Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 9 de 20 · parte 4/4

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Entre irmãs

Capítulo 7

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Foi até o pátio e espiou pelas portas envidraçadas. Na sala de visitas, viu o sogro às voltas com os botões do rádio, na esperança de conseguir algum sinal de vida. As portas do escritório estavam abertas, mas, lá dentro, viu apenas o corrupião. As cortinas da sala de recepções toda espelhada estavam fechadas. Emília já estava a ponto de abrir as portas quando viu um movimento na sala de estar. Uma sombra. Aproximou-se e olhou pela vidraça. O cômodo estava exatamente como o vira no dia em que chegara à casa dos Coelhos, a não ser pela ausência do ventilador elétrico e pela presença de Degas parado a um canto, diante da maior das Nossas Senhoras de madeira. Vestia uma camisa social e as calças do pijama. Fitava a imagem, com a cabeça ligeiramente erguida, como um suplicante.

Quando Emília abriu a porta do pátio, ele logo tratou de se afastar da imagem.

– Veio me levar até a porta? – indagou Degas.

– Não – respondeu ela, erguendo as calças passadas. – Vim lhe dar isso aqui.

– Ótimo – disse ele, tirando as calças do cabide. – Estava dando uma última olhada na casa.

– Não vai ser a última – retrucou ela, sem conseguir esconder a hesitação que se notava em sua voz.

– Parte de mim espera que seja – declarou o rapaz, deixando as calças em cima de uma cadeira.

– Era isso que estava pedindo? – perguntou Emília.

– Não! – exclamou Degas. – Eu não rezo. Só estava observando a imagem.

A moça ergueu os olhos para o rosto de madeira da Virgem. Os olhos pintados da imagem pareciam úmidos e vivos.

– Mamãe não gosta dessa Nossa Senhora – disse ele. – Tem medo dela.

Emília passou os olhos pela sala e sua coleção de imagens. Havia pelo menos uma dúzia. Grandes e pequenas, de madeira e de barro, dispostas em prateleiras e em mesinhas de canto, ao lado de outros bibelôs.

– Por que então coleciona tantas? – indagou.

– Algumas foram presentes – respondeu Degas, dando de ombros. – São valiosas. Mamãe não pode sumir com elas; não seria adequado. Mas também não consegue fitá-las. É por isso que estão todas trancafiadas aqui, e não espalhadas pela casa.

– Como você sabe?

– Ela mesma me disse, uma vez. Disse que prefere a fúria de Deus à misericórdia de Nossa Senhora.

Emília assentiu. O padre Otto sempre dizia que o poder da Virgem Maria era a sua misericórdia. Que as pessoas temiam a própria caridade que pediam, pois as vinculava à benfeitora. Era verdade. No Recife, qualquer gesto de bondade acabava sendo como um dos empréstimos do Dr. Duarte: algo que nunca se poderia quitar, e que só restava aceitar como um motivo a mais de preocupação.

– Entendo perfeitamente – disse a moça.

– Entende? – perguntou Degas, fitando-a espantado.

– Você me tirou de Taquaritinga. Fez de mim uma pessoa respeitável. Todos estão sempre me lembrando como você foi bondoso comigo.

– Fiz o que tinha de fazer, Emília – retrucou ele, suspirando. – Para proteger o seu segredo. Não venha me aborrecer com isso.

– Com o quê?

– Ele está naquele centro de detenção por causa dos seus próprios atos, não pelos meus.

– Mas você o deixou ficar lá – disse ela. – Deixou que ele ficasse trancafiado ali dentro por razões suas. Não por mim.

Tentava falar com convicção, mas não sabia muito bem quais seriam os motivos de Degas. E eles a assustavam. Lembrou o que o marido lhe dissera cerca de dois anos antes, quando ainda eram recém-casados e ele trouxe à baila o nome de Luzia: “Temos o compromisso de proteger o outro dos falatórios.”

Degas pôs a mão nas calças passadas, observando-as, como se tentasse avaliar o trabalho da esposa. Emília se adiantou e tirou as calças do encosto da cadeira. Ele ergueu os olhos, espantado.

– A sua mãe está esperando – disse ela. – Vista-se.

– Pensei muito sobre tudo isso – principiou ele. – Se vencermos, ele vai ser solto. Vai ser considerado um patriota. E eu também, se for combater. Todo mundo respeita os patriotas. Eles recebem diversas condecorações e honrarias. Se vencermos, papai vai ceder. Vou pedir que arranje um emprego para Felipe, em algum lugar bem bom. Diante de uma oportunidade como essa, ele vai esquecer tudo: eu, a sua irmã... As pessoas têm memória curta quando algo melhor lhes é ofertado. Você sabe disso.

– E se perderem? – perguntou Emília.

– Eles preferem um herói morto a um filho vivo – respondeu Degas, dando de ombros. – E você vai ficar viúva. É melhor do que ser esposa, não acha?

– Não fale assim – disse a moça. Sentiu as entranhas se revirarem, como se houvesse ali umas dez galinhas furiosas, bicando por todo lado. Sem pensar, apertou as calças com tanta força que elas ficaram amassadas nas suas mãos. Esticou-as então no sofá, tentando alisá-las e desfazer as marcas. – Vou ter de passá-las de novo – acrescentou. – Estraguei tudo.

