Entre irmãs
Capítulo 8
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
– A estrada não é real – disse Orelhinha, com impaciência. – Eles não vão construí-la. Se houver seca, ninguém vai querer perder tempo com isso.
– Vão construir, sim – retrucou Antônio, erguendo a voz. – Você acha que eles vão vir para cá quando estiver chovendo? Para construir no meio da lama? Que fazendeiro constrói uma casa na época das chuvas? Vargas quer o tempo seco, que vai facilitar as coisas para ele. E vão trazer também os macacos.
– Macacos... – repetiu Orelhinha, fazendo um aceno de cabeça na direção de Luzia. – E vamos ter condições de lutar com eles?
Ponta Fina baixou a cabeça. Baiano suspirou. Todos tinham as mesmas preocupações, as mesmas dúvidas. Até mesmo Luzia. Será que poderiam entrar em alguma luta com ela junto, ou a sua presença os faria recuar, deixando-os vulneráveis? Ela tinha visto a sua própria foto no jornal. Haviam ampliado o retrato para mostrar apenas a sua cabeça. Acima dessa fotografia modificada, estava escrita a palavra “Procurada” e o prêmio oferecido: 50:000$000. Abaixo, as palavras: “Mãe e filho”.
Luzia se remexeu ali no chão onde estava sentada. O pouco que tinha comido parecia entalado em seu peito, queimando-a. O bebê fazia pressão nos seus órgãos, cutucando as suas entranhas. Já estava no sétimo mês. Por baixo do xale, a barriga estava redonda, mas não macia. Pelo contrário, era bem dura e retesada, como uma cabaça de água. Os seus tornozelos estavam inchados e sem forma, grossos como o tronco do ouricuri. Teve até que cortar as alpercatas para conseguir calçá-las. No bornal, a moça carregava uma série de apetrechos de que precisaria na hora do parto: uma agulha bem grossa; uma tesoura pequena bem polida, para tirar a ferrugem; uma mistura de pimenta-malagueta esmagada com sal, para pôr no umbigo da criança, e vários paninhos limpos. Já tinha até escolhido o nome do bebê. Tinha feito uma promessa ao santo protetor da sua infância, Expedito, o padroeiro das causas impossíveis. Quebrara a primeira promessa feita ao santo, mas não quebraria a segunda.
– A minha barriga não afeta a minha pontaria – disse Luzia. – E logo, logo já terá ido embora.
Ido embora. Parecia até que aquela barriga era um estorvo, um mal passageiro, como uma bolha ou uma picada de abelha. Para Orelhinha e alguns dos cangaceiros, era isso mesmo. Para outros, aquela barriga enorme era a prova da boa sorte, da força de Luzia. Que outra mulher aguentaria uma gravidez em meio à caatinga? Que outra mulher conseguiria sobreviver a jornadas tão longas e a um período tão seco e, apesar de tudo, manter essa aparência rechonchuda, com aquela barriga redonda e prenhe? Só a própria Virgem Maria.
– Esse menino vai ser um gigante! Benza Deus! – vivia repetindo Baiano.
E alguns homens concordavam com ele. Diariamente, Antônio dava a Luzia metade da sua cota de comida, além da que lhe cabia. Ponta Fina também dividia a sua ração com ela. Entre todos os cangaceiros, Luzia era quem sentia menos fome. Para compensar, ajudava os homens a encontrar açudes e riachos secos. Quando eles ficavam sem forças, ela revolvia a areia quente até que a água começasse a brotar. Cavava em volta do tronco dos umbuzeiros e arrancava as suas raízes tuberosas e redondas, do tamanho da cabeça de um bebê. A água que essas raízes continham era turva, resinosa e sempre quente. Esse trabalho a deixava exausta, mas ela precisava se sentir útil, para provar que não era um fardo para o bando.
Ido embora. Não podia dizer a criança já terá nascido porque não queria pensar no momento do nascimento. Quando rapaz, Antônio tinha feito o parto de inúmeras vacas e cabras. E Ponta Fina também. Os dois iam ajudá-la se o bebê viesse mais cedo que o previsto. No dia seguinte, o bando passaria pela casa abandonada de um coronel para pegar mantimentos e, de lá, rumaria para Taquaritinga. Em sua terra, Luzia encontraria uma parteira para fazer o parto. Depois disso, seu menino iria embora de verdade, pois ela o entregaria nas mãos do padre Otto.
Orelhinha olhou para Luzia. Tinha os lábios contraídos. Lentamente, a sua boca relaxou e se entreabriu. Ele exalou, como se tivesse percebido alguma coisa.
– Tem mais um motivo para irmos atrás das pessoas que trabalham para os coronéis – disse ele. – Devíamos assustá-las. Não dá para confiar nessa gente. Vão tentar levar a cabeça dela para ganhar a recompensa.
– Você parece até um cachorro – retrucou Ponta Fina. – Sempre farejando sangue.
Orelhinha se pôs de pé. Ponta o imitou. Antônio se meteu no meio dos dois, com os braços esticados, as mãos nos ombros de ambos.
– Não vamos assustar ninguém – disse ele, com voz grave, encarando Orelhinha. – Não vamos atrás de ninguém, a menos que venham atrás de nós antes. Poupem a sua energia. Quando a estrada chegar, vai ter um monte de macacos para enfrentarmos. Neste exato momento, temos é que conquistar a lealdade dessa gente. Temos que manter a calma.
– Não quero saber de calma – retrucou o outro, tirando a mão do capitão do seu ombro.
– O que você quer não importa – disse Antônio. – Tire isso – acrescentou, agarrando o lenço vermelho que Orelhinha estava usando.
