Existência
Capítulo 9
— Não se parece nada com o nosso ginásio! AH! Este lugar não icou fantabuloso? — Miranda se virou, sorrindo para nós, extremamente satisfeita com a decoração. Ela estava certa. Tinham feito um excelente trabalho transformando o ginásio em uma noite estrelada à beira-mar.
— E impressionante — concordei, enquanto o braço de Leif me puxava para mais perto ao lado de seu corpo.
— Está com vontade de dançar? — ele perguntou quando começou a tocar uma canção lenta depois que acabou Just Dance, da Lady Gaga.
Balancei a cabeça e olhei em direção às mesas.
— Podemos icar de fora dessa? Acho que minha costela ainda não está boa para esse tipo de movimento.
Ele me guiou em direção às mesas enquanto Miranda agarrava Wyatt e o puxava para a pista de dança. Ri da expressão de dor de Wyatt e me virei para dizer algo a Leif, quando percebi que sua atenção estava focada na entrada. Seu semblante era uma carranca. Dank acabara de entrar, deslumbrante em jeans, uma camiseta preta e coturnos. Levei um momento para tirar os olhos dele e notar que Kendra estava colada ao seu lado. Ela havia sido derretida e derramada dentro do vestido vermelho que estava usando. Ou isso ou não era realmente um vestido, mas algo que ela havia pintado no corpo. O ciúme explodiu em meu peito ao ver o braço de Dank em volta de sua cintura. Olhei de volta para Leif, que ainda estava observando o casal com aversão.
— Você está bem? — indaguei, e ele desviou o olhar de Kendra e Dank.
Ele assentiu, parou e me observou por um momento.
— Você tem algumas aulas com Dank e já falou com ele algumas vezes, não é? — Fiz que sim, sem saber para onde isso estava levando, então esperei mais. — Algo sobre ele me preocupa. Kendra tem alguns problemas que a tornam instável e estou começando a me preocupar que Dank não seja o tipo de cara de que ela precisa. Ele parece sombrio e sinistro.
Meu ciúme foi esquecido e rapidamente substituı́do por raiva.
Leif achava que Dank não era bom o su iciente para Kendra, a vagabunda da cidade? Consegui segurar uma explosão de risos raivosos e olhei para a pista de dança, desejando poder escapar de alguma forma. Eu precisava me acalmar.
— O que foi? Você parece zangada. Não me entenda mal, eu não gosto da Kendra, Pagan. Não é disso que se trata. — Ele pegou meu outro braço e me puxou para icar de frente para ele. Sua expressão hostil anterior para Dank tinha desaparecido. Agora ele estava preocupado e, pela primeira vez, eu não me importei em amenizar sua preocupação. — Olhe para mim. Eu não a quero. Só quero você. Eu te amo, Pagan. Não é assim com a Kendra. Só não desejo que ela sofra. Ela tem…
— Problemas, sim, eu te ouvi — interrompi-o antes que me esquecesse e izesse uma cena. Respirei fundo, me lembrando de que estava levando aquilo para o lado pessoal por causa dos meus sentimentos por Dank. — Olha, se Dank Walker tem algum interesse em Kendra, ela deveria se considerar uma pessoa de sorte. Pelo que sei dele, ele é inteligente, honesto, talentoso e compassivo.
Olhei de volta para Leif, que parecia estar absorvendo minhas palavras. Eu queria dizer mais e continuar defendendo Dank, mas sabia que tinha dito o su iciente.
— Preciso beber alguma coisa. Já volto — falei, antes de me virar e ir embora. Foi abrupto, mas eu precisava colocar algum espaço entre minha raiva e Leif.
Miranda acenou para mim quando passei por onde ela e Wyatt estavam dançando. Forcei um sorriso, mas continuei andando. O vestido vermelho justo de Kendra chamou minha atenção e me virei para vê-la enrolada em Dank, rindo e dançando de uma maneira que faria os inspetores do baile virem atrás dela em questão de segundos. O ciúme pela maneira como Dank a segurava e a tocava de maneiras com que nunca tinha me tocado criou um nó no meu estômago. Eu não fui em direção à mesa de bebidas. Em vez disso, segui para as portas dos fundos. Precisava me afastar de Leif e Dank. Parei na porta. Ficar sozinha no escuro podia não ser uma ideia tão boa. A risada de Kendra soava nos meus ouvidos e eu decidi, naquele exato momento, que preferiria enfrentar a alma loira assustadora, que icava passando a mão em mim, a ver Dank abraçando Kendra.
