor e compaixão. Essa é uma combinação imbatível.

Nosso foco tem sido as maneiras como os meninos diferem de suas irmãs e as necessidades particulares associadas à masculinidade. Temos também considerado a crise cada vez maior que confronta nossos meninos no contexto cultural atual. Em resumo, vemos trabalhando contra eles a dissolução das famílias, a ausência ou negligência dos pais (homens), o abatimento consequente do espírito, o ataque feminista sobre a masculinidade e a cultura pós-moderna, que está deformando tantos de nossos filhos. Se existe um tema comum que ligue cada uma dessas fontes de dificuldades é o ritmo frenético da vida, que deixou muito pouco tempo ou energia para os filhos que esperam de nós a satisfação de cada necessidade.

Permita que eu elabore esse ponto. Espero que tenha ficado evidente, com o desenrolar desta discussão, que o problema que estamos tendo com nossos filhos está ligado diretamente que chamo de “rotina de pânico” e ao crescente isolamento e afastamento que ela produz. O caso de amor da América do Norte com o materialismo cobrou seus dividendos nas coisas mais importantes. Voltemos à epidemia de brigas e provocações que está ocorrendo em nossas escolas. Todos tivemos momentos difíceis similares quando éramos jovens. Qual é então a diferença agora? É a ausência dos pais, que não têm mais nada a dar. Alguns de nós, quando crianças, tínhamos famílias intactas e amorosas em condições de nos acalmar, afastando-nos do precipício, assegurando-nos do seu amor e ajudando a colocar as coisas em perspectiva. Alguém que realmente se importava e nos dizia que o juízo impiedoso de nossos pares não era o fim do mundo. Na ausência desse tipo de conselho sábio em períodos de crise, como quando meu pai cuidava de mim quando eu voltava abatido da escola, as crianças de hoje não têm para onde ir com a sua raiva. Algumas recorrem às drogas e ao álcool, algumas se isolam e outras, lamentavelmente, dão vazão à sua ira em ataques assassinos. Se ao menos o pai e a mãe estivessem presentes quando as paixões fervilhavam! Muitas das dificuldades que confrontam nossos filhos se resumem a essa única característica das famílias atuais: não há ninguém em casa.

Como vimos repetidamente nestes capítulos, são os meninos que tipicamente sofrem mais com a ausência do cuidado dos pais. Por quê? Porque eles têm mais probabilidade de desviar-se quando não são cuidadosamente guiados e supervisionados. Eles são inerentemente mais volúveis e menos estáveis emocionalmente. Naufragam em circunstâncias caóticas, não supervisionadas e indisciplinadas. Os meninos são como carros velozes que precisam de um motorista no volante a cada momento da jornada, girando meia polegada aqui e um quarto de polegada ali. Eles necessitam desta orientação durante pelo menos 16 ou 18 anos, ou até mais. Quando deixados por conta própria, tendem a desviar-se na direção do divisor central ou a cair na valeta, na direção do mau comportamento ou do perigo. Todavia, 59% das crianças de hoje voltam para uma casa vazia depois da escola

todos os dias.1 Esse é o convite para o desastre para os meninos turbulentos, e quanto mais velhos ficam, mais oportunidades têm de entrar em problemas. Hoje, quando a cultura está em guerra com as famílias pelo controle dos nossos filhos, não podemos preocupar-nos com coisas de menor relevância.

Sua tarefa como mãe ou pai é construir um homem com a matéria-prima disponível implícita em seu encantador menininho. Molde-o pedra por pedra e preceito após preceito. Nunca suponha, nem por um momento, que você pode sair e “fazer o que quiser” sem consequências graves para ele e sua irmã. É minha convicção que os que decidem trazer um filho ao mundo devem dar a esse menino ou a essa menina a mais alta prioridade durante um período de tempo. Isso não será sempre requerido dos pais. Antes que percebam, essa criança vai se tornar um jovem que arrumará as malas e dará seus primeiros passos hesitantes no mundo adulto. Então será a vez deles. De acordo com todas as expectativas, você como pai deve ter ainda décadas de saúde e vigor para investir o que Deus o chamar para fazer. Mas, por enquanto, há um chamado mais alto. Sinto-me obrigado a dizer-lhe isto, quer minhas palavras sejam agradáveis ou não. Criar filhos que nos foram emprestados por um breve momento supera qualquer outra responsabilidade. Além disso, viver de acordo com essa prioridade quando os filhos são pequenos produzirá as maiores recompensas na maturidade.

