Entre irmãs
Capítulo 7
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Emília não conseguia entender como uma voz tão possante podia sair de um homem tão pequeno. Durante aqueles discursos, ficava fascinada pelas proclamações do candidato. Ele queria combater o crime, abraçar a causa da ciência, promover a moralidade, criar cooperativas de consumidores, instituir planos de aposentadoria e reforçar a proteção para mulheres e crianças trabalhadoras. Todas essas ideias lhe soavam justas e dignas de entusiasmo; no entanto, depois de algumas semanas ouvindo os pronunciamentos pelo rádio, a moça começou a levar os trabalhos de agulha para a sala de visitas e ficava bordando enquanto Vargas falava. A voz do candidato era sempre animada, mas as palavras não mudavam nunca. Não havia qualquer detalhe, qualquer informação mais específica. Só exclamações, gritos e, para encerrar, a frase que se tornou a sua marca registrada: “Lutemos por um Brasil Novo!”
No fim de cada discurso, o Dr. Duarte se levantava e aplaudia de pé.
– É assim que um homem deve discursar, Degas – dizia ele, dando um chutinho no sapato do filho. – Ouça bem e tome nota.
Degas franzia os lábios, como se tivesse comido alguma coisa amarga. Naquela noite, não ficou ouvindo os discos de inglês. Foi direto para o quarto da mulher e se instalou na cama ao seu lado. Emília achou que o marido tinha ido cumprir o seu ritual semanal, na tentativa de conceber um filho, e ficou ali, imóvel, esperando que ele tocasse a sua mão, como que pedindo permissão, e, depois, com alguma relutância, deitasse sobre o seu corpo. Mas Degas não fez nem uma coisa nem outra. Continuou ali ao seu lado e começou a falar.
– Preferia estar sentado na cadeira do dentista a continuar ouvindo esse homem vociferando – disse ele, puxando o lençol.
– O seu pai tem boas intenções... – principiou Emília.
– Não é dele que estou falando – retrucou Degas, entre dentes. – Graças a Deus, posso ficar longe do meu pai. Mas sempre que saio de casa ouço esse Vargas. Os meus colegas de faculdade ligam o rádio que fica transmitindo esses discursos aos brados! E quando não é o rádio, são as pessoas que os comentam em voz baixa ou os jornais que publicam citações.
Degas se deitou, apoiando a cabeça nos travesseiros bordados. Emília ficou olhando a sombra da barriga proeminente do marido e, depois, o seu perfil tão bonito: o nariz meio adunco, os cílios espessos. Tempos atrás, havia admirado aquele perfil, lá na serra de Taquaritinga, e ficava espantada e assustada ao pensar que, agora, conhecia tão pouco as opiniões dele quanto naquela época.
– Quer dizer... – principiou Emília, quase num sussurro – ... que você é azul?
– Não posso ser – retrucou Degas, soltando o ar ruidosamente pelo nariz. – Não nesta casa. Sorte sua não ter de votar.
– Mas eu queria votar – disse a moça. – Só porque você não dá valor à sorte que tem, não quer dizer que os outros também não deem.
– Ah, esqueci. Você é sufragista – observou ele, rindo. – Por favor, Emília! Você é bonita demais para ser uma Auxiliadora... Não quero nem a imaginar de óculos, usando esses sapatos rasinhos e pregando a liberdade.
A sua voz tinha aquele tom despreocupado e provocador que assumia quando queria irritar a esposa. Mesmo sem querer, ela caiu na armadilha.
– Qual o quê! – exclamou Emília. – Nenhuma das mulheres da Sociedade Auxiliadora se parece com as que a gente vê naquelas charges horrorosas. E todas são a favor do voto feminino. Todas.
– Eu sei, eu sei – disse Degas, com um suspiro. – Mas acredita mesmo que Vargas vai lhes dar o direito de voto?
– Pelo que ele diz, vai.
– Esse raciocínio é terrivelmente ingênuo.
– Antigamente, você elogiava isso em mim.
Degas se remexeu debaixo do lençol. Os seus pés roçaram na perna de Emília. Eram ásperos e estavam frios.
– Reconheço uma fraude só de ouvi-la – prosseguiu ele. – Esse sujeito está prometendo tudo a todos. Em algum momento, vai ter de quebrar essas promessas. As concessões são inevitáveis. Todos nós somos obrigados a fazê-las. Não pense que Vargas vai ser diferente. Ele vai desapontá-la.
– Por que a mim? – indagou Emília. – Por que não aos militares? Por que não aos cientistas, ou ao seu pai?
Degas se virou para a mulher. Emília sentiu no rosto o seu hálito quente e cheirando a bicarbonato.
– Às vezes, me pergunto se isso é ingenuidade ou teimosia – disse ele. – Às vezes, acho que você vê tudo o que está a sua volta com a maior clareza, só que é cabeça-dura demais para admitir.
– Admitir o quê? – perguntou Emília.
Sentiu uma pressão nas têmporas, sinal de uma dor de cabeça que estava começando. O seu corpo estava cansado, mas a cabeça não, e tinha a mesma sensação de um cansaço agitado que sentia em criança, quando ia ter febre.
Degas suspirou. Emília virou o rosto, mas a voz do marido encheu os seus ouvidos. Era um sussurro hesitante, que a fez pensar em Luzia e nos segredos que trocavam antes de dormir.
– Tenho inveja desses criminosos que o meu pai estuda – disse ele.
– Por quê? – sussurrou Emília.
– Porque não têm cura. Simplesmente são o que são.