A brisa noturna havia esfriado nas últimas semanas. Passei os braços ao redor da cintura e caminhei em direção ao campo de futebol americano deserto. As emoções agitadas dentro de mim me deram uma sensação de coragem. Continuei andando, me afastando da música e das risadas. Pensei no verão anterior, no rancho da minha tia e em como as coisas tinham sido tranquilas. Eu havia passado o tempo andando a cavalo e a ajudando a lidar com a morte do meu tio. Minha mãe sugeriu que eu fosse visitá-la para que ela não icasse sozinha. Concordei em ir, pensando que estar longe da cidade e das minhas lembranças de Jay ajudaria. Tinha acontecido isso, de certa maneira; porém, depois de algumas semanas, percebi que Jay e eu nunca tı́nhamos sido feitos um para o outro. Mais um ponto positivo sobre estar no rancho era que os encontros com as almas errantes pareciam esparsos. Tinha sido um breve respiro na minha vida. No entanto, nas últimas semanas do verão, eu estava ansiosa para voltar para casa. Olhei de volta para o ginásio e pensei em como as coisas tinham icado malucas desde o meu retorno.
— Por que você não está dançando com seu par? — A voz de Dank quebrou o silêncio e eu me virei para vê-lo encostado no muro de concreto. Dei de ombros e baixei a cabeça, como se estivesse analisando meus pés. Não queria que ele visse a dor ou o ciúme nos meus olhos. Já era ruim o su iciente; ele provavelmente já sabia. — Ele parece bastante desamparado sentado a uma mesa sozinho — Dank disse, baixinho, para a noite. Uma pontada de culpa no fundo do meu estômago não era su iciente para me mandar de volta para dentro. Dei de ombros novamente e não encontrei seu olhar investigativo. Ele riu e o som baixo e sexy provocou um arrepio em mim. — Então, você decidiu tentar esse negócio de me ignorar de novo para ver se eu vou embora? — perguntou, com um toque de humor na voz.
Mordi o lábio para não sorrir e balancei a cabeça em negativa.
— Eu sei que não funciona com você.
— Por que está aqui, Pagan? Qual é o problema? — ele indagou baixinho.
Olhei-o com relutância. Ele era tão incrivelmente lindo em pé ali com os braços cruzados na frente do peito. O cabelo escuro que se curvava nas pontas parecia dançar com a brisa.
— Nada que que seja da sua conta — menti.
Ele inclinou a cabeça para o lado e me lançou um sorriso malicioso.
— De verdade?
Fiz que sim.
— De verdade?
Suas mãos caı́ram para os lados quando ele se afastou da parede e deu um passo na minha direção.
— Me ver dançar com Kendra não te incomoda? — perguntou ele em um sussurro rouco.
Balancei a cabeça e desviei o olhar, recusando-me a me afastar de sua proximidade. Seus olhos ixaram-se em mim com tanta intensidade que era como se ele estivesse realmente me tocando. Meu coração começou a bater forte contra minhas costelas. Olhei para Dank. Seus olhos percorreram rapidamente meu vestido e voltaram para o meu rosto.
— Eu sabia que rosa-claro combinaria com você. Na maioria das garotas não ica bem, mas em você é perfeito.
Engoli em seco, com medo de que meu coração saı́sse pela boca. Eu não queria pensar sobre a forma como seu olhar fazia cada célula do meu corpo ganhar vida.
— Você acha que eu não quero te tocar do jeito que toco na Kendra. Você está certa. — Suas palavras me atacaram como água gelada e eu me afastei como se ele tivesse acabado de me dar um tapa. Meu coração acelerado se contraiu e eu tomei uma rápida inspiração de ar, com medo, por um momento, de não ser capaz de respirar. Ele estendeu a mão, agarrou a minha e me puxou contra si. — Quando toco na Kendra, estremeço mentalmente por ter que continuar a farsa de estar interessado nela.
Parei de tentar puxar minha mão da dele e olhei para seu rosto. Aquilo soava como algo que eu queria ouvir.
