Entre irmãs
Capítulo 7
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Ao seu lado, Degas estava ligeiramente debruçado na mureta do palanque. Logo abaixo, na área reservada à classe média, estava Felipe. O rapaz usava um terno surrado e um chapéu fedora meio amassado. A moça lembrou que, lá em Taquaritinga, achava as roupas de Felipe o suprassumo da elegância.
Quando viu Degas, o rapaz tirou o chapéu e acenou com ele, de início devagar, mas, depois, vigorosamente. Degas virou de costas e ficou fitando atentamente a orquestra que tocava. Felipe parou de acenar. Olhou diretamente para Emília, que se apressou em se virar também. Segundo lhe dissera o marido, o filho do coronel Pereira havia sido expulso da faculdade de direito da Universidade Federal por causa das suas constantes declarações de apoio ao partido verde. Desde então, os dois não estudavam mais juntos. As notas de Degas caíram.
Às seis da tarde, a orquestra parou de tocar. O prefeito começou o seu discurso. Protegendo os olhos com a mão, Emília olhou para a torre de atracação. A torre parecia uma xícara e um pires gigantescos, equilibrados no alto de um mastro vermelho e branco. O prefeito explicou que aquela torre funcionava como uma espécie de poste para amarrar cavalos, pois ali se prendia a extremidade do dirigível para estabilizá-lo. Os passageiros e a tripulação desembarcariam da cabine presa à parte inferior do veículo. Não permaneceriam no Recife por muito tempo. O Graf Zeppelin seria reabastecido e voaria para o Rio de Janeiro. O “capitão” Carlos Chevalier, um aristocrata, ele próprio piloto, era o convidado de honra da prefeitura. Tinha vindo do Rio exclusivamente para participar da cerimônia de aterrissagem e, assim que o dirigível estivesse reabastecido, o capitão Chevalier subiria a bordo para participar do voo.
A voz do prefeito era forte, mas não conseguia atingir a multidão, que começou a se movimentar por toda parte. No palanque, os convidados aplaudiram Chevalier educadamente. Emília ficou olhando para aquele povo todo que, protegendo os olhos com as mãos, fitava o céu, achando que o zepelim tinha chegado. Chevalier tirou o boné preto de piloto e acenou.
Era um sujeito baixinho, com olheiras acentuadas e um tufo de cabelos castanhos na cabeça. Emília achou que ele parecia um sagui. Esses micos eram muito comuns lá em Taquaritinga e, para surpresa da moça, no Recife também. Ficavam pulando pelos fios dos bondes, roubavam frutas e enchiam o ar com seus gritinhos estridentes. Como Chevalier, eram pequeninos, de olhos brilhantes, e tinham tufos de pelos na cabeça.
Ao seu lado, Degas tirou o lenço do bolso. Com umas pancadinhas, enxugou o rosto e o pescoço. Quando os aplausos cessaram e a orquestra voltou a tocar, ele enfiou o lenço no bolso e saiu. Emília ajeitou o chapéu e foi atrás do marido.
Abrindo caminho em meio aos convidados, ele chegou à frente do palanque, onde estava Chevalier. O piloto cumprimentava um grupo de mulheres. Degas se aproximou. Quando as tais senhoras se afastaram, Chevalier abriu um sorriso e estendeu a mão. A testa de Degas brilhava de suor. Sem o seu charme habitual, o rapaz balbuciou uma apresentação e, enxugando as mãos nas calças, cumprimentou o piloto. Seu marido parecia grandalhão e desajeitado comparado àquele sujeito cheio de vivacidade. Emília sentiu uma pontinha de pena dele.
O piloto sorriu e, olhando por sobre os ombros de Degas, apontou Emília com o queixo.
– Mais uma das minhas fãs – disse ele.
Degas se virou. A moça percebeu um lampejo de reconhecimento no seu rosto, logo seguido por uma expressão de aborrecimento.
– Ah, não... – murmurou ele. – É minha esposa.
O capitão Chevalier segurou a mão de Emília, fazendo-a avançar e soltando um pouco a sua luva.
– Tinham me dito que as nordestinas não eram atraentes – disse o piloto, sem tirar os olhos de Degas. – Agora vejo que isso não é verdade.
Seu sotaque carioca era pesado e exagerado. Ele pronunciava os s de um jeito bem estranho. Emília recolheu a mão que ele continuava segurando e ajeitou a luva.
– Tinham me dito que as pessoas do sul eram altas – disse ela. – Agora vejo que isso não é verdade.
Chevalier piscou. Degas franziu o cenho. Chegou a abrir a boca, mas, antes que pudesse dizer alguma coisa, Chevalier falou:
– Ela é rápida no gatilho. Você tem ótimo gosto.
Emília sentiu um arrepio de calor lhe percorrer a nuca. Chevalier falava como se ela fosse um acessório bem-escolhido – um relógio de bolso, uma gravata de seda, um chapéu-panamá de excelente qualidade – e nada mais. Olhou para o marido. O seu colarinho engomado estava todo caído.
– Você parece esbaforida – disse ele, dando-lhe uns tapinhas nas costas. – Procure um garçom e tome um pouco de ponche, que tal? Não quero que desmaie.
Emília assentiu. Não queria ficar ali, junto com Degas e o piloto, embora parte dela desejasse não ir embora e se meter na conversa de ambos. Mas dirigiu-se ao bar do palanque. Pediu um copo de aguardente de cana com suco de frutas. Antes, porém, que pudesse tomar o primeiro gole, uma mão a segurou pelo ombro, puxando-o para trás.
– Endireite as costas! Nada de ficar emburrada!