Estou convencido de que a maioria das mães contemporâneas se importa mais com seu marido e filhos do que com qualquer outro aspecto da sua vida e desejariam dedicar, principalmente, suas energias a eles. Elas estão, porém, presas num mundo caótico e exigente que constantemente ameaça esmagá-las. Muitas dessas jovens mulheres também cresceram em casas ocupadas, disfuncionais, orientadas pela carreira, e almejam algo melhor para seus filhos. Todavia, as pressões financeiras e as expectativas de outros as mantêm num círculo vicioso que as deixa exaustas e angustiadas. Nunca escrevi isto antes e vou ser criticado por dizer isso agora, mas creio que a família com dois empregos durante os anos de criação de filhos cria um nível de estresse que está dilacerando as pessoas. Priva também os filhos de algo que eles vão buscar pelo resto de sua vida.

Minha oração é que a rotina do pânico desapareça um dia. Se isso vier a tornar-se um movimento, vai beneficiar maravilhosamente a família. Deverá resultar em menos divórcios e mais harmonia doméstica. As crianças recuperarão o lugar que merecem, e seu bem-estar será melhorado em muitas frentes. Não começamos a nos aproximar ainda desses objetivos, podemos apenas esperar que um segmento significativo da população acorde um dia do pesadelo do excesso de ocupações e diga: “Este é um estilo de vida doido. Tem de haver um meio melhor para criar nossos filhos. Vamos fazer os sacrifícios financeiros necessários para diminuir o ritmo da nossa vida”.

Não basta, entretanto, ficar simplesmente em casa à disposição dos filhos. Devemos usar as oportunidades desses poucos anos para ensinar a eles nossos valores e crenças. Milhares de jovens que cresceram na relativa opulência da América do Norte não tiveram esse treinamento e estão terrivelmente confusos sobre os valores transcendentes. Demos a eles mais bênçãos materiais do que em qualquer geração da história. Eles tiveram oportunidades jamais sonhadas por seus ancestrais. A maioria nunca ouviu o pipocar de metralhadoras ou a explosão de granadas. Mais dinheiro tem sido gasto em sua educação, cuidados médicos, entretenimento e viagens do que nunca antes. Todavia, falhamos em relação a eles na mais importante de todas as responsabilidades como pais. Não ensinamos quem são como filhos de Deus ou qual seu propósito neste mundo.

O falecido filósofo e autor, dr. Francis Schaeffer, escreveu: “O dilema do homem moderno é simples: ele não sabe por que o homem tem significado... Esta é a

maldição da nossa geração, o âmago do problema do homem moderno”.2

Embora a declaração penetrante do dr. Schaeffer tenha sido escrita há quase três décadas, ela é ainda mais relevante para os adolescentes e jovens adultos. Sua validade tornou-se aparente quando eu estava escrevendo meu livro sobre jovens chamado Life on the Edge. Para ajudar-me nesse projeto, a Word Publishers reuniu grupos formadores de opinião em várias cidades para determinar os pontos de estresse e as necessidades da geração mais jovem. Confirmando nossa tese, a preocupação mais comum foi a ausência de significado na vida. Esses jovens, a maioria deles cristãos professos, estavam confusos sobre a essência e o propósito da vida.

Vou transcrever um trecho curto do livro mencionado. Creio que se aplica não só àqueles a quem foi escrito (de 16 a 26 anos), como a todos nós nesta sociedade materialista que enfatiza os falsos valores do dinheiro, poder, da posição e de outros símbolos vazios de significado. Foi isto o que escrevi:

É importante fazer uma pausa e refletir sobre algumas questões básicas enquanto se é jovem, antes que as pressões do emprego e da família nos envolvam. Todos devem lidar, eventualmente, com várias questões eternas. Acho que você vai beneficiar-se ao fazer agora esse trabalho. Quer seja ateu, muçulmano, budista, judeu, agnóstico ou cristão, as perguntas que confrontam a família são as mesmas. Só as respostas diferem. Aqui estão:

Quem sou eu como pessoa?