– Mas eles estão condenados – retrucou a moça, lembrando-se das preleções que o sogro fazia ao café da manhã. – Não têm qualquer chance de melhorar. Não têm saída. Isso é horrível, Degas.
– Ter escolha é pior. Pensar que você poderia mudar as coisas, se tornar uma pessoa melhor, desde que não fosse tão fraco. Tão facilmente corrompível.
Degas tossiu. Tinha a respiração curta e encatarrada, como se estivesse entalada em sua garganta. Emília fechou os olhos. Preferia aqueles movimentos esquisitos que ele fazia em cima do seu corpo a essas estranhas confissões. No início do casamento teria tentado consolá-lo. Assim que chegou ao Recife, acreditava que os casais trocavam confidências antes de dormir, compartilhando histórias e revelando os seus sentimentos mais íntimos. Levada por essa convicção, trataria de incitar o marido a falar mais, a se explicar. Agora, porém, não queria escutar. Sentia a mesma sensação de desânimo que experimentou naquele primeiro baile de Carnaval, ao ver Degas com Felipe. Os dois estudavam juntos, saíam de carro, frequentavam as mesmas aulas, e, no entanto, o rapaz nunca aparecia na casa dos Coelhos. Cavalheiros eram diferentes de fazendeiros, dizia Emília com seus botões. Os homens da cidade grande tinham amigos íntimos; isso era sinal de refinamento, de um espírito mundano que ela ainda não conseguia compreender. Sentia, porém, que havia algo diferente com relação a Degas, algum sentimento mais profundo que o deixava assustado, e a ela também.
– Boa noite – disse, então, dando-lhe as costas.
Degas não respondeu.
3
Quando as eleições já estavam mais próximas, os azuis tentaram desacreditar Vargas condenando as sufragistas. Os repórteres do jornal do partido publicaram artigos sobre a “perigosa emancipação” que estava sendo proposta às mulheres. Publicaram também charges representando maridos absolutamente exaustos tendo de cuidar de um bando de crianças que choravam enquanto suas esposas – sempre imensas de gordas e jamais vestidas na moda, como Emília pôde reparar – saíam de casa empunhando uma pasta e uma passagem de bonde. Um programa de rádio feminino intitulado Cinco minutos de feminismo, que teve vida breve, era precedido e sucedido por sambas animados, dizendo coisas como:
Ela vai conseguir o que quiser.
Vai fazer tudo o que puder,
Mas, companheiros, sempre vai ser mulher!
Toda noite, o Dr. Duarte ficava marcando o ritmo dessas músicas com o pé, enquanto Degas trocava olhares cúmplices com Emília.
– Detesto essas músicas – disse ela enfim, não conseguindo mais aguentar a petulância do marido.
O Dr. Duarte a fitou, estarrecido. Dona Dulce assentiu.
– Samba é horrível – acrescentou ela. – Sempre achei.
O Dr. Duarte franziu a testa. Encarou o rádio como se o estivesse vendo pela primeira vez. Minutos depois, desligou o aparelho.
– É tudo propaganda do partido azul – resmungou ele. – Essa gente quer que as coisas continuem exatamente como estão. Mas vamos virar o jogo! Ora se vamos! – exclamou o Dr. Duarte, brandindo um dedo, empolgado. Ao ver que ninguém respondia, voltou a ligar o rádio e ficou prestando atenção ao programa Cinco minutos de feminismo.
Como a maioria dos homens do partido verde, o Dr. Duarte acreditava que o voto era um passo inevitável rumo à modernidade. Ele e várias mulheres da Sociedade Auxiliadora estavam convictos de que votar não interferiria nos deveres das mulheres com a família. Afinal, como Lindalva vivia a repetir, as feministas brasileiras não eram como as britânicas radicais, que se martirizavam e bombardeavam prédios. Emília sempre notava amargura na voz da amiga quando falava do assunto.
Em retaliação pelos ataques dos azuis, os jornalistas verdes do Recife publicaram histórias de crimes libidinosos, acusando o governo azul de ter perdido a autoridade moral sobre o país. Em Pernambuco, os jornais traziam histórias sobre o bando do Carcará. O chefe dos cangaceiros havia surpreendido repórteres e autoridades do governo ao enviar um telegrama à capital. A mensagem saiu na primeira página do Diário de Pernambuco.
Corrigindo um erro em seu jornal. PT.
Urubus atacam o que já está morto. PT.
Falcões são diferentes. PT.
Eles caçam, matam e só então comem. PT.
Estou vivo e passo bem. PT.
Quando enviarem mais tropas, não se esqueçam de mandar água. PT.
Não quero que os soldados morram de sede. PT.
Assinado:
Capitão Antônio Teixeira
vulgo, O Carcará.
Depois da emboscada contra as tropas do governo, houve uma breve trégua nas atividades dos cangaceiros, logo seguida, porém, de mais violência. O bando raptou a filha de um coronel e a libertou em troca de um vultoso resgate. Também assaltaram um trem em Aparecida, a estação mais a oeste da Great Western do Brasil. Os vagões de carga estavam repletos de milho e farinha de mandioca que seriam vendidos no litoral. O bando atirou na coxa do maquinista e distribuiu a comida entre os habitantes do lugar.
Quando surgiu o primeiro desses artigos no Diário de Pernambuco, Degas o leu em voz alta na hora do café.
– Por favor – disse dona Dulce, balançando a mão pálida na direção do filho. – Não quero sangue nesta mesa.
– Então vou pular as partes sangrentas, pela senhora e por Emília – retrucou Degas.
