Educando Meninos

James Dobson · Capítulo 15 de 19

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Educando Meninos

14. Predadores

 

DISCUTIMOS VÁRIOS PROBLEMAS SOCIAIS importantes que respondem por grande parte dos problemas enfrentados pelos meninos e seus pais. Este capítulo vai tratar de outra dificuldade, à qual nos referimos várias vezes sem defini-la. É chamada de pós-modernismo, o que ajuda a explicar melhor como as famílias e, especialmente, como os meninos caíram em tal armadilha. Este sistema de pensamento, também chamado relativismo moral, ensina que Deus não só não detém o conhecimento da verdade, a quem o pós-modernismo considera um mito, nem o homem, que não tem o direito de falar pelo restante de nós. Pelo contrário, a verdade absolutamente não existe. Nada é certo ou errado, nada é bom ou mau, nada é positivo ou negativo. Tudo é relativo. Tudo o que importa é “o que é certo para mim e o que é certo para você”. Essas ideias se desenvolvem de pessoa para pessoa enquanto prosseguem.

É incrível, mas alguns professores contendem hoje que nem sequer o extermínio de seis milhões de “indesejáveis” pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial foi

imoral, porque a ideia de moralidade em si é falsa.1 Dizer que algo é inerentemente errado implica que um Grande Juiz se acha sentado em algum lugar do céu decretando valores e ordens supremos para o mundo. O pós-modernismo está convencido de que tal autoridade não existe. Na ausência de um Ser Supremo, a tolerância se torna o “deus” que aprova qualquer coisa e tudo, exceto a fé cristã. Os regulamentos públicos são determinados por pesquisas de opinião ou preparados de acordo com noções populares que simplesmente pareçam apropriadas para alguém no momento.

O interessante sobre o pós-modernismo é a sua capacidade para viver confortavelmente com contradições. Por quê? Porque não há absolutos perturbadores para enfrentar. Por exemplo, os relativistas morais celebram a dignidade humana e a harmonia racial como preceitos, mas a seguir defendem assassinar (ou a ajuda para matar) os idosos, os por nascer, e até bebês sadios de nove meses quando deixam o canal do nascimento. A vida pode ser sacrificada se for inconveniente. — Espere um pouco — você diz. — Essas ideias não podem coexistir na mesma mente. — Retruca, porém, o pós-modernista, sem explicar nada: — Claro que podem.

Foi esta filosofia que permitiu que a senadora norte-americana Barbara Boxer, pelo Estado da Califórnia, insistisse num debate no Senado sobre precisarmos preservar o lindo ambiente de Deus, mas em outra ocasião afirmou que os bebês não são humanos até que os pais os levem da maternidade para casa. Eles podem ser

mortos impunemente naquelas primeiras horas ou dias.2 Que lógica enrolada essa! Todavia, ideias conflitantes como essas não têm de fazer sentido para os pós-modernistas. Não há sentido num universo que surgiu do nada e evoluiu em formas de vida sem sentido, sem projeto ou projetista. Esta é a essência do pós-modernismo.

O bioeticista e professor de Princeton, Peter Singer, é um dos principais proponentes em todo o mundo desta filosofia inútil, imoral. Ele declarou: “Matar uma criança não é moralmente equivalente a matar uma pessoa. A vida de um recém-nascido é menos valiosa... do que a vida de um porco, um cão ou um

chimpanzé.3 Este homem mal orientado ganhou estabilidade em Princeton, depois de revelar suas ideias excêntricas sobre a falta de valor da vida humana. A universidade chegou a ponto de nomear o dr. Singer presidente do departamento de bioética.

O que este relativismo moral tem, então, a ver com a criação de meninos? Praticamente tudo de fato. Ele confundiu todas as distinções seculares entre certo e errado, entre próprio e impróprio, entre valioso e sem valor, entre humano e desumano. Resultou também numa queda livre moral, que ainda não chegou ao fim. O pós-modernismo deu credibilidade e liberdade a toda forma de mal. Eu disse realmente mal. Os meninos, com sua tendência de chegar aos extremos e desafiar a autoridade, são os mais vulneráveis neste caso. Eles são tentados a ter um comportamento terrivelmente destrutivo que teria sido imediatamente detido pelas gerações anteriores, porque sabiam que algumas coisas são indiscutivelmente erradas e que todas as ideias têm consequências.

A noção do pós-modernismo ensina as crianças, os adolescentes e adultos que devem sua existência ao acaso num universo caótico sem desígnio e sem projetista. Não temos de prestar contas a ninguém e vivemos para o momento sem sentido num cosmos agonizante que terminará em total escuridão. Não temos valor intrínseco como seres humanos e nenhum significado além da nossa breve jornada no rio do tempo. Não é de admirar que a baixa autoestima e o desrespeito por outros estejam a todo vapor. É uma visão mundial danosa que ataca a família e deforma as crianças e os jovens.

Lembre-se também de que as ideias determinam o comportamento. O livro de Provérbios diz: “Porque, como [o invejoso] imagina em sua alma, assim ele é” (Pv 23.7). Os que são ensinados que resultaram apenas do acaso têm menos razões para serem morais, obedecerem às leis, serem respeitosos ou gratos. E, de fato, muitos deles não são.

