Entre irmãs

Frances de Pontes Peebles · Capítulo 10 de 20 · parte 3/4

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Entre irmãs

Capítulo 8

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Também evitou entrar na cozinha do coronel. Acima do braseiro, cuja fumaça estava sendo usada para defumar carne, Canjica tinha pendurado com todo o cuidado mais uma oferenda para santa Luzia. Eles não eram redondos, mas encalombados, como bolas de massa com vários fiapos presos às suas extremidades. Depois de alguns dias expostos à fumaça, murcharam e se enrugaram. Antônio os guardou na bolsinha de couro.

A pedido do cangaceiro, Luzia escreveu uma carta para a viúva de Marcos, em Salvador, informando que o seu marido e o pai dele, Clóvis, tinham morrido. Antônio lhe enviava os seus mais sinceros pêsames. Disseram que a moça podia ficar tranquila, pois a fazenda estaria sendo bem-cuidada. Por uma questão de justiça, ela receberia, anualmente, uma parcela dos lucros obtidos com a descaroçadora. Não era necessário mandar alguém até ali ou realizar investigações. “O interior não é lugar para uma dama”, acrescentou Luzia, antes de encerrar a carta. “Se a senhora for sensata, vai se lembrar disso.”

Tinha esperanças de que fossem ficar em São Tomé, onde poderiam trabalhar a terra e levar uma vida normal. Ao cabo de um mês, Antônio foi ficando irrequieto. Disse que a propriedade não lhes pertencia por direito e, para garantir a sua posse, precisaria de mais homens e mais dinheiro. Saíram então de São Tomé e voltaram para o mato. Mas Luzia não conseguiu deixar para trás a lembrança daquele quintal empoeirado, a sensação escorregadia da parabélum em sua mão, do ruído alto e surdo que Marcos fez ao cair do cavalo. Achava que tais lembranças a fariam se sentir culpada ou com remorso, mas, na verdade, estava era com raiva. Só não sabia muito bem de quê. Era como se aquela primeira morte houvesse aberto um trinco qualquer dentro dela, destrancando a porta e libertando emoções que antes estavam presas. Aquela raiva da sua infância estava de volta.

Nos meses subsequentes, quando os cangaceiros começaram a assaltar as caravanas dos adeptos do partido azul na trilha do gado, Luzia se limitava a roubar jornais dos homens. Das mulheres, pegava muito mais. Em geral, os fugitivos viajavam com esposa e filhas, que olhavam para aquela mulher com um misto de medo e repulsa. Fitavam as suas calças e o seu braço aleijado. A seus olhos, ela era a humilde Costureira. Luzia lhes arrancava os pingentes do pescoço, puxando-os até o cordão se quebrar, até as suas mãos ficarem doendo. Puxava também ao máximo o cabelo delas e ia cortando mechas aqui e ali, às vezes tão rente que chegava a arranhar o seu couro cabeludo. Agora, podia dar vazão à sua raiva, sem ser cerceada pelas regras da tia ou pela voz de Emília tentando contê-la. Agora, podia mirar e atirar. Podia ferir qualquer pessoa antes que esta a ferisse.

Depois da discussão com o Dr. Eronildes, Luzia começou a entender as consequências dessa lógica. Tinha aprendido a ser tão cruel quanto os homens. Na caatinga, só se ensina as mulheres a conviver com a crueldade, a suportá-la, às vezes a valorizá-la. Sendo mulher, podia ver o que Antônio e os outros cangaceiros não conseguiam enxergar: que a crueldade não podia ser contida. Não podia ser usada e, depois, jogada fora, como um par de alpercatas. Uma vez que se instalava, nunca mais ia embora. Ia crescendo dentro dela e dos homens, transformando-se em entorpecimento. Em indiferença. Eronildes tinha razão. Mas Luzia tinha outra coisa crescendo no seu ventre, competindo por espaço ali dentro. Aquela criança podia salvá-la. Já a tinha incitado a desejar estabilidade, a querer um pedaço de terra. Esse desejo tinha lhe dado a ideia de sequestrar os cartógrafos e exigir um resgate. Se o bebê podia fazer isso com ela, pensou Luzia, talvez também pudesse modificar Antônio, instigando-o a deixar de ser cangaceiro para se tornar pai.

 

5

 

No acampamento, perto da casa de Eronildes, Antônio mostrou o jornal aos homens do bando. O sequestro dos cartógrafos tinha saído na primeira página. O governo de Vargas estava com medo. Com tanto medo, acrescentou, que tinham resolvido oferecer um prêmio pelas suas cabeças. Como os cangaceiros não sabiam ler, acreditaram no que o capitão lhes dizia. Só Baiano sabia o alfabeto, mas não conseguiu ter o jornal nas mãos por tempo suficiente. Os homens o passavam uns aos outros, rindo, animadíssimos. Agora eram famosos, disse Antônio. E aquilo merecia uma comemoração. Acenderam então uma fogueira para assar um novilho que o médico tinha lhes dado. O bicho estava magro, com a carne dura, mas já fazia semanas que eles não comiam carne fresca. Depois de jantar, alguns dos cangaceiros começaram a dançar. Outros, liderados por Orelhinha, foram até o vilarejo mais próximo, na esperança de encontrar alguma mulher da vida. Com os que ficaram, Antônio tentou parecer animado. Cantou e participou de algumas partidas de dominó. Quando se cansou, se afastou da fogueira para se sentar ao lado de Luzia.

Tirou o chapéu. Ali debaixo, o cabelo mais perto da raiz era lustroso. Na altura das orelhas, onde já não havia mais a proteção do chapéu, os fios iam ficando mais claros e tinham outra textura, mais secos e embaraçados, até chegar às pontas cor de mel que lhe batiam nos ombros.

– Já é tarde, minha santa – disse ele. – Você precisa descansar. Vamos partir bem cedo pela manhã.

– Para onde?

– Para outra cidade. Um lugar onde exista um fotógrafo – respondeu ele, fazendo um gesto na direção dos cartógrafos, que estavam estirados no chão, debaixo de uma árvore ali perto, com os pés enfaixados.