Como cheguei aqui?

Existe um modo certo e errado de crer e agir?

Há um Deus e, caso positivo, o que ele espera de mim? Há vida após a morte?

Como posso alcançar a vida eterna, se ela existe? Terei de prestar contas um dia pelo meu comportamento na terra?

Qual o significado da vida e da morte?3

A triste observação, de acordo com nosso estudo, é que a maioria dos jovens com quem falamos achou difícil responder a perguntas como essas. Eles tinham apenas uma vaga noção do que poderíamos chamar de “primeiras verdades”. Não é de admirar que lhes faltassem um senso de significado e propósito. A vida perde o seu sentido para a pessoa que não tem compreensão da sua origem ou destino.

Os seres humanos tendem a lutar com perguntas perturbadoras às quais não podem responder. Assim como a natureza abomina um vácuo, o intelecto age para encher o vazio. É por essa razão que tantos jovens perseguem “teologias” distorcidas e estranhas, tais como a insensatez da Nova Era, a busca do prazer, o uso de drogas e o sexo ilícito. Eles estão procurando inutilmente algo para satisfazer a “fome da alma” e, provavelmente, não vão encontrá-lo. Nem grandes realizações e educação superior podem resolver o quebra-cabeça. O significado da vida só é compreendido ao responder às perguntas eternas listadas anteriormente, e só na fé cristã é que elas são adequadamente tratadas. Nenhuma outra religião pode dizer-nos quem somos, como chegamos aqui e para onde vamos depois da morte. Nenhum outro sistema de fé ensina que somos conhecidos e amados individualmente pelo Deus do universo e por seu único filho, Jesus Cristo.

Isso nos faz retroceder ao assunto de meninos e o que eles e suas irmãs precisam dos pais durante os anos de crescimento. No alto da lista está a compreensão de quem Deus é e o que ele espera que façam. Este ensino deve começar na tenra infância. Mesmo aos 3 anos de idade, a criança é capaz de aprender que as flores, o céu, os pássaros e até o arco-íris são dons da mão de Deus. Ele fez essas coisas maravilhosas, assim como criou a cada um de nós. A primeira passagem bíblica que as crianças deveriam aprender é: “Deus é amor” (1 Jo 4.8). Elas devem ser ensinadas a agradecer a ele antes de comer e a pedir sua ajuda quando magoadas ou com medo.

Moisés leva essa responsabilidade um pouco adiante em Deuteronômio 6. Ele diz aos pais que devem falar sobre assuntos espirituais continuamente. A Escritura nos diz: “Estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (Dt 6.6-9).

Se esta passagem tem algum significado, é que devemos dar a maior ênfase ao desenvolvimento espiritual de nossos filhos. Nada se aproxima disso em importância. A única maneira de estar com seus filhos preciosos na vida futura é fazê-los conhecer Jesus Cristo e seus ensinamentos, se possível, enquanto forem jovens. Esta é a Tarefa Número Um na criação de filhos.

Para aqueles de meus leitores que precisam de um pouco de ajuda para esclarecer esses objetivos, peço que se projetem momentaneamente ao fim de seus dias, talvez daqui a muitos anos. O que lhe dará a maior satisfação enquanto estiver deitado em seu leito de enfermo, pensando sobre as experiências de uma vida? Seu coração vai se emocionar com a lembrança de honrarias, diplomas e elogios profissionais? A fama será grandemente premiada, mesmo que consiga obtê-la? Você vai ficar inchado de orgulho com o dinheiro que ganhou, os livros que escreveu ou os prédios e negócios que levam o seu nome? Penso que não. Os sucessos e realizações temporais não darão muita satisfação nesse momento do destino. Creio que o maior sentimento de realização enquanto se prepara para encerrar o último capítulo será saber que viveu segundo um padrão constante de santidade diante de Deus e que investiu altruisticamente na vida dos membros de sua família e de seus amigos. Mais importante, saber que levou seus filhos ao SENHOR e que estará com eles na eternidade, o que vai superar qualquer outra realização. Tudo o mais se tornará insignificante. Se essa for uma representação verdadeira de como você vai sentir-se quando seus dias começarem a encurtar, por que não decidir viver de acordo com esse sistema de valores agora, enquanto ainda tem a oportunidade de influenciar as crianças que o contemplam? Esta pode ser a pergunta mais importante que você como mãe ou pai terá um dia de responder!