Quando traduzido em um milhão de ideias e imagens destrutivas, o sistema pós-moderno de pensamento ataca a família e deforma seus membros mais jovens e mais fáceis de se impressionar. Ele também molda as práticas da criação de filhos hoje. Li um exemplo ultrajante desta abordagem anarquista numa coluna de perguntas e respostas publicada no exemplar de agosto de 2000 da Maryland Family Magazine. Um pai “preocupado” escrevera para perguntar às colunistas, Laura Davis e Janis Keyser, sobre seu filho de 7 anos, Brett, que estava se envolvendo em brincadeiras sexuais com sua melhor amiga, Jacqueline. Eles se esconderam nus sob as cobertas, examinando os genitais um do outro e “rindo muito”, durante vários anos. Nenhuma das famílias se preocupou com a atividade, que aparentemente ocorria desde que as crianças tinham 4 ou 5 anos de idade. Mais recentemente eles estavam fechando a porta e passando mais tempo nus juntos. Quando o pai entrou no quarto, os dois gritaram indignados e ordenaram que fosse embora. Quando o pai perguntou o que faziam, Jacqueline disse que queriam ver os ovos e o esperma de Brett. O pai queria que as colunistas lhe dissessem quais as regras a serem estabelecidas para as crianças.

Você acredita que as “especialistas” autonomeadas que escreviam a coluna acharam perfeitamente normal que crianças se envolvessem nesse tipo de comportamento sexual? “As crianças”, disseram, “têm curiosidade a respeito do intercurso e querem saber de onde vêm os bebês”. Lembre-se agora que Brett e Jacqueline tinham menos de 5 anos quando esta atividade começou. Davis e Keyser advertiram o pai para “não se precipitar com muitas ideias próprias” e que manter uma política de portas abertas “poderia ser difícil porque as crianças, no geral, exigem privacidade”. As “especialistas” ofereceram, então, isto: “Se os seus filhos estão passando mais de um quarto do tempo em exploração do corpo e brincadeiras sexuais, ou se parecem ‘obcecados’ por isso, podem estar necessitando da sua ajuda para responder a algumas de suas perguntas e descobrir outras atividades para se divertirem juntos”; e finalmente: “Se as crianças estiverem gostando da sensualidade da brincadeira, você poderia inventar outras maneiras mais estruturadas para engajar-se em brincadeiras táteis. Massagens nas costas e nos pés com loção ou óleo

são alternativas maravilhosas”. 4 Mas isso só se as crianças estiverem passando mais de 25% do tempo sob as cobertas!

Será que enlouquecemos de vez?! Fico convencido, às vezes, de que fizemos justamente isso. Ou pelo menos os pós-modernistas fizeram.

A colunista Ellen Goodman, que segundo meu conhecimento não afirma ser cristã, escreveu um editorial criterioso sobre esta batalha para proteger as crianças das influências prejudiciais da atualidade. Esta é a sua perspectiva:

Em algum ponto, torna-se claro que uma de suas principais tarefas como pais é opor-se à cultura. O que a mídia oferece às crianças em massa, espera-se que você refute uma de cada vez.

Ocorre-me, porém, agora, que o chamado para a “responsabilidade

parental” está aumentando em proporção direta à irresponsabilidade do mercado. Espera-se que os pais protejam seus filhos de um ambiente cada vez mais hostil. Lixo está sendo oferecido às crianças? Basta dizer não. A TV é prejudicial? Desligue. Há mensagens sobre sexo, drogas, violência em toda parte? Oponha-se à cultura.

As mães e os pais devem fazer uma triagem de todos os aspectos da vida

dos filhos. Verificar a faixa etária dos filmes, ler os títulos dos CDs, descobrir se há MTV na casa do vizinho. Mantendo-se todo o tempo em contato com a escola e, no seu tempo livre, ganhar o sustento da família.

Barbara Dafoe Whitehead, associada à pesquisa do Instituto de Valores

Norte-Americanos, descobriu isto em entrevistas com pais da classe média.

“Uma reclamação comum que ouvi dos pais foi o seu sentimento de estarem esmagados pela cultura. Eles se sentiam mais indefesos do que seus pais.”

“Os pais”, nota ela, “acham que estão numa guerra para conquistar o

coração e a mente dos filhos”. Não se trata de não poderem dizer não, mas de haver tantas coisas para as quais dizer não.

Sem mergulhar na falsa nostalgia, tem havido uma mudança

fundamental. Os norte-americanos esperavam antes que os pais criassem os filhos de acordo com as mensagens culturais dominantes. Atualmente, espera-se que se oponham a elas.

No passado, o coro dos valores culturais estava repleto de ministros,

professores, vizinhos, líderes. Eles exigiam mais conformidade, mas ofereciam mais apoio. Os mensageiros agora são as Tartarugas Ninjas, Madonna, grupos de rap e outros desse naipe. Os pais são considerados “responsáveis” apenas se tiverem sucesso em sua resistência.

É isso que torna a criação de filhos mais difícil. É isso que faz os pais

sentirem-se mais isolados. Não se trata apenas de as famílias terem menos tempo com seus filhos, é que temos de passar mais desse tempo lutando com nosso estilo de vida.

Seria como tentar fazer com que seus filhos comessem feijão depois de

terem aprendido o dia todo sobre as maravilhas dos chocolates. Pensando

bem no assunto, é exatamente assim.5

@ 2000, The Boston Globe Newspaper Co./Washington Post Writers

Group.

Publicado com permissão.