Antônio tinha lhes dado carne; os dois tinham a pele ao redor da boca brilhando de gordura.

– Vamos mandar uma prova.

– De que eles estão vivos? – indagou Luzia.

– Do erro da capital – retrucou ele, enxugando o olho embaçado.

Seu marido tinha mania de se referir à capital como se ela fosse algo vivo. Vira e mexe dizia coisas assim: “Vamos dar uma lição à capital”, ou “Isso vai chamar a atenção da capital”. Antônio achava mais fácil dizer “a capital” do que mencionar o nome do tenente Higino Ribeiro ou até mesmo de Vargas. Aquilo era algo que a deixava aborrecida. De uns tempos para cá, usava essa expressão com frequência, e de forma categórica, como se estivesse falando de um homem e não de uma cidade inteira.

– O doutor perguntou pela minha saúde – disse ela, e respirou fundo.

Se o marido achasse que aquela atitude não era correta, a sua revelação poderia custar a vida de Eronildes.

– Que tipo de pergunta ele fez?

– Está preocupado comigo. Com o nosso filho – disse Luzia, tossindo.

Era a primeira vez que os dois falavam do bebê.

– E você? Está preocupada?

Luzia não conseguiu assentir. Estar preocupada seria uma traição a Antônio. Uma forma de dizer que ele não tinha condições de cuidar dela como faria um bom marido. Ela se encolheu. Inclinou-se para ele, deitando a cabeça no seu ombro. O cangaceiro não gostava desse tipo de demonstração. Lá da fogueira, os cartógrafos e os cangaceiros estavam olhando para eles. A moça enfiou o nariz no seu gibão. Aspirou o cheiro de pó, suor e Fleur d’Amour.

– Minha santa – sussurrou ele, fazendo com que ela o fitasse. Arregaçou a manga do gibão, mostrando o braço nu, mais branco que a mão, mas, ainda assim, moreno. Luzia olhou a pele macia da parte interior daquele braço e a sombra das veias saltadas à luz do fogo. Antônio sorriu. – Tome – disse ele. – É todo seu.

– Acha que vou querer essa carne dura?

– Não – respondeu ele, e o sorriso desapareceu do seu rosto. – Mas, se quisesse, poderia dar quantas mordidas desejasse – prosseguiu Antônio, mantendo o braço esticado. – Eu deixaria que me comesse vivo.

– Não gosto dessa conversa – retrucou Luzia.

Quando eram recém-casados, tinha lhe contado a lenda da Esposa Canibal. Agora, com a seca a caminho, essa história não tinha graça nenhuma.

– É o único tipo de conversa que posso ter – disse ele, em voz baixa.

Luzia fitou aquele braço. Se o levasse à boca, ele não o puxaria. Não gritaria. Simplesmente deixaria. Deixar-se-ia consumir, aos poucos, se ela estivesse precisando disso.

No dia seguinte, quando estavam se preparando para ir embora da fazenda de Eronildes, Antônio agradeceu ao médico, mas não apertou a sua mão. Com toda a calma, este recomendou que ele não esquecesse de pingar o remédio no olho. Minutos depois, enquanto os cangaceiros estavam desmontando o acampamento e verificando a bagagem, o doutor chamou Luzia à parte. Pôs um pano dobrado em suas mãos. Era um cretone azul, bem resistente.

– Se precisar fazer calças novas para acomodar a barriga... – disse ele.

Enfiou então a mão nas dobras do tecido, tirando dali um frasco de vidro marrom com rolha de cortiça. Ali dentro havia um pó.

– É cianeto – sussurrou o médico. – Por favor, só abra esse frasco se estiver decidida a usá-lo. É muito forte. É melhor que morrer de fome ou ser apanhada pelos soldados. Especialmente os soldados. Isso não é morte para uma dama – acrescentou, apertando o frasquinho nas mãos dela.

– Vou morrer quando Deus quiser – replicou Luzia.

Mesmo assim, pegou o vidrinho e o guardou no bornal. Depois, fitou o médico. Os seus olhos ficavam maiores e mais arregalados por detrás das lentes grossas. A moça se lembrou do binóculo de Antônio: quando olhava através dele, tudo parecia tangível e ao seu alcance, mesmo que não estivesse. Talvez fosse assim que Eronildes visse as coisas. Ele a tinha incitado a deixar o bando, como se isso fosse um ato qualquer. Acreditava que, abandonando Antônio, ela demonstraria amar o filho. E, se não o fizesse, provaria o contrário.

“Amem o que está à sua frente. Sem fazer distinções”, dizia sempre o padre Otto. Mas era impossível não fazer distinções. O filho na sua barriga era um fantasma. Ainda não tinha forma; era desconhecido. Era frágil e Luzia não conseguia confiar na fragilidade. Só confiava na força. Antônio era de carne e osso. Era real; estava vivo, ali ao seu lado. Dos dois, era o mais fácil de amar naquele instante.

“As pessoas são fracas”, pensou a moça. “Sempre recorremos ao que é mais fácil. Ao que é conhecido.” Um dia, diria isso ao seu menino, quando ele já tivesse idade suficiente para compreender.

 

6

 

Luzia nunca gostou de retratos. Nunca gostou do jeito como as pessoas saem neles: corpo rígido, rosto paralisado, olhos escuros nas órbitas, parecendo dois buracos sem alma. As pinturas, ao menos, eram feitas por mãos humanas. E as cantigas, como aquelas que os repentistas cantavam ao som da viola, contavam histórias. As fotografias saíam de uma caixa preta, produtos de uma criação misteriosa e desprovida de deus. Não contavam histórias. Ninguém sabia o que tinha acontecido antes de a foto ser tirada ou o que viria a acontecer depois. Tudo o que se podia fazer era supor, e ela detestava suposições. Preferia a precisão. Um centímetro fazia toda a diferença entre uma calça confortável e uma que caía mal. Entre um bordado certinho e outro torto. Entre um tiro direto no coração ou no pulmão e um que atingia músculos ou ossos.