Bem ao lado da mulher, abriu o Diário para ler o artigo publicado na segunda página. Emília sentia até o cheiro da tinta. Percebia que Degas a fitava, como se a desafiasse a olhar para o jornal. A moça se lembrou da conversa que tinham tido no quarto dele, no dia em que fumou o seu primeiro e último cigarro. Felipe e as criadas do coronel tinham contado ao seu marido a história do rapto de sua irmã, a que tinha o braço aleijado. Ele sabia que o Carcará a tinha levado.
Emília permaneceu de cabeça baixa, com os olhos fixos no ovo frito em seu prato. Enfiou a faca na gema e fez uns cortes rápidos, na diagonal.
– Continue, filho – disse o Dr. Duarte.
Quando Degas terminou de ler o primeiro artigo sobre os cangaceiros, Emília estava decidida a não se deixar surpreender novamente. Passou a acordar ao amanhecer para pegar o jornal antes de qualquer outra pessoa.
Discretamente, levava-o para a sala de recepções toda espelhada, onde as criadas raramente entravam. Era ali que lia, à luz fraca do aposento. Aos poucos, o assunto favorito da imprensa deixou de ser o Carcará e passou a ser a sua companheira. Uma mulher, diziam. Uma mulher que se vestia como homem. Segundo as declarações dos habitantes da região, os cangaceiros a chamavam “Costureira”. De início, muita gente duvidava da sua existência e as reportagens não forneciam detalhes mais específicos sobre a tal cangaceira, coisa que deixava Emília bem frustrada. Até que um jornalista do Recife encontrou o bando do Carcará durante uma viagem ao sertão. Os cangaceiros levaram o seu dinheiro e quebraram a sua máquina de escrever, mas o sujeito conseguiu voltar para a capital com vida e escrever uma série de artigos sobre suas aventuras.
“A Costure ira” re ve lada: um pe rfil
por Joaquim Cardoso
Quem é essa tal Costureira? Poder-se-ia dizer que é apenas uma mulher, mas ela usa calças de homem e óculos de aro metálico que
valem um bom dinheiro. Nos seus pertences, é possível encontrar um toque de feminilidade: as bolsas e os cantis são enfeitados de cores
espalhafatosas. Neste aspecto, ela é como tantas outras mulheres das cidadezinhas miseráveis do sertão: tenta ter boa aparência, mas não
consegue. A costureira tem uma altura incomum e um braço deformado. Apesar desses atributos peculiares, em todos os outros sentidos é
como qualquer mulher de lavrador. Tem pés grandes, unhas sujas, uma boca carnuda e seios flácidos. É uma mulher vulgar, e o sertão está
cheio desse tipo de mulheres.
O que distingue a Costureira é justamente o fato de não ser esposa de um lavrador. Ela se casou com um bandido: um homem feio, de
pele escura e malcheiroso. O olhar desta mulher é furtivo e perturbador. Arrisca a própria vida, protege os mais fracos do bando e, com
uma repulsa calada, permite que o marido cometa as maiores atrocidades. É insensível, mas também sentimental; fria, mas feroz – em
suma, uma mulher. E que homem seria capaz de penetrar os mistérios de uma alma tão contraditória?
Emília leu o artigo até as palavras se tornarem simples borrões. Luzia estava viva. Agora, não havia mais dúvidas. O seu alívio, porém, foi logo substituído pela raiva. Quem era esse repórter para ficar dizendo essas coisas? O olhar de Luzia não era furtivo. A sua irmã não era vulgar. Depois, surgiu o medo: e se Luzia tivesse mudado? Ela própria não tinha se tornado uma pessoa diferente nesse tempo vivendo no Recife? A tristeza se abateu sobre Emília, como se uma pedra estivesse comprimindo o seu peito. Era como se algo precioso lhe houvesse sido tirado e depois devolvido, mas de um jeito irreconhecível. Quem era essa mulher? Essa tal Costureira? Bem no fundo, o que sentia era estranho. Era frio. A mesma coisa que sentia quando via uma linda renda que não podia comprar. O jeito como ficava às vezes, vendo os modelos da Fon Fon com aquele cabelo perfeito e aqueles vestidos elegantes. Sempre teve inveja da liberdade e da força de Luzia. E continuava tendo.
Adoraria recortar aquele artigo e guardá-lo junto com o retrato da primeira comunhão, mas não podia. Tinha de dobrar o jornal com todo o cuidado, como sempre fazia, e devolvê-lo à caixa do correio, junto ao portão de ferro da casa dos Coelhos. Durante o café da manhã, Degas leu o artigo com alguma hesitação, como se o seu conteúdo o perturbasse. Impaciente, o Dr. Duarte arrancou o jornal das mãos do filho e terminou de ler o texto. Depois, pediu a uma criada que lhe trouxesse a tesoura e recortou o artigo ali mesmo, apesar das objeções de dona Dulce.
O recorte ficou em cima da escrivaninha, no escritório. Emília era obrigada a vê-lo toda tarde. Tinha se tornado secretária particular do sogro. Depois das reuniões políticas no British Club, o Dr. Duarte vinha para casa cheio de planos e ideias. Guardava segredo de qualquer estratégia do partido verde que porventura conhecesse, mas acreditava que, depois da eleição, as suas teorias criminológicas seriam aceitas e aplicadas. Precisava ser capaz de explicá-las de forma sucinta e eficaz aos líderes dos verdes. Não tinha condições de guardar todas aquelas ideias de cabeça, mas tampouco podia anotá-las rápido o bastante. Quando tentou, não conseguiu entender a própria letra. Mas não queria contratar uma dessas “garotas bobas” que sairia por aí comentando os seus planos. O partido não aprovaria. Precisava de alguém que fosse discreto, confiável e imediatamente disponível. Emília era a escolha mais óbvia. O Dr. Duarte ia falando e ela anotava tudo, embora nem sempre escrevesse certo as palavras que ele usava.