O cangaceiro arregalou os olhos. Abriu a boca, mas não protestou. Desfez o nó do lenço e tirou o pano suado do pescoço. Antônio o pegou.
– Controle o seu gênio – disse o capitão.
Orelhinha assentiu, baixando a cabeça e estendendo as mãos, pronto para receber a sua insígnia de volta. Antônio o ignorou e entregou o lenço a Luzia.
– Tome, ponha isso, minha santa.
A moça hesitou. O pano vermelho que seu marido tinha nas mãos estava manchado com o suor de Orelhinha. Ela não podia lavá-lo, pois era impensável desperdiçar água com uma coisa tão banal. Orelhinha cerrou bem os lábios, como se tivesse medo de que as palavras pudessem escapar. Não queria que ela passasse a ser subcapitã, ocupando o lugar que era seu. Mas Luzia também não queria nada disso. Queria sossego, não responsabilidade. Em muitos sentidos, Orelhinha tinha razão: ela era um fardo; não dava para confiar nos coronéis e nos seus empregados; a estrada era uma perigosa obsessão.
– Luzia! – exclamou Antônio, agora em tom severo. – Ponha isso.
À luz mortiça da fogueira, ela viu o contorno da íris e da pupila através da película que recobria aquele olho baço. Seu marido sabia de alguma coisa que ela ignorava. Era assim que Luzia vinha se sentindo de uns meses para cá. A dificuldade que ele tinha para dormir, as suas desconfianças, as suas dores e os seus achaques, tudo isso eram coisas que Antônio procurava esconder. Havia vários sinais de que a distância entre os dois tinha aumentado. A moça acreditava que era a gravidez que o estava afastando. Agora, percebia que havia algo mais, algo que não conseguia decifrar. Dava a impressão de que Antônio vinha esperando por essa oportunidade; esperando que Orelhinha cometesse o menor deslize para que Luzia herdasse o seu lenço vermelho. Só assim ela teria um. Jamais escolheria esse papel para si mesma. Se a seca se instalasse de verdade, os cangaceiros teriam de se dividir em pequenos grupos para conseguir sobreviver. Antônio contava que os subcapitães exercessem a liderança, conhecessem a caatinga, fossem capazes de viver sem ele. Quando pôs aquele lenço vermelho em sua mão, Luzia compreendeu que seu marido esperava a mesma coisa dela.
9
No dia seguinte, o bando atacou a casa abandonada de um coronel. Era comum Antônio, Luzia e os cangaceiros pararem em fazendas de coronéis amistosos e encontrarem a casa-grande fechada. Vaqueiros, criadas e arrendatários recebiam ordem para ficar ali, protegendo a propriedade. E ficavam, por medo de perder o emprego. Essa gente não opunha qualquer resistência quando Antônio abria a casa vazia. Ali dentro, os homens procuravam comida, jornais, armas, munição, tudo o que lhes pudesse ser de alguma utilidade.
Ladeado por Ponta Fina e Baiano, Antônio conversou com o peão que tinha ficado na fazenda. Orelhinha e Luzia permaneceram por perto. O sujeito era encurvado e desdentado, mas tinha cabelo preto. Usava um daqueles chapéus de vaqueiro puxado bem para a frente, pois só assim a aba curta protegia os seus olhos. As correias de couro do chapéu pendiam soltas sob o seu rosto magro. A mulher estava ao seu lado, com um lenço desbotado na cabeça. Tinha o rosto redondo e moreno como um sapoti, e o queixo se projetava formando uma ponta logo abaixo da boca. Junto dela estava a filha do casal, uma mocinha que não devia ter mais do que 15 anos e era bem bonita. Um dos pés descalços se apoiava na outra perna, e ela se equilibrava assim, parecendo aquelas garças brancas que acompanham os rebanhos na estação chuvosa. Usava um vestido que lhe batia nas canelas, de um jacquard caro e grosso, com a estampa se formando pela própria trama do tecido que, de tão usado, já tinha ficado felpudo. Ao ver o feitio e o corte modernos do tal vestido, Luzia imaginou que ele devia pertencer à esposa ou à filha do coronel, e que a mocinha houvesse se apoderado dele na ausência da família. A menina olhou para Ponta Fina e, depois, baixou a cabeça, toda faceira.
Antônio falou com o peão de forma respeitosa e o homem permitiu que os cangaceiros acampassem nas redondezas e procurassem o que lhes interessasse dentro da casa. O capitão lhes garantiu que o seu bando não ia levar todo o estoque de comida, só alguma coisa. Enquanto os homens montavam o acampamento e saíam à cata de munição e outras provisões, Ponta Fina se ofereceu para ir procurar comida na despensa. Quando Luzia e o rapaz entraram na cozinha, a filha do peão enrubesceu e tapou a boca com a mão. Luzia tratou logo de sair dali.
A mobília estava coberta com lençóis brancos, as camas, desfeitas, e os mosquiteiros haviam sido desprendidos das vigas do teto e deixados bem dobradinhos. Tudo ali dentro tinha sido cuidadosamente preservado, o que não sugeria uma fuga às pressas. Era como se o coronel e sua família não houvessem partido para escapar da seca, mas tirado férias e pretendessem voltar. Luzia se dirigiu ao quarto do coronel, onde esperava encontrar uma manta para o bebê. Algo macio, que ela pudesse bordar nas semanas que tinha pela frente. Logo ia dar à luz. O seu filho deixaria a escuridão confortável do seu ventre e se veria exposto à luminosa imensidão do mundo. Quando isso acontecesse, queria poder envolvê-lo em alguma coisa macia.