Era uma voz baixa e nasalada. Quando tentou esbravejar outra ordem, se desmanchou em risos. Emília se virou. Lindalva a puxou para si e lhe deu dois beijos no rosto. Sua amiga usava um chapéu de palha enorme, com a aba erguida e presa com um alfinete de pérola. A palha era branquíssima e a trama bem miúda deixava-a macia e maleável, como um beiju. Lindalva pegou o copo das mãos da amiga e tomou um gole. Contraiu os lábios.
– Essa bebida está muito forte, Sra. Coelho – disse ela.
– Odeio esse tal de zepelim – retrucou Emília, pegando o copo de volta.
– Como sabe? – indagou Lindalva, rindo. – Ainda não foi apresentada a ele...
– E nem preciso...
– Você está até parecendo a minha mãe – disse Lindalva.
A baronesa havia deixado a cidade antes da chegada do Graf Zeppelin, preferindo ir passar o inverno na casa de campo em Garanhuns.
– Bom, esse tal de zepelim é muito mal-educado – acrescentou Lindalva. – Está atrasado para a sua própria festa...
Emília aquiesceu e tomou um gole do seu drinque. Sentiu a garganta arder. Em meio àquela multidão, avistou Degas, que, meio encurvado para ficar mais perto de Chevalier, assentia, ouvindo atentamente o que lhe dizia o piloto. Este sorria e gesticulava, adorando aquela atenção. Degas lhe ofereceu um cigarro, que ele aceitou, aproximando-se mais um pouco para que o outro o acendesse.
Lindalva tirou o copo das mãos de Emília e tomou mais um gole da bebida.
– Esse capitão Chevalier é um grosseirão – observou ela. – Alguém devia lhe apresentar uma escova de cabelo.
Mais abaixo, no chão lamacento, a multidão começou a se manifestar, animadíssima.
– Ah! – exclamou Lindalva, pegando a mão da amiga. – Olhe lá!
A distância, via-se um brilho, como um espelho ao sol poente. Emília estreitou os olhos. A orquestra parou de tocar. Um silêncio se abateu sobre todos. Lentamente, o Graf Zeppelin vinha planando, dirigindo-se ao local do pouso. Era comprido, no formato de uma bala de revólver, e ia se estreitando na extremidade, terminando num rabo de peixe. Aproximava-se, flutuando calmamente, como uma nuvem prateada. De longe, parecia pequeno e leve, lembrando até os balões de são João que Luzia e ela faziam. À medida que ele foi chegando mais perto do Campo de Jiquiá, a moça percebeu que se tratava de algo maciço.
– Parece uma baleia enorme – disse uma mulher ao seu lado.
– Nada disso – retrucou um homem. – Parece um navio, navegando pelo ar.
– Viva “seu” Zé Pelim! – gritou uma voz no meio da multidão.
Foram gargalhadas por todo lado. Na tribuna, cavalheiros e damas davam risadinhas.
O sol já tinha praticamente desaparecido quando o Graf Zeppelin pairou, imenso, acima deles, lançando sua sombra sobre o palanque. Ouvia-se o barulho de seu motor. A gôndola branca, destinada aos passageiros, e que ficava presa na parte inferior do balão, parecia minúscula. Quando o dirigível começou a descer em direção à torre, lá de dentro foram lançadas umas cordas. Aos gritos, oficiais uniformizados puseram-se a correr pela pista, como se comandassem um animal gigantesco e desajeitado. No momento em que a nave deu uma guinada para ficar na posição certa, com a frente encostada à torre de atracação e a parte inferior rente ao chão, a multidão explodiu.
Houve gritos, assobios e, depois, o espocar dos fogos de artifício mais ao longe. Emília desviou os olhos do dirigível para fitar a multidão. Fogos e explosivos de qualquer tipo haviam sido terminantemente proibidos nas proximidades do zepelim. Em meio àquele mundo de gente ali embaixo, alguém desfraldou uma bandeira verde.
– Viva Vargas! – gritou um homem. – Vamos lutar por um Brasil novo!
No palanque, ouviram-se exclamações abafadas. Ali embaixo, no setor destinado à classe média, um grupo de estudantes começou a atirar serpentinas verdes. No meio dos espectadores, Emília avistou Felipe, que tomou impulso e lançou as tiras verdes para a multidão. O povo gritou entusiasmado. Fileiras de policiais penetraram no recinto cercado.
Ouviram-se mais alguns estampidos bem altos e, depois, gritos. Acuada ali no Campo de Jiquiá, a multidão começou a avançar. O palanque oscilou. Emília sentiu as tábuas pintadas de branco se movendo sob os seus pés, como a areia na praia de Boa Viagem.
– Venha! – disse um homem ao seu lado, dirigindo-se à esposa. – Vamos embora daqui antes que aconteça alguma desgraça.
À sua volta, surgiram sussurros apressados e, depois, empurrões. Emília procurou pelos sogros, por Degas. Não conseguiu vê-los no meio do empurra-empurra daqueles que se dirigiam para a frente do palanque, onde ficava a escada toda enfeitada de azul. Alguém derrubou o chapéu de Lindalva. Emília viu os músicos descerem a toda pela escada dos fundos, segurando os instrumentos acima da cabeça, como se estivessem andando dentro d’água. Puxou então a amiga pela mão e os seguiu.
6
A escada dos fundos ia dar no ponto dos bondes. Os veículos estavam todos enfileirados, com o letreiro indicando o itinerário normal coberto por faixas brancas nas quais se lia “Campo de Jiquiá”. Gente que havia escapado do setor reservado à classe média se apinhava pelo caminho. Os motorneiros sopravam o apito de latão, ajudando as pessoas a embarcarem. Emília se sentia tonta, com a boca inteiramente seca. Segurou firme a mão de Lindalva e subiu num dos carros.