Depois de algumas semanas de caminhada pelas margens do São Francisco, encontraram uma cidade de tamanho razoável, com uma capela, um mercado movimentado e um fotógrafo. A moça estava hesitante em relação a essa ideia do retrato.

– Vão ficar sabendo a cara que você tem – disse ela. – E a minha também.

– É exatamente o que eu quero – replicou Antônio.

Os quarenta cangaceiros formaram três fileiras. Os novos recrutas puseram um joelho no chão, com as alpercatas engraxadas, a aba do chapéu cuidadosamente dobrada e virada para cima, no tradicional feitio de meia-lua. Na segunda fileira, os homens ficaram meio agachados, apoiando-se nos rifles postados ao seu lado. Os da terceira estavam de pé. Eram os veteranos do bando: Baiano, Canjica, Inteligente, Orelhinha, Fala Mansa, Meia-Lua, Caju, Sabiá e Ponta Fina. Vários anéis reluziam nos seus dedos morenos. Todos tinham os lenços de seda bem presos ao pescoço e os bornais virados de forma que os bordados de Luzia ficassem à mostra. Ostentavam as criações da moça da cabeça aos pés, especialmente Antônio. Na cinta, os punhais haviam sido enfiados num ângulo tal que os cabos apareciam por cima das cartucheiras. Diante dos cangaceiros ajoelhados, estavam os cartógrafos, sentados no chão, com as pernas cruzadas e as mãos amarradas às costas. As bandagens com que Eronildes envolvera os seus pés estavam rasgadas e manchadas.

Luzia estava de pé, no centro da terceira fileira, ao lado de Antônio. Como os homens, não sorria. Vivia mascando juá, mas, mesmo assim, os dentes estavam estragados. Depois que saíram da fazenda do médico, um dos dentes de cima tinha começado a doer. Quando passava a língua no local, sentia um gosto de podre, como leite azedo. E esse cheiro já estava afetando o seu hálito. Durante as suas viagens, haviam encontrado um vaqueiro que possuía um boticão. O homem mandou que Luzia tomasse um copo de cachaça e lhe arrancou o dente podre enquanto Antônio a segurava pelos braços. Agora, outro dente andava doendo. Por causa do bebê, a moça tinha trocado o chapéu por um frasco de melaço puro. Odiava aquela coisa tão doce, mas tomava uma colherada todos os dias. Ultimamente, voltara a ter desejo de comer terra e chegou mesmo a pôr na boca um pedaço do solo argiloso da margem do rio, mas logo o cuspiu. Era perigoso: a terra tem vermes invisíveis que poderiam se alojar na barriga e devorar a comida que devia ir para o bebê. As colheradas de melaço estavam acabando com os seus dentes, mas aliviavam os seus desejos. E, ainda por cima, davam-lhe forças para se levantar da manta pela manhã e acompanhar Antônio naquelas caminhadas.

O fotógrafo que o capitão havia contratado era um sujeito irrequieto, de olhos arregalados, parecendo até um daqueles mocós que viviam nas pedras e que os cangaceiros caçavam. Era inteiramente diferente do homem impaciente e arrogante que havia tirado o retrato de Luzia e Emília no dia da primeira comunhão. A moça se lembrava muito bem da vergonha que sentira quando ele cobriu o seu braço aleijado com um paninho rendado que trazia entre as suas coisas. No momento em que o flash espocou, tinha se mexido só para espezinhá-lo. Emília nunca a perdoou por ter estragado aquele retrato.

O fotógrafo contratado por Antônio não ousou esconder o braço dobrado. Se ela se mexesse ou piscasse, ele tiraria outra foto sem reclamar. Desta vez, Luzia não precisou usar luvas nem um vestido todo engomado. Usava um vestido de lonita que ela própria havia feito. Embora estivesse só com quatro meses de gravidez, as calças já tinham ficado apertadas demais. Quando saíram da fazenda do Dr. Eronildes, a moça pegou o tecido que o médico lhe dera e fez um vestido prático e larguinho, para esconder a barriga nos meses subsequentes. Pôs vários bolsos na parte da frente da saia, pois assim não sentiria falta das calças. Com uma fita de cetim que tinha apanhado entre os pertences de uma mulher do partido azul, fez um debrum para as costuras. Bordou bolinhas vermelhas e brancas nos punhos e formando um V no peito. Apesar do calor, também estava usando meias grossas e perneiras de couro.

À sua frente, o fotógrafo se encondeu por baixo da cortina da câmera. Com a poeira e o sol, o pano preto tinha ficado cinzento. Atrás dele, várias pessoas se amontoavam. Os moradores da cidade abanavam o rosto. Mesmo no fim da tarde, o sol ainda não tinha se abrandado. Era 19 de março, o dia de são José, e não havia sinal de chuva. Mas o dia ainda não tinha terminado. Muita gente rezava para o santo na esperança de convencê-lo a mandar água. Inúmeras beatas se ajoelharam em torno do fotógrafo de Antônio, com o intuito de dar uma olhadinha no Carcará e na Costureira sem ter de interromper as orações.

– Chove, chuva, chove, chuva, chove, chuva – cantarolavam as mulheres. – Nossa Mãe, Maria, tende piedade de nós. Dos nossos lamentos e da nossa dor. Do nosso orgulho e da nossa teimosia. Nós todos vamos morrer de sede porque somos pecadores. Mas nós vos pedimos, santa Mãe da terra e do mar, dai-nos água. Dai-nos esta graça, para que possamos vos amar ainda mais.

O sujeito ergueu a lâmpada do flash. O sol da tarde estava tão brilhante que ninguém conseguia encará-lo. Antônio não queria sair na foto de olhos estreitados. O fotógrafo os pôs então num ângulo que lhes permitia abrir os olhos. E garantiu ao cangaceiro que todos os rostos ficariam bem visíveis, pois o flash eliminaria qualquer sombra. Prometeu levar os retratos pessoalmente ao Recife assim que tivessem sido revelados. Antônio lhe deu o dinheiro da passagem de trem. Disse-lhe que poderia vender as fotos pelo preço que quisesse e ficar com o lucro, contanto que elas fossem publicadas nos jornais.

