Existência

Abbi Glines · Capítulo 3 de 22

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Existência

Capítulo 3

Eu estava em pé na sala de estar da minha casa, frustrada por perder o controle da situação, quando encontrei Leif. Tinha visitado a biblioteca, preparada para programar nossas aulas particulares, e até iz anotações no caderno que o sr. Yorkley deu a todos os tutores. Tive o trabalho de criar um cronograma para Leif usar, anotando os dias e horários das nossas sessões. Escrevi instruções para ele sobre o que levar e como fazer anotações na aula. Tudo parecia certo e de inido; no entanto, nada saiu como planejado. Eu não tinha levado em consideração que estudar com Leif no último perı́odo seria impossı́vel, pois todos os jogadores de futebol americano precisavam se apresentar em campo nesse horário. Eu também não tinha pensado em seus treinos à tarde nem no emprego noturno que ele tinha na loja de surf do tio. A campainha tocou antes que eu pudesse icar mais chateada por nada ter acontecido da maneira como eu havia planejado. Não consegui evitar minha irritação ao abrir a porta.

Leif sorriu sem jeito.

— Desculpa mesmo por isso. Eu me sinto mal por você ter que se adaptar à minha programação. Sei que sete da noite é tarde e, bem, me desculpe por isso.

A raiva que fui acumulando dentro de mim durante todo o im do dia, enquanto eu pensava em ter que me adaptar a Leif, evaporou. Ele parecia sincero e um pouco nervoso, mas não era assim que eu esperava que agisse. Onde estava sua arrogância? Ele era sempre tão gentil? Com certeza não. O cara tinha namorado a bruxa malvada da costa Sul por dois anos.

Eu recuei para deixá-lo entrar.

— Não tem problema. Vá em frente e sente-se à mesa e eu vou

pegar algo para a gente beber. Você gosta de cerveja-de-raiz? 1 — perguntei, caminhando em direção à geladeira para não ter que olhar para ele.

— Seria ótimo, obrigado.

Demorei, tirando os refrigerantes da geladeira e abrindo-os antes de voltar para a mesa da cozinha. Seria a primeira vez que eu realmente conversaria com Leif, além das breves trocas de palavra daquele dia e do anterior.

— Trouxe a programação das aulas e tudo o que se espera nesse curso. Tenho uma semana até a primeira apresentação e precisa ser sobre algum tema em que eu acredite fortemente.

Certo. Eu era uma tutora. Eu conseguiria. Ele era apenas mais um aluno que precisava da minha ajuda.

— Então, precisamos decidir pelo que você é apaixonado. — Ele riu e eu ergui os olhos de seu plano de estudos. — O quê? — perguntei, ao ver sua expressão de divertimento.

— Algo pelo qual eu seja apaixonado?

Revirei os olhos e levantei o plano de estudos.

— Você sabe, algo de que você goste muito porque acredita fortemente. Tipo seu propósito ou plataforma.

Ele acenou com a cabeça com seu sorriso divertido ainda no lugar.

— “Apaixonado”, gostei dessa ideia. Vamos pensar em algo que me apaixone.

Não era algo que ele deveria demorar muito para responder. Algum assunto de futebol americano ou relacionado a esportes devia estar girando na sua cabeça. Estendi a mão para abrir o caderno.

— Tem alguma ideia? — indaguei.

Ele parecia perdido em pensamentos, o que me surpreendeu um pouco. A qual profundidade alguém poderia chegar quando pensava em futebol americano?

— A importância da adoção.

Comecei a escrever a resposta dele enquanto assimilava suas palavras lentamente. Adoção? Ele queria escrever sobre adoção?

— Tudo bem — respondi, me perguntando se ele pretendia elaborar melhor a ideia de por que gostaria de fazer uma dissertação com esse tema. Eu concordava totalmente com ele, mas como o sr. Popular poderia ser apaixonado por algo tão relevante?