Para os pais cristãos, a luta para proteger os filhos desse estilo de vida supera em muito o lixo oferecido a eles. De fato, as crianças de hoje têm sido bombardeadas com mais ideias perigosas do que qualquer geração da história. A tarefa dos pais e mães para protegê-las das instruções de “sexo seguro” na escola, dos gurus da Nova Era, da linguagem profana e vulgar da vizinhança e das múltiplas tentações tem sido uma tarefa assustadora. Perseguindo os jovens como lobos famintos, vemos predadores que os explorariam para obter lucros financeiros, inclusive traficantes, produtores de cinema e televisão sem princípios, tarados sexuais, violentadores, metaleiros excêntricos e agora os que habitam a internet. Como exemplo, a Planned Parenthood (Planejamento Familiar) distribuiu milhares de caixinhas para os adolescentes na região de Mineápolis, chamadas “Kits de Sobrevivência”. Cada uma contém três preservativos, duas pastilhas de menta para o hálito e um cupom de desconto para uma primeira visita à clínica da Planned Parenthood. Essas instigações não tão sutis à atividade sexual, são características das mensagens dadas aos adolescentes por adultos que deveriam saber melhor. É triste que os pais tenham de lutar continuamente para preservar o bom-senso e a decência em casa.

Às vezes, parece que nada sadio restou para nossas crianças e adolescentes. Por exemplo, os programas mais populares na televisão a cabo, atualmente, mostram as palhaçadas violentas da Federação Mundial de Luta Livre. São as favoritas das crianças, com seu estilo bruto de diversão. Assistir a adultos se comportarem de maneira tão violenta e ultrajante tem sido pernicioso para elas. Lembra-se do menino de 12 anos na Flórida, Lionel Tate, que espancou uma menina de 6 anos até a morte, esmagando o crânio dela e dilacerando o seu fígado? Ele contou que havia assistido aos lutadores de luta livre na televisão e queria treinar os seus movimentos.

O jovem assassino recebeu pena perpétua. 6 Não ouvi um único comentarista dizer que a Federação Mundial de Luta Livre e seus patrocinadores comerciais tiveram de aceitar responsabilidade por esta tragédia, mas são culpados.

Shows de comediantes de renome, na televisão a cabo, causam também enorme impacto na mente desses jovens. Os executivos da MTV, com sua ênfase em sexo e violência, admitem que tentam moldar cada geração de adolescentes. Em um de seus anúncios eles incluíram a parte de trás da cabeça de um adolescente com as letras “MTV” raspadas em seu cabelo. A transcrição diz: “A MTV não é um canal. É uma força cultural. As pessoas não assistem, são loucas por ela. A MTV afetou a

maneira como toda uma geração pensa, fala, se veste e compra”.7 O surpreendente nesta propaganda é que a MTV não só admite que estão tentando manipular os jovens e imaturos, mas gastam muito dinheiro se gabando sobre isso.

Se você ainda duvida de que a MTV está explorando os jovens, sugiro que assista a uma de suas transmissões populares. Elas deveriam causar calafrios à sua alma. Embora os produtores estejam sempre mudando para atrair mais espectadores, eles tendem a ficar sempre piores. Um programa corrente chamado Jackass (Asno) é simplesmente terrível. Sua “estrela” é um adolescente, Johnny Knoxville, que se descreve em vários cenários repulsivos. Fizeram um videoteipe dele de cabeça para baixo num vaso sanitário portátil, chamando-o de “coquetel fecal”. Comeu um peixe dourado vivo e depois o vomitou no aquário. Vestiu-se como um deficiente numa

cadeira de rodas e depois se atirou contra a parede.8 Em certa ocasião, ele colocou um colete à prova de balas e atirou contra o próprio peito com uma pistola calibre

38, uma cena que a MTV atipicamente, recusou-se a pôr no ar. 9 O nome do jogo com esses e outros shows é fazer absolutamente tudo para alcançar estatísticas de audiência — quase todos sensacionalistas, temerários e imorais. Enquanto falamos,

mais de dois milhões de jovens espectadores assistem 10 Jackass todas as semanas.

Quantos meninos são suficientemente imaturos e instáveis para imitar o comportamento a que estão assistindo? A maioria dos garotos, em uma ou outra circunstância, suspeito eu.

Quando ler este livro, algo novo terá sido inventado para seus filhos — algo ainda pior. O autor James Poniewozik diz que o resultado dessas ofertas grosseiras é

o que ele chama de fenômeno “Garoto Rude”. 11 Os homens atuais, disse ele, tiveram de descobrir como indispor os pais, muitos dos quais “estiveram lá e fizeram isso”. Para sobrepujar a rebelião do passado, o comportamento deles se tornou ainda mais extremo e audacioso. Você já pensou sobre isto? Algum dia os filhos ainda por nascer dos Garotos Rudes e suas namoradas extravagantes terão de descobrir como chocar seus pais. Não vai ser fácil. Não vão restar muitas coisas para eles fazerem.

A indústria de música rock ganhou o prêmio por produzir o material mais escandaloso para jovens. Duvido que os pais tenham realmente conhecimento da sujeira e da violência que está sendo vendida para os seus filhos. Vou compartilhar apenas um exemplo, que não é pior do que milhares de outros, extraído de um CD há poucos anos. Foi gravado por um grupo popular chamado Korn e incluía esta letra:

Sua garganta, eu agarro — pode sentir a dor? Seus olhos reviram — pode sentir a dor? Seu coração para de bater — pode sentir a dor? Orgasmos negros — não sente a dor? Beijo sua pele sem vida — não sente a dor?