Mas não havia nada na casa do coronel. Na cama de casal havia só o colchão. Ao seu lado, junto com diversas revistas de moda, estava uma pilha de exemplares do Diário de Pernambuco. Luzia espiou todos eles. Viu dezenas de fotos de Vargas, artigos sobre as reformas do partido verde e retratos de inúmeras mulheres da sociedade recifense. Já tinha quase desistido quando deu com os olhos numa notícia sobre a inauguração do Instituto de Criminologia do Recife. Perdidas no meio da seção local do periódico, havia diversas fotos, mas apenas uma atraiu a sua atenção. A legenda dizia:
A Sra. Degas Coelho se inicia nos trabalhos científicos no novo Instituto de Criminologia do Dr. Duarte Coelho.
Emília estava segurando um pote de vidro. Dentro dele, boiando num líquido meio opaco, havia um bebê de olhos fechados. Tinha o rosto perfeitamente formado, mas o corpo era mutilado e disforme, como um santo de barro que o escultor houvesse deixado inacabado. Um grupo de homens usando ternos escuros cercava Emília, rindo. Sua irmã parecia nem dar pela presença deles. Fitava a criança no tal pote. Não estava sorrindo. O seu rosto parecia o de uma Nossa Senhora, cristalizado numa expressão de tristeza afetuosa.
O jornal caiu no chão. Luzia se apoiou na borda da cama. Aquela foto de Emília com o bebê dentro do vidro a tinha deixado transtornada; talvez fosse isso mesmo que sua irmã pretendesse. Sentia como se houvesse ali um aviso, mas não sabia ao certo se podia confiar nessa sensação. Estava ficando pior que tia Sofia, vendo presságios sombrios por toda parte.
Ouviu umas risadinhas. Esquecendo o jornal, dirigiu-se ao local de onde vinha aquele som. A cozinha estava vazia. Ponta Fina e a mocinha tinham desaparecido. A porta de venezianas da despensa estava fechada e, por trás dela, ouviam-se sussurros, ruídos e, depois, mais risos abafados. Caminhou até lá, pronta para interrompê-los; Antônio não ia gostar nada daquilo. Mas parou antes mesmo de tocar na porta. A menina parecia estar querendo. Era raro Ponta Fina acompanhar os outros cangaceiros para procurar prostitutas. O rapaz tivera tão poucos prazeres na sua vida curta, pensou Luzia. Pois que tenha esse.
Naquela noite, os cangaceiros prepararam um banquete. Baiano e Inteligente apanharam várias preás do tamanho das suas mãos. Esses bichinhos têm bastante carne, depois que se tira a sua pelagem. Na fogueira, Canjica tinha feito uma tigelinha de feijão. Ao seu lado, cuidadosamente empilhados numa pedra, viam-se barras de rapadura. Uma nuvem cinzenta de moscas esvoaçava sobre aqueles blocos de garapa. Periodicamente, Canjica agitava a mão morena de quatro dedos e afastava a nuvem de insetos. Antônio se sentou junto com o peão e sua mulher. Presenteou o casal com um maço de notas de mil-réis, em troca da comida e das provisões que estavam levando. O sujeito ficou esfregando o dinheiro nas mãos. Ia guardar aquilo, segundo disse, e, se a seca piorasse, usaria a quantia para fugir para o litoral.
Luzia se sentou mais afastada do grupo. Antônio havia tirado a capa de uma cadeira da casa do coronel e trazido o móvel para o quintal para que ela pudesse se sentar. A barriga já estava tão grande que ficava difícil ela se abaixar sem ajuda. Era bom sentar assim direito, numa cadeira e não numa manta. E tinha posto no colo o lençol amarelado que antes cobria o móvel. O tecido era grosseiro, mas daria uma linda coberta com os bordados certos. Luzia pegou agulha, linha e começou a trabalhar. Ainda não tinha acabado a primeira das flores quando ouviu passos e sussurros ao seu lado. Ergueu os olhos e viu a filha do peão, morena e bonita, e Ponta Fina. Ambos estavam parados perto dela, fitando-a. O rapaz se aproximou. A moça ficou para trás, brincando com a saia do vestido roubado.
– Mãe? – disse ele, com o chapéu nas mãos e a testa banhada em suor.
– Está doente? – perguntou Luzia.
Ponta Fina balançou a cabeça.
– O que foi então?
Ele baixou os olhos. Luzia continuou a fitá-lo. Tinha aprendido essa tática com Antônio: nunca falar demais. Assim, as pessoas acabam inevitavelmente falando e se revelando.
– Quero me casar – disse Ponta. – Como você e o capitão.
– Mas você mal a conhece – respondeu Luzia, rindo.
– Gosto dela – retrucou o rapaz.
– Traga a moça até aqui.
– Ela está com medo. Não quer vir.
– Mas tem que vir. Se quer se casar com você, não pode ficar com medo.
Ponta Fina assentiu. Voltou até onde estava a menina e tentou convencê-la. Quando ela parou diante de Luzia, manteve a cabeça baixa e fez uma reverência. Tinha as pernas cheias de cicatrizes; algumas pareciam riscos, outras, bolinhas.
– Deixe eu conversar com ela – disse Luzia, fazendo um gesto para que o rapaz se afastasse. – Qual é a sua graça? – perguntou à menina.
– Maria de Lourdes – balbuciou ela. – Mas todo mundo me chama de Neném.
– Sabe costurar?
– Sei, sim, senhora.
– E sabe cozinhar? Sabe tirar a pele de um bicho?
– Sei, sim, senhora. Não tenho medo de sangue.
– E os seus pais? – indagou Luzia, indicando o peão e a mulher com um aceno de cabeça. – Eles já sabem?