Havia os três tipos de corpos propostos pelo Dr. Ernst Kretschmer: o astênico, magro e esguio; o atlético, ou musculoso; e o pícnico, roliço e gordo. Os astênicos eram com frequência esquizofrênicos, excêntricos e criminosos. Os atléticos eram em sua maioria normais. Os pícnicos eram filósofos, preguiçosos, depressivos. Havia a diferença intrínseca entre um criminaloide (aquele que comete crimes ou pratica atos perversos em função da sua natureza fraca, e que pode ser curado) e o verdadeiro criminoso, o Homo delinquis, aquele que pratica crimes desde a infância, sem demonstrar qualquer remorso, e que não tem a menor chance de ser curado. O verdadeiro criminoso se assemelha às raças primitivas e às crianças, pois são hedonistas, curiosos e cruéis.
– Entre os povos selvagens – disse o Dr. Duarte, andando de um lado para outro no escritório –, a mulher se revela menos sensível. Ou seja, mais cruel que o macho e mais propensa a ser vingativa. Mas ninguém sabe se isso é fato entre os criminosos de hoje. Há tão poucas mulheres delinquentes... – Baixou os olhos para a escrivaninha e pegou o recorte de jornal com as pontas dos dedos. – Como gostaria de medi-la... – acrescentou, suspirando.
A sua voz soou branda, afetuosa.
– O que o senhor veria? – indagou Emília.
O Dr. Duarte ergueu os olhos, assustando-se ao ouvir a voz da nora.
– O que o senhor veria... nela? – repetiu a moça.
– Não sei. Mas tenho as minhas teorias – respondeu ele, contraindo os lábios e fitando-a. Depois, abriu uma gaveta da escrivaninha e pegou uma caixa de madeira. Ali dentro, sobre um forro de veludo, havia um jogo de pinças prateadas. Eram grandes, recurvadas e com as pontas achatadas. O Dr. Duarte as retirou do estojo. Todas tinham cabos semelhantes aos das tesouras.
– Posso lhe mostrar como funciona?
– Ah, Dr. Duarte – exclamou Emília, deixando de lado o bloco. – Não precisa. Foi só uma pergunta boba.
– Por favor – retrucou seu sogro. – Tenho o maior prazer em demonstrar. E isso também vai ajudar você com as anotações, pois vai ficar sabendo a que estou me referindo – acrescentou, circulando a escrivaninha, com as pinças nas mãos. – Não precisa ter medo, querida! – prosseguiu o Dr. Duarte, rindo. – Sente-se bem ereta. Talvez eu despenteie o seu cabelo.
Pôs então a ponta chata de uma das pinças entre os olhos de Emília e a outra na parte posterior do crânio. O metal estava frio.
– Da raiz do nariz até a parte posterior do crânio temos o diâmetro anteroposterior máximo – disse o Dr. Duarte, pegando o bloco e a caneta da nora. Anotou ali o resultado, sem deixar que ela o visse. Depois, pôs as extremidades da pinça de ambos os lados da cabeça de Emília, pressionando as suas têmporas. – Este é o diâmetro transverso.
A moça fechou os olhos. O terno do sogro tinha um cheiro forte de limão. Era a colônia cítrica que sempre botava antes das reuniões no British Club. Ouviu que ele estava tirando outras medidas.
Ajeitou as pinças, indo do alto da cabeça até a nuca.
– Curva transversa ou biauricular – disse ele, e anotou o resultado.
Emília sentiu os dedos do sogro, fortes e curtos, endireitarem a base do seu crânio. Agora, era com as mãos que ele estava medindo. Engoliu em seco e abriu os olhos.
– Pronto – exclamou o Dr. Duarte. – Terminei. Agora, um pouquinho de matemática. Tenho que somar todos os cinco elementos para obter a sua capacidade craniana e, depois, aplicar uma fórmula para chegar ao que chamamos de índice cefálico.
Emília assentiu. O Dr. Duarte sentou-se diante da escrivaninha e começou a rabiscar no bloco. Ela se virou na cadeira. A Menina Sereia continuava na prateleira dos fundos, dormindo tranquilamente.
– Emília! – chamou o Dr. Duarte, tossindo.
Ela se voltou novamente.
– Você é braquicéfala, minha querida.
– Sou o quê?
– Tem um crânio lindo e perfeito – respondeu ele, rindo. – Dentro do índice normal para mulheres.
Emília suspirou. Seu sogro sorriu.
– Estava preocupada? – indagou ele, recostando-se na cadeira e juntando as pontas dos dedos gorduchos. – As criminosas são egoístas e malévolas. São mentirosas. E você, Emília, não é nada disso.
A moça assentiu e, desculpando-se, saiu do escritório.
Já no quarto, tirou o retrato da primeira comunhão do seu esconderijo no porta-joias. Queria rezar, mas para quê? Para agradecer por sua normalidade? Pelo seu lindo crânio? Tinha ficado nervosa no escritório. Com medo, até. Quando o Dr. Duarte lhe revelou o resultado, sentiu-se a um só tempo aliviada e desapontada: era normal, reconhecível. Já Luzia, não. Luzia era imensurável. Era tão obscura e imprevisível quanto o Capibaribe, que cortava a cidade com as suas águas pardacentas. Num momento, calmo; noutro, turbulento e assustador.