Haviam lhe dito para jamais andar de bonde. Dona Dulce a aconselhara a, em caso de emergência, se não tivesse nenhum outro recurso, pegar apenas a Cristaleira na primeira classe. Esses veículos tinham ventiladores elétricos, janelas envidraçadas e exigiam o uso de trajes adequados: luvas para as senhoras, e paletó e gravata para os cavalheiros. Sua sogra dizia que brigas eram comuns na segunda classe. E havia também uns tarados que levantavam as saias das mulheres.
Todos os bondes ali no Campo de Jiquiá eram de segunda classe, com balaustrada metálica e simples bancos de madeira. Não havia lugar para sentar. As pessoas foram se amontoando ali dentro, até que o centro do carro ficou atulhado e abafado. Lindalva agarrou o braço de Emília. Alguns homens se penduravam nos balaústres, equilibrando os pés nos estribos. Emília teve inveja deles: do lado de fora devia estar bem mais fresco do que ali dentro. O cobrador andava de um lado para outro, junto aos carros. O uniforme que ele usava, lembrando um oficial da marinha, parecia terrivelmente quente. Ele apitou, indicando que aquele bonde já estava lotado. Ninguém lhe deu ouvidos. As pessoas simplesmente passavam por ele, quase derrubando a bolsinha de couro das passagens, e embarcavam. Emília julgou ver Felipe no meio daquela aglomeração. O rapaz tinha o rosto sardento afogueado e segurava firme o chapéu para impedi-lo de cair. Mas, depois, ela o perdeu de vista.
– Ande logo! – gritou um dos músicos, dirigindo-se ao motorneiro. – Senão, vamos acabar sendo esmagados!
De um pulo, o cobrador subiu no para-choque traseiro do bonde. O motorneiro tocou a sineta e, com um solavanco, o veículo arrancou.
Os músicos estavam todos agrupados perto de Emília. Abriram o paletó e desabotoaram o colarinho. Alguns ainda estavam com a cinta azul que eram obrigados a usar para trabalhar no palanque, por ordem do prefeito. Bem ao seu lado, um menino levava na mão uma espiga de milho já meio comida. Outra criança pequena se agarrava à perna da mãe. Uma mulher olhava desconfiada o chapéu clochê de Emília. Além dessa gente colada nela, a moça só via mãos segurando as barras metálicas e manchas de suor debaixo de mangas de paletós e camisas. Adoraria tirar o chapéu, já que o seu cabelo estava molhado, mas não teria onde botá-lo. Com uma das mãos, segurava a barra de apoio e, com a outra, a bolsa. Não havia nada ali dentro, além de uns grampos, um lenço e uma nota de mil-réis que ela havia surrupiado de Degas. Não era praticamente nada, mas lhe dava alguma segurança. E torceu para que desse para pagar a passagem.
Não tinha noção do preço. Quem diria! Quando morava em Taquaritinga, sonhava em andar de bonde. Afinal, era assim que a maioria dos recifenses se locomovia. Em comparação com as mulas de dona Conceição, era um verdadeiro luxo. No teto do carro, havia uma série de anúncios pintados em cores vivas. Tome o elixir de Nogueira! Use o sabonete Dorly! Deixe o seu cabelo brilhante com creme capilar de óleo de ovo! Fume cigarros Flores – fabricados no Recife!
O bonde deixou a região pantanosa e foi passando diante de fileiras de casas caiadas, carpintarias, barraquinhas de sucos e lanchonetes ao ar livre. Nos morros, ficavam os mocambos: casebres e mais casebres mal-ajambrados, com teto de sapê, construídos pelos retirantes que vinham do interior. O sol já tinha se posto e o céu agora era de um cinza-escuro. Grilos cantavam. Dentro do carro, os passageiros estavam mais calmos. Suspiravam e sorriam, pensando naquela fuga atabalhoada. Sempre que alguém via chegando o lugar em que queria saltar, gritava para o motorneiro: “Aqui!” O cobrador descia e abria a bolsinha de couro para receber o preço da passagem. Lindalva passou o tempo todo de olhos fechados, segurando firme o braço da amiga. Emília não sabia até onde ia aquele bonde, nem onde ficava o seu ponto final, mas não estava com medo. Sentia-se meio atordoada. Não era assim que sempre imaginara o Recife? Aquele amontoado de gente barulhenta, a sineta dos bondes, os cheiros, todo aquele falatório? Não era aquela a cidade com que tanto sonhara?
À medida que os passageiros iam saltando, o carro ia ficando menos abarrotado. Só então Emília reparou melhor na amiga. Com um leve sorriso, Lindalva enxugava o rosto com o lenço.
– Já estamos quase chegando – disse-lhe a moça, procurando tranquilizá-la. Mas chegando aonde? Não queria voltar para a casa dos Coelhos. Não queria saltar na praça do Derby.
– Pelo amor de Deus! – gritou uma mulher lá no fundo do carro. – Comportem-se!
De repente, começou um alvoroço. Emília viu um dos músicos dar um empurrão num bêbado todo esmolambado. Ouviram-se gritos. Os dois tinham o rosto afogueado. Atracaram-se, enraivecidos. Os outros músicos incitavam o colega. O bêbado saiu rasgando a cinta azul do sujeito. O cobrador apitou. Os demais passageiros se afastaram do local da briga, criando novamente uma aglomeração em torno de Emília e tapando a sua visão.