– Está ótimo assim – retrucou Degas, pegando a sua mão. – De qualquer maneira, foi bobagem passá-las a ferro – prosseguiu ele, rindo. – Quando voltei para a Inglaterra, já rapaz, depois de passar nos exames finais do ginásio e convencer papai a me mandar de volta para fazer o colegial, não precisei ficar num dormitório, como no tempo do internato. Aluguei um quarto. Mas não sabia lavar, passar ou cerzir as minhas meias. O meu estado era deplorável. Na rua, as pessoas ficavam olhando para os meus ternos amarfanhados. Para as gravatas horrorosas que mamãe me mandava. Para os meus chapéus-panamá. A dona da pensão me disse que eu precisava de uns bons conselhos. “Coelho”, ela disse, pois chamava todos os inquilinos pelo sobrenome, “torne-se invisível”. Nesse mesmo dia, peguei o cheque da mesada que papai tinha mandado e comprei um terno de tweed, uma capa de gabardine, uma gravata listrada e um chapéu-coco. Com isso, passei a me vestir como qualquer outro homem da cidade. Podia assistir às aulas e me sentar nos pubs. Ninguém reparava em mim. Ninguém esperava nada de mim. Foi maravilhoso.

Degas fitou Emília. Tinha o rosto afogueado, os olhos vidrados.

– Não era como aqui. Aqui é impossível ter paz. Todos olham e julgam. Você sabe muito bem disso, pois foi o que lhe aconteceu. Reparam no meu jeito de pegar a xícara de café, de dirigir o carro. Era esperado de mim que eu melhorasse de vida e me casasse. É esperado de mim que eu passe a mão numa arma e vá tomar parte nessa maldita revolução.

– Foi por isso que me escolheu? – indagou Emília. – Porque achou que eu não esperaria nada de você?

– Talvez – respondeu ele. – Na verdade, não. Você esperava algo de mim, mas tudo o que queria era simples, bem-definido. Você me parecia uma pessoa muito prática. Não tinha ideias românticas na cabeça. Tudo o que desejava eu poderia lhe dar. Devia ter imaginado que as coisas iam ser diferentes.

– Diferentes como? – perguntou a moça.

– As pessoas mudam. Especialmente as mulheres. Vocês sempre querem mais do que têm.

– E você não?

– Quero. Claro que quero. Mas não sou tão bobo a ponto de ter esperanças de conseguir.

Degas se aproximou, como se fosse beijá-la no rosto. Emília sentiu o cheiro da loção pós-barba de almíscar e da fumaça dos cigarros. Quando chegou bem perto, não a beijou, mas sussurrou no seu ouvido:

– Se eu não voltar, já pedi a papai que lhe dê uma casa só para você. Um lugar bem bonito. Ele tem várias pela cidade afora. Eu lhe devo isso.

Pendurou a calça no braço e saiu da sala.

 

9

 

Depois que Degas desapareceu pelos portões dos Coelhos para ir lutar, dona Dulce começou uma procura frenética pela casa. Separou as melhores toalhas de mesa, o bule de prata, a louça de porcelana, o quadro de Frans Post, e levou tudo para as dependências dos empregados. Todos os aposentos ficaram austeramente mobiliados e às escuras.

– Se invadirem, vão tocar fogo na casa-grande, não aqui nos quartos da criadagem – disse ela, empurrando os objetos de valor para baixo das camas vazias dos empregados.

Emília viu fumaça se erguendo por sobre o muro. Ao longe, ouvia-se o espocar dos tiros, parecendo até fogos de artifício. E o corrupião cantando o hino nacional sem parar. Com a falta de luz elétrica, ela e os sogros foram cedo para a cama, embora ninguém tenha conseguido dormir. O Dr. Duarte abriu as portas da sala de visitas que davam para o pátio e ficou remexendo no rádio, tentando em vão fazê-lo funcionar. Dona Dulce varreu o quintal, para suprir a falta das criadas. Emília fechou a janela do quarto. O céu brilhava com os incêndios distantes.

A moça estava preocupada com Degas, obrigado a sair para enfrentar o fedor e a fumaça da cidade. Estava preocupada também com Lindalva e a baronesa, presas ali na praça do Derby, bem ao lado do quartel-general da polícia militar. E estava preocupada com a própria cidade. Como ficaria o Recife depois que os combates cessassem? Estaria em ruínas? Não conhecia a capital, não de verdade. Não conhecia as praias, os mercados movimentados, os prédios estreitos, de telhado pontudo, que margeavam a rua da Aurora. Só tinha passado por isso tudo de carro, indo de um lugar a outro. Conhecia apenas a casa dos Coelhos, o Clube Internacional, a loja de tecidos e a mansão da baronesa. E pronto. Agora, a revolução poria a cidade abaixo antes mesmo que ela tivesse a chance de vê-la.

À medida que a noite foi avançando, os pensamentos de Emília foram ficando mais estranhos, e os seus medos foram aumentando. E se sobrasse apenas a casa dos Coelhos? O que seria dela se ficasse aprisionada ali dentro para sempre? A vida é tão curta! Essa era uma das frases favoritas de Lindalva. Ela a usava como grito de guerra, como desculpa, como motivação. No entanto, durante essa primeira noite da revolução, Emília viu que a amiga estava enganada. Pensou nos minutos, nas horas, nos dias, nos anos, nas décadas que tinha pela frente. Se Degas não voltasse, ficaria viúva, mas isso não seria uma libertação. Dependeria da boa vontade dos sogros para o resto da vida. Mas se ele voltasse, a vida de ambos continuaria exatamente como antes. Emília sentiu um aperto no peito. Como poderia preencher tanto tempo assim?