O fotógrafo começou uma contagem regressiva. Luzia alisou o vestido. Ajeitou os óculos. Ao seu lado, Antônio se remexeu. Para sair na foto, tinha calçado as botas de couro e cano alto dos geógrafos, que estavam lhe apertando os pés. Cortou as laterais, mas, mesmo assim, elas ainda estavam pequenas. Precisava então se mexer para a frente e para trás, tentando evitar que os pés ficassem dormentes. O obturador da câmera levou uns bons segundos para fazer clique. Os olhos de Luzia lacrimejavam. Podia perceber a ansiedade dos cangaceiros e a sua própria. O peito lhe ardia, como se houvesse prendido demais a respiração. De repente, ouviu-se um “pop”. O flash espocou, deixando no ar um cheiro de fumaça e um silêncio solene, e, por um instante, ninguém sabia quando poderia se mexer ou se poderia fazê-lo.

O fotógrafo saiu de baixo do véu cinzento. Os cangaceiros comemoraram. Antes de debandarem, amontoaram-se ao redor de Luzia e estenderam as mãos.

– A bênção, mãe – foram dizendo eles, um por um.

– Deus o abençoe – respondia ela.

Os homens do bando pediam a bênção a Luzia sempre que ficavam vigiando uma cidade, atacavam a casa de um coronel desleal ou se separavam pelas margens da trilha de gado, à espera de viajantes. Os mais velhos seguravam os seus dedos e a chamavam de “mãe”, como se ela fosse a substituta da mãe que tinham deixado para trás havia tanto tempo. Orelhinha e Meia-Lua, ainda ressabiados com a presença daquela mulher no bando, pediam-lhe a bênção meio a contragosto, só mesmo por respeito ao capitão. Os membros mais novos eram garotos imberbes e desajeitados que baixavam os olhos e diziam “A bênção, mãe”, sussurrando como pretendentes inteiramente sem graça. De umas semanas para cá, os homens ficaram mais fervorosos nessa reverência. Depois que Luzia trocou o chapéu pelo melaço, Antônio lhe deu um xale de linho bem comprido que ela passou a usar para proteger a cabeça do sol. Aquele xale, aliado à barriga que crescia, afetou os cangaceiros. Eles beijavam a barra suja do linho, punham pequenas oferendas de comida aos pés da moça e discutiam para ver quem carregaria a máquina de costura. Tempos atrás, Antônio os tinha convencido de que a presença de Luzia os protegia do mal; agora, até ele estava espantado com a força daquela veneração. Mas também estava orgulhoso. Luzia gostava do respeito que os homens vinham demonstrando, mas estava cautelosa também. Lembrava-se das estátuas amarradas nos telhados das casas, todas elas mutiladas como castigo por não terem cumprido bem a sua função. A veneração era sempre sujeita a certas condições. Ela percebia que aquela reverência dos cangaceiros estava ligada à ideia de sorte; eles a adorariam enquanto continuassem a ter sorte.

Nesse meio-tempo, o fotógrafo montou um pano de fundo com uma lona desbotada. Diante dele, pôs um banquinho e duas hastes de ferro com apoio para o pescoço. As tais hastes ficavam de pé, como umas chapeleiras, só que de altura regulável e com uns semicírculos de metal presos à parte superior.

– Não quero esse troço aí – berrou Antônio. – Isso é para cadáveres.

Assustado, o fotógrafo logo tratou de desmontar aquelas geringonças. Antônio baixou os olhos para fitar os geógrafos.

– E vocês, rapazes, fiquem quietinhos. Quero que a capital veja que estão vivos e bem.

O mais velho assentiu. Tinha perdido boa parte da gordura do rosto e, com isso, a pele ficou flácida e as faces, encovadas. O mais moço continuou olhando fixamente para a frente, ignorando o capitão.

– Tire esse banquinho daí também – disse o cangaceiro.

O fotógrafo coçou a cabeça queimada de sol.

– Desculpe, capitão, mas a dona não deveria se sentar?

– Não. Ela vai ficar de pé. Não vai, minha santa?

Luzia aquiesceu com um aceno de cabeça. Bem depressa, porém, lembrou-se da vista fraca do marido e, encarando-o, disse:

– Claro que vou.

O fotógrafo levou o banquinho embora. Os cartógrafos se sentaram diante da tela estendida. Antônio se pôs de pé atrás deles e Luzia tomou seu lugar ao lado do marido. Ele virou o olho são para fitá-la. Ajeitou os óculos da mulher e, depois, passou a mão pelas suas costas e pôs a sua trança para a frente. Era uma trança grossa e pesada, cuja ponta lhe batia nos quadris. Luzia tinha descumprido a promessa feita na infância a santo Expedito; quando fez 18 anos, não cortou o cabelo para depositá-lo no altar do santo, como tia Sofia havia determinado. Com promessa ou sem promessa, Antônio não queria nem ouvir falar dessa história de sua mulher usar cabelo curto como aquelas mulheres lá da capital. Levou então a trança à boca e a beijou. Mais uma vez, o fotógrafo se curvou, escondendo-se debaixo do véu cinzento, e ergueu as lâmpadas do flash. Luzia estava com dor nas costas. Adoraria que Antônio tivesse deixado que usassem aquelas hastes de ferro para apoiar o pescoço e manter o corpo ereto.

Como se pudesse ler os seus pensamentos, ele lhe disse:

– Ajeite as costas, minha santa.

As lâmpadas do flash espocaram em fila, deixando no ar uma nuvem de fumaça. Luzia passou vários minutos vendo aqueles círculos brancos de luz. Mesmo quando fechava os olhos, eles ficavam flutuando na escuridão por trás das suas pálpebras, como se estivessem aprisionados ali dentro.