– Minha Nossa Senhora! – exclamou uma mulher.
– Pare o bonde! – berrou um homem.
O motorneiro olhou para trás.
– Tenho de esperar até chegarmos ao próximo ponto – gritou ele. – Se parar no meio da rua, vou provocar um acidente.
Ouviu-se mais um grito. O bêbado saltou do bonde em movimento. À luz mortiça do crepúsculo, Emília viu algo reluzindo nas suas mãos.
– Viva Vargas! – berrou ele, lá da rua.
Um dos músicos também saltou, e depois outro, e mais outro. Saíram correndo atrás do bêbado, suas silhuetas virando apenas sombras à medida que o bonde ia se afastando. Os passageiros se aglomeraram nas beiradas do carro, agarrando-se às balaustradas que lhes batiam na cintura. O garoto que estava ali ao lado deixou cair a espiga de milho. Lindalva soltou uma exclamação abafada e apertou com mais força o braço de Emília.
“Ela vai me deixar com uma mancha roxa”, pensou a moça.
A espiga saiu rolando para o meio do carro. O músico que havia brigado estava de joelhos. Tinha os braços cruzados na altura do estômago, como uma criança com dor de barriga. Os outros membros da orquestra que haviam ficado no bonde o fitavam, com os instrumentos pendendo das mãos inertes. Uma mancha escura se espalhava pela camisa do sujeito. Ele respirou fundo e caiu para trás. Os seus braços foram se afrouxando até se abrirem de todo. Havia um talho escuro bem na altura da sua cintura. Pelo corte, saíam as suas entranhas como uma flor que lhe tivesse brotado da barriga.
Emília ouviu o chiado do bonde nos trilhos. Com a freada, a moça sentiu que recuava. Viu a espiga de milho, agora ensanguentada, vir rolando na sua direção. A mancha escura e reluzente que se formara debaixo do músico caído ali no chão se aproximava dos seus sapatos. Lindalva desmaiou, caindo por cima da amiga e deixando-a inteiramente sem fôlego. Emília perdeu o equilíbrio, com Lindalva nos braços. Percebeu que ia cair para trás. Preparou-se para o contato com aquele chão molhado. Fechou os olhos, mas não sentiu o impacto da queda.
Quando o bonde enfim parou, voltou a abrir os olhos. Havia uma mão na sua cintura e outra nas suas costas, amparando-a. Mantendo-a de pé. Aquelas mãos pareciam fortes e, por um instante, Emília se lembrou dos heróis da sua infância, aqueles homens românticos e taciturnos saídos das páginas da Fon Fon. Mais que depressa, recuperou o equilíbrio e ergueu a amiga. Voltou-se então para ver quem era o seu salvador.
O que viu não foi a testa ampla e os ombros fortes dos seus heróis românticos, mas sim um rosto sardento e uns olhos castanhos bordejados por cílios desbotados. Lembrou-se de Luzia, gritando “Olhos de porco! Olhos de porco!” para provocá-lo, e recuou.
– Deixe-me ajudá-la – disse Felipe, pondo-se do outro lado de Lindalva.
O cabelo claro do rapaz estava ensopado. No tumulto do bonde superlotado, havia perdido o chapéu. Juntos, os dois conseguiram descer, carregando Lindalva. Estavam num bairro operário. De ambos os lados da rua, viam-se lojinhas caiadas, com letreiros meio desengonçados. Na esquina, havia um restaurante. Os donos e os clientes tinham vindo até a porta para ver o bonde. Emília e Felipe levaram Lindalva lá para dentro e a puseram numa cadeira.
– Vou ver se consigo arranjar vinagre – disse o rapaz.
Emília assentiu.
Na rua, os faróis do bonde se acenderam. O motorneiro gritou. Juntamente com os outros músicos, retiraram o morto do veículo. Emília teve vontade de pedir que lhe pusessem uma vela acesa nas mãos para guiar a sua alma. Teve vontade de sair correndo pelas ruelas escuras daquele bairro, deixando Felipe para trás, mas precisava pensar em Lindalva. Pegou um jornal que estava em cima da mesa e começou a abanar o rosto da amiga. Felipe voltou, trazendo a mulher do dono, que pôs uma garrafa de vinagre diante do nariz da moça. Quando ela voltou a si, tomou dois copos de água com açúcar. Tinha o rosto pálido, as mãos trêmulas.
– Você também devia tomar um pouco – disse Felipe, oferecendo a Emília outro copo.
À luz dos lampiões a gás do restaurante, as sardas dele ficavam da cor do leite condensado que vai ao fogo até se tornar caramelo. Emília perdeu o fôlego.
– Não, obrigada – respondeu, afastando o copo.
– Beba – disse ele, com delicadeza. – Pode até estar se sentindo bem, mas a cena que presenciamos... Foi chocante.
De repente, aquela gentileza a deixou furiosa.
– Sei muito bem do que preciso e do que não preciso, obrigada – retrucou ela, imitando o tom de voz indiferente que dona Dulce usava ao se dirigir às criadas.
– Queira me desculpar, Sra. Coelho – disse Felipe, pondo de lado o copo e olhando para Lindalva. A moça tinha voltado a fechar os olhos e, seguindo os conselhos da dona do restaurante, respirava fundo. – Degas desceu pela escada da frente com aquele piloto – prosseguiu o rapaz. – Eu o vi. E nos deixou a ambos à mercê dos bondes.
– Não procurei por ele – retrucou Emília. – Saí por minha conta.