O desenvolvimento espiritual não é só relevante para a eternidade, é também decisivo para a maneira como seus filhos vão viver aqui na terra. Os meninos, especificamente, precisam estar bem estabelecidos na sua fé, a fim de compreender o significado do bem e do mal. Eles estão crescendo num mundo pós-moderno em que todas as ideias são consideradas igualmente válidas e nada é realmente errado. A perversidade só é má na mente dos que acham que ela é má. As pessoas que vivem sob esta perspectiva ímpia de vida estão se encaminhando para grande sofrimento e miséria. A visão cristã, em contraste, ensina que o bem e o mal são determinados pelo Deus do universo e que ele nos deu um padrão moral imutável pelo qual viver. Ele oferece também perdão dos pecados, de que os meninos (e as meninas) têm boas razões para necessitar. Só com esta compreensão, a criança está sendo preparada para enfrentar os desafios que estão à frente. Todavia, a maioria das crianças não recebe qualquer treinamento espiritual! Elas são deixadas para aprender isso à medida que crescem, o que leva à existência sem sentido que discutimos.

O instrumento de ensino mais eficaz, como vimos, é o exemplo provido pelos pais em casa. As crianças são surpreendentemente perceptivas quanto às coisas que observam nos momentos descuidados dos pais. Isto foi ilustrado para mim e Shirley quando nosso filho e nossa filha tinham 11 e 16 anos. Havíamos ido juntos para Mammoth, na Califórnia, para esquiar com outra família. Nossa chegada, infelizmente, coincidiu com uma enorme nevasca naquela quinta-feira, confinando-nos ao alojamento e frustrando imensamente as crianças. Cada um de nós ia por sua vez olhar pela janela a cada poucos minutos na esperança de ver uma trégua que nos libertasse, mas não houve uma pausa sequer. Na sexta-feira continuamos socados lá dentro e a tempestade de sábado enterrou completamente nossos carros na neve. A essa altura as duas famílias já estavam com “febre da cabana”, e até nosso cachorro começara a ficar inquieto.

Na madrugada da manhã de domingo, porém, o sol banhou nosso refúgio e o céu era de um azul brilhante. A neve nas árvores era linda e todos os elevadores de esquis estavam funcionando. Nós havíamos criado uma regra permanente de ir à igreja aos domingos e havíamos combinado não esquiar ou participar de eventos esportivos profissionais no que chamávamos de “Dia do Senhor”. Sei que muitos cristãos discordariam dessa perspectiva e não tenho problema com os que têm opinião diferente. Este era simplesmente o padrão para a nossa família e tínhamos vivido nessa conformidade toda a nossa vida de casados. Sempre aceitamos literalmente a passagem bíblica que diz: “Lembra-se do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êx 20.8-11).

Esquiar no domingo não é equivalente a trabalhar, como proibido nesta Escritura, mas é um dia separado para outro propósito. Além disso, se esquiássemos naquela manhã, estaríamos exigindo que os empregados da empresa de esqui estivessem a postos. Certo ou errado, era nisso que acreditávamos. Mas o que eu deveria fazer naquela situação? Todos queriam subir as ladeiras e, para ser honesto, eu também queria. Shirley e eu estávamos endoidando fechados com todas aquelas crianças entediadas. Portanto, reuni as famílias com os hóspedes e disse: — Vocês sabem, não queremos ser legalistas sobre isto. Penso que o SENHOR perdoaria uma exceção neste caso. Está um dia muito lindo lá fora. Podemos fazer nosso devocional quando voltarmos à noite depois de esquiar, e acho que não é errado irmos.