Mas até que ponto, pensou Emília, os atributos físicos determinariam o nosso destino? Tia Sofia e o padre Otto acreditavam que o corpo era o invólucro da alma. Era a alma – essa essência espiritual intangível – que constituía a pessoa. No entanto, até as almas têm as suas limitações. O padre Otto dizia que Jesus via a alma das pessoas e sabia todos os pecados que os seres humanos cometeriam, antes mesmo de eles serem cometidos. Em vez de evitar tais pecados, o Cristo morreu por eles. Dera a vida para perdoá-los, já que os pecados eram inevitáveis.
O Dr. Duarte ia à missa e comungava, mas acreditava que era o crânio das pessoas, e não a alma, que determinava o seu futuro. Crânios eram feitos para acomodar o cérebro, que se constituía pela hereditariedade. A mãe da Menina Sereia era alcoólatra e criminaloide, portanto, a filha, se houvesse sobrevivido, teria herdado esses mesmos traços. O pai de Emília vivia bêbado e, no entanto, nem ela nem Luzia suportavam o cheiro da cachaça. O Dr. Duarte não conhecia a história da sua família. Mesmo assim, tinha declarado que ela era normal: nem fingida, nem maldosa, nem egoísta. Mas estava enganado. Emília sabia muito bem que tinha esses defeitos. Mentira ao dizer aos Coelhos que a sua irmã estava morta. Às vezes, depois de ouvir uma das observações sarcásticas de dona Dulce, esgueirava-se para a cozinha, lambia uma colher e a enfiava num dos preciosos potes de geleia da sogra, na esperança de azedá-la. E na outra noite, em vez de consolar o marido depois daquela estranha confissão, simplesmente virou para o outro lado, preocupada demais com os próprios medos para lhe dar atenção.
Degas confessou preferir uma vida previamente traçada, predeterminada. Achava mais fácil acreditar que os seus atos eram inevitáveis e o seu cérebro, inflexível.
Emília não conseguia imaginar vidas inteiras sendo determinadas por coisas tão grosseiras e vulneráveis como corpos, ou coisas tão impalpáveis como almas. Não podia se convencer de que o seu destino, ou o de Degas, ou o de Luzia, já estivessem traçados desde o começo. Estava acostumada a escolher. Como toda costureira. Até o mais grosseiro e sem graça dos morins podia ser tingido, cortado e costurado para se criar um vestido elegante, desde que se fizessem as escolhas certas. Opções também podiam transformar a mais linda das sedas numa catástrofe, informe e repuxada. Como as pessoas, porém, cada tecido tem as suas próprias vantagens e limitações. Alguns são finos e lindos, mas frágeis, que se rasgam ao mínimo picote. Outros têm a trama tão cerrada que nem dá para ver as fibras. Há ainda os que são grossos, encorpados, chegando até a arranhar. Impossível mudar o caráter de um tecido. Ele pode ser cortado, rasgado, cosido para se transformar em vestidos, calças ou toalhas de mesa, mas, seja qual for o feitio que assuma, o pano continuará sempre o mesmo. A sua verdadeira natureza não se altera. Qualquer boa costureira sabe disso.
Emília ficou olhando para as meninas na foto da primeira comunhão. Com o dedo, acompanhou a linha do braço aleijado de Luzia, as curvas discretas do seu próprio corpo de criança assumindo as formas de mulher, e se perguntou se o caráter das duas já estava determinado e que aspectos teriam sido o resultado de opções. Lembrou-se da pressão das mãos do Dr. Duarte na sua cabeça, do contato do metal frio daquelas pinças. Lembrou-se das palavras do artigo recortado do jornal: “E que homem seria capaz de penetrar os mistérios de uma alma tão contraditória?”
– Homem nenhum – sussurrou ela, dirigindo-se às garotas do retrato. – E com certeza nenhum par de pinças.
Nas semanas subsequentes, Emília começou a estudar moldes de calças. “Trajes femininos para velejar”, como diziam as revistas de moda europeias. Elas eram brancas, de cintura bem justa, com abas abotoadas e pernas amplas. Jamais poderia fazer uma calça dessas para si mesma; era muito arriscado e as senhoras da Sociedade Auxiliadora nunca aprovariam. Mesmo assim, sonhava com as tais calças. Toda tarde, roubava uns trocados da carteira do sogro e comprava os seus próprios jornais. Parava na banca quando estava voltando da casa de Lindalva. O jornaleiro era seu cúmplice. Embrulhava o Diário de Pernambuco no meio de revistas de moda e piscava o olho ao lhe entregar o pacote. Assim, ela podia recortar todos os artigos que quisesse e escondê-los no porta-joias. Lia as notícias sobre a vida de Luzia como se ela fosse a heroína sombria de um romance qualquer. Todo dia, acordava ansiosa. Ansiosa para saber qual seria o próximo passo da irmã. Luzia estava a centenas de quilômetros de distância, mas, agora, era como se estivesse ao seu lado novamente. Como se ela estivesse abrigando uma fugitiva bem debaixo do nariz dos Coelhos.
4
Em março, Getúlio Vargas perdeu a eleição presidencial. No dia da votação, o Dr. Duarte e outros membros ricos do partido verde, ostentando alfinetes de gravata de esmeraldas, foram dirigindo os seus Chryslers até as seções eleitorais localizadas no Centro. A apuração revelou que Vargas tinha ganhado no Recife, mas perdido no interior. Os coronéis se uniram contra ele, dando todos os votos do sertão para o atual presidente e o candidato do partido azul. O mesmo aconteceu por todo o Norte do país, ao passo que, no Sul, Getúlio Vargas venceu no seu estado natal, o Rio Grande do Sul, mas perdeu em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde o partido azul era mais forte.