Felipe pegou a água com açúcar destinada a Emília e tomou um gole. Contraiu os lábios, aqueles lábios rosados e finos, contornados por sardas aqui e ali. Desabotoou o paletó, tateou os bolsos internos e pegou um lápis e o canhoto do seu ingresso para a aterrissagem do zepelim. Os tíquetes do setor destinado à classe média foram feitos para serem guardados de recordação: impressos em papel bem resistente, traziam um desenho do dirigível e a data de 22 de maio de 1930 estampados de ambos os lados. Inclinando-se sobre uma das mesas de madeira, o rapaz escreveu alguma coisa no ingresso. Depois, dobrou-o em quatro e entregou o quadradinho a Emília.
– Pode dar isso a ele, por favor?
Emília olhou para Lindalva. Ainda de olhos fechados, a sua amiga estava tomando mais uma dose de água com açúcar que uma garçonete lhe trouxera.
– Entregue você mesmo – disse Emília. – Vocês são amigos.
– Não posso me aproximar da faculdade de direito – replicou Felipe, com os olhos pregados no bilhete dobrado e a boca rosada contorcida. – Degas anda me evitando. Dona Dulce não me deixa ir à sua casa.
Dizendo isso, inclinou-se para a frente. Emília sentiu o cheiro de suor e de cigarro que saía do seu paletó. Então, o rapaz segurou a sua mão. Com um gesto brusco, virou o seu pulso e começou a tentar abrir os seus dedos, parecendo até que os dois estavam trocando um estranho aperto de mãos. Finalmente, conseguiu fazê-la segurar o ingresso dobrado.
Emília se lembrou do professor Célio, da troca de bilhetinhos, da sua própria ansiedade esperando por uma resposta, da imensa expectativa para vê-lo todo mês. Viu a mesma ansiedade, a mesma estranha expectativa nos gestos de Felipe, e sentiu uma pontinha de solidariedade com relação àquele rapaz. Mas, tão logo a pressão dos dedos dele diminuiu, Emília retirou a mão e largou o tíquete em cima da mesa.
– Não vou fazer isso – disse.
Felipe assentiu, com um gesto rígido. Os seus olhos castanhos estavam arregalados, com as pupilas dilatadas, como se ele estivesse com febre.
– Você trabalhou na minha casa – disse ele, quase num sussurro. – E nem faz tanto tempo assim. Vivia rindo à toa. Mas a sua irmã era diferente. Ela não podia se permitir ser tola, já que tinha aquele braço aleijado. Foi uma pena o que aconteceu com ela.
Emília sentiu uma dor aguda no peito. Como se uma agulha houvesse penetrado nos seus pulmões, esvaziando-os. Soltou uma exalação profunda. Estendeu a mão para o copo de água com açúcar já pela metade e tomou tudo.
– Não precisa me lembrar que já nos conhecíamos – replicou ela, pondo o copo na mesa e pegando o tíquete dobrado. – Lá em Taquaritinga, você nunca falou comigo. Agora sabe como é sentir que as pessoas o evitam.
Olhou para a amiga. Lindalva continuava de olhos fechados, com a cabeça baixa. Enfiou o bilhete na luva, empurrando-o até ele chegar à palma da sua mão.
Lá fora, o bonde já tinha ido embora, antes que outro aparecesse e houvesse uma colisão. Lindalva tinha deixado a bolsa no veículo. Emília não tinha dinheiro para pagar uma passagem até a praça do Derby. Não podia ligar para casa, pois, naquele bairro, não havia telefones.
– Precisamos de dinheiro para a passagem – disse, então, tirando Felipe de seus pensamentos. – Degas não me dá mesada.
O rapaz aquiesceu. Assim que Lindalva se sentiu um pouco melhor, os três foram andando até a parada de bonde mais próxima, onde Felipe comprou as passagens e se despediu com um aceno discreto. As duas fizeram o trajeto até a praça do Derby em silêncio. Sempre que fechava o punho, Emília sentia as pontas do tíquete dobrado espetarem a palma da sua mão. A solidariedade que sentira antes tinha sido substituída pela raiva: de Felipe, por fazer dela uma menina de recados; do marido, por sua fuga conveniente, e de si mesma, por sua fraqueza, por sua vergonha.
Desde que começaram a surgir os artigos sobre a Costureira nos jornais, ela tinha se convencido de que só Degas seria capaz de associar as semelhanças entre a tal cangaceira e Luzia, e que não poderia provar as suas suspeitas. Convenceu-se de que Felipe – que jamais se aproximava do quarto de costura da mãe e raras vezes voltou a Taquaritinga depois que começou a faculdade – não se lembrava de Luzia. Mas ele lembrava. Quando a mencionou, Emília nem pensou em assumir a irmã ou defendê-la. O consolo e o orgulho que sentia sempre que lia um daqueles artigos foram substituídos pelo medo, pela vergonha. Lembrou-se das longas lições de dona Dulce, dos vários passeios pela praça do Derby, tudo na esperança de ser aceita. Pensou na sua condição de membro da Sociedade Auxiliadora e na possibilidade tão concreta de abrir o próprio ateliê – aquela sala impecável e cheia de janelas, com que tanto sonhara, e as fileiras de costureiras bem-alimentadas fazendo os modelos por ela criados. Todo o trabalho que tivera, todos os seus planos iriam por água abaixo se as pessoas ficassem sabendo de Luzia. Emília podia até ouvir as vozes chocadas das mulheres do Recife: que família é essa que aceita que uma moça seja levada por cangaceiros? Só pobres coitados mantinham as filhas sob cuidados tão precários; só gente sem nenhuma tradição, sem dinheiro e, o que era ainda pior, sem qualquer decência. Nenhuma mulher respeitável compraria vestidos com a parenta de um bandido. Ninguém, nem mesmo a baronesa e Lindalva, admitiria se relacionar com uma pessoa de tão baixo nível. O Dr. Duarte ia querer medi-la outra vez para estudar o seu caso, exatamente como fazia com as famílias dos presos do centro de detenção. Dona Dulce não ia tolerar sua presença na casa da família. Emília acabaria parando nas ruas.