Todos ficaram jubilosos, era o que eu pensava, e começamos a nos vestir para o passeio. Eu terminei primeiro e estava no andar de cima preparando um desjejum quando Shirley subiu e sussurrou em meu ouvido: — É melhor você ir falar com seu filho. — Ele era sempre meu filho quando havia um problema. Entrei no quarto de Ryan e o encontrei chorando. — O que foi, Ryan, o que aconteceu? — perguntei. Nunca me esquecerei da sua resposta.

— Papai — respondeu —, nunca vi você transigir antes. Você nos disse que não é certo esquiar e fazer coisas assim no domingo, mas agora está dizendo que não faz mal. — As lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto enquanto falava. — Se era errado antes, continua errado hoje.

As palavras de Ryan me atingiram como um golpe de martelo. Eu havia desapontado aquela criança que esperava a minha orientação moral. Eu violara meu próprio padrão de comportamento, e Ryan sabia disso. Senti-me como o maior hipócrita do mundo. Depois de ter-me recomposto, eu disse: “Você tem razão, Ryan. Não há meios de poder justificar a decisão que tomei”.

A meu pedido, as duas famílias se reuniram na sala de estar novamente e relatei o acontecido. A seguir eu disse: “Quero que todos vocês [nossos hóspedes] vão esquiar hoje. Nós certamente compreendemos. Mas nossa família vai a uma pequena igreja do povoado esta manhã”. É assim que passamos nossos domingos, e hoje não deve ser uma exceção para nós.

Os membros da outra família, tanto as crianças como os adultos, disseram quase ao mesmo tempo: “Nós também não queremos esquiar hoje. Vamos à igreja com vocês”. E foram. Naquela tarde comecei a pensar no que acontecera. Na manhã seguinte, telefonei para o escritório, avisando que só voltaríamos na terça-feira. Nossos amigos também conseguiram mudar seus compromissos. Fomos esquiar na segunda-feira e tivemos um dos melhores dias juntos até então. E minha consciência finalmente acalmou-se.

Eu não tivera ideia de que Ryan estava me observando naquela manhã de domingo, mas deveria ter esperado isso. As crianças adquirem seus valores e crenças do que veem modelado em casa. Essa é uma razão pela qual as mães e pais devem ter uma vida moral consistente na frente dos filhos. Se quiserem ganhá-los para Cristo, não podem ser casuais ou caprichosos sobre as coisas em que acreditam. Se você, como pai, agir como se não houvesse verdade absoluta, e se estiver ocupado demais para orar e frequentar juntos os serviços da igreja, se seus filhos tiverem permissão para jogar futebol ou fazer outro esporte durante a escola dominical, se você fraudar o imposto de renda ou mentir para o cobrador ou brigar sempre com seus vizinhos, seus filhos vão receber a mensagem. “Meus pais falam coisas que parecem boas, mas não acreditam realmente nelas.” Se você servir a eles esta sopa rala durante toda a infância, eles a cuspirão no momento em que tiverem uma oportunidade. Qualquer ponto fraco ético desta natureza — qualquer falta de transparência em questões de certo e errado — será notado e aumentado pela próxima geração. Se você acha que fé e crença são absorvidas rotineiramente pelas crianças, observe os filhos dos grandes patriarcas da Bíblia, de Isaque a Samuel, de Davi a Ezequias. Todos viram no decorrer dos anos seus descendentes não se desviarem da fé possuída por seus pais.

A oportunidade é também essencial. O pesquisador George Barna confirmou o que já sabíamos: fica cada vez mais difícil influenciar espiritualmente os filhos à medida que crescem. Estas foram as suas perturbadoras descobertas:

Os dados mostram que, se a pessoa não aceitar Jesus Cristo como Salvador antes dos 14 anos, a probabilidade de vir a fazê-lo é pequena.

Com base numa amostragem de mais de 4.200 jovens e adultos em todo o

país, a pesquisa mostrou que pessoas de 5 a 13 anos têm uma probabilidade de 32% de aceitarem Cristo como seu Salvador. Jovens de 14 a 18 anos têm apenas uma probabilidade de 4%, enquanto adultos (de 19 anos até sua morte) têm apenas uma probabilidade de 6% de fazerem essa escolha. No período que antecede os 12 anos é que a maioria das crianças toma sua

decisão quanto a seguirem ou não a Cristo.4 (Nota: essas estatísticas refletem uma pesquisa feita com todos os pais, sem levar em conta a sua fé. Os resultados seriam sem dúvida diferentes com uma amostragem de pais cristãos dedicados.)

