Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 10 de 20 · parte 2/4

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Entre irmãs

Capítulo 8

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Antônio insistia em dizer que ele e seus homens não podiam ser contratados: simplesmente faziam serviços para amigos. Em troca, esses amigos lhes davam guarida e presentes, nunca pagamento. Não precisavam de dinheiro, pois os seus bornais já estavam cheinhos de notas de mil-réis. Em geral, esses presentes eram armas e munição. Durante a revolução, e depois dela, quando Vargas passou a reservar a maior parte da munição disponível para as suas tropas, os carregamentos para o interior ficaram bastante reduzidos. Antônio estocava então o máximo que podia.

Já Luzia estocava jornais conseguidos nos assaltos às caravanas dos azuis. Depois da revolução, o Diário parou de incluir a coluna social nas suas páginas. Só publicava fotos de Getúlio Vargas no palácio presidencial, no Rio de Janeiro, onde ele havia instalado o governo provisório. Mais tarde, apareciam também as fotos dos “tenentes”, membros do partido verde indicados para assumir temporariamente o governo dos estados, até que a nova constituição estivesse pronta. O capitão Higino Ribeiro tornou-se o tenente de Pernambuco. Durante semanas a fio, o seu retrato saiu na primeira página do jornal.

Foi só mais tarde, depois do Carnaval de 1931, que Luzia voltou a ver fotos da irmã. O Diário de Pernambuco divulgava as inaugurações, os jantares oficiais e outras festividades promovidas pelo novo governo. Numa dessas fotos, Emília estava de pé em meio à multidão que cercava o Dr. Otto Niemeyer, um economista estrangeiro que Vargas havia convidado para criar um plano de desenvolvimento econômico para o Brasil. Em outra, Emília aparecia num jantar oferecido a vários sujeitos pálidos de terno – eram representantes de conglomerados estrangeiros de petróleo, companhias de eletricidade e empresas de borracha. Aqueles homens eram o futuro, segundo Vargas. Ele queria grandes projetos, que chamassem a atenção, para mostrar que o seu governo estava funcionando. A cada lançamento de pedra fundamental ou jantar comemorativo, viam-se faixas com o lema do presidente – Urbanizar, modernizar, civilizar – penduradas atrás dos convidados. Emília aparecia sempre no meio das pessoas que ficavam abaixo dessas faixas. O seu cabelo estava mais comprido do que Luzia se lembrava, e o seu rosto, mais magro. Num artigo, datado de maio de 1931, o repórter mencionava sua irmã. Tinha havido um Congresso Feminista no Rio de Janeiro, onde os delegados de Vargas esboçaram a nova legislação eleitoral do país. Em sua versão inicial, o documento estendia o direito de voto apenas às viúvas com propriedades e às mulheres casadas, desde que tivessem permissão do marido. “Estamos preocupadas”, declarou a Sra. Degas Coelho. “Temos esperanças de que essa versão vá ser revista. O presidente Vargas prometeu e, quando um homem faz uma promessa a uma dama, deve cumpri-la.”

Luzia sorriu ao ler isso. Emília continuava acreditando no poder da decência e da cortesia. Ou então fingia acreditar. Quando observava aquelas fotos, achava que o rosto de Emília não combinava com a esperança cortês que se notava nas suas palavras. A mulher das fotos raramente sorria. Tinha o queixo erguido e os lábios contraídos numa expressão que parecia de desafio.

Enquanto a Sra. Degas Coelho participava de lançamentos de pedras fundamentais e inaugurações do governo Vargas, Luzia e os cangaceiros participavam de suas próprias cerimônias de dedicação. Antônio deu dinheiro a algumas cidades para consertar um poço ou reformar a capela. Deu ferramentas novas a alguns lavradores e cortes de tecido às suas mulheres. Deu a um alfaiate já idoso um saco cheio de dinheiro para que ele e os filhos pudessem construir a própria loja.

O bando do Carcará adquiriu fama tanto pela crueldade quanto pela generosidade. Mais homens queriam fazer parte dele. Novos recrutas fitavam Antônio com respeito e medo. Luzia tinha pena deles. Logo experimentariam os efeitos do suco amargo do xiquexique. Logo veriam que o seu capitão era temperamental. Apesar do sucesso que vinham tendo desde a revolução, o cangaceiro andava acabrunhado. O seu corpo estava ficando mais fraco, o seu olho, embaçado, e as suas superstições se multiplicavam. Às sextas-feiras, dia sagrado, ele não deixava os seus homens cantarem, jogarem dominó e nem mesmo conversarem. Nesses dias, Luzia não podia tocar nele. As suas orações noturnas estavam cada vez mais longas e todos se mostravam irrequietos por ficar tanto tempo ali, ajoelhados. Um dia, Orelhinha e quatro novatos reclamaram da duração dessas rezas. Antônio determinou que o subcapitão ficasse encarregado do lixo por um mês, atribuindo-lhe a pior das tarefas: enterrar os refugos do bando sempre que levantavam acampamento. Depois disso, Antônio passou a dormir pouco. Deitado ao lado de Luzia, ficava ouvindo as sentinelas conversando baixinho. Certas noites, esperava até que todos estivessem dormindo; acordava então a mulher e, juntos, trocavam a manta de lugar para que ninguém soubesse exatamente onde os dois estavam. O medo de ser envenenado aumentou muito e ele se recusava a comer qualquer coisa que Luzia não tivesse provado antes. Se os novos recrutas questionavam uma ordem sua ou o decepcionavam, Antônio não permitia que fizessem a oração do corpo fechado para se proteger do mal. Os sujeitos sentiam-se desamparados e temerosos. Ficavam sem a aprovação ou o amor do capitão. Para ter tudo isso de volta, até Orelhinha obedecia.