Estremeceu e se recostou no banco de madeira. Sentiu as cabeças dos parafusos espetando as suas costas. Ao seu lado, Lindalva continuava de olhos fechados, apertando nas mãos um guardanapo do restaurante, que tinham lhe dado para fazer as vezes de lenço. A moça se perguntou se a amiga ainda estava transtornada por causa do assassinato no bonde ou se a estava ignorando. Até que ponto teria ouvido a conversa com Felipe? De que poderia desconfiar? Respirou fundo e ficou olhando as ruas do Recife. Quanto mais se aproximavam da praça do Derby, menos escura a cidade ia ficando. Os lampiões a gás formavam círculos de uma luz amarelada. Aquelas casinhas térreas tão modestas haviam desaparecido. Em seu lugar, surgiram residências maiores e mais sólidas, cercadas de grades trabalhadas. Por trás dos portões, os cães de guarda latiam. Emília sentiu os olhos arderem.
Já tinha deixado Luzia na mão uma vez, quando os cangaceiros a levaram. Na ocasião, ficou calada, não defendeu a irmã, não se ofereceu para ir em seu lugar. Agora, embora as circunstâncias fossem diferentes, sentia que fizera a mesma coisa. O tíquete dobrado estava úmido de suor dentro da sua luva. O coração lhe batia pesado no peito. Parecia grande demais, incômodo e desajeitado, como o Graf Zeppelin. “Preciso descobrir um jeito de fazê-lo voltar ao normal”, pensou ela. “Preciso aprender a contê-lo.”
Da casa da baronesa, uma criada ligou para os Coelhos. Lindalva, ainda chocada pela cena do assassinato, abraçou Emília, aos prantos.
– Só consigo pensar naquele pobre homem lá no bonde! – dizia, fungando. – Fico vendo o rosto dele o tempo todo. Depois, tudo ficou turvo. Espero não ter lhe dado muito trabalho.
Emília balançou a cabeça, sentindo-se aliviada ao ver que a amiga não lembrava de nada.
Meia hora depois, Degas chegou, ao volante do Chrysler Imperial. No trajeto até Madalena, falou do caos que se instalou no palanque e contou que o capitão Chevalier e ele tinham sido imediatamente levados até o automóvel do prefeito. Nem ocorreu a Emília perguntar pelos sogros: se tinham deixado o palanque, se tinham voltado para casa sãos e salvos. Degas dirigia depressa, como sempre. Só bem recentemente as ruas do Recife tinham sido equipadas para receber carros, e havia poucos locais onde os motoristas eram obrigados a parar. No único sinal de trânsito, na esquina da Visconde de Albuquerque com a José Osório, Emília tirou a luva e estendeu o papelzinho dobrado ao marido.
– Tome – disse ela.
– O que é isso?
– Um bilhete. De Felipe.
Degas se virou para fitá-la. O sinal, preso num poste bem na esquina, lançava um brilho vermelho no seu rosto.
– Ele estava no bonde – disse Emília, irritada porque a voz lhe saiu tremida. – Pegue.
Como Felipe havia feito, ela enfiou o bilhete na mão do marido.
– O que está escrito? – perguntou ele.
– Não sei. Não leio os bilhetes dos outros.
Degas não se moveu. Com uma das mãos, segurava o ingresso dobrado; com a outra, o volante do carro. Quando o sinal ficou verde, ele não arrancou. Pela janela, entrou um ventinho trazendo o cheiro forte e rançoso do Capibaribe, que tinham acabado de cruzar.
– Ele disse que tem tido dificuldades em entrar em contato com você, agora que foi expulso da faculdade – prosseguiu Emília.
– Foi a maior besteira que ele fez – esbravejou Degas. – Para Felipe, Vargas é mais importante que tudo o mais. É igualzinho ao meu pai – acrescentou, passando a mão pelo volante estriado. – Papai me prometeu sociedade na firma. Se eu terminar a faculdade e não cometer nenhum erro, vou entrar como sócio. Vou ter responsabilidades. Ele vai me deixar administrar as propriedades, Emília. Não posso correr o risco de perder essa chance – prosseguiu ele, jogando o tal bilhete no colo da mulher. – Tome, rasgue – disse. – Não quero saber disso.
– Felipe vai achar que eu não entreguei.
– E daí?
– Ele mencionou Taquaritinga – respondeu a moça. – Falou da minha irmã. Disse que se lembra dela.
Degas ficou olhando a rua à sua frente. Os músculos da sua mandíbula se remexeram, como se ele estivesse cerrando e descerrando os dentes. Sem virar a cabeça, estendeu a mão para o colo de Emília e, passando os dedos pela saia do vestido, pegou o bilhete de volta.
– Não conte para mamãe que você pegou o bonde – disse ele.
Depois, trocou a marcha e pisou no pedal da gasolina.
7
No mês de junho, as chuvas de inverno lavaram os cheiros rançosos da cidade. Mas também alagaram o Campo de Jiquiá. Por essa causa, a construção da linha de bonde até Madalena teve de ser interrompida. Fizeram o Capibaribe transbordar e invadir as ruas da capital, levando consigo o lixo do verão. E geraram mosquitos avantajados que se tornavam ousados e desajeitados por causa do próprio tamanho. Emília os matava com um tapa certeiro.