“Quanto mais cedo melhor”, quando se trata de levar nossos filhos ao SENHOR. Além do mais, tudo o que fazemos durante esses anos básicos da criação de filhos deve ser banhado em oração. Não há conhecimento suficiente nos livros — neste ou em qualquer outro — para assegurar o resultado de nossa responsabilidade de pais sem a ajuda divina. É arrogante pensar que podemos pastorear nossos filhos com segurança pelos campos minados de uma sociedade cada vez mais pecadora. Essa terrível compreensão me atingiu quando nossa filha Danae tinha apenas 3 anos. Reconheci que ter doutorado em desenvolvimento infantil não seria suficiente para enfrentar os desafios da arte de ser pai. Foi por esse motivo que Shirley e eu começamos a jejuar e orar por Danae, e mais tarde por Ryan, quase todas as semanas desde que eram pequenos. Pelo menos um de nós cumpriu essa responsabilidade durante toda a infância deles. De fato, Shirley continua essa prática até hoje. Nossa petição era a mesma durante os primeiros anos: “Senhor, dá-nos sabedoria para criar os preciosos filhos que o Senhor nos emprestou e, acima de tudo, ajuda-nos a levá-los aos pés de Jesus. Isto é mais importante para nós do que nossa saúde, nosso trabalho ou nossas finanças. O que pedimos mais fervorosamente é que o círculo esteja completo quando nos encontrarmos no céu”.

Novamente, a oração é a chave de tudo. Isto me fez lembrar de uma história contada por um principiante que jogava para no Chicago Bulls. Certa noite, o incomparável Michael Jordan fez 65 pontos e o novato recebeu ordem de entrar nos dois últimos minutos do jogo. Quando o jovem foi interrogado mais tarde por um repórter, ele disse: “Foi mesmo uma grande noite. Michael Jordan e eu fizemos 68

pontos”.5 É assim que me sinto sobre ser pai e sobre a oração. Fazemos todo o possível para ganhar alguns pontos, mas a maior contribuição é feita pelo criador dos filhos.

Os pais também precisam do auxílio dos outros membros da família, se estiverem disponíveis. Fui abençoado por ter uma avó e uma bisavó que ajudaram meus pais a colocar um fundamento espiritual que permanece comigo até hoje. Essas duas santas mulheres conversavam comigo regularmente sobre o Senhor e sua bondade conosco. Minha bisavó, a quem chamávamos de Nanny, podia fazer o céu descer sobre a terra em oração. Uma de minhas primeiras lembranças, acredite ou não, é a de vê-la curvada sobre mim quando eu estava numa espécie de berço. Eu não poderia ter mais de 15 meses. Ela usava uma touca antiquada com bolas felpudas pendentes nas extremidades de cordões. Lembro-me de ter brincado com aquelas coisas penugentas enquanto Nanny ria e me abraçava. Esta mulher, a quem amei profundamente, começou a me falar de Jesus nos anos seguintes. Acreditei nela. Seu marido, meu bisavô, orava todos os dias entre as onze horas e meio-dia, especificamente pelo bem-estar de seus filhos e das três gerações de sua família ainda por nascer. Ele morreu no ano anterior ao meu nascimento, todavia, suas orações continuam a ecoar pelos corredores do tempo. Estou à espera de encontrá-lo algum dia e ter a oportunidade de agradecer-lhe pela herança de fé que ele e meus outros ancestrais transmitiram à minha geração.