Como recompensa, Antônio fazia cada homem do bando se sentir importante. Aconselhava-os e cuidava deles. Fazia longas preleções sobre a sua liberdade, a sua independência. Sentada na sua manta, no escuro, Luzia ouvia tudo impaciente. Aqueles discursos a deixavam frustrada. A vida que levavam não era marcada pela liberdade, e sim pela fuga: da sua vida anterior, de erros do passado, de inimigos, de coronéis, de macacos ou da seca. Além disso, que vantagem tinha a liberdade por si só? Que vantagem tinha aquela imensidão da caatinga que rasgava as suas roupas e lhes cortava o rosto? Que vantagem tinha ficar vagando por vagar, sem motivo, sem objetivo, sem qualquer futuro à vista?

Até o mais pobre e bagunçado dos casebres, com chão de terra e cachorros encolhidos pelos cantos, era ordenado e sólido se comparado à vida que ela levava ali no mato. Todos eles tinham um bom pilão de madeira para moer o milho e fazer fubá, e para triturar os grãos de café. Tinham ganchos pendurados acima do fogão para conservar a carne. Tinham cadeiras, berços e redes de corda de caroá, pois tudo isso eram coisas que passavam de mãe para filha. Coisas que Luzia jamais poderia carregar, vagando pela caatinga. A Costureira tinha bornais bordados, joias e uma pistola, mas não tinha uma casa para cuidar.

No começo, a inveja que sentia era discreta. Com o tempo, foi aumentando. Uma onda de amargura lhe subia pelo peito sempre que ela entrava numa casa, deixando-a de mau humor pelo resto do dia. Tinha vergonha daquele sentimento e jamais o mencionava. Simplesmente evitava casas. Para Antônio, aquela repulsa pelos espaços fechados revelava o seu amor pela vida ao ar livre, pela própria caatinga. E ele aprovava a sua atitude.

– A sua casa é melhor que a de qualquer outra mulher – dizia ele, pondo uma mecha de cabelo para trás da orelha de Luzia.

Era uma casa enorme. O que a dividia eram rios, e não paredes. Na época da estiagem, o seu teto era tão azul quanto as cerâmicas vitrificadas que se vendiam nas margens do São Francisco. Na estação das chuvas, ele se tornava cinzento, atravessado pelo brilho dos relâmpagos. A sua cozinha era bem fornida com cabras, tatus, coelhos-do-mato e rolinhas. Os seus móveis eram resistentes: as pedras menores davam ótimas cadeiras, os juazeiros perenes forneciam boa sombra e as formações rochosas que se erguiam em meio à vegetação baixa, arredondadas e maciças, como corcovas de animais adormecidos, eram armários de primeira, servindo para guardar munição e suprimentos, tanto escondidos nas suas fendas quanto enterrados na sua base.

Antônio lhe dizia essas coisas, sussurrando, quando estavam a sós. De manhãzinha, antes do nascer do sol, ele a acordava para se afastarem um pouco do acampamento. Ela o seguia na escuridão da madrugada. Esperava até ele limpar um lugar em que ambos pudessem se sentar. Era comum haver areia na sua manta, nos seus cabelos, na sua pele. E também formigas. O ar da manhã era frio. Ambos estremeciam e ficavam bem juntinhos. Não podiam falar muito alto, para que os homens não os ouvissem. Não podiam se mexer muito, nem para um lado nem para o outro, para os cactos e as urtigas não encostarem na sua pele. Às vezes, Luzia tinha medo de encontrar alguma cobra ou um caititu com seus dentes afiados. Nessas horas, se agarrava ainda mais ao marido.

A dor da primeira vez já não existia; em seu lugar, havia agora a urgência. Em geral, Antônio fazia tudo depressa, depressa demais, e logo, logo o seu corpo se aliviava, o seu olhar ficava distante. No começo, aquilo a deixou com raiva. Lá ia ele para algum outro lugar, largando-a ali, naquela manta cheia de areia. Depois, percebeu que ele estremecia. Que ele a fitava, com os olhos arregalados. “Luzia!”, exclamava, com um tom de súplica na voz. E ela sentia um súbito orgulho que chegava a estonteá-la. Aquele era o homem que o povo chamava de demônio. Aquele era o Carcará, dócil nas suas mãos. Naquele momento, ela o possuía inteiramente. E, como qualquer pessoa que conseguiu subjugar algo selvagem, Luzia ficava emocionada e assustada.

Nunca admitiu o medo que sentia, mas ele estava ali, como uma fina camada de crinolina escondida sob o tecido de um paletó masculino. A crinolina era um elemento resistente, mas invisível, que servia para dar forma ao traje. Com os seus homens, Antônio era o capitão arrogante e temperamental. Quando invadiam cidades e fazendas, era o Carcará inclemente. Com ela, era Antônio, delicado, curioso, solícito. Era fácil ter afeição por um homem assim. Certas noites, porém, quando o chão debaixo da manta estava duro demais, quando estava muito frio ou quando o seu braço aleijado doía, não a deixando dormir, Luzia olhava as costas encurvadas do marido, os seus ombros calejados e o seu cabelo comprido, e se perguntava: se ele não fosse também o Carcará, será que o amaria?

O segundo filho foi diferente do primeiro. Ela não teve desejo de comer laranjas. Não se sentiu enjoada ou cansada. Era calmo: filho dos meses chuvosos, quando tudo estava florescendo. À noite, achava que podia senti-lo se mexendo na sua barriga, como uma mariposa. Eram noites frias e úmidas. Luzia se encolhia debaixo do cobertor. Cobria-se com dois gibões. Rezava para Nossa Senhora do Bom Parto. O bebê não pôde ter nenhum desejo especial porque a moça não lhe deu chance para isso. Tomava leite de cabra diariamente. Chupava blocos de rapadura. Nas cidades serranas, devorava a polpa carnuda e amarelada das jacas. Comia tudo o que encontrasse pela frente. Apesar dos seus esforços, a criança se foi. Ao primeiro sinal de cólica, pararam num sítio. A esposa de um lavrador lhe cedeu a sua cama. Pôs panos úmidos na sua testa. Lá fora, Antônio só fazia andar de um lado para outro. Quando enfim Luzia se levantou, usando as suas outras calças, ele estava à sua espera.