Ele itou o lápis na mão e o girou para frente e para trás entre os dedos. Percebi que estava decidindo como me explicar por que queria escrever sobre adoção. Então tratei de manter a boca fechada e esperar. Por im, ele olhou para mim.

— Fui adotado depois de morar em lares adotivos por cinco anos. Quando iz nove anos, eu já tinha perdido a esperança de ter uma famı́lia, porque a maioria das pessoas quer bebês. Eu tive uma chance com a qual a maioria das crianças órfãs de nove anos apenas sonha.

Se ele tivesse falado comigo em chinês luente, eu não teria icado mais chocada. Adotado? Leif Montgomery? Sério?

— Nossa, eu não fazia ideia. Eu, hum, consigo entender por que esse seria um tema importante para você.

Quando eu disse que não conhecia Leif Montgomery, não tinha percebido como minhas palavras poderiam representar ielmente a realidade. O garotinho em um lar adotivo sem pais e com transtorno de aprendizagem não parecia se encaixar no cara que andava pelos corredores da escola Harbor High como o rei. As caracterı́sticas que eu não gostava em Leif agora pareciam conquistas impressionantes. Era possı́vel que eu o tivesse lhe dado um rótulo errado? Atletas fúteis não superavam as adversidades e conquistavam as coisas que Leif tinha conquistado. Eu o havia rotulado sem nem mesmo conhecer. Só porque as garotas icavam loucas por ele e todo garoto queria ser ele, Leif não era automaticamente um idiota. A única pessoa idiota naquela sala era a garota elitista e preconceituosa. Eu.

— Você ouviu a parte em que fui adotado, certo? — Sua voz interrompeu meus pensamentos e olhei para ele, confusa. Um sorriso apareceu em seus lábios. — Você parece tão perturbada que achei que talvez não tenha ouvido a parte do inal feliz.

— Desculpa. E que, bem, eu não esperava por isso. Você meio que me surpreendeu.

Ele se recostou na cadeira.

— Parece que você já tinha muitas ideias no que diz respeito a mim. Com certeza você já pensou muito sobre alguém de quem não gosta tanto assim.

Meu rosto foi icando quente e eu sabia que começava a ganhar um tom forte de vermelho.

— Quem sabe, Pagan, você pode acabar gostando de mim antes que isso acabe.

 

Levamos três noites consecutivas de aulas particulares para prepararmos a apresentação. Também levei apenas três noites para perceber que realmente gostava do quarterback estrela de Harbor High. Leif Montgomery não era nada do que eu sempre tinha pensado. Ainda me sentia culpada pelo estereótipo que havia criado sobre ele. Apesar disso, só porque passávamos duas horas juntos todas as noites, nada mudou na escola. Embora Leif sorrisse e acenasse com a cabeça quando nos vı́amos nos corredores, não parecı́amos ter, no dia a dia da escola, aquele tipo de amizade descontraı́da que parecı́amos ter durante as aulas particulares.

— Belê, entããão, o lance é o seguinte: Wyatt e eu andamos conversado um pouco e ele me convidou para o baile. E isso signi ica que você terá que arranjar um garoto pra você ir também. Sei que tı́nhamos planejado ir ao cinema nessa noite, mas, bem… — Miranda piscou para mim do outro lado da mesa.

— Fico muito feliz em saber que você e Wyatt estejam se reconciliando. Eu odiava ver vocês dois bravos um com o outro.

— Eu também. Foi uma droga, não foi? — intrometeu-se Wyatt, enquanto se sentava ao lado de Miranda. Ela sorriu para ele e de repente me senti um pouco excluı́da.

— E a Pagan precisa de um par para ir também. Não podemos ir sem ela — disse Miranda, sorrindo para Wyatt.

— Tenho certeza de que Pagan pode conseguir um par, se quiser. — Ele deu uma mordida em seu hambúrguer.

Eu sabia que ele pretendia fazer o melhor para controlar as ideias que Miranda tinha de me juntar com alguém. Dei a Wyatt um sorriso agradecido.