Nas semanas que se seguiram à Revolução de 1930, quando a eletricidade foi restabelecida e as gráficas voltaram a funcionar, Emília se debruçava sobre os jornais tentando entender o que havia acontecido enquanto ficara enclausurada em casa. Nas primeiras horas do dia 4 de outubro, dezessete membros do partido verde – professores, comerciantes, estudantes, padeiros, garis, motorneiros – invadiram o maior depósito de munição da cidade. Não ficou claro se os soldados que ali se encontravam os tinham ajudado ou se simplesmente não os impediram de agir. Homens ligados ao partido ocuparam os prédios mais altos da cidade, de onde atiravam na polícia do partido azul. Olhando pelas janelas do segundo andar, dava para ver barricadas de sacos de areia e tropas instaladas na ponte Seis de Março, na Boa Vista e na Santa Isabel. O governador e sua equipe permaneceram no palácio, do outro lado do rio, e não queriam que os revolucionários invadissem o local. Funcionários dos telégrafos, leais a Vargas, cortaram as linhas para que o governador, do partido adversário, não pudesse se comunicar com o Sul do país. Por todo o Brasil, nas principais capitais, Vargas empreendia a sua revolução.

No fim, Degas acabou voltando. Contou a Emília e aos pais as coisas que tinha visto durante os dias de luta: casas, tanto de gente ligada aos verdes quanto aos azuis, sendo saqueadas; a redação do Jornal do Commercio – órgão oficial do partido azul – sendo destruída pelo fogo e as máquinas de impressão sendo atiradas pela janela. O cinema Arruda, de propriedade de partidários de Vargas, tinha sido incendiado por uma milícia azul. Carroças de entregas, revestidas de latas de goiabada, sendo usadas como tanques por membros do partido verde.

Durante os três dias e as quatro noites de combates, Emília não ficou sabendo de nada disso. Tentou ser útil na casa dos sogros. Enquanto dona Dulce varria e espanava freneticamente, procurando manter a casa “habitável”, a moça tinha toda a liberdade na cozinha. Como o serviço de entrega de gelo não estava funcionando, a maior parte da comida que estava no refrigerador estragou. O leite talhou. Os queijos azedaram. As verduras murcharam. Ninguém sabia quando voltariam a entregar o gás, portanto Emília resolveu usar o fogão a lenha para preparar qualquer resto de comida que encontrasse. Abriu os potes de geleia, as conservas de beterraba e de pepino da sogra. Cozinhou o feijão e a farinha de mandioca reservados para os empregados. Graças ao poço do quintal dos fundos, a casa dos Coelhos tinha água potável. Mas não havia vento para fazer girar o cata-vento que acionava a bomba, e a moça precisou carregar baldes e mais baldes do quintal para completar o estoque de água da casa.

Por volta do dia 7 de outubro, a cidade estava cansada daqueles combates. O governador e uns poucos indivíduos leais ao partido azul fugiram do Recife de barco, prometendo voltar trazendo reforços. Nunca voltaram. A essa altura, Vargas já tinha conquistado cinco estados importantes, entre os quais o Distrito Federal. Seu adversário, o presidente recém-eleito, estava entrincheirado no Palácio do Governo, sem perspectiva de poder escapar. No Recife, forças verdes, comandadas pelo capitão Higino Ribeiro, instalaram imediatamente um governo provisório. A Pernambuco Tramways foi reaberta. A eletricidade e o rádio foram restabelecidos. Os bondes voltariam a circular assim que as ruas fossem liberadas dos escombros ali acumulados. O capitão Higino queria que reinasse a normalidade. Pediu aos patriotas que devolvessem todas as armas e proibiu a venda de bebidas alcoólicas. Os jornais noticiavam que lojas e mercados estavam funcionando normalmente. Todos encorajavam os patriotas a sair de casa e transitar pelas ruas. Levando a vida como de costume, estariam celebrando a revolução.

Quando Degas voltou com os joelhos esfolados, os dedos negros de sujeira e os olhos quase fechando de tanto cansaço, dormiu por dois dias seguidos. No terceiro dia, o Dr. Duarte o obrigou a sair da cama. Destrancou o portão da frente e lá se foram todos eles, de braços dados, com fitas verdes no paletó e na manga do vestido. Dona Dulce se vestiu de preto, como se estivesse de luto. Degas se movia com cuidado, o corpo ainda dolorido do tempo passado agachado nas trincheiras. Desceram a rua Real da Torre e atravessaram a ponte. Outras famílias circulavam pela cidade, atordoadas e cautelosas.

Os donos das farmácias varriam cacos de vidros das calçadas. Os ambulantes cantavam alegremente, vendendo dezenas de vassouras e baldes. Alguns prédios estavam cheios de furos de balas. Eram tantos e tão próximos uns dos outros que as paredes pareciam até renda. No ar, havia um cheiro de fumaça e de coisa estragada, feito cabelo chamuscado. Do outro lado da ponte, a multidão estava reunida na praça. As pessoas arrancavam ramos das árvores e acenavam com os buquês de folhas erguidos bem acima da cabeça. Pararam junto ao busto de bronze do governador fugido e o desfiguraram, cobrindo-o com um vestido e amarrando uma fita cor-de-rosa no seu cabelo de metal.