As chuvas obrigaram as pessoas a ficar em casa e pareceram diluir qualquer fervor político. Depois do tumulto durante a chegada do zepelim, houve algumas prisões: os instigadores foram levados para o centro de detenção e esquecidos. Até os jornais se acalmaram. Não falavam mais de revolução ou disputas políticas. Agora, preferiam escrever sobre uma reunião de produtores de açúcar, para discutir os problemas do mercado; do primeiro hidroavião que pousou no porto do Recife, pilotado pelo Sr. Chevalier; de um carregamento de laranjas que a Inglaterra recusou porque as frutas estavam com “doenças tropicais”; e da invenção do motor a álcool. Tudo isso eram assuntos distantes e desconhecidos, pensou Emília. Tudo mera distração.
Aos poucos, as tempestades foram amainando para se tornar uma garoa, como se as chuvas de antes houvessem passado por uma peneira. No dia 26 de julho, Degas chegou mais cedo da faculdade. Tinha o rosto afogueado e amassava o chapéu nas mãos. Dona Dulce mandou uma criada lhe trazer um copo de água. O Dr. Duarte saiu do escritório e veio indagar qual era a causa de tamanha comoção.
– Mataram Pessoa – disse o rapaz. – Com um tiro. Aqui mesmo, no Centro.
João Pessoa – ex-candidato a vice-presidente pela chapa de Vargas e herói do partido verde – havia sido assassinado quando comia doces na confeitaria Glória. Na emissora de rádio do governo, os repórteres alegavam que o assassino era um marido ciumento. Diziam que Pessoa andava saindo com uma cantora de cabaré e que, quando morreu, levava no bolso uma caixa da joalheria Krauze, com um presente para a namorada. Não havia fotos da tal mulher, portanto jornais e rádios ligados ao partido verde taxaram essa história de embuste. Quando o prenderam, o assassino foi identificado como um rival político de Pessoa no seu estado natal, a Paraíba. Depois disso, muita gente começou a acusar os azuis de difamação e assassinato. Para provar a inocência do seu partido, o prefeito do Recife mandou que o assassino fosse para a casa de detenção.
O cortejo fúnebre de Pessoa durou três dias. No Recife e por todo o Nordeste, viam-se cortinas pretas às janelas. Acenderam-se velas. Homens passaram a usar uma tarja preta na manga do paletó. As unidades militares puseram coroas fúnebres em seus portões, em solidariedade a Vargas, militar como eles. O proprietário da Pernambuco Tramways encomendou uniformes novos para os seus funcionários, mandando substituir os ternos azuis por verdes. Fitas da cor do partido foram amarradas aos postes das ruas e aos balaústres dos bondes. Os vira-latas enfeitados voltaram a circular pela cidade.
Nos meses subsequentes, à medida que a estação das chuvas ia cedendo lugar à da seca, os azuis do Recife prenderam dois importantes partidários de Vargas depois que descobriram um estoque de dinamite na casa desses homens, em Boa Vista. O British Club, local que o Dr. Duarte mais frequentava, foi fechado sob a acusação de atividades impatrióticas. Policiais azuis prenderam um menino de 12 anos, que vendia o Jornal da Tarde pelas ruas da cidade – o periódico oficial da Aliança Liberal, partido de Vargas –, alegando que as inflamadas manchetes diárias que o garoto anunciava eram uma incitação à luta armada. A guarda municipal deu batidas em pensões e lanchonetes do bairro São José, à procura de ativistas estudantis. À mesa do café, Degas lia as notícias das prisões em voz alta. Certa manhã não conseguiu terminar a lista que recitava. Ainda com o jornal nas mãos, ficou com o rosto absolutamente lívido.
– Sim? – murmurou o Dr. Duarte. – Continue.
– Sr. Felipe Pereira – balbuciou Degas. – Filho de um coronel, posto sob custódia e levado ao centro de detenção.
– É aquele amigo seu, Degas? – perguntou o Dr. Duarte, pondo o garfo no prato.
– É – respondeu Degas, embolando o jornal.
– Ele é leal ao partido – observou o velho.
Como o filho não disse nada, ele se debruçou sobre a mesa e tirou o jornal das suas mãos, revelando assim o seu rosto. O Dr. Duarte o fitou, espantado. As suas sobrancelhas brancas penderam, formando uma ruga em sua testa. Os seus olhos, porém, não acompanhavam a preocupação estampada acima deles. O que se via ali era o mesmo olhar nervoso que Emília já vira antes, no escritório, sempre que o seu sogro descrevia uma nova teoria ou um candidato potencial às suas medições.
– Talvez eu possa usar a minha influência – disse ele. – E soltá-lo.
Dona Dulce ficou mexendo o café. A colherinha raspava o fundo da xícara, fazendo um barulhinho monótono e constante. Por baixo da mesa, Emília podia sentir o sacolejar frenético da perna do marido, que roçou na sua.
– Não – respondeu Degas.
Dona Dulce parou de mexer o café. A voz de Degas pareceu ecoar na mente de Emília. Ela se lembrou da confusão do bonde, da firmeza do braço de Felipe mantendo-a de pé e da força desesperada da mão do rapaz.
– A família dele o hospedou por vários meses durante a greve da universidade – exclamou ela. – Ele foi nosso chaperon. É seu amigo.
Degas continuava a balançar as pernas freneticamente. Não se virou para a mulher. Manteve os olhos fixos no artigo do jornal.