Aí está você minha preciosa com a alma partida.12

Essa letra terrível foi, incrivelmente, intitulada “My Gift to You” [Meu presente para você]. O CD (produzido e distribuído pela Sony Records) permaneceu em primeiro lugar nas listas e vendeu dois milhões de cópias. A maioria dos garotos que comprou esse disco, alguns dos quais deviam ser pré-adolescentes, não só ouviram as palavras como também as memorizaram tocando repetidamente o CD. Em vista desses ecos da cultura, ficamos imaginando por que mais mães e pais não estão invadindo os portões das empresas e organizações como a Sony, que estão deformando e torcendo os valores de seus filhos. Por que o DJ ou Disk Jokey (radialista) Howard Stern tem ainda permissão para transmitir seu próprio show no rádio ou televisão, apesar das coisas incríveis que ele disse e fez?

Alguns dias depois que doze adolescentes e adultos foram assassinados a sangue frio na Escola Secundária Columbine, em Littleton, Colorado, Stern disse: “Uma porção de meninas bonitas vão a essa escola. Havia com certeza meninas bonitas correndo para fora de lá com as mãos na cabeça. Esses garotos tentaram fazer sexo com qualquer uma das meninas bonitas? Nem sequer fizeram isso. Se você vai se

matar e matar todo mundo, por que não fazer um pouco de sexo?”.13

Onde estava a indignação que deveria ter caído sobre a cabeça de Stern? Por que os patrocinadores desse programa não foram assediados por pais enfurecidos? Onde estava a mídia noticiosa que expressa tanta indignação quando uma atitude politicamente correta é atacada? Por que Stern não foi demitido e definitivamente afastado? Boas perguntas! Alguns dias depois de seu comentário inesquecível, porém, as coisas voltaram ao normal. Ele não perdeu o ritmo. Neste momento, ele tem o terceiro talk-show mais popular no rádio.

O que acontece nas universidades atualmente é outra história triste, onde o pós-modernismo é aceito e a bebedeira é usual todos os fins de semana. Alguns campus são ainda mais extremos. Um artigo publicado no The New York Times, em 18 de março de 2000, descreveu o que chamaram de “O Dormitório Nu”, na Universidade Wesleyana, uma residência coeducacional onde as roupas são opcionais. Há uma “Hora Nua”, quando homens e mulheres se reúnem para conversar. Um estudante declarou: “É a ideia de não julgar ninguém, ou respeitar as crenças mútuas. Não tem implicações sexuais”. Está bem! Vou poupar-lhe os outros detalhes, exceto que o artigo afirma que essas festas no dormitório estão entre as mais populares no campus. Tenho certeza. A pergunta que gostaria de fazer, mais de uma vez, é esta: “Onde estão os pais que pagam as contas para este tipo de loucura?”. Uma estudante

contou ao pai sobre o dormitório e ele “Apenas riu”.14

A organização Luntz Research conduziu uma pesquisa dirigida à questão da moralidade. Para grande surpresa, eles descobriram que 80% dos americanos

acreditam que a imoralidade é nosso maior problema como nação. 15 Mesmo assim, a maioria deles está ocupada ou desmoralizada demais para tomar providências contra aqueles que estão explorando seus filhos. É assim que os manipuladores conseguem livrar-se das acusações.

Existem ainda, porém, algumas mães e pais determinados a proteger seus filhos. Uma delas, MichelIe Malkin, está furiosa com os pais indecisos que toleram tal insensatez. Ela escreveu:

OS PAIS DA GERAÇÃO PÓS 2A GUERRA ESTÃO DORMINDO NO PONTO

— Quando os porcos voarem. Quando o inferno gelar. Quando a vaca pular sobre a lua. N-Ã-O. Não, não, não! Ponto final. — É isto que eu direi à minha filha quando ela me pedir, daqui a muitos anos, para ir a uma festa coeducacional para passar a noite. Em todo o país, acreditem ou não, meninos e meninas adolescentes estão brincando sem comedimento, sob um só teto, em roupas debaixo, com a aprovação dos pais.

O Washington Post dedicou 1.200 palavras a esta fantasia dos adolescentes

filhos dos “boomers”. Uma pesquisa de jornal ofereceu 200 outras histórias sobre essas noitadas coeducacionais. Seriados populares sobre adolescentes, tais como o 7th Heaven [Sétimo Céu], da rede Warner, mostraram festas desse tipo. Um catálogo recente de Natal da Abercrombie & Fitch mostrou quatro meninas pré-adolescentes na cama, sob as cobertas, com um garoto mais velho, balançando libidinosamente sua cueca no ar.

“É a onda mais recente”, explicou um rapazinho de 17 anos chamado “J.

D.” ao repórter do Post. As festas mistas para dormir “são uma variação do namoro em grupo”, relata o Post, “onde os adolescentes ficam juntos, mas nem sempre aos pares. Alguns pais dizem que as festas ficaram mais comuns há alguns anos, depois que os administradores escolares em vários distritos pediram aos hotéis que não alugassem quartos para estudantes depois dos grandes eventos no ensino médio”. Para ganhar a aprovação dos pais, J. D. argumentou que dar uma festa dessas é “melhor do que nos deitarmos em qualquer lugar ou alugarmos um quarto sujo de motel”.

Muitos pais — e uso o termo de modo vago — estão aceitando esta lógica

irracional. “Acho que é definitivamente melhor do que ir para um hotel, e desse modo você conhece todos os garotos e garotas que vão comparecer, sabe com quem eles estão”, disse Edna Breit, uma mãe de Maryland que permite que seu filho adolescente convide até vinte meninos e meninas para dormir em sua casa, tomem banho numa banheira quente e fiquem acordados até de madrugada assistindo a filmes no porão da família.