— Não há ninguém com quem eu realmente queira ir. — Isso era mentira e eu sabia.

Obriguei-me a não olhar para a mesa de Leif, porque isso me denunciaria. Wyatt, no entanto, olhou para a mesa e de volta para mim com um sorriso malicioso. Felizmente, Miranda não percebeu a indireta sutil, e Wyatt decidiu não verbalizar seus pensamentos. A última coisa de que eu precisava era Miranda percebendo meu interesse por Leif.

— Mas sem você não vai ser divertido. — Miranda fez beicinho. Tomei outro gole do meu chá. Eu não queria discutir com ela sobre isso. — Qual é, Pagan, já se passaram seis meses desde que Jay foi embora. Também sentimos falta dele, mas ele foi morar em outra cidade. Você precisa começar a sair com outras pessoas.

Foi a primeira vez que a menção ao meu ex-namorado não me deixou triste. Comecei a namorar com ele no nono ano e ele estava no segundo do ensino médio. Após a formatura, em maio passado, ele foi para a faculdade e os pais se mudaram para outro estado. Nós dois concordamos que um relacionamento à distância seria muito difı́cil e então terminamos. No começo, eu iquei perdida. Achei que fosse um caso de desilusão amorosa. Não demorei muito para perceber que sentia falta do conforto do nosso relacionamento. No fundo, éramos apenas bons amigos. Gostávamos das mesmas coisas e nos importávamos com as mesmas coisas.

— Não é por causa do Jay. Eu simplesmente não conheci ninguém que me interesse.

O sorriso de Wyatt icou maior quando deu outra mordida no hambúrguer. Se ele não tomasse cuidado, eu o estrangularia até aquele sorriso bobo sair de seu rosto.

Miranda suspirou exasperada.

— E uma pena que você passe todas as noites com Leif Montgomery, sendo que você nem gosta dele. Eu simplesmente não entendo.

Wyatt ergueu as sobrancelhas para ela e franziu a testa.

— O que você está dizendo, Miranda?

Ela franziu os lábios e tentou fazer cara de paisagem.

— Ah, fala sério, Wyatt, você sabe que eu te amo. — Ele se abaixou e deu um beijinho nos lábios dela antes de voltar a comer. Ela direcionou sua atenção para mim com um sorriso bobo, e eu senti vontade de rir. — Só estou dizendo que, se você pudesse superar a antipatia que tem por ele, seria uma excelente oportunidade.

Pensei por um minuto em continuar deixando-a pensar que eu realmente não gostava de Leif. De alguma forma, parecia injusto com ele. Leif não merecia minha antipatia, e deixar os outros pensarem que eu não gostava dele era errado.

— Eu não desgosto do Leif. Ele não é como eu pensava, eu estava errada. Mesmo assim, também não estou a im dele.

Levantei os olhos da minha bandeja meio com medo de que Miranda pudesse ter conseguido ler nas entrelinhas, mas, em vez disso, ela parecia um cervo paralisado ao ser iluminado por faróis de carro na estrada. Ela não estava focada em mim, seu olhar estava

ixo em algo ou alguém atrás.

— Bem, ico feliz em saber que você não está a im de mim. E uma preocupação a menos.

Fechei os olhos com força, esperando ter apenas imaginado a voz de Leif. Seu ombro roçou o meu quando ele se sentou ao meu lado e eu lentamente abri os olhos para ver um Wyatt muito risonho me observando. Limpei a garganta e forcei um sorriso insincero, antes de me virar e olhar para Leif.

— Oi — eu disse simplesmente e ele riu, cutucando meu ombro com o braço.

— Relaxa, Pagan, está tudo bem. Sei que me odiava antes, mas foi iluminada pelos deuses e se deu conta de que, a inal, não sou tão ruim. Tá tudo bem.

Resisti ao desejo de suspirar de alı́vio.

— Então, o que o traz às mesas das classes mais baixas? — Wyatt perguntou, rindo da própria piada.