– Ao menor pretexto para a vulgaridade, lá está essa gente pelas ruas – disse dona Dulce, com desdém.

– Este aqui é o meu filho! – dizia o Dr. Duarte, todo empolgado, a quem quer que passasse ao seu lado. – Ele lutou na revolução!

As pessoas cumprimentavam Degas com apertos de mão. Alguns até o abraçavam. A princípio, o rapaz tentava se esquivar, mas em pouco tempo já tinha se acostumado àquelas atenções.

Todos os dias, os jornais divulgavam listas dos mortos. Os desconhecidos foram enterrados em vala comum, numa fazenda nos arredores da capital. Os periódicos traziam descrições desses indivíduos, na esperança de localizar as suas famílias. Havia algumas vítimas inocentes: um homem de pijama azul, uma menina com uma fita amarela amarrada no pulso, um imigrante alemão encontrado numa pensão. Emília lia com atenção essas descrições, sem saber quem ou o que estava procurando. Certamente Luzia não estaria ali, entre os mortos. Mesmo assim, a moça imaginou a irmã como a menina da fita amarela. Por que amarela? Por que no pulso e não no cabelo?

Não conseguia afastar essas perguntas da mente, até encontrar dois obituários incluídos nas últimas páginas do jornal. O coronel Clóvis Lucena e seu filho, Marcos, haviam sido mortos em sua fazenda no interior. O corpo do pai, encontrado dentro da casa, tinha um único ferimento a bala, na cabeça. A causa da morte do filho não foi determinada: só os seus ossos foram encontrados no quintal da frente. Embora a causa da morte fosse um mistério, a identidade dos assassinos era conhecida: segundo o obituário, o coronel e seu filho haviam sido as vítimas mais recentes dos cangaceiros. O Carcará e a Costureira tinham mandado um bilhete para a esposa do recém-casado Marcos Lucena, que morava no litoral, comunicando-lhe a morte do marido. Os cangaceiros voltaram ao local da emboscada para se vingar, mas também para cobrar a sua parte na fazenda e na descaroçadora de algodão. Ao que parecia, ninguém, a não ser Emília, deu atenção a esse ocorrido. As rixas mesquinhas entre coronéis e cangaceiros não interessavam aos recifenses, que estavam ocupadíssimos pranteando as várias vítimas da revolução.

A maior parte delas vinha de dentro do centro de detenção, onde grupos do partido verde haviam entrado na esperança de encontrar o assassino de João Pessoa. O prédio era pequeno demais para conter a multidão que se reuniu ali dentro e muitos prisioneiros, juntamente com alguns invasores arruaceiros, acabaram morrendo pisoteados. Na lista dos mortos identificados constava:

 

O jovem Sr. Felipe Pereira, estudante de direito. Deixou o pai, o coronel Pereira, e a mãe, dona Conceição Pereira, de Taquaritinga do

Norte, cidadezinha no interior do estado. O corpo foi transportado para a sua terra natal.

 

Degas tossiu forte quando o Dr. Duarte leu a notícia. Pediu desculpas, saiu da mesa do café e se trancou no seu quarto de solteiro, onde passou o resto do dia ouvindo os discos de inglês.

Nas semanas seguintes, Getúlio Vargas tomou o palácio presidencial. Os gaúchos que lutaram sob a sua bandeira no Sul passaram cavalgando pela principal avenida do Rio de Janeiro e amarraram os animais no obelisco que fica numa das suas extremidades. Fotos nos jornais mostravam Vargas chegando ao palácio, envergando o tradicional uniforme militar e as botas de cano alto. Estava fumando um charuto e posou para uma foto com os seus generais e os seus assessores, que se espremiam ao seu lado. Ele era o mais baixo de todo o grupo. O seu cinto estava torto, com a fivela mais para a esquerda. Sem qualquer motivo especial, Emília recortou aquela foto e a guardou junto com o retrato de sua primeira comunhão e a pilha cada vez maior de artigos sobre a Costureira.

Depois da morte de Felipe, Degas passou a dormir mais. Aparecia para almoçar e jantar de pijama, derramava o café, trancava-se no seu quarto de solteiro por horas a fio. Dona Dulce atribuía tal letargia às “barbaridades” que ele devia ter visto durante os combates. O Dr. Duarte lhe prescreveu uma dieta revigorante, com muito repolho, verduras e bebidas preparadas com pimenta-malagueta. Mas Degas mal tocava na comida.

Antes da revolução, o Dr. Duarte teria repreendido o filho por essa susceptibilidade. Dona Dulce o teria censurado pela aparência desleixada. No entanto, nem seus pais, nem as criadas ou sequer o punhado de partidários dos verdes que foram visitá-lo durante a sua convalescença comentavam o seu comportamento. Todos o fitavam com respeito e preocupação. Embora o rapaz estivesse enfim recebendo a atenção que sempre desejara, não parecia satisfeito. Afastava as mãos da mãe de sua testa. Quando o Dr. Duarte ou algum membro do partido verde o felicitava, Degas parecia tão indiferente quanto um dos jabutis do quintal.