Breit compartilhava o método furtivo dela de policiar seus jovens

convidados: “Você coloca pratos pequenos de petiscos. Desse modo, tem um

pretexto para descer e encher de novo os pratos”. Isto é patético. Como chegamos a ponto de uma mulher adulta orgulhar-se de transformar sua casa em hotel coeducacional, onde os pais têm de inventar meios furtivos para espiar seus filhos? Quando julgamentos “melhor do que” substituíram o que é melhor para seus filhos?

Os pais que pensam que tudo isso é diversão inofensiva — que devemos

apenas despreocupar-nos e relaxar — precisam abrir os olhos. Os que passam a noite juntos enviam uma mensagem errada aos adolescentes imaturos demais para lidar com situações sexualmente carregadas. É apenas o último sinal de uma cultura que desistiu de reforçar os papéis tradicionais de autoridade e sobre transmitir sentido e sabedoria morais de uma geração para outra.

Graças em grande parte ao espírito unificador radical e igualitário

abraçado pelos “Baby Boomers”16, as noções americanas de disciplina abrandaram desmesuradamente. Kay Hymowitz, autora de Ready or Not: Why Treating Children as Small Adults Endangers Their Future and Ours [Prontos ou não: por que tratar as crianças como pequenos adultos põe em risco o futuro delas e o nosso], nota que hoje em dia “os adultos se definem como aliados das crianças, treinadores, parceiros, amigos, facilitadores, coaprendizes e defensores. Seu papel é capacitar as crianças, defendê-las, aumentar a sua autoestima, respeitar os seus direitos e fornecer-lhes informações para que possam tomar suas próprias decisões. Mas será realmente isto que as crianças precisam?”

Meu filho precisa que seus pais sejam pais, e não coleguinhas. Não é fácil

dizer não e ficar firmes, mas estamos preparados para dizer isso repetidas vezes. Até então, vou lembrar com prazer os dias fugazes da inocência em que uma festa coeducacional para nossa filha signifique uma soneca no berço com

sua boneca preferida.17

@ 2001 Ceators Syndicate, Inc.

Obrigado, sra. Malkin. É bom saber que o bom senso ainda pode ser encontrado entre as famílias jovens. O restante de nós deve juntar-se em nossa determinação de proteger as crianças. Nossa primeira obrigação é atender aos sinais de aviso colocados nos cruzamentos da estrada. Eles dizem aos motoristas para Parar, Olhar e Ouvir.

É exatamente isso que precisamos fazer em relação ao mundo em que nossos filhos vivem. Não ousamos ficar ocupados demais para monitorar suas atividades. Essa preocupação é necessária todos os dias por causa dos predadores espreitando perto deles na grama alta, especialmente no que se refere às crianças menores.

Nunca esqueça que pedófilos (individuas que abusam sexualmente de crianças) perambulam em volta procurando vítimas. Eles não têm dificuldade em encontrá-

las. O pedófilo “captura” e explora em média 150 crianças durante a sua carreira.18 A maioria não é apanhada no decorrer de muitos anos e, mesmo que seja, não pode ser condenada. Esses homens são altamente especializados em sua profissão. Podem entrar num lugar onde as crianças se reúnem, tal como uma sala de videogame ou uma pizzaria, e localizar, imediatamente, as crianças mais solitárias e necessitadas. Eles procuram meninos e meninas famintos emocionalmente por pais com tempo para eles. Em poucos minutos conseguem controlá-los e começar a abusar deles. A

média de tempo que a exploração de um indivíduo dura é de 7 anos. 19 Por que o segredo não vaza? Porque as crianças ficam intimidadas pelas ameaças e pelo temor dos pais.

Os pedófilos também surfam pela internet procurando crianças necessitadas. É por esse motivo que deixar que seus filhos tenham acesso, sem supervisão, à internet, é como um homem obsceno aparecer em sua porta e dizer sorrindo: “Sei que está terrivelmente ocupada e cansada. O que acha se eu distrair seu filho ou filha por algum tempo?”. Você o deixa entrar, e ele vai direto para o quarto e fecha a porta. Quem sabe o que acontece ali, onde não pode escutar? É isto que você faz quando coloca um computador ou uma televisão no quarto de seu filho. É um convite para o desastre. Mas é justamente isso que a maioria dos pais tem feito, e muitos deles viveram para lamentar essa falta de supervisão. Vou falar mais a esse respeito dentro em breve.

Outro perigo é a acessibilidade à pornografia com um clique do mouse. Ela não só está disponível para as crianças, como também os pornógrafos introduzem-nas a elas. É inevitável que as crianças que surfam regularmente pela internet tropecem nesse material pesado. Se um menino clicar na palavra brinquedos, uma das opções que pode surgir é brinquedos sexuais. Se a menina clicar no site chamado “cavalos do amor!”, ela pode ver imagens de sexo entre uma mulher e um cavalo. A fim de seduzir as crianças e adultos a pagar um site pornográfico, os fornecedores de pornografia oferecem provocações quase irresistíveis.

O ataque às mentes jovens continua inalterado. De acordo com a American Safe Foundation, 53% dos adolescentes disseram que passaram ocasionalmente por sites da web contendo pornografia, ou material baseado em ódio ou violento. Mais de 91 % declararam ter tropeçado involuntariamente nessas coisas terríveis enquanto

estudavam para a escola ou apenas surfavam na internet. 20 A Safe America declarou que os pais afirmaram que monitoram as pesquisas dos filhos na rede, mas estes dizem que isto não é verdade. A maioria vê aquilo que quer.