– Foi melhor assim – disse ele, balançando a cabeça como se quisesse espantar outras ideias. – Cangaceiros não devem mesmo ter bebês. Eles são um peso morto.

Antônio nunca lhe bateu. Nunca gritou com ela, nem apertou a sua mão com muita força ou a empurrou. A este respeito, lembrou-se Luzia com seus botões, era uma esposa de sorte. Mesmo assim, sentiu algo se enrijecer dentro do peito, como a garapa quente despejada nos moldes de madeira e deixada no frio da noite para endurecer, transformando-se em rapadura.

Depois de perder o segundo filho, ela começou a tomar chá de casca de quixabeira diariamente e, a cada mês, para não engravidar, engolia um chumbinho – daqueles que as crianças usam nas espingardas de ar comprimido para caçar rolinhas. Passou a participar das brincadeiras de tiro junto com os homens do bando. Escolheu uma arma numa pilha de papos-amarelos e de mosquetes que eles tinham roubado. Ao contrário dos cangaceiros, ela detestava os mosquetes de chumbo, com aqueles canos grossos e maciços, e as balas grandes de metal que estraçalhavam tudo. Os homens preferiam as Winchesters, mas também gostavam dos chumbos. Os tiros disparados por essas armas não eram limpos, como se diz, mas, com elas, era raro errar o alvo.

– A gente quer que a bala penetre bem fundo – disse-lhe Baiano. – Mas, se não dá para fazer isso, quanto mais grosso melhor. Com o chumbo, o ar entra e o sangue sai.

No início, Luzia nunca tinha apontado uma arma para um ser humano. Durante as competições de tiro, os alvos eram árvores, latas de brilhantina ou de querosene e garrafas vazias. Para isso, a moça preferia a precisão de uma pistola ou de um fuzil de cano longo. Imitava os métodos dos homens, rastejando de bruços e equilibrando a arma numa pedra para garantir a firmeza do tiro. Ao anoitecer, quando ficava escuro demais para bordar, Luzia ia limpar as armas junto com o resto do bando. Armas eram coisa preciosa. Antônio ficava bravo se visse uma delas suja ou enferrujada, tornada imprestável por descuido do dono.

– Vocês aparam os cascos de uma cabra! Lavam um bom cavalo! Então por que não fazem a mesma coisa com a sua arma? – era o que ele vivia dizendo.

Os homens não falavam quando se dedicavam àquele trabalho de limpeza. Só se ouviam o som dos canos sendo destravados, o tilintar dos projéteis e alguém pedindo bem baixinho que lhe passassem um pano ou uma lata de brilhantina. Usavam umas varetas envoltas em pano macio para enfiar no cano e em cada uma das câmaras do tambor. Baiano gostava de passar um pouco de brilhantina para azeitar o gatilho.

Não tardou muito para Luzia começar a ganhar todas as competições. Antônio e seus homens, inclusive Orelhinha, elogiavam a sua pontaria. Ficavam deslumbrados com os seus tiros, mas sempre cumprimentavam o cangaceiro que ficava em segundo lugar. As vitórias de Luzia não eram consideradas reais porque ela nunca tinha atirado num homem. Poucos meses depois da revolução, isso mudou. Os cangaceiros voltaram à fazenda do coronel Clóvis Lucena para se vingar. Foi ali que a moça apontou a arma para seu primeiro alvo humano. Marcos, o filho do coronel, tinha se casado, mas a sua esposa continuou morando em Salvador. A pontaria perfeita de Luzia deixou a moça viúva.

Depois que ela matou pela primeira vez, atirar ficou bem mais fácil. Quando atacavam a casa de um coronel inimigo, ou quando surpreendiam um grupo de fugitivos azuis, Luzia e os outros ases do gatilho se escondiam nos portais ou atrás de árvores. No começo, olhando por cima da mira do cano da arma, ela esperava que os seus tiros fossem fazer os homens pularem ou sacudirem braços e pernas. Mas não. Só os tiros que não eram certeiros provocavam resultados assim. Quando uma bala acertava uma articulação, um osso da bacia, ou raspava a pele dos homens, eles caíam para trás e, às vezes, estremeciam ou entravam em convulsão. Isso era perigoso. Como Baiano tanto gostava de dizer, mesmo depois de um tiro mortal, um homem pode sobreviver por dez segundos e dez segundos é tempo suficiente para ele revidar, atirando também. Portanto, para Luzia, só serviam os tiros certeiros. Aprendeu a mirar a cabeça, o pescoço, e, como os órgãos vitais ficavam mais acima do que ela imaginava, sempre visava o ponto entre as axilas, nunca mais abaixo. Passou a gostar de atingir o alvo, coisa que a deixava assustada. Tudo era muito confuso. A um só tempo, sentia-se decidida e abalada, orgulhosa e arrependida, furiosa e assustada.

Em princípios de 1932, quando o bando sequestrou os dois cartógrafos, Luzia estava grávida pela terceira vez. Dar tiros certeiros tornou-se ainda mais importante, pois, agora, precisava proteger duas vidas em vez de uma só. Diariamente, esperava pelas cólicas e o escape tão familiares, mas eles não vinham. Apesar do calor, das caminhadas intermináveis e da água que chegava a ser grossa de tão barrenta, a criança continuava ali. A sua presença fez Luzia compreender as implicações de algo que Antônio lhe dissera um dia: a vida de um cangaceiro era como um balão de são João, que nascia para ter um brilho ardente e morrer depressa. Era por isso que os homens gostavam tanto dos seus pingentes e dos seus anéis de ouro, das sacolas bordadas e dos binóculos de latão: porque, no fundo, sabiam que essas coisas sobreviveriam a todos eles. Mas aquela situação era diferente, pois o bebê era um peso vivo. E Luzia estava determinada a fazer com que o seu filho vivesse mais que ela própria.