Em vez de desmontar o tripé e o pano de fundo, o fotógrafo introduziu outra placa na câmera. Às suas costas, Baiano, Fala Mansa e Ponta Fina conversaram com as mulheres que rezavam e as foram escoltando delicadamente até a capela da cidade, afastando-as do local das fotos. No céu, o sol era uma bola alaranjada, como uma gema de ovo. Os cartógrafos se remexiam, encalorados com aqueles casacos já esmolambados. Luzia ficou observando o fotógrafo recalibrar a câmera.

– O seu rosto está muito pálido – disse Antônio, segurando-a pelo cotovelo aleijado. – Não comeu?

– Não aguento mais farinha – respondeu a moça. – Toda ela está velha.

Não era o gosto amargo da mandioca que a deixava enjoada, mas aquela textura encaroçada e borrachenta. O seu estômago se revirava sempre que os homens despejavam a farinha no prato de feijão.

– Vou tentar conseguir fubá para você – retrucou o cangaceiro, puxando-a pelo braço para tirá-la do sol. – Devia comer rapadura. Para ter mais energia.

– Não desperdice comida – replicou ela. – Estou ótima. Foi só o flash. Meus olhos ficaram doendo.

– Vai valer a pena – afirmou ele. – Agora, todos vão nos ver. Vão nos mostrar à capital! Vão ver que não somos vagabundos.

– Isso mesmo – aquiesceu Luzia. – E vamos receber o resgate.

O lado bom do rosto de Antônio se retorceu. Ele enxugou o olho congestionado.

– Vá se sentar lá na capela, minha santa. Fique junto com as mulheres que estão fazendo a novena.

– Ele vai tirar mais um retrato – retrucou ela, balançando a cabeça. – Vi quando pôs outra placa na máquina.

– Não quero que fique aqui para essa foto.

– Por que não? – perguntou Luzia, subitamente com raiva.

A história do resgate não tinha sido ideia sua? Não fora ela que escrevera o telegrama?

– Não é bom para você ver sangue – respondeu Antônio.

Luzia se enrijeceu. Uma mulher grávida não devia ver mortes. Não devia atravessar água corrente. Não devia tocar nas escamas de um lagarto, nem brincar com gatos ou cachorros para que o bebê não saísse parecido com esses bichos. Não devia apoiar qualquer objeto na barriga, pois eles podiam deixar uma marca no rosto da criança. Usar uma chave pendurada no pescoço poderia fazer o bebê nascer com lábio leporino. Olhar um eclipse escureceria a pele da criança, deixando-a manchada ou preta. Luzia já tinha ouvido todos esses preceitos, mas não acreditava em nada disso.

– Que sangue? – insistiu ela.

– Desses cartógrafos – disse o cangaceiro. – Hoje é o último dia de vida deles.

Luzia sentiu no peito um aperto já familiar; era o medo que tinha sempre que atirava, medo de errar o alvo e também de não errar.

– Ainda não recebemos o resgate – observou a moça.

Antônio estalou a língua, em sinal de repreensão.

– Acha mesmo que eles vão pagar? O doutor tinha razão. A capital vai apenas substituí-los. Temos de lhes enviar uma mensagem. Caso contrário, vão achar que mandam em nós – respondeu ele, com as mãos nos ombros da mulher. – Nunca contei com esse dinheiro. Fiz isso para mostrar a Vargas que podia fazê-lo, que podíamos fazê-lo. Eles não estão querendo cabeças? Pois vão tê-las.

A moça olhou para os cartógrafos. O mais moço estava acintosamente virado para trás, tentando ouvir a conversa do casal. O mais velho enxugava a testa. Durante as aulas que lhe dera, ele sempre foi sério e delicado. Explicou o traçado da futura rodovia sem fazer com que Luzia se sentisse ignorante ou idiota. Em troca, a moça lhe contou sobre o pedido de resgate; disse-lhe para ser respeitoso e paciente, pois assim sobreviveria.

– Eles não fizeram nada de errado – observou ela. – O mais velho jamais o insultou.

– Medir a estrada me insulta.

– Por quê?

Antônio balançou a cabeça.

– Homens como Eronildes acham que podemos convidar o diabo para jantar – disse ele. – Acham que ele vai comer o que lhe servirmos e, depois, nos agradecer com toda a educação. Sei que não é assim. Primeiro, Vargas vai querer uma estrada. Depois vai querer duas, três. Em seguida, vai querer a terra que fica junto das estradas, e a terra que fica além delas. Não vou permitir que ele chegue a esse ponto. Não vou deixar o diabo passar pela minha porteira.

– Você não tem porteira nenhuma – retrucou Luzia, friamente. – Não temos nada de nosso.

Antônio fechou os olhos. A pálpebra do olho embaçado demorava um pouco mais para baixar e este a fitou com um ar acusador por alguns segundos, depois que o outro já tinha desaparecido.

– Temos o nosso nome – replicou ele. – Temos as histórias que as pessoas contam. Temos esses retratos e temos um rosto. Vamos impressionar a todos. E isso vale mais que qualquer casa ou porteira.

– Devíamos soltá-los – disse a moça.

Antônio voltou a abrir os olhos. Segurou os ombros da mulher com força e seus polegares pressionavam o espaço acima dos ossos da clavícula.

– Acha que esses cartógrafos a respeitariam se não tivesse uma arma? Se não fosse a Costureira?

Luzia balançou a cabeça. Sentia a saliva grossa na garganta.

– Minha santa – prosseguiu ele, afrouxando a pressão das mãos. – Essa vida não é como as roupas. Não podemos vesti-la hoje e tirá-la amanhã. Mesmo que tivéssemos terras, ninguém nos chamaria de fazendeiros. Continuaríamos sendo cangaceiros. Pior: cangaceiros que desertaram. Vargas continuaria querendo a nossa cabeça. Sempre haveria algum coronel louco para nos enfrentar por não poder pisar no nosso pescoço, e outro querendo se dizer nosso amigo, nos convidando para comer à sua mesa e nos odiando por estarmos ali. Não há escapatória para gente como nós.