– Isso foi no passado. Tomamos rumos diferentes. Ele é leal ao partido, mas fala demais. Com isso, nos põe a todos em perigo. Faz com que todos pareçamos maus.
– Nos dias de hoje, ninguém pode falar demais – observou dona Dulce, fitando a nora. – É melhor manter a boca fechada e ser considerado um tolo do que abri-la e não deixar dúvidas a esse respeito.
– Os verdes não são tolos – disse o Dr. Duarte. – Mas concordo com você, Degas. Somos todos soldados nessa batalha. Não podemos ser vítimas do nosso próprio ego. Alguns homens ficam tão envolvidos com as próprias aventuras que não conseguem pensar no bem coletivo. Os mais fortes se mostram contidos – acrescentou ele, dando uns tapinhas um tanto bruscos na mão do filho. – É bom não ter que desperdiçar minha influência.
Degas assentiu. Continuou a ler a lista das detenções com voz calma, mas, por baixo da mesa, Emília ainda sentia sua perna se mexendo.
8
Dias depois, funcionários do governo interrogaram o Dr. Duarte. A sua firma de importação e exportação foi investigada por sonegação de impostos. Os seus entrepostos e as suas propriedades arrendadas foram revistados. Apesar de tudo, o velho se manteve imperturbável. Ficava sentado no escritório, lendo as publicações de frenologia. Sorria e assobiava o hino nacional junto com o corrupião. Ouvia o rádio religiosamente. Degas estava sempre por perto. Como um daqueles enormes mosquitos desajeitados do inverno, o rapaz rondava o pai, perguntando sobre as mais recentes revistas científicas, falando das propriedades e da investigação que o governo vinha realizando, até que finalmente conseguiu tocar no assunto que mais o preocupava.
– Vai haver uma revolta? – perguntou ele.
Na noite de 3 de outubro, o rádio anunciou que Getúlio Vargas e um grupo de militares leais a ele haviam ocupado o gabinete do governador do estado do Rio Grande do Sul. No Norte, no estado vizinho da Paraíba, um grupo pró-Vargas assumiu o controle de uma base militar.
– Está começando – disse o Dr. Duarte.
Apesar das objeções de dona Dulce, ele mandou todas as criadas e o moleque para casa, no distante bairro de Mustardinha. Depois que todos se foram, passou correntes nos portões da frente e dos fundos. Pendurou então uma bandeira verde no muro de concreto da casa, pelo lado de fora. Foi pegar um velho revólver na estante e o deixou junto do rádio. Antes do amanhecer, vieram as notícias de que um grupo do Jornal da Tarde, do Recife, havia sido apanhado transportando armas escondidas em rolos de papel. Pouco depois, a Pernambuco Tramways fechou as portas dos seus escritórios. A capital estava sem telefone e sem energia elétrica. O rádio dos Coelhos emudeceu.
Uma hora mais tarde, dezenas de folhetos passaram voando por cima do muro da casa. A fábrica de refrigerantes Fratelli Vita imprimiu panfletos nos rótulos das suas garrafas e mandou distribuí-los pela cidade inteira. Eles convocavam todos os homens leais a Vargas. Revolução!, diziam os panfletos. Vamos lutar por um Brasil novo!
O Dr. Duarte levou um deles para dentro de casa. Passou a noite ao lado do rádio, com o terno amarrotado e a barba por fazer. Pôs o folheto e o revólver nas mãos do filho.
– Se eu tivesse trinta anos a menos, lutaria ao seu lado – disse ele, com os olhos brilhando.
Degas leu o panfleto. Agarrou firme o revólver. Diante do entusiasmo do sogro, Emília chegou a pensar que seu marido fosse sair imediatamente, usando apenas o pijama listrado. Era assim que os rapazes de Taquaritinga reagiam em caso de luta. Desde menina, vira inúmeros pais e filhos saírem de casa com tanta pressa, por causa de uma briga familiar ou de uma rixa por questões de terras, que até as alpercatas ficavam esquecidas. Tudo o que levavam eram as suas facas. Na casa dos Coelhos, porém, as coisas eram bem diferentes. O Dr. Duarte escoltou o filho até a sala de jantar, onde ficaram esperando que dona Dulce e Emília – já que estavam sem criadas – torrassem pão, fizessem beijus e cozinhassem fubá. Degas comeu bem devagar. À mesa do café, o silêncio era geral. Qualquer coisa que o rapaz desejasse – sal, geleia, manteiga – chegava às suas mãos antes mesmo que ele se movesse para pegar. Mais tarde, o Dr. Duarte subiu com o filho para ajudá-lo a se barbear. Dona Dulce foi buscar uma sacola, onde pôs uma dúzia de ovos cozidos, vários potes de beterrabas em conserva e geleia de banana, uma forma de pão, alguns lenços. Enquanto isso, mandou que Emília passasse duas calças do marido.
A moça não usava o ferro de passar desde os seus últimos dias em Taquaritinga. Agora ele parecia pesado e desajeitado em suas mãos. Caprichou nas calças, embora achasse todo esse cuidado ridículo, pois aquelas roupas iam ficar sujas e amassadas. Sabia-se lá que tipo de combates estavam sendo travados além dos muros da casa dos Coelhos... A ideia a deixou assustada. Teve pena de Degas.
Quando terminou de passar as calças, pendurou-as num cabide e foi procurar o marido. Não o encontrou no banheiro, nem no seu quarto de solteiro nem no do casal. Aquele desaparecimento a deixou frustrada. Não podia voltar para a cozinha, pois dona Dulce a criticaria, chamando-a de incompetente. Resolveu então procurar em todos os aposentos da casa.