Minha avó, do outro lado da família, era chamada de Mãezinha por pesar apenas quarenta quilos. Era a alegria de minha vida. Falava com frequência sobre como o céu ia ser maravilhoso, o que me fez desejar ir para lá. Meu pai me contou que, quando ele era pequeno, Mãezinha reunia seus seis filhos ao seu redor para ler a Bíblia e orar. A seguir, ela falava sobre a importância de conhecer e obedecer a Jesus. Muitas vezes disse: “Se um único de vocês perder a fé, seria melhor que eu nunca tivesse nascido”. Essa era a prioridade que dava ao crescimento espiritual de seus filhos. Ela e os outros passaram efetivamente esta responsabilidade para mim.

Vou dirigir-me especificamente aos avós e bisavós entre os meus leitores. Você teve uma esplêndida oportunidade para entregar uma herança espiritual à sua prole. É uma responsabilidade dada por Deus que, de certa forma, é mais eficaz do que aquela que as mães e pais ocupados conseguem cumprir. Espero que não a desperdicem. Orem por seus filhos e suas filhas que estão educando os filhos deles numa época difícil. Não é fácil ser mãe ou pai atualmente. Ajudem-nos a ensinar seus filhos sobre Jesus, sobre o céu e o inferno e sobre os princípios de certo e errado. Foram muitos os cristãos que me disseram ter aceito Cristo como adultos por causa dos ensinamentos transmitidos por seus avós.

Geoffrey Canada é um afro-americano que cresceu nas ruas do Bronx.

É autor do livro Reaching Up for Manhood: Transforming the Lives of Boys in America. Ele fala, nesse livro, sobre algumas de suas experiências pessoais e dá crédito à sua avó, que o fez mudar de conceitos e lhe deu um compasso moral. Conta também a história dos últimos dias dela enquanto morria de câncer. Foi durante um período terrivelmente difícil na vida dele. Seu irmão e seu filho pequeno haviam morrido recentemente. Em suas palavras:

Eu poderia ter aceitado uma dessas mortes, mas não as três. Por que Deus tirara meu filhinho, meu irmão a quem eu tanto amava, e agora [ia tirar] minha avó a quem tanto queria? A resposta para mim é que simplesmente não havia Deus. Eu não só duvidei da existência de Deus, como minha vida perdeu igualmente o sentido. Por que estava trabalhando com tanto afinco na faculdade, longe de minha família e amigos, sacrificando tanta coisa, quando a morte poderia vir a qualquer instante, tornando insensatos todos os meus esforços?

Quando fui para casa ver minha avó, ela estava acamada. O câncer

roubara suas forças e logo lhe tiraria a vida. Pouco antes de voltar para a escola, fui até seu quarto e fiz a pergunta que me angustiava. Sei que foi egoísta da minha parte perguntar isto enquanto agonizava, mas eu tinha de saber.

— Vovó, você ainda acredita em Deus?

— Claro que sim. Por que me pergunta isso?

— Porque está doente, com câncer.

— Estar doente não tem nada a ver com a fé.

— Como pode ter fé quando Deus fez isso a você? Fez você sofrer. E para

quê? O que fez para ofender tanto a Deus para sofrer assim?

— Geoffrey, ouça, sei que você passou por muita coisa com a perda de seu

filho e seu irmão. Mas não perca a fé em Deus ou em si mesmo. Deus tem um plano para você. Você é parte dele e não pode desistir. A fé não é algo em que você crê até que as coisas deem errado. Não é como torcer por um time de futebol e, quando ele começa a perder, mudar de lado e torcer pelo outro time. Fé significa que você crê, aconteça o que acontecer. Está me ouvindo? É fácil ter fé quando tem um milhão de dólares e está com boa saúde. Você pensa que

isso prova qualquer coisa para Deus? Seu problema é que você pensa que se estudar bastante nos seus livros vai descobrir todas as respostas. Todas as respostas não estão nos livros. Nunca estarão. [Lembra-se dos comentários de Karen Cheng sobre significado?] Portanto, quer saber se eu creio em Deus? Sim, agora mais do que nunca.