A única vez que concordou em se vestir e sair de casa foi para comparecer ao jantar comemorativo da Vitória da Revolução, no teatro Santa Isabel. O Dr. Duarte insistiu muito para que ele fosse. Os combatentes do partido verde e aqueles que, por todo o Nordeste, apoiaram financeiramente a campanha haviam sido convidados. Aparentemente, o Dr. Duarte tinha contribuído para a causa com uma soma considerável.

O teatro Santa Isabel era um prédio maciço, pintado de rosa-claro com uma barra branca em torno das portas e das janelas arqueadas. Lá dentro, o salão era circular. As poltronas haviam sido removidas para dar lugar a várias mesas de jantar bem compridas, todas cobertas com toalhas de linho e enfeitadas com arranjos de folhagem verde. Só homens – oficiais, combatentes, doadores – puderam se sentar às mesas do centro do salão. Por toda a volta do ambiente, perto das portas onde ficavam pendurados os casacos, havia mesas para esposas e filhas. Emília se sentou junto da sogra, que passou os dedos na toalha estalando a língua bem alto. Do outro lado da sala, na extremidade oposta da mesa das mulheres, a moça avistou a baronesa com a filha. Lindalva lhe acenou, sorrindo.

Mais no alto, amontoados nos vários níveis de balcões do teatro, estavam os convidados com menos prestígio. Desses balcões, pendiam bandeirolas formando fileiras compridas e coloridas. Havia inúmeras bandeiras do estado de Pernambuco, com o arco-íris, o sol e a cruz vermelha. Havia muitas bandeiras do Brasil. E havia ainda bandeiras verdes, dezenas delas, penduradas nos balcões e sobre as portas de entrada. A maior de todas estava acima do palco, onde fora instalada a mesa para os convidados de honra. Ali, o capitão Higino Ribeiro e alguns oficiais do Sul, que tinham vindo especialmente para a ocasião, faziam brindes e puxavam o coro que entoava o hino nacional.

Emília apenas beliscou a comida. As verduras estavam murchas e amargas; o frango, borrachento. Depois de cada brinde, todos intermináveis, os homens das mesas do centro gritavam “Aqui, aqui!”, batendo animadamente com o garfo nas taças de cristal. Emília avistou Chevalier, com os seus tufos de cabelo, sentado a uma dessas mesas. Degas estava a umas poucas cadeiras de distância, ao lado do Dr. Duarte. Parecia abatido e irrequieto. Tomava um copo de vinho atrás do outro.

Antes da sobremesa, o capitão Higino deveria ler uma mensagem enviada diretamente por Getúlio Vargas. No entanto, quando os pratos foram retirados, o capitão continuou a conversar com os seus vizinhos de mesa lá no palco do Santa Isabel. As mulheres permaneceram em seus lugares, ao passo que, no meio da sala, seus maridos, filhos e irmãos resolveram confraternizar, levantando-se das cadeiras para trocar apertos de mãos e tapinhas nas costas. Ignorando a insistência do pai, Degas foi direto até onde estava Chevalier. Emília ficou de pé.

– Aonde você vai? – indagou sua sogra.

Uma marca escura deixada pelo vinho lhe contornava os lábios.

– Cumprimentar Lindalva – respondeu a moça.

– Agora não, querida – retrucou dona Dulce, balançando a cabeça e sorrindo para as mulheres que estavam ao seu lado. – Sempre essa ansiedade para ser a primeira em tudo... Se os homens estão indo falar uns com os outros, ela quer ir também. – E, fitando a nora, acrescentou:

– Sente-se. A anfitriã é a esposa do capitão Higino. Temos de esperar que se levante para que possamos fazer o mesmo.

Emília olhou todas aquelas mulheres.

– Achei que você fosse reconhecê-la imediatamente – prosseguiu dona Dulce. – Com todos os jornais que lê...

– Não sei do que a senhora está falando – replicou Emília, sentando-se.

– Seu Tomás me contou que você anda comprando jornais com o dono da banca da esquina, um amigo dele. Disse que você os esconde no meio das revistas de moda.

A moça sentiu as mãos quentes. Começou a brincar com as luvas.

– Não escondo, não – retrucou ela. – Estou apenas sendo discreta, como me ensinou. A senhora me disse que uma dama não deve ser vista lendo jornais.

– Você é uma aluna inteligente – observou dona Dulce, rindo. Os seus dentinhos miúdos reluziram. Ao seu lado, as outras mulheres sorriram gentilmente. – Eu compreendo, querida – acrescentou sua sogra. – Você precisa se manter atualizada para auxiliar o Dr. Duarte. Não tenho a menor paciência para essas coisas. Fico muito feliz ao ver que você voltou a ajudá-lo com as suas ciências e coisas do gênero. Odiaria ter de contratar uma daquelas secretárias horrorosas. Principalmente quando já temos você. As mulheres que não podem ser mães precisam arranjar outra ocupação – disse ela, voltando-se para as suas vizinhas de mesa.

– E homens que não podem ser pais também – exclamou Emília.