 

3

 

Luzia gostava do cartógrafo mais velho. Ao meio-dia, quando o bando se aglomerava nas raras sombras para esperar o sol baixar, ela desdobrava o mapa que tinha surrupiado e o punha diante do homem. Com ele, aprendeu a lê-lo. Até então, só tinha visto os grandes mapas coloridos da escola do padre Otto; aquele ali era diferente. Era desenhado a tinta preta e cuidadosamente traçado, com sinais de mais e de menos para indicar a altitude do solo. A moça lhe pediu que lhe mostrasse onde ficavam Taquaritinga, Recife e o Velho Chico. Alguns cangaceiros se agruparam ao seu redor, interessados. O cartógrafo mais jovem fechava a cara para todas as perguntas que eles faziam. Antônio também assistiu àquelas aulas, mas nunca participou delas. Não gostava de mapas. Desconfiava de tudo o que precisasse ser escrito em vez de guardado na memória das pessoas.

Depois do sequestro, eles mandaram um telegrama para a redação do Diário de Pernambuco. Exigiram um resgate de duzentos contos pelos cartógrafos. Um conto correspondia a mil mil-réis, e Antônio insistiu para que começassem pedindo uma quantia bem elevada.

– Vai ser como barganhar na feira semanal – disse ele.

O governo Vargas tentaria regatear. Luzia torcia para que isso não acontecesse: mesmo que recebessem a quantia toda, só conseguiriam comprar um pedaço bem pequeno de terra nas margens do São Francisco. Ainda assim, pensava ela, ser dono legítimo de um terreninho era melhor que nada.

Antônio ditou o pedido de resgate para o funcionário dos telégrafos, que, trêmulo, tinha de enxugar o suor das mãos antes de escrever cada palavra na máquina. Na mensagem, Luzia e Antônio não especificavam qualquer detalhe quanto ao pagamento. Primeiro, queriam uma resposta do Instituto Nacional de Estradas de Rodagem, para saber se estavam ou não dispostos a salvar os seus cartógrafos. No telegrama, mandavam que o instituto publicasse a sua resposta no Diário. E, para o caso de demorarem muito a conseguir um exemplar do jornal, mandavam também que fossem enviados telegramas de resposta a todas as principais estações telegráficas do estado. Desse jeito, observou Antônio, radiante, ninguém teria condições de determinar a localização exata do bando e, o que era mais importante, o instituto seria forçado a dizer sim. Se o jornal e aqueles diversos telegramas veiculassem uma resposta negativa, todos saberiam que eles não tinham nem tentado salvar os próprios funcionários. Os cangaceiros forçariam o órgão público a pagar.

Enquanto Antônio pensava apenas na atenção que receberia pelo sequestro, Luzia refletia sobre o telegrama seguinte. Toda noite, deitada na manta cheia de areia, ficava compondo mentalmente a mensagem a ser enviada: se o instituto aceitasse as suas exigências, precisariam já ter escolhido um ponto de encontro. O governo Vargas bem poderia mandar tropas em vez de dinheiro; portanto, os cangaceiros tinham de organizar o esquema de troca com todo o cuidado. Não podiam cair numa armadilha. A moça pensou em deixar os cartógrafos num lugar e receber o dinheiro noutro, numa tentativa de desviar a atenção que estaria voltada para o resgate. Talvez pudessem usar um daqueles coiteiros leais para ir buscar o dinheiro. Sempre que expunha as suas ideias a Antônio, ele mal a ouvia. Queria conseguir jornais. Queria ver o nome de ambos na imprensa.

Com os cartógrafos a reboque, o bando deixou a trilha e foi rumando para o São Francisco, onde não faltaria água. Ninguém mencionava a palavra seca, parecendo até que, se a ignorassem, ela não existiria. Só os coronéis mais ricos tinham condições de levar os rebanhos para a região serrana, para localidades como Taquaritinga, Garanhuns e Triunfo, onde a água era mais abundante. Os pequenos fazendeiros eram obrigados a soltar o seu gado na caatinga, na esperança de que os animais conseguissem garantir a própria sobrevivência. No calor seco, os carrapatos proliferavam. Infestavam as orelhas das reses e recobriam os seus focinhos, formando uma pele marrom toda enrugada. Os urubus engordavam e circulavam por ali às centenas. Luzia viu imagens de santos amarradas aos telhados das casas. Ficavam deitadas de costas, com o rosto voltado para o sol. Algumas tinham vendas nos olhos. Outras tinham mãos ou pés arrancados. As pessoas lhes devolveriam os membros decepados quando chovesse. Era fevereiro, e os habitantes da região conservariam a esperança até 19 de março. O dia de são José era um marco importante: se chovesse nesse dia, ou antes, ainda daria tempo de plantar. Se não chovesse, seria o fim. Todos teriam de esgotar as suas reservas de comida, caso tivessem alguma, e esperar até o ano seguinte. Ninguém dizia isso, mas, se houvesse seca, também não choveria no outro ano. Se, no entanto, as preces pedindo chuva fossem atendidas, os moradores da caatinga desamarrariam os santos, consertariam as imagens e voltariam a cultuá-los. No teto de uma capela, Luzia viu o Menino Jesus. Tinham lhe tirado os braços e as pernas, deixando apenas uns buracos escuros no seu torso de barro.

– Não deviam fazer isso – disse a moça.

– Essa gente é ignorante – retrucou Antônio. – É só isso que eles entendem.

– As pessoas entendem ameaças – observou Luzia, balançando a cabeça. – Os santos, não.

– Mas eles foram gente um dia.

– É verdade – disse ela. – Vai ver que é por isso que não nos ouvem.

– Ouvem, sim – replicou o cangaceiro, acariciando a face da mulher com as pontas dos dedos. Mas foi um gesto rápido, para que os seus homens não o vissem. – Só não nos dão o que estamos pedindo. E têm lá os seus motivos.