– Não, senhora. Não são meus pais. A minha mãe morreu quando eu nasci. Não sei quem é o meu pai. O coronel que mora aqui me entregou a eles, já que não têm filhos. Tudo o que faço é trabalhar.
Luzia assentiu.
– Se entrar para o bando, saiba que não tem volta – disse ela, repetindo o que Antônio lhe dissera no passado. – Não é como uma roupa que você pode botar e tirar quando lhe der vontade.
– Não pode ser pior que trabalhar para eles – sussurrou Neném. – Isso aqui é um inferno.
– O cangaço vai ser pior que o inferno – disse Luzia.
A mocinha mordeu o lábio e fez que sim com a cabeça.
– Aqui, vou acabar morrendo. Eles não vão me dar comida se tiver seca mesmo. E gosto do Ponta. Ele é bem bonito.
Luzia a fitou. Neném tinha o rosto redondo e delicado, como o de uma criança, mas as suas mãos e os seus pés eram bem calejados. Grossos. Lembrou-se da própria teimosia quando deixou Taquaritinga, temendo ficar prisioneira atrás de uma máquina de costura para o resto da vida. Agora, esse destino nem parecia tão ruim assim... Mas, se não tivesse saído de Taquaritinga, ela e a irmã talvez terminassem como aquela menina: definitivamente dependentes de um coronel.
– Vai ter de engolir um chumbinho todo mês – disse Luzia. – Não pode engravidar. É para o seu próprio bem. E também não dá para ficar fazendo tolices. A partir do momento em que estiver junto com Ponta, estará ligada a ele e só a ele. E vai ter de aprender a atirar. Está me ouvindo?
– Sim, senhora.
Luzia pretendia desencorajar a menina, assustá-la, mas ficou espantada com a determinação de Neném. Chamou então Ponta Fina de volta.
– Não é a mim que você tem que pedir isso – disse ela. – Vá conversar com o seu capitão.
Ponta assentiu. Pegou a garota pela mão e, com alguma hesitação, dirigiu-se até onde estava Antônio. Luzia adoraria ficar olhando, ver qual seria a reação do seu marido, mas deu as costas para o grupo e retomou o bordado. Tinha esperanças que ele brigasse com o rapaz, que o convencesse de que incluir uma moça como Neném no bando era uma péssima ideia. Luzia enfiou a agulha com toda a força no tecido da manta. Ela própria era mulher e não tinha lhes criado problema algum. Mas aquela menina era bonita e o bando agora era bem maior, contando inclusive com vários garotos bem jovens.
De repente, ouviu alguém às suas costas. Virou-se, achando que ia ver Ponta Fina todo desapontado, voltando para pedir consolo. Mas era Antônio. Bem devagar, como se os seus ossos estivessem doendo, ele se ajoelhou no chão ao seu lado.
– Está tentando arranjar casamento para os meus homens? – perguntou.
A sua voz parecia cansada, mas o lado esquerdo da sua boca se ergueu num sorriso discreto.
– Eu não o encorajei – respondeu ela, deixando o bordado.
Antônio assentiu.
– Mas eu devo aceitá-la – prosseguiu ele. – É a sua opinião.
– Nada disso – retrucou Luzia, já enfurecida. – Ponta disse isso?
Antônio balançou a cabeça.
– Achei que você veria as coisas pelo lado da moça.
– Só porque nós duas somos mulheres não quer dizer que eu aprove a ideia.
– Eles estão seguindo o meu exemplo. O nosso exemplo – acrescentou Antônio, passando a mão no lado desfigurado do rosto.
– E daí?
– E daí que concordei.
– Não acho uma boa ideia – disse ela.
– Eu sei – replicou Antônio.
Ele a fitou, com um sorriso estampado no lado esquerdo da boca. Luzia pôs a mão no rosto do marido. Bem devagar, ele tirou o chapéu e deitou a cabeça no colo da mulher, encostando o ouvido na sua barriga. Luzia fechou os olhos. Por um breve instante, eram como qualquer outro casal, conseguindo tempo para um momento de carinho.
Ouviram-se vozes vindas do acampamento. De repente, eram gritos. Antônio suspirou. Luzia não queria abrir os olhos, mas ele se levantou do seu colo. Seus joelhos estalaram quando ele se pôs de pé. Orelhinha vinha se aproximando, seguido por Ponta Fina, Neném, Baiano e um punhado de cangaceiros.
– Ele quer se casar – disse Orelhinha, apontando para o rapaz.
– Eu sei – retrucou Antônio, sem se lembrar de pôr o chapéu na cabeça.
O seu cabelo estava todo embaraçado e mal repartido, revelando um ponto mais claro do couro cabeludo mais para o lado da cabeça. Luzia quis esconder aquele pontinho vulnerável, quis ajeitar o cabelo dele com os dedos.
– Mas ele não pode se casar – prosseguiu Orelhinha. – A não ser que entregue as facas, que deixe o bando.
Ao seu redor, tinha se formado um grupo e uns poucos cangaceiros concordaram com um aceno de cabeça. O olho bom de Antônio se estreitou. O lado de sua boca que podia se mover ficou mais caído. Era proibido tocar nesse tipo de assunto na frente de todos; ele só permitia que os seus homens fizessem queixa uns dos outros em particular, dirigindo-se apenas a ele, para evitar brigas internas. Aproximou-se então de Orelhinha.
– Não permito deserções – disse o capitão.
– Sei disso – retrucou o outro, assentindo.
– Ao que parece, você tem sabido muitas coisas ultimamente.