– É – concordou dona Dulce, tomando mais um gole de vinho. – Arranjam mesmo, infelizmente. Ao contrário de vocês, moças modernas, eles não têm tantas diversões assim para se manter ocupados. Vocês têm a moda, os cortes de cabelo, os chás especiais. Emília toma um chá para a pele. Por isso tem essa pele tão clara e macia. É um dos seus remédios lá do interior, não é?

– É.

– Você devia nos dar a receita – prosseguiu ela, sorrindo. – Não seja tão avarenta com os seus segredos de beleza. Raimunda não soube me dizer. Tivemos uma conversa bem franca. Ela me disse que compra uma casca qualquer lá no mercado, mas que não é nada que conste da minha lista de compras. Disse também que você lhe dá a sua própria lista. Fico animada ao vê-la assumindo responsabilidades, Emília. Lidando com a criadagem, cuidando das compras de mercearia. Acho que deveria lhe passar a administração da casa. Seria bom ter umas férias das minhas preocupações.

Dona Dulce começou a falar cada vez mais alto. As mulheres que estavam por perto disfarçaram, fitando os próprios pratos de sobremesa.

– A senhora vai encontrar outra coisa com que se preocupar – disse Emília. – É o que sempre faz.

– Esta é a vida de uma boa esposa. Quando tiver a sua própria casa, vai entender.

– Não conto muito com isso. Degas gosta muito da casa de vocês. E não sabe viver longe do pai.

Dona Dulce passou os olhos pela mesa comprida e pegou o guardanapo que estava no seu colo.

– Vi a esposa do capitão se levantar – disse ela. – Pode me acompanhar ao toalete, Emília? Com licença.

As mulheres ao seu redor assentiram, educadamente. Quando a moça ficou de pé, sua sogra a agarrou pelo braço.

Saíram ambas do salão do teatro, dirigindo-se ao saguão. Vários garçons circulavam por ali. No alto, lâmpadas elétricas zumbiam, refletindo a sua luz na coleção de espelhos dourados espalhados pelas paredes. Distribuídos pelo chão ladrilhado, havia uns sofás circulares que mais pareciam uns grandes bolos vermelhos, recobertos de veludo capitonê enfeitado com botões. Do meio desses sofás saíam uns cilindros com o mesmo estofamento, destinados a apoiar as costas cansadas dos espectadores. Dona Dulce passou por vários deles até parar diante de um que ficava bem longe das portas do salão, mas nada perto do toalete feminino.

Soltou o braço de Emília. Atrás de sua sogra, sentado num daqueles sofás e parcialmente escondido pelo encosto cilíndrico, havia um homem. Dona Dulce não o tinha percebido. Contraiu os lábios, que tremiam. Emília se sentiu como uma criança assustada, exatamente como acontecera no seu primeiro dia na sala de estar dos Coelhos, mas não desviou os olhos. Não se deixaria acovardar.

Quando dona Dulce afinal falou, seu hálito estava amargo por causa do vinho.

– Você deve estar achando que só porque ganhou um concurso pode falar comigo nesse tom. Que pode se pavonear por aí afora com esses seus vestidos idiotas. Que pode fazer insinuações a respeito do meu filho. Mas não seja tão audaciosa assim. Aquelas mulheres das famílias novas que estavam ali riem de você. Pelas costas. Acham pitoresca essa sua mania de querer parecer uma dama. Acham engraçado. Eu sei. Já ouvi elas dizerem. E as criadas também me contam. Não sabe que elas ouvem as conversas das patroas? Não sabe que contam tudo o que ouvem umas para as outras? Que as histórias sobre a esposa caipira de Degas Coelho se espalham de casa em casa? Não se iluda. Deixe-me dizer as coisas de um jeito que você vai entender, já que é lá do sertão: sabe o que acontece quando uma formiga cria asas? Ela fica toda cheia de si. Sai voando por todo lado como um passarinho. Mas vai ser sempre um inseto. E você vai ser sempre uma costureira.

Emília sentiu as pernas bambas. Firmou os joelhos, tentando se manter de pé.

– Não volte mais para a minha mesa – acrescentou dona Dulce, ajeitando a saia. – Vou dizer que você não estava se sentindo bem.

Quando a sua sogra se afastou, Emília se deixou cair no sofá às suas costas. Havia um espelho na parede em frente. Era alto e largo, em nada semelhante ao pedacinho de vidro que ela guardava lá em Taquaritinga. Ali podia se ver inteira, e não aos pedaços. Não parecia diferente das outras mulheres da Sociedade Auxiliadora: era morena, mas não demais; gorducha, mas não demais; tinha o cabelo crespo, mas não encarapinhado. Todas as outras copiavam as suas roupas. Sentavam-se ao seu lado nas sessões de costura e a convidavam para um café. Mas o que faziam depois que ela ia embora? Será que escaldavam a xícara que tinha usado na água fervente? Já as vira fazerem isso com a xícara que o Sr. Sato, o joalheiro ambulante, tinha usado. Porque, embora ele fosse refinado demais para tomar café na louça da criadagem, era considerado suspeito. Não era muito asseado.

Emília enfiou o rosto nas mãos enluvadas.