Como todo o povo da região, Antônio acreditava que havia um motivo por trás da falta de chuva. Deus e os santos estariam enviando uma mensagem, um aviso. Ele estava persuadido de que a seca era um presságio, pois começou depois que Vargas subiu ao poder. A caatinga e os seus habitantes sofreriam agora durante o governo desse homem. Com isso, passou a confiar ainda menos no presidente.

A comida era escassa, mas os cangaceiros nunca passavam fome. Em geral, pescavam um surubim no São Francisco. As mãos de Luzia ficavam cheirando a peixe, e o cheiro impregnava também o seu nariz e as suas roupas. Ela detestava aquele peixe cheio de espinhas, com uma carne insossa, mas era melhor do que a farinha de mandioca azeda e a carne de sol dura e seca vendidas nas cidades. Às vezes, os homens davam a sorte de pegar teiús ou rolinhas. Estavam acostumados a andar por horas a fio tendo comido pouco, mas não era o caso dos cartógrafos. Estes ficaram com os pés machucados e sensíveis. As barbas de ambos foram crescendo sem cuidados, formando um emaranhado abaixo do queixo. Pareciam até aqueles beatos que vagavam pelo sertão, só que sem usar o punhado de rosários ou carregar as cruzes de madeira em tamanho natural.

Luzia podia controlar a própria mente com relação à seca, mas o seu corpo queria mais. A pele da sua barriga esticou e ficou difícil abotoar as calças. Os ossos da bacia pareciam azeitados e esgorregadios. Tropeçava à toa. Esbarrava nos homens durante as caminhadas. Sentia-se tão estranha e desajeitada quanto uma menina em fase de crescimento, com o corpo se transformando de um jeito que não conseguia compreender. Vivia cansada. Não era aquele cansaço familiar por ter andado muito ou por viver sob o sol quente da caatinga. Era algo mais profundo. A criança estava sugando as suas forças, alimentando-se dela. Sua barriga parecia até aquelas bicheiras em ebulição, que acabavam matando os animais de dentro para fora. Certa noite, Ponta Fina apareceu trazendo-lhe um coração de rolinha. A moça não tinha dito nada sobre o estado em que se encontrava, mas Ponta desconfiou. Conhecia a velha tradição: para saber o sexo de uma criança, a futura mãe precisa enfiar um coração de galinha num espeto e mantê-lo acima de um braseiro. Se, depois de cozido, o coração se abrir, vai ser menina. Se continuar fechado, vai ser menino. Não tinham coração de galinha por ali, mas um de pomba-rola serviria. Luzia o espetou na ponta do punhal e o pôs sobre o fogo. Ponta ficou ao seu lado. Quando a moça tirou o punhal das chamas, o coração estava escuro e bem fechado, como um punho.

Em meados de fevereiro, percorreram umas dez estações telegráficas, mas não tinha chegado nenhum telegrama do tal instituto. A poeira que levantava do chão formava nuvens alaranjadas, cobrindo as roupas dos cangaceiros, deixando as cartucheiras foscas e penetrando em sua boca. A vista de Antônio só fazia piorar. O olho do lado desfigurado do rosto estava inflamado e lacrimejante, pois ele não podia piscar para afastar a areia e a poeira. Já que a água era preciosa demais para ser desperdiçada, ele usava apenas o lenço, o que não adiantava nada: o olho foi ficando cada vez mais embaçado e sem vida, como uma bola de gude. Certas noites, o cangaceiro acordava em pânico, achando que o outro olho estivesse no mesmo estado. Rezava para santa Luzia. Finalmente, decidiu atravessar o São Francisco e ir ver o Dr. Eronildes.

Como tantos outros ali nas proximidades do rio, o médico tinha o luxo da água. Enquanto durassem os suprimentos, pescadores e arrendatários podiam ficar em casa até que voltasse a chover. Apesar dos benefícios das águas do Velho Chico, a maioria dos fazendeiros já tinha deixado a região. A quebra da bolsa de 1929 e a crise econômica que ela acarretou haviam sido o primeiro golpe para aquela gente, e a seca só vinha debilitá-la ainda mais. Boa parte dos fazendeiros abandonou as suas terras, deixando que os coronéis da vizinhança delas se apossassem. O Dr. Eronildes não admitiria tal coisa; continuou na sua propriedade, apesar da seca.

A casa caiada estava agora de um amarelo mortiço e sujo. O sol tinha feito o portão da frente desbotar, deixando-o acinzentado, com a madeira rachada e lascada. Foi ele mesmo quem veio abrir. As dificuldades da vida na caatinga tinham imposto o seu preço ao médico. A pele do seu rosto estava coberta de sardas. A barba estava malfeita. Uma corda substituía o cinto de couro que ele usava antes. Quando cumprimentou Luzia, as suas mãos tremiam. O seu hálito cheirava a bebida.

Com toda a calma, examinou cada um dos cangaceiros. Esterilizou um pequeno par de pinças para extrair espinhos de pontos vermelhos e inflados da pele daqueles homens. Cuidou de ferimentos superficiais com umas preciosas gotinhas de água oxigenada e iodo e alertou a todos para tomar cuidado com as facas enferrujadas. Receitou, para a maioria deles, ervas medicinais para tratar da tosse ou da constipação provocada pela dieta inadequada. Com os dedos esguios, examinou os dentes e as gengivas de todos. Alguns dentes estavam moles e sangrando, e o médico mandou que os homens comessem umbu ou qualquer outro fruto da caatinga que conseguissem encontrar. Quando chegou a vez dos cartógrafos, Eronildes se calou. Limpou os pés de ambos com o restinho de água oxigenada que ainda tinha e, depois, passou uma solução diluída de fenol na pele rachada. Os dois homens fizeram caretas de dor. O médico mandou que Ponta Fina lhes enfaixasse os pés e, enquanto isso, levou Antônio e Luzia para dentro de casa. No escritório, examinou os olhos do cangaceiro.

– Com o esquerdo está tudo bem – disse ele. – O outro não tem jeito. Só dá para amenizar o incômodo.