– Não é conosco que me preocupo – disse Luzia.

– Ele vai nascer – retrucou o cangaceiro, passando a mão pela barriga da mulher. – Prometo que vai.

– E depois?

– Lembra o que o coronel Clóvis dizia sobre as cabras? Se quisesse capturar a mãe, bastava pegar o cabrito.

Luzia sentiu uma vertigem. Inclinou-se ligeiramente para a frente, fazendo pressão contra a mão do marido. Ele a ajudou a se firmar.

– As pessoas sempre tentam se aproveitar da fraqueza – prosseguiu Antônio. – Não podemos ficar com a criança. Vamos confiá-la a um amigo. Aquele padre, lá de Taquaritinga, de quem você sempre fala...

– Logo, logo vou estar bem grande – retrucou ela. – Não vou aguentar. Nem vou conseguir lutar.

– Vai, sim – disse ele, pondo a mão no seu pescoço e virando o seu rosto delicadamente, até se olharem nos olhos. – Vai conseguir. Por mim. Preciso da sua visão, minha santa. Preciso da sua pontaria.

Os dedos de Antônio acariciaram o seu pescoço. Luzia fitou o centro leitoso daquele seu olho defeituoso. Estava azulado e reluzia ao sol, como um laguinho redondo. O que será que ele conseguia enxergar? Como ficaria o mundo visto através de uma lente tão enevoada? Tudo seria cheio de sombras? Todas as formas pontiagudas pareceriam achatadas, de tal forma que ele não pudesse distinguir o que era perigoso e o que não era, de tal forma que tudo tinha se tornado um mistério e uma ameaça? Luzia se condoeu dele, embora já tivesse ouvido Antônio lançar mão desse estratagema para estimular os seus homens. Ele usava as próprias falhas para fazer os outros se sentirem indispensáveis. Inspirava lealdade revelando as suas limitações, e medo, conseguindo superá-las. Luzia ficou com ódio da própria suscetibilidade e da perspicácia do marido. Ele tinha razão: na caatinga, até os animais exploravam a fragilidade. O próprio afeto era uma fraqueza; isso era algo que Antônio também tinha lhe ensinado. Por isso, o filho de ambos estaria sempre em perigo. Seria melhor que vivesse em algum outro lugar, longe dela e da vida que havia escolhido. Era isso que a deixava ainda mais furiosa: a escolha tinha sido sua. Livrou-se da Vitrola, e, em vez de se libertar, trocou esse nome por outro. Optou por se tornar a Costureira sem compreender tudo o que teria de abandonar. Coisas a que não dava valor antes, como uma casa, uma vida pacata em família, agora estavam inteiramente fora do seu alcance.

– Eles vão construir a estrada – disse ela, desvencilhando-se da mão de Antônio em seu pescoço.

– Acha que vão me vencer? – perguntou ele, piscando os olhos.

A resposta errada ia magoá-lo. Luzia sabia disso, mas não pôde se conter.

– Acho – respondeu.

Antônio se afastou. Chamou Orelhinha para ficar ao seu lado diante da câmera. Mandou que o fotógrafo preparasse tudo e erguesse as lâmpadas do flash. Agarrou então os cartógrafos pelo colarinho e os puxou, tirando-os daquela posição com as pernas cruzadas. Obrigou-os a se ajoelhar, baixar a cabeça e rezar. Orelhinha sacou do facão. Antônio pegou emprestado o de Ponta Fina. Luzia se virou, mas não conseguiu tapar os ouvidos. As lâminas desceram com um assobio. Quando atingiram o alvo, ela ouviu uns ruídos surdos, como duas cabaças cheias de água caindo no chão. O flash espocou e soltou fumaça.

 

7

 

Diário de Pernambuco o , 1 de maio de 1932

 

Ape sar da morte de mais cartógrafos, a Transnorde stina pe rmane ce viva

por Joaquim Cardoso

 

A situação no sertão continua grave. Três outros cartógrafos enviados pelo Instituto Nacional de Estradas de Rodagem foram mortos pelos

cangaceiros comandandos pelo célebre “Carcará”. Um quarto profissional, João Almeida, foi poupado e incumbido da missão de notificar

os assassinatos. Abalado e exausto, o bravo Sr. Almeida chegou a um pequeno povoado e relatou a terrível história da morte de seus

colegas. Capturados na trilha de gado, famosa pela falta de segurança, os cartógrafos tiveram os seus pertences roubados e foram

decapitados. O Sr. Almeida teve a vida poupada para poder entregar um bilhete ao nosso estimado presidente. A audaciosa mensagem

(transcrita abaixo) foi redigida num cartão de visitas timbrado.

Senhor,

É uma pena homens perderem a cabeça nos dias de hoje. Mantenha a sua no litoral. Manterei a minha na caatinga.

Com todo o respeito,

Governador Antônio Teixeira, vulgo Carcará.

 

Há três semanas, este jornal divulgou fotografias de Osvaldo Cunha e Henrique Andrade, os primeiros cartógrafos do governo

executados pelos cangaceiros. O retrato do bando (reimpresso abaixo) mostra os ditos funcionários ainda vivos, de joelhos diante dos seus

sequestradores. A outra foto – considerada imprópria pelos padrões de gosto e decência deste periódico, principalmente no que diz respeito

às nossas leitoras – mostra o “Carcará” e um comparsa mestiço de pé atrás dos cartógrafos, tendo nas mãos a cabeça decepada das

vítimas.

Tais fotos, embora deploráveis, ilustram o ridículo dos cangaceiros. Os bandidos andam tão grosseiramente enfeitados que parecem

estar vestidos para um baile de Carnaval. O seu chefe, o tal “Carcará”, tem a aparência de um simples matuto. O Dr. Duarte Coelho

analisou a fisiologia facial da “Costureira”, esposa do Carcará, e determinou que se trata de um “tipo criminoso nitidamente perigoso e

irregenerável”. O cartógrafo sobrevivente, João Almeida, disse às autoridades que, durante o seu encontro com os cangaceiros, notou que

aparentemente a Costureira está grávida. A insistência da cangaceira em participar dos confrontos apesar da gravidez prova que, para

esses tipos criminosos, nem mesmo a maternidade é sagrada.