Luzia se agarrou nos braços da cadeira. Afastou bem os joelhos, jogando todo o peso do corpo nas pernas. Ergueu então a bacia, conseguindo içar-se de onde estava sentada. O grupo inteiro estava olhando e ela odiou o seu corpo por obrigá-la a assumir atitudes tão indignas.
– Mulheres só causam transtornos – disse Orelhinha, balançando a cabeça e dando as costas ao capitão. – Foi o senhor mesmo quem disse que precisamos ser um exército, não uma família.
– Isso não é problema seu – replicou Antônio.
– É problema meu, sim – retrucou Orelhinha, enfiando o dedo no peito. – Faço parte desse grupo. Não podemos sair levando conosco toda rapariga que encontrarmos por aí.
Ouviram-se uns murmúrios. Alguns dos homens balançaram a cabeça. Ponta Fina deu um passo à frente, com a peixeira aguda e reluzente na mão. Baiano passou o braço pelo torso do rapaz e o puxou para contê-lo.
– Peça desculpas – disse Antônio.
Orelhinha olhou para um lado e para o outro, fitando Ponta Fina e o seu capitão.
– O quê?
– Peça desculpas. Você insultou a mulher dele. Uma mulher honesta. Aqui não tem nenhuma rapariga.
– Não peço, não.
Antônio chegou bem perto dele. Orelhinha ergueu as mãos, como se estivesse se rendendo, mas depois as levou à cinta. Como os outros homens, estava habituado a tirar os coldres e deixar pistolas e rifle na manta toda noite. Só estava com as facas. Sacou então o punhal enfiado entre o cinto e a cartucheira. Tinha o rosto desfeito e triste. Deixou cair no chão a arma de lâmina comprida e achatada.
– Estou indo embora – disse ele.
– Já lhe disse – retrucou Antônio, sem fazer menção de apanhar a faca. – Não admito deserções.
O queixo do cangaceiro tremia. Ele cerrou os lábios tentando conter o tremor. Havia um acordo tácito entre o bando e seu capitão. Todos os homens o aceitavam ao entrar para o grupo e fechar o corpo com as preces para esse fim. Com Luzia foi a mesma coisa. O amor de Antônio, a sua proteção, a sua liderança eram dados em troca de obediência, de confiança. No momento em que a confiança de um homem vacilava, aquele amor deixava de existir. Orelhinha desobedecera ao capitão e, ainda por cima, na frente de todos. Se Antônio não fincasse pé nos termos do acordo, se não punisse quem desobedecesse, perderia o respeito dos seus homens e isso seria a sua perdição.
Luzia sentiu um estremecimento na barriga. Viu movimento por baixo do tecido retesado do vestido. Depois, sentiu um golpe na parte baixa das costelas. O menino lhe deu um chute, como se estivesse lhe dizendo para fazer alguma coisa, para agir. Então, ela deu um passo à frente e pôs a mão no braço do marido.
– Deixe ele ir – disse.
– A misericórdia de uma mulher – exclamou Orelhinha, em tom debochado.
Antônio se enrijeceu e se desvencilhou da mão de Luzia.
– Não toque em mim! – exclamou ele.
Ela recuou. O capitão tinha erguido a mão, com o punho tão cerrado que os nós dos dedos chegavam a estar brancos. Luzia apoiou os braços na barriga. Não conseguia pensar com clareza; não conseguia lembrar o que pretendia dizer nem a Antônio nem a Orelhinha. Só pensava na igreja enfumaçada lá de Taquaritinga e no padre Otto, parado à sua frente, fazendo o sermão anual da Páscoa. A história não se referia à Virgem Maria, mas àquela outra Maria – a Madalena –, que tinha ficado na sepultura do Cristo bem depois que os outros discípulos desistiram e foram embora, e que tinha sido recompensada com Sua aparição. Mas, quando Maria Madalena esticou o braço para tocá-Lo, Ele recuou, dizendo: “Não me segure.” Mesmo em criança, Luzia não gostava Dele por ter feito isso. Já não era mais homem; agora, era Deus, e essa deificação fez com que Ele afastasse de Si aquela que mais O amava. Luzia sempre preferiu o homem à divindade.
– De joelhos – disse Antônio.
– Sou um dos seus melhores homens – retrucou Orelhinha, balançando a cabeça.
– Sei disso – replicou o capitão. – Você desobedeceu. Agora, ajoelhe-se.
Orelhinha concordou. Tirou o chapéu e o atirou no chão, onde já estava a sua faca. Antônio foi se postar ao seu lado. O cangaceiro tinha os olhos baixos, mas não fitava o chão; na verdade, olhava para a frente do próprio gibão, para a cartucheira. “Observe sempre os olhos de um homem”, pensou Luzia; isso era algo que seu marido tinha lhe ensinado. Dissera-lhe para prestar atenção ao olhar dos homens porque ele revela as suas intenções. Sempre fitamos o que vai ser o nosso próximo passo. Mulheres grávidas devem desviar os olhos de qualquer cena de violência, mas Luzia não podia fazer isso: observava Orelhinha. Assim que Antônio sacou do punhal, a mão do cangaceiro se mexeu. Era a direita, que o capitão não podia ver por causa do olho lesado. Ali, enfiada na cinta, havia outra faca, menor, de ponta bem afilada, usada para sangrar animais. Todos os cangaceiros tinham facas assim. Ninguém pensou em pedir que ele a entregasse.