O prefeito do Recife, ele próprio um azul, propôs um dia inteiro de comemorações. O Dr. Duarte se fechou no escritório, emburrado. Dona Dulce ficou preocupada com as consequências das atividades políticas do marido e fez três tachos de geleia de banana numa única tarde. Emília não pôde fazer as suas visitas semanais a Lindalva, porque havia relatos de confusões nas ruas. Partidários dos verdes se reuniram, declarando que a eleição tinha sido fraudada; já os membros do partido azul festejavam o resultado. Nos dias que se seguiram à eleição, dezenas de vira-latas apareceram mortos, com os lenços verdes enfiados na boca.
Depois dessa matança, líderes estudantis organizaram uma manifestação do partido verde diante da prefeitura. Emília e os Coelhos ficaram sabendo da tal manifestação enquanto ouviam rádio.
– Estou velho demais para toda essa agitação – disse o Dr. Duarte, batendo no braço do filho. – Mas você devia se unir aos seus pares.
Degas enrubesceu. No dia da eleição, com alguma relutância, acompanhou o pai à seção de votação do partido verde.
– Isso tudo é inútil – retrucou ele. – A eleição terminou...
– Concordo plenamente – atalhou dona Dulce, vindo da cozinha, ainda com o avental cujas bordas em festonê estavam murchas por causa do calor do forno. Havia um rubor incomum no seu rosto. – Por favor, Duarte. Chega de falar de política nesta casa. O que passou, passou.
O Dr. Duarte juntou os dedos das mãos. Olhou para Emília, como se procurasse uma aliada. A moça logo tratou de se concentrar nos bastidores do bordado. Pela primeira vez na vida, estava de acordo com dona Dulce e Degas. Ficou aliviada quando a eleição terminou, pois não haveria mais toda aquela bobagem de azuis e verdes.
– Está certo – disse o Dr. Duarte, passando a mão pela espessa cabeleira branca. – Vou falar de ciência, então. Isso vocês não podem me negar. Emília, refresque a minha velha memória. Entre os tipos do Dr. Kretschmer, os roliços, aqueles homens preguiçosos e incrédulos, como é mesmo que são chamados?
Emília ergueu o rosto. Dona Dulce a fitava, com um ar rígido e inexpressivo, como se houvesse mergulhado a pele em água de goma. Degas se remexeu na cadeira. A suavidade engomada da camisa social ficou toda franzida na prega que se formava acima da sua barriga. Pelo seu rosto, passou a mesma expressão preocupada que Emília via ali sempre que ele pegava a mão dela em público, como se lhe implorasse para não retirá-la.
– Não me lembro – respondeu a moça.
Sabia muito bem qual era a palavra que o sogro estava procurando: pícnico. Quando a ouviu pela primeira vez, decidiu que devia ser uma palavra alemã, como o médico que a tinha inventado. Isso a fez lembrar do padre Otto, embora, nele, a compleição avantajada correspondesse a uma criatura animada e vigorosa, e não preguiçosa e de natureza fraca.
– Isso é espantoso, Emília – exclamou o Dr. Duarte. – Normalmente, a sua memória é tão boa...
– Vargas devia aceitar a derrota – disse Degas, num impulso. – Não é o que o senhor sempre diz? “Os homens honram as suas dívidas e aceitam as suas derrotas.”
– Quando elas são justas – retrucou o velho. – Os homens devem aceitar as derrotas justas e combater as injustas. Gostaria que meu filho percebesse essa diferença.
– Percebo – disse Degas. – Para você, para nós, o resultado foi injusto. Mas, para o partido azul, ele é mais que justo, é correto.
– Não acredito que você tenha virado a casaca assim tão depressa... – observou o Dr. Duarte, alisando o bigode.
Degas se levantou, com a testa contraída, o que dava a impressão de que algo tinha entrado no seu olho.
– A sua ideia de lealdade é quebrar uma janela? – perguntou ele com toda a calma. – É sair gritando pelas ruas? Nada mais fácil. Pode deixar que vou até lá e faço isso.
– Você vai ficar exatamente onde está – atalhou dona Dulce, fixando os olhos cor de âmbar no marido. – Pare de provocá-lo, Duarte. Já vamos perder muita coisa agora que o seu partido não saiu vencedor. Não quero o nosso filho se metendo nessa loucura toda.
Era raro ela enfrentar o marido. Recentemente, tinha sido voto vencido ao desaprovar o novo guarda-roupa de Emília. Havia permitido a compra da máquina de costura, apesar de ficar resmungando que aquela casa não era um ateliê. Sorria com ar paciente ao ver o Dr. Duarte usando gravatas verdes e aguentou bravamente todos os discursos de Vargas transmitidos pelo rádio. Naquela noite, porém, tinha chegado ao seu limite.
O Dr. Duarte assentiu.
– Agradeça à sua mãe, Degas – disse ele. – Ela o protege. Sempre o protegeu.
O rapaz empurrou dona Dulce e saiu da sala.
Desde então, passou a falar rispidamente com a mãe. Evitava o seu olhar e a afastava quando ela tentava ajeitar o colarinho da sua camisa ou arrumar alguns fiapos do seu cabelo ralo. Estremecia sempre que o pai se referia a Vargas, mas não voltou a discutir com ele. Frequentava regularmente as aulas da faculdade. Em vez de passar as tardes fora, começou a ficar em casa, sentado no escritório. Acompanhava o pai em viagens para visitar as propriedades dos Coelhos nos arredores da cidade, pois o Dr. Duarte queria se certificar de que as construções não haviam sido depredadas pelos membros do partido azul. Degas andava ocupado demais com o pai, e não tinha tempo para ficar com os colegas de faculdade ou com Emília. Recusou-se a levá-la à loja de tecidos, por causa dos tumultos de rua entre partidários dos verdes e dos azuis. Privada do material necessário para as suas costuras e sem poder ir à casa de Lindalva, a moça não teve outro jeito senão voltar ao quintal da casa, onde fingia bordar. Disfarçadamente, o que fazia era espiar pelas portas abertas do escritório, para observar o marido e o sogro.