Abriu um armário de madeira e começou a remexer no seu interior. Alguns instantes depois, voltou com um frasco de vidro que tinha tampa de borracha e um conta-gotas.

– Você vai perder a visão da vista direita – disse Eronildes. – Mas isso vai ajudar com relação à poeira. É uma solução para umedecer o olho.

Antônio observou bem o tal frasco. Sem pedir a Luzia que o experimentasse primeiro, pingou várias gotas no olho baço. Apertou bem os olhos e se sentou. Seu rosto estava molhado.

– Eu lhe sou muito grato – disse ele, dirigindo-se ao médico. – Você terá sempre a minha proteção.

Eronildes enxugou as mãos.

– Tenho uma coisa para lhe mostrar – disse, remexendo a pilha de jornais ao lado da escrivaninha. Pegou um exemplar do Diário de Pernambuco, datado de três semanas antes. – Isso aqui veio na remessa mais recente, a última que recebi. A essa altura, o rio está raso demais para as barcaças poderem navegar.

Na primeira página, havia um artigo sobre os cartógrafos. Luzia leu o texto em voz alta.

“Um punhado de ladrões perversos não vai negar ao povo aquilo de que ele necessita.” O jornal trazia esta citação tirada de uma declaração do tenente Higino Ribeiro, novo governante do estado. O tenente garantia aos leitores que o governo mandaria mais cartógrafos para o interior. A Transnordestina seria construída. O artigo falava do serviço que aqueles homens haviam prestado ao país e referia-se a eles como indivíduos honrados e de bem.

Lá do palácio presidencial, no Rio de Janeiro, Vargas enviou uma carta afirmando que cangaceiros não passavam de empecilhos menores no caminho de um futuro maior: “Não há lugar para eles no Brasil novo!” O Dr. Duarte Coelho, recém-nomeado consultor especial do estado para assuntos criminais, também foi citado. Ele próprio financiara uma polpuda recompensa pela cabeça dos cangaceiros – 25:000$00, ou 25 contos, pelo Carcará e pela Costureira. Funcionários municipais estavam tentando definir a mente criminosa, estabelecer critérios físicos que seriam usados para examinar futuros delinquentes e determinar quais deles poderiam ser reabilitados e quais teriam de ser eliminados.

– Como se faz com os bodes aleijados – disse Luzia. – Com os bezerros que nascem cegos ou com uma só teta.

Desde o começo, esses animais já estavam condenados. O seu destino era traçado pelo seu corpo, e não pela sua alma.

– Saímos na primeira página – observou Antônio, ignorando o comentário da mulher.

– Isso não é brincadeira – replicou o Dr. Eronildes. – Esse artigo também pode significar o obituário desses cartógrafos. Ninguém vai pagar resgate por eles. Não estão dando a mínima para os dois.

– Mas vão dar – retrucou Antônio. – Vou obrigá-los a isso.

– Como?

– Vamos tirar um retrato – disse o cangaceiro, olhando para Luzia. – Todos nós. Para provar que eles estão vivos.

– Não faça isso – atalhou o médico, com voz grave. – A sua cabeça está a prêmio. A sua proteção é o anonimato. Se tirarem esse retrato, eles vão saber como é o seu rosto. Vocês nunca ficarão livres.

– Já somos livres – disse Antônio. – Mas, se permitirmos que construam essa estrada aqui, deixaremos de ser. Ela vai ser como uma cerca; Vargas vai usá-la para nos encurralar. Para nos empurrar cada vez mais para dentro da caatinga até que toda ela tenha desaparecido. E, então, ele vai nos acuar para o abate. Nós somos homens, doutor, e não gado.

Eronildes suspirou. Pegou uma garrafa de White Horse e dois copos que estavam na estante. Serviu os drinques. Quando Antônio recusou, ele tomou prontamente as duas doses.

– As coisas mudaram – disse o médico, enxugando a boca.

– É – fez Antônio, assentindo com um gesto. – Hoje em dia é mais fácil ter uísque que água.

– Não é disso que estou falando – atalhou Eronildes, com rispidez. – Ficar aqui na Bahia não vai resolver os seus problemas. Bahia, Pernambuco, Paraíba... Agora, todos os estados estão unidos sob o comando de Vargas. Nenhum deles é mais seguro que o outro. Se matar esses cartógrafos para dar uma demonstração de força, a lei terá de fazer o mesmo com você.

– Vargas nunca reclamou quando atacamos aqueles fugitivos azuis – disse Antônio. – Mas, quando atacamos esses homens, passamos a ter a cabeça a prêmio. Ah, tem uma coisa que eu queria lhe perguntar, doutor – acrescentou ele, baixando os olhos e brincando com o conta-gotas do frasquinho. – O que é uma peça de museu?

– Uma peça de museu? – repetiu o médico, sem entender direito. – É uma coisa velha. Inútil. Do tempo antigo.

Antônio assentiu. Apertou com mais força o frasco que tinha nas mãos. Luzia ficou com medo de que ele o quebrasse.

– Por que queria saber? – perguntou Eronildes.

Antônio o fitou. Os seus olhos ainda estavam úmidos por causa do remédio. Luzia teve vontade de estender a mão para enxugar o rosto dele, mas não ousou fazê-lo.

– Nunca criei problemas para a capital. Nunca levei os meus homens além de Limoeiro. Deixei o litoral em paz. Nunca me meti nos negócios daquela gente. Eles deviam mostrar o mesmo respeito por mim, pela minha terra.

– Isso não é uma questão de educação, Antônio – disse Eronildes, com brandura. – A caatinga não lhe pertence.

O lado bom do rosto do cangaceiro se contraiu.

– Os tempos mudam – prosseguiu o médico. – Precisamos mudar com o tempo.

– Senão viramos peças de museu?

– Isso mesmo.

Antônio pigarreou, parecendo até que ia cuspir. Mas falou:

– Você é filho da cidade, doutor. Eu, da caatinga. E sou um filho leal.