O tenente Higino Ribeiro prometeu pôr fim à ilegalidade que reina na nossa zona rural. Não pode, contudo, cumprir essa promessa sem

o auxílio de tropas. Em razão da recente rebelião ocorrida em São Paulo, o nosso estimado presidente Vargas está sendo forçado a manter

a maior parte das tropas federais nessa metrópole tão impatriótica. A oposição que São Paulo vem fazendo à revolução está custando

muito caro ao resto do Brasil. Essa rebelião é uma dramática ilustração de como grupos radicais podem causar danos à estabilidade da

nossa nação. Destacados periódicos, tanto do Rio de Janeiro quanto de Minas Gerais, publicaram as fotos horripilantes do Carcará

acompanhadas de artigos sarcásticos. Os sulistas podem fazer chacota dos nossos cangaceiros, mas, na verdade, o “exército de pele

escura” do Carcará não é diferente do flagelo comunista do Sul ou dos paulistas que apoiam a velha república. Nenhum deles pode ser

ignorado.

Apesar da falta de tropas, o tenente Higino traçou um plano para desbaratar a rede do cangaço. Esse plano visa a dois objetivos

principais: em primeiro lugar, encontrar todos os “coiteiros”, em geral aliados ou familiares dos bandidos, e encorajá-los a serem patriotas.

Em segundo lugar, oferecer incentivos em dinheiro pela captura dos cangaceiros, vivos ou mortos. O Dr. Duarte Coelho elevou a sua

recompensa já bem generosa: qualquer cidadão patriota que lhe trouxer a cabeça da Costureira, juntamente com a de seu filho, receberá

50:000$000 (cinquenta contos de réis). Uma vez que os crânios serão usados para estudos científicos, exige-se apresentação de prova da

sua identidade para que a recompensa seja paga.

Os corpos dos cartógrafos brutalmente assassinados serão transportados para o Recife. Vítimas de uma violência sinistra e

desnecessária, esses profissionais morreram por uma causa nobre. A Transnordestina, parte do Projeto Nacional de Estradas de Rodagem,

criado para unir o país ao longo dos próximos quinze anos, será uma grande artéria ligando o Nordeste não apenas ao resto do Brasil, mas

também à prosperidade. Carros de boi e tropas de mulas são arcaicos em comparação com o automóvel. O rio São Francisco é uma via

pouco confiável para o escoamento dos nossos produtos agrícolas. Como podem os nossos moinhos têxteis produzir tecidos de qualidade

quando o nível do rio está baixo demais para que as barcaças transportem o algodão? Como pode o Nordeste competir com os nossos

vizinhos do Sul quando o nosso crescimento depende de um “Velho Chico” neurastênico?

A Transnordestina é a melhor solução para nós. Em função das condições extremamente secas do sertão e das constantes ameaças

aos cartógrafos, o Instituto Nacional de Estradas de Rodagem está considerando uma solução radical para a mensuração da região: o

mapeamento aéreo. O “capitão” honorário, Carlos Chevalier, ofereceu-se para pilotar o aeroplano e sobrevoar a região na companhia de

um cartógrafo e um fotógrafo.

Atualmente, o instituto está fazendo propostas generosas aos proprietários das terras situadas às margens da estrada projetada. Tais

proprietários estão sendo encorajados a agir como patriotas. A sua subsistência não será absolutamente afetada. Os terrenos próximos à

futura rodovia valerão muito mais que qualquer plantação de algodão ou pasto para gado. Os viajantes vão precisar de restaurantes e

pousadas, e as companhias de petróleo pagarão preços generosos para instalar os seus postos de abastecimento. Mas as recompensas

financeiras não são os únicos incentivos. Como diz o presidente Vargas, “os patriotas não vão ajudar apenas a construir uma rodovia. Eles

vão construir uma nação”.

8

 

No Domingo de Ramos, não havia na caatinga qualquer folha verde que os moradores pudessem colher e levar até o padre. Na Sexta-Feira Santa, a Procissão do Senhor Morto foi mais solene que de costume, sem flores ou frutas para enfeitar o esquife funerário do Cristo. Por outro lado, havia muito capim seco e folhas mortas para encher os bonecos representando Judas. No Domingo de Páscoa pela manhã, de um lado a outro da caatinga adultos andavam catando gravetos para, juntamente com as crianças, malhar a figura do traidor. Nessas épocas de seca, era difícil imaginar a ressurreição, mas não o julgamento. Os habitantes da região condenavam o Velho Chico por estar ficando cada vez mais raso e transformando os seus afluentes – o Moxotó e o Mandantes – em meros regatos estreitos. Condenavam as suas colheitas perdidas. As mães se censuravam por comer as últimas lascas de carne-seca que tinham guardado para os filhos. Os vaqueiros amaldiçoavam os grossos espinhos do mandacaru, que, mesmo depois de terem sido chamuscados ao fogo, permaneciam encravados na polpa carbonizada da planta, cortando a boca dos rebanhos famintos. Amaldiçoavam também as moscas que infestavam a boca ensanguentada dos animais. E se amaldiçoavam por terem inveja dessas moscas.

Antônio sentia a mesma raiva impotente, mas não culpava a natureza pelos seus problemas. Culpava Getúlio Vargas.

– Ele vai abrir uma estrada, mas não pensa em abrir poços! – dizia o cangaceiro toda noite, quando acabava de rezar. – Manda cartógrafos, mas não comida! Gasta um bom dinheiro em estradas, mas nem um tostão em represas!