Durante as aulas que lhe dera, dona Dulce sempre simplificava as coisas de propósito. Emília podia memorizar a disposição de uma mesa posta, podia aprender a andar direito, a limpar os lábios dando umas pancadinhas leves, a segurar uma xícara, a demonstrar apenas o interesse suficiente quando ouvia algo, a rir com a dose certa de alegria. Havia coisas, porém, que jamais poderia aprender: códigos tácitos, motivações inexplicadas. O caminho para a respeitabilidade não era reto como a dobra da toalha da mesa, como a sogra a levara a crer. Era sinuoso e cheio de mistérios, como os dentes metálicos dos seus fechos ecler, que se uniam de forma muito simples, mas também podiam quebrar e se soltar com a mesma facilidade.

– Ela errou quando usou aquela expressão.

A voz era gentil. Masculina. O homem estava sentado no sofá à sua frente, não mais escondido pelo encosto. Tinha o pescoço magro e encurvado, e o corpo se perdia dentro do terno excessivamente grande. A barra da calça embolava sobre as botas altas usadas no campo, embora ele não parecesse ser fazendeiro. Tinha o cabelo liso e castanho. Um pouco mais comprido do que o corte da moda para os homens do Recife e parcialmente penteado para trás, como se ele tivesse tentado assumir um ar mais formal. Não parecia mais velho que Degas, mas a sua pele clara era pontilhada de manchinhas. Ao contrário do que acontecia com as sardas de Felipe, as daquele homem não pareciam ser naturais, mas sim o resultado de muito sol. No nariz grande, repousavam óculos de aro dourado. Os seus olhos pareciam vidrados, como se ele tivesse participado de todos os brindes feitos pelos convidados e tomado a taça de vinho inteira a cada vez.

– Queira me desculpar, o que foi que disse? – indagou Emília, enxugando o rosto.

– Não precisa pedir desculpas. Eu a perdoo de muito bom grado – retrucou o sujeito, sorrindo. – A expressão que ela usou estava errada. Meu pai adorava ditados. E os colecionava, se é que se pode colecionar esse tipo de coisa. “A formiga, quando quer se perder, cria asas.” Essa é a expressão correta. Já o que isso quer dizer fica por conta de quem ouve. Alguns acreditam que o significado é que até os menores seres podem se erguer acima das circunstâncias. Seguir adiante, rumo a algo diferente.

– Cavalheiros não ficam ouvindo as conversas alheias – disse Emília, cerrando bem os punhos para conter o tremor das mãos.

Queria sair dali, descobrir onde ficava o toalete feminino e se sentar lá dentro, em paz.

– Não sou um cavalheiro. Trabalho para me sustentar. Sou médico.

– Não parece – observou a moça, fitando-o novamente.

Já tinha visto vários colegas do Dr. Duarte, inclusive aquele que examinara a sua barriga por baixo dos lençóis e lhe receitara vitaminas. Todos eram homens sérios, de barba e com uma postura reservada, e levavam no bolso do paletó caixas metálicas de termômetros em vez de lenços.

– Obrigado – replicou o homem. – Na verdade, hoje em dia sou fazendeiro, lá na Bahia. Mas ninguém no Recife está interessado na minha profissão atual. Só a antiga os impressiona. Portanto, é ela que uso quando me apresento a alguém.

Emília assentiu. Mantinha os olhos fixos nas próprias luvas, na esperança de que ele a deixasse em paz.

– Lamento, mas não pude deixar de ouvir – prosseguiu ele. – Não era a minha intenção. Só queria escapar daquele salão. Estava muito barulho lá dentro. Aliás, a cidade inteira é barulhenta.

– A gente acaba se acostumando.

– Eu não. Vim de longe para essa comemoração, mas não vejo a hora de voltar para o campo.

– O campo é barulhento também. Só que não é por causa dos bondes ou das pessoas. Lá o que faz barulho são as cabras e os sapos.

– Já esteve no interior?

Emília assentiu.

– Nasci lá. Consegui escapar. Achei que tivesse ouvido essa parte...

O sujeito enrubesceu.

– Não me parece uma boa maneira de escapar – disse ele, não conseguindo conter o riso.

– Não para o senhor. Pode ir para um lado e para outro, como bem entender. Mas sem recursos e sem uma profissão, a gente fica preso. Eu tive sorte. Era costureira.

– E agora?

– Esposa. Uma esposa lamentável, segundo a minha sogra – respondeu ela, sorrindo.

O homem riu.

– Pois eu sou um pobre fazendeiro, se isso pode lhe servir de consolo.

– Pensei que todos os fazendeiros fossem contra Vargas.

– Nem todos – replicou o homem, franzindo o cenho. – Os coronéis, sim. Mas as suas preferências vão ter de mudar. Agora, precisam apoiar Vargas. E espero que ele dê cabo de todos. Ele vai transformar o interior. É exatamente o que os coronéis não querem.

– E o senhor quer? – indagou a moça.

– Quero. Claro que quero. Não há estradas. Nem escolas. A vida por lá é um horror. A senhora sabe disso melhor que eu.

– Mas o senhor disse que gostava de lá... Que trocou a vida da cidade por isso...

O sujeito ajeitou os óculos. Chegou mais para a beirada do sofá, com os joelhos quase tocando os de Emília, e baixou o tom de voz.