Qualquer jovenzinho pode ir à biblioteca e encontrar o material mais horroroso à sua disposição. Ele pode ver não só ilustrações sexuais gráficas na internet, mas também qualquer outra imagem e ideia perniciosa — desde como fazer uma bomba até instruções sobre como cometer suicídio. Quando os pais alarmados exigiram que fossem fornecidos filtros e supervisão para proteger os filhos desses sites da web, a Associação Americana de Bibliotecas e a União das Liberdades Civis Americana lutaram como leões em oposição a eles. Como é de prever, esses libertários afirmam com uma fisionomia impassível que a instalação de dispositivos de filtragem

violaria a Primeira Emenda dos direitos das crianças. 21 Eles dizem também: “As bibliotecas não podem ser pais”. Veja a implicação aqui. É um exemplo clássico do que estivemos discutindo. É dito aos pais: “Vocês estão por sua própria conta. Não é nosso problema. A provisão de computadores não supervisionados representa a primeira vez na história em que máquinas patrocinadas pelo governo causaram danos às crianças, é exatamente isto que está acontecendo. Os pais, sem suspeitar de nada, deixam os filhos nas bibliotecas, supondo que estarão seguros num ambiente de aprendizado. Eles não fazem ideia do que acontece lá dentro. Alguém ainda duvida de que a cultura está em guerra contra as famílias?

Espero que leia cuidadosamente o que estou prestes a escrever agora, porque explica a razão de este assunto ser tão importante. A pornografia e a obscenidade constituem uma terrível ameaça para os seus meninos. Uma única exposição a elas, para alguns adolescentes de 13 a 15 anos, é o necessário para criar um vício que os escravizará por toda a vida. A pornografia vicia mais que cocaína ou heroína. Essa foi uma das conclusões extraídas durante a Comissão sobre Pornografia da Procuradoria Geral dos Estados Unidos, em que servi. Nós, que fazemos parte da área do desenvolvimento infantil, sabemos que o ponto focal do interesse sexual não é muito bem estabelecido entre os adolescentes jovens. Ele pode ser redirecionado por uma experiência sexual precoce (desejada ou não) ou pela exposição à pornografia. O rapazinho que seria normalmente estimulado pela imagem de uma “chefe de torcida” pode aprender, mediante a obscenidade, a sentir-se excitado machucando alguém, no sexo com animais, na violência homossexual, ou fazendo sexo com crianças pequenas. Muitos homens que cederam a esses apetites sexuais perversos os atribuíram ao começo de sua adolescência.

Foi isso que aconteceu com Ted Bundy, a quem entrevistei apenas dezessete horas antes de ele ser executado por matar três meninas, uma delas a pequena Kimberly

Leach, de 12 anos.22 Bundy confessou, dois dias antes da sua morte, ter matado pelo menos 28 mulheres e meninas; as autoridades dizem que esse número pode chegar a cem. Bundy pediu para falar comigo porque queria que o mundo soubesse como a pornografia o levara (não causara) à sua violência assassina. Ele tinha 13 anos quando descobriu material pornográfico num depósito de lixo. Entre eles, havia revistas policiais que mostravam mulheres seminuas sendo atacadas. Bundy achou aquelas figuras extremamente excitantes e começou, assim, uma vida trágica que terminou numa cadeira elétrica na Flórida.

Não estou sugerindo que todo adolescente que lê revistas pornográficas ou assiste a vídeos obscenos vai matar pessoas no futuro. Estou dizendo que alguns deles farão isso e que muitos mais — talvez a maioria — vão ficar viciados em obscenidades. Este é um enorme problema cultural. Mais de 40% dos pastores são afligidos por

ele!23 Como acabaram assim? Pela exposição a materiais gráficos que os deixa sexualmente estimulados. Este padrão é responsável por grande número de divórcios e casamentos disfuncionais. Sei que isto é verdade porque ouço quase todos os dias mulheres cujos maridos estão pesadamente envolvidos com pornografia. O acesso à internet aumentou incomensuravelmente a incidência desta tragédia.

Vamos voltar ao perigo de colocar computadores pessoais e televisão no quarto de seus filhos. Segundo pesquisa recente, as crianças entre 2 e 18 anos passam em média cinco horas e vinte e nove minutos todos os dias assistindo à televisão, ouvindo música, ou jogando jogos de computador e videogames. Esse total aumenta para as crianças com mais de 8 anos, que passam quase 48 horas por semana envolvidas em algum tipo de atividade relacionada à mídia. A pesquisa revelou também que 53% das crianças têm televisão no quarto, o que inclui 32% de 2 a 7 anos e 65% de 8 a 18 anos. 70% das crianças têm rádios em seus quartos e 16% têm

computadores. 24

Que descrição nefasta este relatório apresenta sobre as crianças no século 21! O homem obsceno que bate na porta da frente passou a residir no quarto. Tudo está novamente ligado ao ritmo alucinado de vida. Estamos demasiadamente exaustos e arrasados para cuidar daqueles a quem mais amamos. Mal sabemos o que eles fazem nas nossas próprias casas. Que vergonha! A Yankelovich Partners Inc. declarou que a imagem das famílias reunidas em volta do aparelho de TV na sala de estar está desaparecendo. Em vez disso, muitas crianças estão, por conta própria, num lugar em que podem assistir a qualquer coisa que desejem. Ann Clurman, uma sócia da Yankelovich, disse: “Praticamente tudo o que as crianças assistem está

entrando na mente dela de algum modo não censurado ou não filtrado”.25

Recomendo urgentemente a você que tire do quarto todas essas peças, quer aparelhos de televisão, computadores ou VCRs. Coloque-as na sala de estar, onde possam ser monitoradas e onde o tempo gasto nelas possa ser regulado. Como poderia fazer menos por seus filhos?