A mão de Luzia procurou a parabélum que estava no coldre instalado junto à axila de seu braço aleijado. O braço bom passou por cima dos seios e da barriga crescidos. Atrapalhou-se com o fecho do coldre. No chão, à sua frente, Orelhinha recuou. Com um dos braços, fez um gesto amplo, formando um arco gracioso. Em sua mão, a lâmina da faca reluziu, refletindo a luz da fogueira. Antônio deixou cair o punhal. Finalmente, Luzia abriu o coldre e, com o braço bom, ergueu a pistola. Não conseguia mirar corretamente, pois Antônio tinha agarrado Orelhinha e os dois homens grunhiam e se amontoavam num estranho abraço. O olho bom de Antônio estava arregalado e se movia em todas as direções, à procura da faca. Parecia até uma vaca no cercado do matadouro.
Luzia conseguiu apontar para o seu alvo. Puxou o gatilho. O barulho do tiro lembrou uma garrafa sendo desarrolhada: surpreendente, pois ninguém sabia onde a bala ia penetrar. Todos ali se enregelaram. Neném gritou e todos os olhos se voltaram para ela. Por um instante, Antônio tirou os olhos da ponta da faca. Orelhinha o golpeou. Depois, a arma caiu aos seus pés.
– Merda! – exclamou Orelhinha, e a sua voz pareceu despertar todo o bando.
Baiano avançou, agarrando o companheiro pelo braço. O peito do seu gibão já estava escuro e a mancha só fazia aumentar. Luzia o tinha acertado no ombro. Ponta Fina se adiantou, com o facão nas mãos, mas a moça o deteve. Ouviram então uma tosse.
Antônio estava parado ali, imóvel, de costas para a mulher e os seus homens, com as mãos no pescoço. Luzia tocou no seu ombro e ele se voltou, ainda segurando o pescoço. Tinha o rosto de um vermelho-escuro, como se estivesse com raiva. Tossiu novamente. Jorrou sangue por entre seus dedos.
Quando ele desabou, Luzia o chamou pelo nome. A voz dela parecia vir de muito longe. A parabélum lhe caiu das mãos. Sentiu um cheiro de queimado e se deu conta de que era a carne das preás esquecidas no fogo. A barriga atrapalhava os seus movimentos. Deixou-se cair ao lado de Antônio, batendo com os joelhos no chão duro. As suas mãos pareciam se mover por conta própria, tentando freneticamente desatar o lenço molhado que ele tinha no pescoço e, depois, levando os dedos ao seu rosto. O lado desfigurado estava calmo, como sempre. O outro tinha um ar perplexo. Um som rouco e borbulhante saiu do talho dentado em sua garganta, próximo ao pomo de adão, onde a faca de Orelhinha tinha penetrado. E brotou sangue, com tanta intensidade que Luzia ficou surpreendida. Com as mãos, ela pressionou o corte. Estava tão quente! Tão quente! Como a água terrosa que brotava do leito seco dos rios quando ela cavava. Apertou então com mais força. A confusão tinha espantado as moscas que voavam ao redor dos blocos de rapadura, mas, de repente, lá estavam elas de volta. Vieram pousar no pescoço de Antônio e na poça que se formava junto ao seu corpo.
Ponta Fina se ajoelhou ao lado de Luzia. Os cangaceiros se aglomeraram à sua volta. A moça sentia os ouvidos zumbirem. Era preciso lhes dar alguma ocupação, pensou ela. Eles precisavam ter algo para fazer.
– Tragam uma rede! – gritou ela. – Uma rede limpa!
Os homens começaram a se mexer, atabalhoados, percebendo o tom urgente da voz de Luzia, acreditando que o seu capitão poderia sobreviver pelo simples fato de eles se apressarem. Vários entraram na casa vazia do coronel. A moça pôde ouvi-los revirando tudo lá dentro. Mandou Canjica e Caju correrem em busca de um curandeiro ou de uma parteira. Qualquer pessoa que tivesse noção de medicina, disse ela. Se não encontrassem ninguém, ela mesma cuidaria de Antônio. Poria a mistura de sal, cinzas e pimenta-malagueta no ferimento, para estancar o sangue. Costuraria tudo com ponto bem apertado. Depois, levariam Antônio para a fazenda de Eronildes. Era um estirão considerável, mas não tinha outro jeito. Sabia, por sua experiência em matar cabras e outros bichos da caatinga, que, no pescoço, havia uma rede vital de canais e de vasos sanguíneos. O seu marido precisava ser atendido o mais depressa possível.
A mão de Antônio se contorceu. Os dedos dele roçaram a sua perna, como numa carícia. Luzia tentou chegar mais perto, mas a barriga não deixou.
– Fique aqui – ordenou ela, sentindo as mãos escorregarem no ferimento. – Fique acordado.
Quando os homens voltaram, Luzia amarrou um pano no pescoço de Antônio. Com todo o cuidado, Baiano depositou o seu capitão na rede que eles tinham trazido e, com a ajuda de Inteligente, ergueram-no do chão. Atordoados, todos esperavam as ordens de Luzia.
– Vão lá para dentro – disse ela. – Precisamos limpar isso tudo muito bem. Não sacudam muito.
Os dois cangaceiros puseram a rede manchada e pingando no vestíbulo da casa do coronel. Havia feijões esmagados pelo assoalho, restos do assalto que o bando fizera à despensa. O sangue nas mãos de Luzia já estava secando. Ela tinha dificuldade em mexer os dedos. Quando viu que estava tremendo, cerrou bem os punhos, pois não podia deixar que os homens vissem aquilo.
Pediu ajuda a Baiano e voltou a se agachar ao lado do marido. Lembrou-se do pai, na igreja do padre Otto, embrulhado na rede funerária. Ficou com medo de abrir a que envolvia Antônio, mas os cangaceiros estavam aglomerados ao seu redor, na maior expectativa. Com um gesto rápido, afastou os panos da rede.