Pela primeira vez, Antônio tinha uma causa contra a qual se bater. Tinha encontrado um objetivo. Antes, a sua missão era simplesmente viver do jeito que lhe desse na telha, sem ter um coronel para lhe dar ordens. Coronéis e cangaceiros viviam em meio a uma intricada rede de favores e proteções. A estrada, porém, nada tinha de complicada. Ia cortar a caatinga numa série de pedaços disparatados, como uma jaca fatiada. Antônio não lhe devia lealdade, nem respeito. Quando Vargas declarou que tudo o que estivesse no caminho da Transnordestina teria de abrir espaço para ela, o cangaceiro decidiu que não acataria essa determinação.

A maioria dos homens do bando concordou. Antônio era o seu chefe, o seu capitão, e, se declarava que uma cobra era venenosa ou uma planta, perigosa, todos acreditavam nele. Com a ameaça da Transnordestina, as coisas não eram diferentes. Só que a estrada não era real, por enquanto. Os canteiros de obras ainda estavam muito longe, perto do litoral; portanto, não havia engenheiros, operários ou animais de tração que pudessem atacar. A ameaça da rodovia era coisa futura e os cangaceiros haviam sido condicionados a pensar apenas no presente. Uns poucos homens, especialmente Orelhinha, queriam um inimigo tangível, alguém que pudessem combater de imediato. A decapitação dos cartógrafos o tinha deixado satisfeito, mas não por muito tempo. Depois que o bando do Carcará capturou e executou seis desses profissionais, não apareceu mais nenhum na trilha de gado.

Por volta do mês de junho, as únicas pessoas que se viam por ali eram os primeiros retirantes, fugindo da seca: mulheres e crianças equilibrando na cabeça umas trouxas enormes, rumando para o litoral antes que as coisas piorassem ainda mais. Os demais os tratavam com desprezo, chamando-os de “desertores” e “traidores”. Ninguém falava nesse tom com os coronéis. Os latinfundiários também estavam em estado de alerta por causa da seca iminente, e vários deles reuniram a família e deixaram a caatinga em trens de passageiros. Fugiam para suas casas de veraneio em Campina Grande, no Recife ou na capital da Paraíba, recentemente rebatizada com o nome de “João Pessoa”, em homenagem ao seu herói morto, ex-companheiro de chapa de Vargas. Era fácil os coronéis desconfiarem do novo presidente, pois ele era um estranho. Mas, agora que boa parte desses indivíduos estava indo se refugiar no litoral, aumentavam as possibilidades de Vargas se encontrar com eles. Luzia andava preocupada, achando que, quanto mais tempo os coronéis ficassem longe da caatinga, mais o presidente teria chance de cortejá-los.

O Instituto Nacional de Estradas de Rodagem começou a oferecer grandes quantias em troca de propriedades localizadas no trecho por onde passaria a Transnordestina e também ao seu redor. Como acontecia com a maioria das terras da região, essas propriedades pertenciam aos coronéis. Luzia não gostava dessa ideia, pois, agora, eles lucrariam com a construção da estrada. Antônio também estava desconfiado dessa traição dos coronéis. Assim como Orelhinha.

– Devíamos ter matado esses cabras quando tivemos chance – disse ele. – E tomado as terras deles.

Antônio ficou só olhando. As sombras da fogueira escureciam o seu rosto, fazendo as rugas de preocupação ou censura – Luzia não saberia dizer o que o marido sentia – que se formavam no lado bom da testa parecerem ainda mais profundas, mais exageradas. O lado desfigurado continuava distendido. Desde que o seu olho direito ficou inteiramente enevoado, esse lado do seu rosto não parecia mais tranquilo, e sim inexpressivo, como os olhos dos surubins que os cangaceiros pescavam no rio.

– E aí? – indagou Ponta Fina entre dentes. – Se tivéssemos matado todos eles, quem nos arranjaria munição? Você?

Os subcapitães e Luzia estavam sentados a certa distância do acampamento. Falavam em voz baixa para que os outros cangaceiros não ouvissem os seus planos ou as suas discussões. Antônio permitia o debate entre os subcapitães, contanto que todos falassem de forma respeitosa uns com os outros e voltassem para o acampamento como um bloco unido. Tinha lhes dado um lenço vermelho para usar no pescoço, indicando a posição que ocupavam. Como capitão, ele próprio usava um verde. Luzia tinha apenas um lenço azul esfarrapado, como os outros homens do bando, mas, sendo a sua “mãe”, tinha direito de participar daquelas reuniões. Quando ela falava, Orelhinha nunca a fitava. Sempre que ele dava uma opinião, Luzia via a pele morena e reluzente do queixo de Baiano se enrugar. Já quando este falava, com aquela voz baixa e tranquila, Orelhinha ficava batendo com o pé no chão. Ponta Fina reclamava dessa atitude. Era comum os dois cangaceiros discutirem.

– Não devíamos depender deles para ter munição – disse Orelhinha.

– Tínhamos de arranjar outro jeito. Aquele doutor podia conseguir armas para nós.

– Não – atalhou Antônio.

– Podemos tacar fogo na casa deles – insistiu Orelhinha. – Para mostrar que não os queremos de volta por essas bandas. Podemos dar um castigo nos seus vaqueiros, nas suas criadas que ficaram por aqui, cuidando de tudo para eles. Isso ensinaria essa gente a ser leal a nós, e não aos coronéis.

– O povo não tem culpa de nada – disse Antônio, balançando a cabeça. – Seus patrões os deixaram, apavorados pela seca. E se a seca realmente vier, poderemos ajudá-los. Conseguir-lhes comida. Ensiná-los a procurar o que comer e beber. Todos vão ficar agradecidos. É a nós que vão dever favor, e não aos coronéis ou a Vargas. E assim conquistaremos a sua lealdade. Aliás, vamos precisar dela quando essa estrada vier.

Recentemente, Antônio tinha revelado a Luzia que estava considerando a seca uma boa oportunidade. Seria a sua chance de conquistar efetivamente a confiança de arrendatários, comerciantes, vaqueiros e pastores de cabras que lutavam para sobreviver. Decidiu que lhes daria de comer durante os meses de estiagem, na esperança de que, com isso, toda essa gente ficasse do seu lado numa luta ainda maior: a que se travaria contra a Transnordestina.

Continuar: parte 4 de 4