— Quando não consigo controlar minha necessidade por você e me permito tocá-la, tal monstro desperta dentro de mim que temo perder o controle. Você me faz sentir coisas que nunca senti antes. Algo acontece… — ele parou por um instante e baixou os olhos dos meus para a boca — … quando ico perto de você assim. — Ele tocou meus lábios com a ponta do dedo e eu tremi. Dank fechou os olhos como se sentisse dor. — E, quando você reage desse jeito, sinto garras se cravando em mim e me encorajando a tomar o que quero.
Ele abriu os olhos e me encarou com uma intensidade que teria me assustado se eu não tivesse con iado nele tão completamente.
— Você é a única coisa que eu mais quero no mundo, mas a única que não posso ter. Porque possuı́-la completamente seria impossı́vel. Você não pode ir para os lugares onde eu ando. — Ele parou e envolveu meu rosto nas mãos. — O propósito da minha existência não é ter uma companheira. E solitário e frio. Até agora, isso foi tudo o que conheci. Então você foi marcada e tudo mudou. — Ele tirou as mãos de mim e recuou, um desespero dolorido nublando seus olhos. — Vá, Pagan. Corra, por favor, corra. Eu não sou o que você pensa. Não sou “inteligente, honesto, talentoso e compassivo”, embora ouvir você dizer essas palavras em minha defesa tenha sido como um lı́quido quente escorrendo pelas minhas veias frias. Você quer saber o que sou e não posso te dizer. Se soubesse, eu não teria que implorar para você correr.
Ele rosnou e se afastou de mim, caminhando rumo à escuridão. Eu não podia deixá-lo ir. Corri atrás e ele se virou abruptamente. Seu olhar zangado me surpreendeu e eu congelei. A raiva pareceu deixá-lo imediatamente e uma expressão torturada apareceu em suas feições perfeitamente esculpidas. Perdi o fôlego com a transformação.
— Não me importa o que você seja — falei, dando um passo em sua direção. — Você não pode me assustar e eu não vou fugir. Qual é a música que você canta para mim? “Apesar disso, você ica. Segurando-se em mim, apesar disso, você ica, estendendo a mão que eu afasto. O frio não é feito pra você, mas você ica, você ica, você ica. Quando eu sei que não é certo pra você” — repeti suas palavras para ele na escuridão. Seu rosto se contorceu de dor.
— Vá, Pagan. Agora. Não consigo me controlar por muito mais tempo — ele sussurrou na escuridão.
Dei mais um passo em sua direção. Um rosnado baixo irrompeu de seu peito e ele me agarrou em um movimento rápido. Sua boca encontrou a minha no mesmo instante. Seus dentes mordiscaram meu lábio inferior e, em seguida, ele gentilmente passou a lı́ngua sobre a mordida. A primeira vez que provei seu gosto fez meu mundo girar. De alguma forma, eu sabia que seria assim. Agarrei um punhado de sua camiseta. Eu precisava mantê-lo contra mim,
inalmente me permitindo ter o que eu estava desejando. Seus
braços se apertaram em volta do meu corpo e eu ouvi um gemido na escuridão, mas não tinha certeza se era dele ou meu. Meu propósito de vida estava completo. Não havia nada mais que eu quisesse ou desejasse mais do que aquilo. Uma escuridão nos puxava, eu não conseguia entender o que era exatamente, mas, mesmo através da névoa de prazer, eu sabia que estava ali. Dank fez uma trilha de beijos no meu pescoço e murmurou palavras que eu não entendia. Soltei sua camiseta para segurar seu rosto, trazendo avidamente sua boca de volta para a minha. Suas mãos subiram devagar pelas minhas costas e deslizaram sobre minhas costelas. Minha respiração enroscou na garganta quando seus polegares roçaram a parte lateral do meu seio. Dank afastou a boca da minha, ofegando ruidosamente. Fiquei excitada ao vê-lo tão necessitado quanto eu por aquele momento.
— Não posso, Pagan. Quero com todas as minhas forças, mas não posso.
Em um piscar de olhos, eu estava sozinha, sentada na grama fria no meio do campo de futebol americano. Com a respiração irregular, minha cabeça girava. Onde estava Dank? Meus olhos procuraram freneticamente na escuridão por ele. Por que ele tinha me abandonado? A sensação de euforia havia desaparecido com ele e meu corpo doı́a por causa da perda.