Voltei relutantemente para Bowdoin [onde frequentava a faculdade] depois

de passar uma semana com minha avó, sem saber que aquela era a última vez em que falaria com ela. Minha avó morreu poucas semanas depois que a deixei. Passei o resto do meu segundo ano num torpor, as perdas combinadas sendo algo acima da minha compreensão. Eu sabia, porém, que tinha de continuar tentando para não perder a fé, porque era isso que minha avó queria. Quando ficava subitamente amedrontado ou deprimido, e descobria que minha fé era fraca e não podia suster-me, sentia que podia tomar de empréstimo de minha avó. Embora ela não estivesse mais viva, sua fé era real e tangível para mim. Muitas noites me apoiei em sua fé quando percebia que a minha não suportava as minhas dúvidas.

Toda criança precisa de uma avó como a minha em sua vida — alguém

mais velho, mais sábio e que esteja disposto a lutar quanto for preciso pela alma de uma criança. Alguém com disposição para manter sua vida como um exemplo de fé. Uma pessoa que tanto perdoa como ensina o perdão. Alguém cuja abundância de fé estará disponível em suprimento suficiente quando as crianças precisam. Isso porque, mais cedo ou mais tarde, as crianças precisam de mais fé do que possuem. Esse é o ponto em que

entramos.6

Com isso, apressamo-nos para um pensamento final. Uma vez que seus filhos chegarem aos últimos anos da adolescência, será importante não empurrá-los com muita força espiritualmente. Você pode ainda ter expectativas razoáveis para eles enquanto estiverem sob o seu teto, mas não pode exigir que creiam no que lhes foi ensinado. A porta deve ficar completamente aberta para o mundo lá fora. Este pode ser o período mais amedrontador para os pais. A tendência é reter o controle a fim de impedir que seus filhos cometam erros. Todavia, os adolescentes e os jovens adultos têm mais probabilidade de fazer as escolhas apropriadas quando não são forçados a se rebelar a fim de fugir. A simples verdade é que o amor exige liberdade. As duas coisas andam juntas.

Por mais que você prepare, abrir as mãos e deixar voar nunca é fácil. A falecida

Erma Bombeck comparava a responsabilidade dos pais a empinar uma pipa. 7 Você começa tentando tirá-la do chão e algumas vezes imagina se vai conseguir. Você corre pela estrada o mais depressa possível com a pipa desajeitada esvoaçando ao vento atrás de você. Algumas vezes ela cai ao solo, então coloca uma cauda mais comprida e tenta novamente. De repente, ela recebe uma pequena rajada de vento e voa perigosamente perto dos fios elétricos. Seu coração bate forte enquanto observa o risco. Mas, então, sem aviso, a pipa começa a repuxar a linha ao subir em direção ao céu. Você a solta aos poucos e, mais cedo do que esperava, chega ao fim do carretel. Você fica na ponta dos pés, prendendo o último pedaço entre o polegar e o indicador. Depois, relutantemente, a solta, permitindo que a pipa voe desimpedida e independente no céu azul de Deus.

É um momento alegre e aterrador, que foi ordenado desde o dia do nascimento de seu filho. Com esta libertação final, sua tarefa como mãe ou pai está terminada. A pipa está livre, e então, pela primeira vez em vinte anos, você também está.

Minhas orações estarão com você enquanto desempenha sua responsabilidade dada por Deus. Aprecie cada momento dela. E abrace seus filhos enquanto pode. Espero que algo que escrevi nestas páginas tenha sido útil para você e os seus. Obrigado por ler junto comigo.

É DIFÍCIL PARA UM CÃO

É difícil para o cão quando o seu menino cresce, Quando ele não mais corre e brinca como um cachorrinho. É difícil para o cão quando seu menino fica mais velho, Quando não mais se aconchegam em seu leito quando está frio. É difícil para o cão quando o seu menino cresce, Quando sai com outros para jogar futebol e beisebol. Eles não caminham mais pela lama do brejo,

Esperando encontrar uma tartaruga ou um sapo perdidos. Eles não correm mais com a grama até os joelhos, Ou rolam nas pilhas de folhas frescas caídas.

É difícil para o cão quando o seu menino cresce, Quando vai para a escola, olhando as meninas no corredor. É difícil para o cão quando ele tem trabalho a fazer, Quando se esquece de brincar como costumava. É difícil para o cão quando, em vez da floresta, do campo ou de uma lagoa,

Seu menino se transforma em homem — e o homem se vai.8 Jean W. Sawtell