O Dr. Duarte ainda estava aborrecido com Degas por ele não ser um verdadeiro verde. Ficava alfinetando o filho com histórias dos patriotas de Vargas e, quando o rapaz parecia desconfortável – a boca contraída, o corpo irrequieto como se a cadeira fosse estofada com cerdas –, adotava outra tática, elogiando Degas pela sua dedicação e pelo cuidado que vinha demonstrando nos últimos tempos com relação ao patrimônio da família. Ao ouvir isso, o rapaz acabava se animando. Para Emília, ele parecia um cavalo preso, que insistia em lutar contra o cativeiro sem jamais conseguir romper as suas amarras. Resistia só para mostrar que era capaz. Quando o dono chegava com aveia e uns tapinhas tranquilizadores, o animal se mostrava satisfeito, embora relutante.
A moça tinha pena do marido, mas não merecia que ele tivesse se negado a lhe comprar material para as suas costuras. Em represália, mal falava com ele. O Dr. Duarte também estava bravo com a esposa por ser tão superprotetora. E dona Dulce estava furiosa com todos os três: com o marido, por causa da sua política vulgar; com Degas, pela sua indelicadeza; e com Emília, por presenciar os seus desapontamentos. Descarregava então a raiva nas criadas, que, por sua vez, exageravam na goma das roupas e queimavam as melhores camisas do Dr. Duarte com o ferro de passar. Só os jabutis do quintal e o corrupião não estavam criando caso com ninguém.
Com a chegada do inverno, um calor úmido se abateu sobre a cidade. Houve dois acidentes de bonde, várias brigas de facas e o maior bafafá num dos mercados locais, pois começaram a correr boatos de que os comerciantes estavam vendendo carne de burro às escondidas. Do seu quarto na casa dos Coelhos, Emília sentiu um fedor estranho, parecendo fruta podre ou carne mal salgada que acabou estragando. Em pouco tempo, a casa inteira estava tomada. A moça achou que fosse a cidade, com aquele seu cheiro de coisa velha, com a água estagnada dos seus pântanos. O moleque das compras, porém, descobriu que era um vira-lata caído perto do portão dos fundos, com o pelo cheio de feridas, os dentes arreganhados numa careta e o corpo inchado, parecendo que ia explodir.
5
No dia 22 de maio de 1930, exatamente quando o candidato do partido azul tomava posse como presidente no Rio de Janeiro, o Graf Zeppelin pousou no Recife. Os jornais da cidade enfurnaram a posse na página três, dando todo destaque ao dirigível alemão. Havia já várias semanas que o Zeppelin vinha ofuscando a política. Tinha cruzado o Atlântico para fazer o seu primeiro pouso na América do Sul e o privilégio de acolhê-lo coube não ao Rio de Janeiro, mas ao Recife. O Norte levou a melhor sobre o Sul. Depois da eleição, a prefeitura mandou construir uma torre de atracação na região pantanosa de Afogados. Batizaram o local de Campo de Jiquiá e instalaram ali um posto de abastecimento, um pavilhão para cerimônias, uma capela e uma torre de rádio. Era esperado que a chegada do Graf Zeppelin atraísse uma verdadeira multidão. Para cobrir as despesas com a construção do Campo, ficou decidido que os ingressos seriam pagos. O prefeito decretou feriado e até as criadas dos Coelhos tiraram folga naquela tarde, com a esperança de ir ver o dirigível.
O Graf Zeppelin tinha 230 metros de comprimento; Emília tinha lido suas dimensões no jornal. Podia fazer 110 quilômetros por hora e cruzaria o oceano Atlântico no tempo recorde de três dias. A imprensa o chamava de “Peixe de prata”. Para o Dr. Duarte, era uma vaca voadora. Quando Emília lhe perguntou por quê, ele suspirou e sorriu, parecendo aliviado por ver que mais alguém, além de Degas, tinha dado pela sua presença.
– Dizem que, quando os holandeses chegaram aqui – principiou ele, pousando os talheres –, queriam construir uma ponte, mas não tinham dinheiro. O conde de Nassau, o governador holandês, fez uma plataforma e disse que uma vaca ia levantar voo dali. As pessoas foram até lá em bandos e ele cobrou ingressos! Nassau era um sujeito inteligente, mas vigarista. Adoraria poder medi-lo.
Calou-se por um instante, como se estivesse imaginando a sessão de mensuração. Depois, balançou a cabeça e prosseguiu:
– É claro que não havia vaca voadora nenhuma. Simplesmente pegaram o couro de uma, rechearam-no e atiraram-no da tal plataforma. As pessoas estavam tão ocupadas olhando a vaca que nem se lembraram que tinham sido ludibriadas pelo holandês.
– Não foram ludibriadas, meu querido – atalhou dona Dulce. – Afinal, ganharam uma ponte.
– Mas lhes bateram a carteira! – exclamou o Dr. Duarte.
– Elas deram aquele dinheiro espontaneamente – prosseguiu dona Dulce, num tom conciliador. – Você não diz sempre que só quem nasce tolo é atraído por tolices?