— Pagan? — uma voz preocupada chamou atrás de mim.
Não me virei porque reconheci a voz de Leif. Ele tinha vindo me procurar e ali estava eu, com meu vestido rosa-claro, comprado para outro cara, no meio de um campo de futebol deserto. Talvez eu estivesse enlouquecendo. Ele se ajoelhou na minha frente com medo e preocupação gravados em seu rosto bonito.
— Deus, você me assustou. Eu saı́ te procurando e te vi desmaiar ou cair… você está bem? Desculpe, Pagan, não queria te aborrecer. Por favor, me perdoe.
Ele segurava minhas mãos, mas o calor de seu corpo não conseguia penetrar no frio que se in iltrava em mim pouco a pouco. Olhei para ele, sabendo que eu tinha de dizer algo, mas o quê?
— Não tem problema. Só não estou me sentindo bem. Minha cabeça. — Toquei-a para causar efeito. — Sinto muito, mas eu só quero ir pra casa.
Ele se levantou e me ajudou a levantar também, passando o braço em volta da minha cintura como meio de apoio. Caminhamos em silêncio pelo campo e entramos no estacionamento escuro. Eu não tinha certeza se ele estava com raiva ou magoado, mas agora eu só precisava icar sozinha. Minha mente não parecia conseguir assimilar tudo o que acabara de acontecer e eu sabia, no fundo, que tinha esperanças de Dank estar no meu quarto aguardando por mim.
Não falamos nada durante todo o trajeto para casa. Eu odiava o silêncio, mas não havia como explicar o que acontecera. Quando parou na entrada da garagem, ele desligou o carro e olhou para mim.
— Espero que você possa me perdoar por ter te chateado. — Ele soltou um suspiro de desgosto. — Lá vou eu, todo preocupado com a vida pessoal da Kendra, e acabo magoando com a minha idiotice a única garota que já amei. — Ele parou e balançou a cabeça. — Você ainda está se recuperando de algo que fui eu que causei. Você nunca reclama, mas sei que ainda está lidando com os efeitos tardios do seu acidente. Não sei se vou conseguir me perdoar por deixar minha boca estúpida te chatear tanto a ponto de você… — ele gesticulou como estivesse indicando o campo de futebol americano a quilômetros de distância — … sair sozinha e desmaiar por causa do estresse que provoquei.
Não aguentava mais ele se culpando pelo acontecimento. Me forcei a sair daquela minha névoa de confusão e peguei sua mão.
— Leif, me escuta. O que aconteceu hoje não é culpa sua. Não tenho certeza exatamente do que aconteceu, mas ninguém é culpado, exceto talvez eu. Você não teve nada, nada mesmo, a ver com aquilo.
A pequena centelha de alı́vio em seus olhos não foi forte o su iciente para compensar sua expressão torturada. Ele puxou minha mão até a boca e a beijou.
— Eu te amo, Pagan Moore. — Ele tinha dito muito essas três palavras naquela noite.
No entanto, eu sabia que não podia dizer o que ele queria ouvir. Leif era especial para mim, mas eu não o amava; pelo menos não do jeito que ele queria. Então iz a única coisa em que consegui pensar. Inclinei-me e beijei-o suavemente nos lábios, depois me virei e saı́ do carro. Segui para a porta sem olhar para trás.
Meu quarto estava vazio, mas, de alguma forma, eu sabia que estaria. Algo tinha acontecido naquela noite. Eu não sabia o que era, mas entendia que era importante. Fui até a poltrona onde Dank passava as noites e me acomodei nela. Esta noite ele não viria. Eu precisava estar perto dele e essa aparentava ser a única maneira. O silêncio parecia me cortar como uma faca. Lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto. Senti falta da sua voz enchendo meu quarto com calor. Eu não queria que ele fosse embora. O medo de que ele tivesse partido doı́a tanto que apertava minhas vias respiratórias. A alma loira que tinha me assustado não parecia mais importante. A ausência de Dank fazia meu peito doer. Eu não aguentava mais o silêncio, então comecei a cantar baixinho na escuridão.
— Apesar disso, você ica. Segurando-se em mim, apesar disso, você ica, estendendo a mão que eu afasto. O frio não é feito pra você, mas você ica, você ica, você ica. Quando eu sei que não é certo pra você.