– Leal a quê? Aos velhos costumes? – indagou Eronildes, balançando a cabeça. – Você quer que o povo continue a viver sob o mesmo jugo.

– E vocês querem que eles carreguem um novo.

– A estrada não é um jugo, Antônio.

– O povo daqui vai ser contra essa construção. Todos vão ficar do meu lado. Vão me ajudar porque eu os ajudo. Eles são leais.

– Não são, não – replicou o médico. – As pessoas são volúveis. Transformam em herói o primeiro homem que encontram, até que apareça um outro melhor. Não existe lealdade por aqui, Antônio. Só necessidade. As pessoas precisam de comida. Precisam de dinheiro e de segurança. Quem der mais será considerado herói. A recompensa oferecida pela sua cabeça vai apagar qualquer lealdade.

– Então, você é um deles? – perguntou Antônio. – Um dos homens de Vargas?

Eronildes ergueu as mãos pintadas de sardas, como se quisesse mostrar que não estava armado.

– E existe outra opção? Diga lá.

Antônio aquiesceu. Enfiou o jornal debaixo do braço e saiu do escritório, sem dar pela presença de Luzia. Quando ela fez menção de ir com ele, o médico saiu de trás da escrivaninha. Pegou o cotovelo aleijado da moça, mas, constrangido, logo o soltou.

– Posso mandar vir lentes novas para os seus óculos – balbuciou ele. – Essas aí estão arranhadas.

– Estou vendo bem com elas – disse Luzia. – Obrigada.

– Você... Antônio não vai mais voltar aqui, não é mesmo? É a última vez.

Luzia assentiu. Antônio desconfiava de todos aqueles que ele chamava “homens de Vargas”, mesmo que tivessem sido amigos algum dia. Eronildes retorcia as mãos.

– Estou lhe perguntando isso como médico – sussurrou ele. – E como amigo. De quantos meses você está?

Luzia ergueu os olhos, atônita.

– É o seu rosto – disse ele. – As olheiras acentuadas. E as suas calças – acrescentou, indicando a cintura da moça com um gesto de cabeça. – Você mal consegue abotoá-las.

Luzia sentiu que enrubescia. Homens – mesmo sendo médicos – não tocavam nesses assuntos com as mulheres. Só parteiras lidavam com essas questões femininas, mas ela não tinha nenhuma; não tinha ninguém a quem recorrer.

– Faz três meses que... – principiou ela, mas não conseguiu completar a frase.

– Você precisa de repouso – disse Eronildes. – Precisa se alimentar bem. Vai perder a criança se não fizer isso.

– Não esta aqui. Esta vai vingar.

– Vai deixar o bando?

Luzia balançou a cabeça, surpreendida pelo simples fato de ele aventar essa hipótese.

– Como vai criar esse filho? – perguntou ele, indignado.

Eronildes disse esse filho, como se o bebê não fosse dela.

– Do jeito certo.

– Onde?

Ela hesitou, e, depois, respondeu baixinho:

– Em algum lugar perto do rio. Vamos comprar um terreninho com o dinheiro do resgate.

– Você é tão teimosa quanto ele – retrucou o médico, bufando. – Essa gente não vai pagar. E, mesmo que pagasse, não adiantaria nada. A terra está morta. Nenhuma das roças de algodão floresceu, nem mesmo a minha, aqui, juntinho do rio! E, se não chover esse ano, não vai dar nem mandioca. Você vai morrer de fome.

– Para onde deveríamos ir, então? – indagou ela, sem alterar a voz. – Para uma cidade? Para a capital? Lá também eu morreria de fome. Ninguém daria trabalho a uma aleijada. Principalmente com essa barriga.

– Você poderia ficar aqui.

– Como sua criada? – perguntou ela, tossindo. E, sem lhe dar tempo de responder, acrescentou: – Antônio não deixaria.

– Se ele a amasse, deixaria, sim.

Luzia nunca tinha ouvido um homem usar o verbo amar em voz alta. Emília, sim, quando as duas ficavam cochichando antes de dormir. Mas os homens, principalmente os da caatinga, não falavam dessas coisas. E desviou o rosto, evitando o olhar do médico.

– Ouvi dizer que você é ótima atiradora – disse ele.

– É verdade – replicou a moça, um pouco alto demais. – Sou mesmo.

– Quem lhe ensinou?

– Antônio.

– Por quê?

– Para eu me defender – respondeu ela, confusa. Ficou um tanto envergonhada daquela habilidade e teve raiva de Eronildes por fazê-la se sentir daquele jeito. – Ele me ensinou porque isso poderia me ajudar.

– Ou ajudá-lo? – perguntou o médico. – Assim, você poderia ser bem útil, agora que a vista dele está falhando.

O coração de Luzia começou a bater acelerado. Que bobagem ele lhe dizer uma coisa dessas. Será que não tinha visto a parabélum no seu ombro? Será que não sabia do que ela era capaz? Com os dedos, roçou o coldre da arma.

– Está pretendendo atirar em mim agora? – indagou Eronildes, com um ar tristonho. – Seria mais fácil, não é? Melhor do que me ouvir. Está vendo? Quando a gente resolve as coisas pela violência uma vez, fica tentado a fazer isso sempre. Até o dia em que você, Luzia, não vai ser mais capaz de decidir se deve recorrer a ela ou não. A sua reação vai ser automática, e você não conseguirá controlá-la. Como vai criar outro ser humano se não consegue controlar nem a si mesma? O que vai ensinar a esse seu filho?

Luzia sentiu o peito apertado, a respiração ofegante.

– Você nunca precisou atirar – disse ela. – Não faz ideia do que seja isso.

– É verdade – retrucou Eronildes, com um aceno de cabeça. – Mas faço ideia do que seja a medicina. Sei o que significa estar esperando um bebê. E você sabe que não há chuva à vista. Sabe que esse seu marido vai atacar a estrada. Que ele não vai lhe dar um minuto de sossego. O país está mudando, Luzia. O sertão vai fazer parte dele, queira Antônio ou não. Se essa criança tiver sorte, vai morrer no dia mesmo em que nascer.