Com um grunhido, o Dr. Duarte recomeçou a tomar o seu café da manhã. Dona Dulce chamou Emília a um canto, dizendo-lhe para não estimular os rompantes do sogro. Ele ainda estava furioso com o resultado das eleições. Ao contrário do que sua sogra tanto temia, o Dr. Duarte não perdeu quase nada de sua influência. Muitos membros das famílias tradicionais e vários líderes do partido azul lhe deviam dinheiro, o que fazia com que o tratassem bastante bem. E, apesar da distração provocada pela chegada do dirigível, o partido verde não tinha desaparecido por completo. No Diário de Pernambuco, saíam artigos duros sobre os efeitos da crise econômica que ainda se faziam sentir. Continuava a haver movimentação de grupos de oposição dos quais Degas, na esperança de se reconciliar com o pai, dizia fazer parte. À boca pequena, falava-se em revolta. E o Dr. Duarte seguia frequentando as reuniões no British Club, embora usasse o alfinete do partido verde escondido por baixo da lapela. Emília não sabia se ele o escondia das pessoas em geral ou de dona Dulce.
No dia da chegada do zepelim, Emília percebeu a ponta do alfinete saindo da lapela do sogro. Qualquer um que estivesse ostentando abertamente a cor verde seria impedido de participar da cerimônia, segundo declarações da prefeitura. Ninguém queria a presença de agitadores, muito menos no palanque especial, de onde os Coelhos, juntamente com o prefeito e outras famílias importantes, assistiriam à atracação do dirigível como convidados. As beiradas do tal palanque estavam todas envoltas em tecido azul e, no centro, havia várias fileiras de cadeiras brancas de madeira. Nenhum convidado se sentou. Ficando em pé, as chances de ar fresco eram maiores, se bem que, quando vinha algum vento, era mais como um bafo quente e úmido. Os lenços estavam por toda parte. Os homens enxugavam a testa e as bochechas. As mulheres se abanavam com leques de seda. No fundo do tablado, uma pequena orquestra tocava. O suor escorria pelo pescoço dos músicos, escurecendo o seu colarinho. Um garçom, envergando um paletó branco que, de tão usado, parecia até feito de gaze, entregou uma taça a Emília. Era um suco de frutas, quente e açucarado.
A moça sentia o tecido da roupa lhe colar nas costas. Era uma de suas criações: um vestido amarelo e branco, com cinto, que batia logo abaixo do joelho.
– Você está parecendo um ovo – disse-lhe a sogra pouco antes de saírem.
– Estou parecendo Coco Chanel – retrucou Emília.
O seu vestido não chegava aos pés da elegância da francesa que ela via nas revistas, mas pouco importava. Não precisava mais dar ouvidos aos palpites antiquados de dona Dulce. Agora, era membro da Auxiliadora. Ocupava um lugar na sociedade. Tinha a própria agenda. A campanha pelo voto feminino terminou com a eleição de março, mas o sonho de ter o seu ateliê persistia. Nos últimos meses, tinha ressuscitado as visitas semanais a Lindalva. Pouco a pouco, conseguiu transformar o desapontamento da amiga em determinação. Podiam perfeitamente fazer fiau para os líderes azuis e ter o seu próprio negócio, era o que lhe dizia. Não precisavam de ninguém para fazer as calças femininas virarem moda. Podiam dar instrução às costureiras e, uma vez alfabetizadas, essas moças iriam engrossar as fileiras das datilógrafas, das professoras primárias, das telefonistas. Emília tinha até falado, meio por alto, dos seus planos com o sogro. A eleição pusera por água abaixo o seu projeto de criar um Instituto de Criminologia com patrocínio governamental, e, com isso, o Dr. Duarte não precisava mais de secretária. Mesmo assim, a moça continuava indo para o escritório sempre que Degas não estava lá. Ouvia as ideias do sogro e, com toda a cautela, lhe contava as suas. Ao lhe falar do seu desejo de criar roupas para as mulheres do Recife, fez questão de usar as palavras favoritas do Dr. Duarte: modernidade, avanço, inovação. Jamais mencionou o termo negócio; preferiu dizer hobby. Ele ria quando a nora falava de vestidos, chapéus e comprimento de saias. Mas, no momento em que dona Dulce declarou que Emília não podia usar o tal vestido amarelo e branco na cerimônia da atracação do Graf Zeppelin, o Dr. Duarte balançou a cabeça.
– Precisamos receber a modernidade à moda moderna – disse ele, dando o assunto por encerrado e sorrindo para a moça.
A chegada do dirigível estava prevista para as quatro da tarde. Por volta das cinco, ele ainda não tinha aparecido. Abaixo do palanque, a multidão estava começando a ficar agitada. Os bondes tinham triplicado os seus horários para poder levar os espectadores até o local do evento. Funcionários da prefeitura haviam reservado uma área para a camada intermediária dos que possuíam ingressos: estudantes, jornalistas, comerciantes e famílias que não tinham sido convidadas a permanecer no palanque. Naquele ponto do terreno, pranchas de madeira cobriam o chão lamacento e foram instaladas umas passarelas bem compridas, com corrimãos, para que os espectadores de classe média percorressem o trajeto de ida e volta até o ponto dos bondes. Mais adiante, num trecho cercado e lamacento, rodeado por milhares de policiais, ficavam “as massas”, como dizia dona Dulce. Todos ali falavam alto, animadíssimos, cantando e dançando apesar do calor. Emília viu duas garotinhas descalças, rindo e circulando no meio da multidão. Ambas usavam laços de fita verde no cabelo.