– O interior, o sertão, a caatinga, seja lá o nome que prefira lhe dar, me assusta. Sempre me assustou. Desde criança, lá em Salvador, ficava horrorizado com as histórias que me contavam. Horrorizado com o lugar e tudo o que se referia a ele: as cobras, os bandidos, as secas, o povo. Os habitantes das cidades viram a cabeça para o outro lado. Querem olhar o oceano, as palmeiras. Mas eu nunca quis fazer isso. A vida na cidade é muito boa, mas é fácil. Tudo já está arrumado e assentado. Na caatinga, as coisas ainda são novas. Tudo pode ser moldado. Transformado em algo diferente. Em algo melhor. Os coronéis já tiveram a sua oportunidade. Agora, chegou a vez de Vargas.

Falava com tanta convicção, com tanta esperança, que Emília ficou emocionada com a crença dele e envergonhada da sua. Tinha abandonado o lugar que ele queria transformar. E onde ele via uma terra nova, ela via uma velha, tão intratável em suas concepções quanto tia Sofia. Mesmo assim, ficou tocada simplesmente por ele querer discutir os problemas do sertão. Não os ignorava, como faziam os recifenses. Não procurava manter as suas tradições, como faziam os coronéis. Por que o interior não podia ter telégrafo, telefone, escolas e ruas como as cidades? O que havia de errado em pôr o interior no mesmo nível do litoral?

Antes que pudesse responder ao médico, ouviu-se uma salva de palmas vinda do teatro.

– Higino vai ler a mensagem de Vargas – disse ele, levantando-se do sofá. – Deveríamos ouvi-la.

Emília assentiu. Seguiu o médico até a porta do salão, mas não entrou com ele. Não queria se esconder no fundo do teatro, expulsa de sua mesa por dona Dulce. Preferiu subir a escada até o segundo andar. Ali, foi abrindo caminho por entre os espectadores da classe média – muitos dos quais olhavam fixamente para o seu vestido verde e as suas luvas de seda – e conseguiu parar junto da mureta. De cima, tinha uma visão bem nítida do capitão Higino de pé diante da mesa, segurando nas mãos um telegrama amarelo. Viu as fileiras de homens sentados diante dele, o topo daquelas cabeças com a calva e o cabelo com brilhantina. Viu as mulheres das famílias novas pelas bordas do salão, todas com a cabeça obedientemente voltada para o palco, mas com os olhos indo e vindo de ponta a ponta da própria mesa, umas examinando as outras.

A princípio, as palavras de dona Dulce tinham-na entristecido. Agora, porém, o que sentia era alívio. Era como se houvesse uma vidraça à sua frente, limpa e impecável como as janelas da casa dos Coelhos, e, ao dizer aquilo, sua sogra a tivesse embaçado. Como um inseto que voasse de encontro a uma janela e deixasse ali os seus restos, mostrando a Emília que havia uma barreira à sua frente. Em vez de se sentir desapontada, a moça se sentiu livre. Era libertador entender finalmente qual era o seu lugar. Ver que tinha permitido que os menores elogios se tornassem vitórias e os mínimos erros, derrotas. Deixando-se oscilar com tanta facilidade, acreditando que não existia qualquer barreira entre ela e as mulheres do Recife, ficaria constantemente frustrada. Estaria acuada, condenada a observá-las e a imitá-las pelo espelho, em vez de fazer com que a vissem.

No seu discurso, o capitão Higino expôs as metas de Vargas para a região. No Recife, todos os lampiões a gás seriam substituídos por lâmpadas elétricas. Funcionários da prefeitura abririam ruas levando à periferia pantanosa da capital. Os alagados seriam aterrados para a criação de “casas populares”: construções de tijolos em lugar dos mocambos com teto de sapê, precariamente assentados nas encostas e nas margens dos rios. Para Vargas, era indispensável instalar ali uma nova rede de esgoto, bem como realizar campanhas de vacinação para combater o cólera, a lepra e a difteria. “O homem ideal terá uma única marca no corpo: a cicatriz da vacinação”, declarou o capitão. Enfim, Higino revelou o mais ambicioso de todos os projetos: uma rodovia. A Transnordestina, que ligaria todos os estados do Nordeste e atravessaria Pernambuco. Graças a ela, o sertão passaria a ser uma região acessível. E o litoral ficaria conectado ao interior. De leste a oeste.

Ao ouvi-lo falar, Emília ficou arrepiada. Imaginou a rodovia: larga, lisa e plana, como uma fita preta. Seria uma linha direta, costurando o estado inteiro. Obrigando as pessoas a olharem para o interior, para o campo, em vez de desviar os olhos. Se houvessem construído essa estrada anos atrás, Luzia e ela poderiam ter feito escolhas diferentes. A vida de ambas não teria sido tão marcada pela falta de oportunidades. Nenhuma das duas precisaria recorrer a uma fuga tão desesperada.

– A rodovia – disse o capitão Higino, prosseguindo em sua leitura – vai ser uma força de união, uma força civilizadora.

Emília baixou os olhos em direção à multidão de homens. Em vão tentou localizar o médico-fazendeiro. Mas avistou Degas e o Dr. Duarte. Seu sogro estava de pé, aplaudindo entusiasmado a proposta da rodovia. A moça sentiu um bolo no estômago. Por baixo da empolgação, descobriu uma camada de medo, fria e pesada. Lembrou-se da Menina Sereia. Lembrou-se da cabeça de porcelana no escritório do Dr. Duarte, com o crânio todo dividido por uma série de linhas pretas que separavam a razão da paixão, o idealismo da cautela, a benevolência da coragem.