Os olhos dele estavam abertos. Os lábios meio tortos, separados. Ambos os lados do seu rosto estavam calmos. Luzia sentiu como se tivesse engolido um espinho de cacto que, agora, lhe cortava por dentro, da garganta ao estômago, traçando uma linha ardente.
Os homens se aproximaram ainda mais. A moça sentiu que todos a fitavam. Um pouco mais cedo, tinha tirado o xale e, sem ele, estava exposta àqueles olhares: o cabelo maltrançado, o vestido apertado demais na altura da barriga, as pernas grossas, os seios crescidos. Os cangaceiros estavam vendo tudo aquilo.
Pôs então as palmas das mãos no chão. Conseguiu se levantar um pouco até se firmar nos pés. Respirou fundo e se ergueu. Os seus joelhos estalaram com aquele esforço. Já de pé, viu Ponta Fina. Neném estava toda encolhida ao seu lado. Foram eles que provocaram essa confusão, pensou Luzia. Eles e Orelhinha. No meio daquela comoção, tinha se esquecido dele. O bando o havia deixado lá fora, ferido. Precisava puni-lo, mas só de pensar nisso ficou estonteada. Fechou os olhos, tentando se aprumar. Ia cuidar dos homens que a cercavam antes de dar um jeito em Orelhinha. Abriu os olhos e encarou Ponta Fina.
– Passe a sua lambedeira – disse ela.
Ele obedeceu, estendendo-lhe a faca mais afiada, que era usada para desossar animais. Luzia pegou a arma com o braço aleijado e a levou à nuca. Com o braço bom, agarrou a ponta da trança, presa com barbante grosso. O começo da trança, junto ao couro cabeludo, era bem espesso. Ela teve dificuldade em cortá-lo.
Quando encarou os homens, estava ereta. Conseguiu manter as mãos firmes. Fitou cada um deles bem nos olhos, cuidando para não deixar passar ninguém. Com o braço bom, ergueu bem alto a trança cortada que parecia uma cobra em sua mão.
Luzia não teve tempo de ficar com medo. Só se deu conta disso mais tarde, ao relembrar aquele momento. Podia ter chorado, se desesperado, se lamentado como faria qualquer esposa, mas os homens teriam notado a sua fraqueza e a teriam odiado por isso. Ela seria inútil para eles, deixando de ser a mãe abençoada para se tornar uma simples mulher. E, ainda por cima, grávida. Vê-la ali com o cabelo cortado, as mãos manchadas de sangue, o rosto rígido deixou a todos amedrontados. Luzia percebeu esse sentimento. Naquele instante, tinham medo dela. Acreditavam nela.
Depois de cortar a trança, a moça sentiu uma vertigem. Tinha se levantado depressa demais. A faca lambedeira lhe caiu das mãos. Apoiou-se em Baiano, que a ajudou a se ajoelhar. Os homens acharam que ela ia rezar e a imitaram, contritos. Luzia desfiou todas as orações que conhecia – uma sequência de ave-marias e de padre-nossos – até perceber que estava dizendo coisas sem sentido.
Ficou o tempo todo olhando para Antônio. Esperava que ele piscasse, se levantasse, risse da própria piada de mau gosto.
– Não vamos acender fogo algum – disse Luzia, interrompendo as rezas. – Não vamos botar nenhuma vela nas suas mãos. A alma dele vai ficar aqui. Conosco. Agora, sou a mãe e o capitão de vocês.
Os homens baixaram a cabeça.
Quando finalmente saíram da casa, Orelhinha tinha desaparecido. Baiano propôs formarem um grupo para ir atrás dele, mas Luzia não permitiu.
– Deixem que sangre – disse ela. – Não vai sobreviver por aí, no meio do mato.
Luzia bem sabia que alguns dos cangaceiros iam achar que ela estava sendo benevolente demais com Orelhinha. Outros, que era muita crueldade deixá-lo morrer assim, exposto às intempéries, em vez de dar um fim rápido à sua vida. Um capitão não precisa explicar aos seus homens as decisões que toma, portanto ela também não precisava. Nem podia. Os motivos pelos quais estava deixando Orelhinha ir embora nada tinham a ver com misericórdia ou punição, mas com os próprios cangaceiros. Se mandasse um grupo atrás dele, não poderia acompanhar os homens. Estava se sentindo estranha demais para agir furtivamente, abalada demais para liderá-los em meio à caatinga. Mas não queria admitir isso. O grupo poderia encontrar Orelhinha e ajudá-lo, ou até mesmo se juntar a ele. Os homens também estavam abalados com a morte de Antônio e, no momento, a lealdade deles era frágil. A única forma de controlá-los era não perdê-los de vista.
Luzia passou a noite em claro, à escuta de qualquer sussurro, alerta a qualquer sinal de divergência. Neném veio se postar ao seu lado. Raras vezes, a moça cabeceou de sono. Quando isso acontecia, ela se empertigava e tossia bem alto para demonstrar que estava acordada.
Rezava a tradição que eram necessários três dias de luto enquanto a alma ainda vagava junto ao corpo. E também que os parentes deviam limpar o cadáver antes que ele enrijecesse. Durante esse banho, falava-se com o morto, dizendo-lhe “Dobre o braço!” ou “Levante a perna!”. Não se podia pronunciar o seu nome porque isso significava chamar de volta o seu espírito. Na casa do coronel, Luzia lavou e vestiu o marido, dirigindo-se a ele o tempo todo pelo nome. “Antônio!”, dizia ela em voz alta, para que o seu espírito pudesse ouvi-la. Mandou que os homens o chamassem de “capitão” nas suas orações, como sempre faziam. Deixou todos os anéis nos seus dedos, embora não fosse permitido aos mortos levar ouro para a outra vida. Não beijaria a sola dos seus pés, porque, com isso, estaria impedindo que ele ficasse vagando. Era exatamente o que ela queria. Não tirou o pó da sola das suas alpercatas, como era costume fazer, para que a alma – atraída pela terra – sentisse falta do chão sob os seus pés e voltasse. Não fechou os seus olhos. “Feche os olhos para encarar Deus”, era o que deveria dizer no momento de enterrá-lo. Em vez disso, ela exclamou: “Olhe para mim, Antônio.”