É também nossa responsabilidade assistir a várias formas de entretenimento com nossos meninos e nossas meninas quando são pequenos. O que vocês veem juntos pode apresentar situações de ensino que os ajudará a tomar a decisão certa por si mesmos, quando forem mais velhos. Um membro da nossa equipe executiva compartilhou comigo um incidente que ocorreu enquanto ele assistia à TV com sua filha de 13 anos. Ao tentar satisfazê-la, escolheram um seriado popular com os adolescentes. O pai ficou chocado com o que viu e ouviu, mas tentou não transformar aquele tempo “juntos” num sermão paternal. Mas, finalmente, não aguentou.

— Filha — disse ele —, não posso ficar sentado aqui e ver todo esse lixo entrar em nossa casa. É terrível. Vamos ter de assistir a outra coisa.

Para sua surpresa, a filha respondeu: — Estava imaginando quando você iria finalmente mudar de canal, papai. Esse programa é medonho.

Nossos filhos podem resistir aos nossos esforços para filtrar a sujeira e a violência que invadiram o mundo deles, mas sabem que é certo fazer isso. Eles nos respeitarão por dizer: “Deus nos deu esta casa, não vamos insultá-lo permitindo que seja contaminada com programas indecentes”. Todavia, a fim de fazer este julgamento, você tem de assistir com seus filhos para saber o que requer sua atenção. Quero sugerir que compartilhe, então, esta passagem da Escritura com sua família, escrita há 2.600 anos pelo rei Davi: “Não porei coisa injusta diante dos meus olhos” (SI 101.3). Leia também e discuta o seguinte versículo escrito pelo apóstolo Paulo: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4.8).

Se a caixinha não puder ser dominada, pode tentar desligá-la da parede, vendê-la, colocá-Ia na garagem, destruí-la com um machado ou enfiar um sapato em seu olho brilhante. Se o computador pessoal se tornar um problema, livre-se dele. Reúna então a família e leiam juntos um bom livro!

Eu sei, queridos pais, que minhas palavras neste capítulo foram perturbadoras. Não é de admirar que muitos de vocês sintam-se apanhados pela correnteza de uma cultura pós-moderna cujo único deus é a autogratificação e cujo único valor é o individualismo radical. Não obstante, você precisa conhecer a verdade e fazer o que está em suas mãos, para dar proteção aos seus entes queridos. No capítulo seguinte, ofereço o que considero ser o meio mais eficaz de lidar com a cultura pós-moderna. Enquanto isto, eis algumas coisas a considerar.

Primeiro, vamos dar prioridade a nossos filhos. No passado, a cultura agia para protegê-los das imagens e exploração nocivas. Agora está aberta até para os mais jovens entre nós. Coloquemos o bem-estar de nossos meninos acima de nossa própria conveniência e ensinemos a eles a diferença entre certo e errado. Eles precisam ouvir que Deus é o autor dos seus direitos e de suas liberdades. Vamos ensinar-lhes que ele os ama e prescreve para eles um alto nível de responsabilidade moral.

Segundo, vamos fazer tudo em nosso poder para reverter o impacto da violência e da cobiça que se tornou tão difundido em todo este país. Vamos exigir que os magnatas do entretenimento deixem de produzir poluidores morais. Vamos recuperar dos tribunais aquele sistema de regras pessoais que tradicionalmente permitiam que os norte-americanos debatessem suas mais profundas diferenças abertamente e chegassem juntos a soluções viáveis. O individualismo radical está nos destruindo! O pós-modernismo é o câncer que apodrece a alma da humanidade. O credo que proclama: “Se for bom, faça!” encheu grande número de hospitais com adolescentes drogados, muitas celas de prisão com jovens órfãos de pai, muitos caixões com jovens assassinados e provocou muitas lágrimas nos pais confusos.

Finalmente, vamos prometer juntos, hoje, estabelecer os mais altos padrões de ética e moral para nossos filhos e protegê-los, o mais possível, do mal e da morte. Nossas famílias não podem ser perfeitas, mas podem ser melhores — muito melhores.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Creio que o senhor disse em seu programa de rádio certa vez que estamos na verdade treinando nossos filhos para matar. O que quis insinuar com isso? Essa é a tese de David Grossman, o qual, junto com o governador Mike Huckaby, de Arkansas, escreveu On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society [Matar: O custo psicológico de aprender a matar na guerra e na sociedade]. O professor Grossman foi indicado para o Prêmio Pulitzer por expor a

violência visual, que ele chamou “(a maior) substância tóxica que vicia e destrói”.26 Quando lhe pediram que testemunhasse diante do comitê senatorial que investigava a violência entre os jovens, ele explicou, em detalhes arrepiantes, o que estamos enfrentando como nação. Tendo passado 24 anos na força aérea, Grossman é uma autoridade no que é conhecido como “matançologia”. Esse termo se refere ao “estudo da matança”, enfocando os processos de treinamento usados pelos militares para preparar os homens para as tarefas mais violentas de combate. A conclusão assustadora de Grossman é que os mesmos métodos e experiências usados para este propósito estão sendo empregados para doutrinar as crianças. Em resumo, elas estão sendo ensinadas a matar sem remorso.