– É uma praga? – perguntou a moça.

– Não acredito em pragas – replicou o médico. – Se o seu filho morrer, não ponha a culpa nas pragas. Ponha a culpa em si mesma.

Luzia saiu do escritório. Percorreu a passos rápidos o corredor mal iluminado da casa de Eronildes até chegar à porta da cozinha. Já lá fora, desapareceu no mato onde os cangaceiros tinham montado o acampamento.

 

4

Ainda se lembrava da primeira vez que matou um homem e como aquilo a tinha transformado. Um ano e dois meses antes do sequestro dos cartógrafos, enquanto Vargas estava organizando o seu novo governo no litoral, Antônio também decidiu pôr ordem nas suas coisas – reuniu os seus novos recrutas e voltou à fazenda do coronel Clóvis. Pouca coisa mudara em São Tomé desde aquela primeira visita tão desastrosa. O coronel Clóvis ainda andava de pijama, com a peixeira enfiada na cintura. Marcos não tinha mudado nada, a não ser pela aliança de ouro enfiada no dedo gorducho. Tinha se casado, mas a esposa continuava morando em Salvador, protegida do sol e da poeira da caatinga, e também dos cangaceiros. Quando o bando de Antônio atacou o rancho, subjugando em pouco tempo os capangas do coronel, Marcos tentou fugir pelo portão dos fundos. Baiano o pegou. Já o coronel Clóvis ficou placidamente sentado na varanda.

– Sabia que você ia aparecer – disse ele, apontando para Antônio com o queixo barbado. – Mal pude esperar. Vamos lá. Façam o que vieram fazer.

Dizendo isso, se levantou e estendeu a peixeira para o cangaceiro. Este assentiu com um gesto e levou o velho para dentro da casa. Da varanda, Luzia ouviu um único tiro. Quando Antônio apareceu de volta, encarou o filho do coronel. Ele estava entre Baiano e Orelhinha, e tinha o peito da camisa tão molhado de suor que o tecido chegava a lhe grudar na pele.

– Foi tudo ideia de papai – disse Marcos, com voz rouca. – Ele tinha feito um trato com o coronel Machado, aquele cujo filho vocês quase mataram. Toda a colheita de algodão viria para nós se papai os entregasse. Eram negócios – acrescentou ele, olhando para Luzia como se procurasse alguma compreensão. Ela o encarou, com a boca contraída. O sujeito enxugou a testa com o dorso da mão. – Isso agora não tem mais nenhuma importância. Vargas assumiu o poder. As tropas foram embora. Vocês estão vivos.

– Perdi metade dos meus homens – retrucou Antônio. – Levei um tiro na perna. Sabe o que é ficar se arrastando pela caatinga com uma bala na perna?

Marcos balançou a cabeça. Ficou fitando os próprios pés.

– Naquele dia em que as tropas chegaram, você desapareceu – prosseguiu o capitão. – Vou deixar que faça isso novamente.

– Mas e o algodão? – indagou ele, com os olhos arregalados. – A safra não é lá essas coisas, mas tenho de começar a colheita...

– Agora, isso é problema meu – atalhou Antônio.

– E se eu ficar?

Na varanda, o silêncio era quase total, a não ser pela respiração tensa de Marcos: o ar lhe entrava e saía pelo nariz com um assobio.

– É melhor selar um cavalo – disse o cangaceiro. – E logo. Senão, posso mudar de ideia.

O filho do coronel assentiu. Baiano o escoltou até o estábulo. Quando Orelhinha protestou, dizendo que estavam sendo condescendentes demais, o capitão o expulsou da varanda.

– Ele vai sair a toda – sussurrou Antônio, dirigindo-se a Luzia. Estendeu a mão por baixo do braço da mulher e, com todo o cuidado, abriu o coldre que ela trazia no ombro. Pegou a parabélum e a pôs nas suas mãos. – Acerte a perna dele – disse. – Faça com que caia no chão.

Disse aquilo com voz baixa e branda. Era o mesmo tom que empregava quando queria que ela lesse a certidão de casamento dos dois ou fizesse uma compressa para o olho doente. Com isso, fazia ordens parecerem pedidos.

A moça ouviu o barulho dos cascos. A parabélum pesava na sua mão. Reviu a si mesma parada diante de um corte imenso de seda portuguesa, pouco depois do acidente com o seu braço. “Corte reto, e rápido”, disse-lhe tia Sofia. “O primeiro corte é sempre o mais difícil. Depois, vai ficando mais fácil.”

– Minha santa – sussurrou Antônio.

Luzia ergueu o braço bom, firmando-o com o aleijado. Marcos, grandalhão e parecendo um sapo, sacolejava na garupa do cavalo. A poeira cobriu todo o caminho que levava ao portão. Logo, logo ele estaria fora do seu alcance. A moça prendeu a respiração.

Os cangaceiros a elogiaram. Era um tiro difícil, com o alvo em movimento e toda aquela poeira... Os olhos dela eram mais aguçados do que todos supunham. Ponta Fina se ofereceu para limpar a parabélum. Orelhinha declarou que aquele tiro tinha sido uma sorte. Marcos passou o dia todo se arrastando pelo quintal da frente, esbarrando nos mourões das cercas e nos pilares da casa, tentando encontrar a porteira. Antônio tinha amarrado suas mãos às costas e vendado os seus olhos com um pedaço de lona bem grossa. Marcos passou a noite inteira gemendo e chorando. Luzia não conseguiu dormir ouvindo aquilo. No dia seguinte, o filho do coronel estava em silêncio. Antônio sacou do punhal e foi para o quintal. Vários urubus de pescoço preto tinham se agrupado na cerca e nos galhos do ipê. Luzia enfiou algodão nos ouvidos, mas continuou ouvindo o barulho das asas daqueles pássaros que um ato seu tinha trazido até ali.

Continuar: parte 3 de 4