Luzia estava obrigando o espírito do marido a viver ali na terra. Antônio não tinha lhe dito uma vez que todos eles estavam condenados? Que, apesar das suas rezas, ele não iria ao encontro de Deus, mas para um outro lugar, mais escuro? Ele não ia preferir ficar ali, ao seu lado?
– Se alguém perguntar, o Carcará não morreu – disse ela a todos os homens do bando antes de deixarem a fazenda.
O seu plano funcionou: os cangaceiros ficaram com medo da alma do capitão. Sempre que um galho de árvore balançava ou que soprava um vento, eles estremeciam. Até Baiano parecia amedrontado. Toda noite, quando montavam o acampamento, Luzia deixava uma refeição ligeira para o marido no meio do mato. Jogava um pouco de água no chão. Estava procurando tentá-lo. O risco era grande, pois as almas são como gente, só que piores. Podem ficar furiosas e amargas com os seus entes queridos. Podem assombrá-los para sempre. Mas Luzia queria ser assombrada. Preferia enfrentar a raiva de Antônio que a sua perda.
10
Uma boa viúva deve se vestir de preto. E pôr cortinas escuras nas janelas de casa. Passa a usar duas alianças na mão esquerda e põe sempre flores frescas diante do retrato do falecido. Algumas trancam todos os pertences do marido numa gaveta e, de vez em quando, vão pegá-los para mergulhar em recordações. Era como um outro casamento, uma união mórbida, com as reminiscências do companheiro. Para Luzia, todas essas tradições eram impossíveis. Não havia alianças, nem flores nem retratos, a não ser aqueles recortados dos jornais.
A caatinga tinha sido a casa dos dois. Cada árvore, cada morro, cada lagarto e cada pedra faziam-na lembrar de Antônio. Aquele era o mundo dele, não dela. Jamais amara aquilo tudo como ele. A caatinga lhe escapava, a assustava, a deixava com raiva. E, agora, ele a tinha abandonado ali, sozinha, com aquele exército de homens que a seguiam em meio às planícies rochosas ou subindo as colinas íngremes. Não iam para Taquaritinga. Luzia havia decidido que não queria entregar o bebê aos cuidados do padre Otto. Não queria que o seu filho fosse criado num lugar onde as pessoas poderiam identificar a sua mãe como a Vitrola. O bando tomou o rumo do São Francisco. Depois que o corpo de Antônio foi enterrado num lugar seguro, Luzia abriu o mapa do velho cartógrafo. Perguntou ao Baiano:
– Sabe como chegar à fazenda do Dr. Eronildes?
Ele fez que sim com a cabeça.
Ela envolveu a barriga com um pano para que o bebê não nascesse antes do tempo. Pegou o punhal de Antônio, o seu chapéu e o seu cristal de rocha. Ao anoitecer, segurava a pedra e puxava as orações, fechando o corpo de todos.
À noite, não conseguia dormir. Ficava ouvindo o ronco dos homens. Ficava olhando Neném, dormindo toda encolhida na manta ao seu lado. A menina teimosa cismou que não ia deixá-la sozinha, determinada a compensar a perda que ela tinha sofrido. Quando era noite de luar, Luzia ficava olhando a caatinga seca. À luz da lua, as árvores desfolhadas pareciam uma floresta branca. Aquela terra era deles, toda deles, como Antônio sempre dizia. Era terra de Deus. Imensa. Ilimitada. Ele dizia aquilo com alegria, mas, quando Luzia fitava aquele mato, não conseguia compreender a felicidade do marido. A caatinga era grande demais. Vazia demais. E a deixava assustada com toda aquela imensidão.
Em muitas noites, se lembrava do retrato de Emília tendo nas mãos aquele bebê deformado dentro do pote de vidro. Era assim mesmo que ela segurava as bonecas, com cuidado, com um jeito carinhoso. Sua irmã sempre foi boazinha com as bonecas de pano. Bem diferente de Luzia, que as estragava, cortava em pedaços, arrancava o seu recheio. Emília era delicada, mas séria. Sabia cuidar das coisas sem estragá-las. Por baixo daquele ar amoroso havia uma vontade fortíssima.
Quando dormia, Luzia sonhava com um homem que não era Antônio, mas que tinha o mesmo nariz achatado, os dentes miúdos, os lábios carnudos, os olhos tão escuros que nem dava para ver as pupilas; escuros como as sementes da maria-preta.
Acordava de manhã com a bexiga doendo. As suas costas repuxavam, como se um punhal a espetasse quando caminhava. Andava bem devagar. Os homens iam na frente, sob o seu comando. Baiano e Ponta Fina ficavam ao seu lado. Quando as colinas das margens do Velho Chico se tornaram maiores e mais claras, Luzia teve a sensação de estar sendo levada para um fim que desconhecia. Assim que chegasse lá, assim que Deus determinasse que tinha terminado, qualquer grãozinho de areia, ou a mais miúda das folhas luzidias do umbuzeiro, poderia detê-la. Antes disso, nada a deteria.