Essas técnicas, que envolvem excesso de exposição a certo distúrbio de comportamento, são conhecidas há décadas e são muito eficazes. É fato estabelecido que a mente humana aceitará até as experiências mais horríveis e repugnantes se tiverem tempo para ajustar-se e se forem acompanhadas por um raciocínio que desarme as defesas. O melhor (ou o pior) exemplo deste processo foi visto nos esquadrões da morte nazistas, chamados Einsatzgruppen, que se movimentaram por toda a Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Cerca de quatro desses pequenos grupos de doze a vinte homens mataram sistematicamente mais de 1,4 milhão de

pessoas a sangue frio, não poupando mulheres, crianças ou bebês.27 Em várias ocasiões, eles chegaram a matar até cinquenta mil judeus, ciganos, poloneses e

prisioneiros políticos em um único dia. 28 Depois da guerra, cientistas sociais que estudaram o comportamento assassino dos participantes concluíram que eles padeciam de demência, caso contrário não poderiam suportar tal horror dia após dia. Ao serem feitas investigações, porém, soube-se que eram principalmente seres humanos normais — ex-homens de negócios, médicos, advogados e lojistas — que acreditavam na causa nazista e se tornaram rapidamente imunes ao assassinato gratuito. Passaram a ser “monstros” que realmente apreciavam observar pessoas inocentes suplicar em vão por misericórdia. O que ocorreu foi que o excesso de exposição à brutalidade havia endurecido os assassinos ao sofrimento de inocentes e até aos gritos das criancinhas. O processo mental pelo qual os seres humanos aprendem a aceitar o que antes achavam repugnante é conhecido como dessensibilização.

O excesso de exposição é igualmente o mecanismo pelo qual esta acomodação surpreendente é alcançada. Era exigido dos recrutas nazistas que praticassem tarefas perturbadoras repetida e sistematicamente até que não ficassem mais chocados ou revoltados com elas. Eles deram a esses recrutas lindos filhotes de pastor alemão e permitiram que se ligassem emocionalmente a eles. Ordenaram depois que esses homens quebrassem o pescoço dos filhotes com as mãos nuas. Isto foi feito para “fortalecê-los”. O que os líderes nazistas faziam era dessensibilizar os recrutas à crueldade. Não há grande diferença emocional entre matar cachorrinhos e matar

seres humanos indefesos. 29

Este processo de dessensibilização é usado de maneiras muito mais produtivas, hoje, pela indústria da aviação. É o mecanismo pelo qual os piloros são treinados e testados. Os pilotos são colocados em dispositivos imóveis conhecidos como simuladores, que criam situações de emergência virtual, tais como falha no motor ou problemas no mecanismo de aterrissagem. O propósito é desenvolver habilidades a serem usadas no caso de uma crise real, mas também para condicionar os pilotos a permanecerem calmos durante circunstâncias catastróficas. Mais tarde, depois de passar por todas as emergências possíveis no treinamento, poderão provavelmente lidar com situações de vida e morte, sem entrar em pânico. Funciona. Os alunos de medicina são também dessensibilizados para lidar com sangramentos no pronto-socorro ou nas cirurgias que consideravam chocantes no início. A maioria de nós tem esta capacidade para ajustar-se a experiências perturbadoras.

Com efeito, é isso que estamos fazendo a milhões de espectadores — especialmente nossos filhos —, expondo-os, incessantemente, a estupros e assassinatos na televisão e nos filmes. Justamente isto foi descoberto numa investigação durante 22 anos conduzida pela Universidade de Illinois, em Chicago. Segundo o psicólogo Leonard Eron, 875 pessoas de um condado semirrural de Nova York foram aceitas para estudo aos 8 anos de idade. Quando chegaram à casa dos 30, os que haviam assistido mais violência na televisão tinham sido culpados por certo número de crimes graves significativamente maior.

Eron, chefe da Comissão sobre Violência e Juventude da Associação Americana de Psicologia, concluiu: “A violência na televisão afeta os jovens de todas as idades, de ambos os sexos, de todos os níveis socioeconômicos e de todos os níveis de inteligência, e o efeito não fica limitado às crianças que já são predispostas à

agressividade e não fica restrito a este país”.30

Considere agora a violência à qual as crianças atuais são expostas na vida diária, tais como os videogames agora disponíveis. O Mortal Kombat é um dos melhores exemplos. Crianças bem pequenas estão aprendendo não só a matar, mas também a permanecer insensíveis quando cabeças são cortadas e sangue é espalhado por toda parte. Com um pouco de prática, elas aprendem a ajustar-se à morte e à desgraça. O professor Grossman disse que a dessensibilização que nossos filhos estão

experimentando pode ser diretamente transferida para o campus escolar.31

Referindo-me novamente a Eric Harris e Dylan Klebold, os matadores da Escola Columbine, o filme favorito deles era o Basketball Diaries (Diários de Basquete), que descrevia uma cena bem parecida com o massacre que iriam perpetrar mais tarde. Foram também muito influenciados pela cena gótica que ensina a morte, violência e perversão sexual. Em vista desse “treinamento”, não devemos surpreender-nos por saber que os jovens assassinos aplaudiram, zombaram e pareceram estar até tendo “grande prazer” ao atirar em seus colegas de escola. Como qualquer indivíduo racional pode negar este elo entre a violência virtual e a violência nas ruas?