Leif olhou para ele e ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Ah, você quer dizer que esta é uma mesa das classes baixas? Eu não fazia ideia. Tem o atleta estrela que está na mira dos olheiros das faculdades — ele indicou Wyatt com um aceno da cabeça —, a namorada dele — apontou para Miranda — e a rainha do baile do ano passado — ele concluiu, virando-se para mim.

Revirei os olhos.

— Isso foi só por causa do meu par e você sabe disso.

— Não, eu não sei.

Eu sabia que estava corando e odiava quando isso acontecia. Meu olhar encontrou o de Miranda e percebi que ela estava absorvendo cada palavra. Não era nada bom. Ela não deixaria de notar as minhas bochechas rosadas.

— Precisa de alguma coisa? — indaguei, tentando não parecer que estava sendo sem educação.

Ele sorriu como se pudesse ler minha mente.

— Queria dizer que tirei 10 na minha apresentação.

— Isso é maravilhoso. Era um texto muito bom. Você incluiu um material excelente.

— Sim, mas eu não teria conseguido sem a sua ajuda.

Eu sorri e olhei de volta para minha comida. Eu não tinha contado a ninguém, nem mesmo para Miranda, sobre a dislexia de Leif ou sua adoção. Não eram minhas histórias, então eu não podia contar a outras pessoas.

— Você vai ao jogo hoje à noite? — perguntou Leif, e eu olhei de volta para ele, surpresa com sua pergunta.

— Hum, não, provavelmente não.

Ele franziu a testa, assentiu e se levantou.

— Bem, mais uma vez obrigado. Acho que eu te vejo na segunda-feira, então.

— Ok. Boa sorte hoje à noite — respondi.

Será que eu tinha ferido seus sentimentos por não ir ao jogo? Eu me virei na cadeira, e Wyatt balançou a cabeça.

— O quê? — reagi.

— O coitado não está acostumado a levar um fora — disse ele e tomou um gole do leite.

— Levar um fora? — questionei, confusa.

Ele colocou a caixinha de leite de volta na bandeja e olhou para mim com uma expressão séria, algo que a gente raramente via em Wyatt.

— Ele queria que você fosse ao jogo dele e você disse que não.

Fiz uma careta, tentando lembrar se ele tinha me convidado. Eu tinha certeza de que ele só havia perguntado se eu planejava ir. Em nenhum momento ele me pediu para ir.

— Não, ele não queria.

Wyatt riu e balançou a cabeça.

— Namorar Jay arruinou você. Na maioria das vezes, as pessoas não namoram alguém exatamente como elas. Você entendia o Jay porque, como você, ele era direto e sério. Nem todos os caras… não, a maioria dos caras não é assim. — Ele acenou com a cabeça na direção de onde Leif estava conversando com Kendra. — Ele estava convidando, con ie em mim. — Wyatt se afastou e eu olhei de volta para Leif.

Kendra enrolava seu longo cabelo loiro em volta do dedo enquanto sorria para ele. Apenas uma semana antes, eu acharia que ele merecia alguém tão super icial e bonito quanto achava que ele era. Agora, eu entendia melhor. Ele olhou para cima e me pegou observando-o. Seus olhos pareciam dizer algo que eu não entendia, mas, antes que eu pudesse descobrir, eles se transformaram e assumiram uma expressão educada. Ele voltou a atenção para Kendra. Confusa e um pouca irritada, peguei minha bandeja e comecei a levantar. Ia dizer a Miranda que a veria mais tarde, quando percebi que ela estava olhando para mim com a boca ligeiramente aberta.

— O quê? — perguntei, um pouco na defensiva, porque sabia pela sua expressão que ela havia percebido.

— Você… gosta… dele — disse ela devagar, como se estivesse maravilhada.

Revirei os olhos e ri.

— Até parece. — Peguei a bandeja e fui para o lixo e para longe dos olhos astutos de Miranda.

 

— As garotas da sua idade normalmente não saem e fazem coisas no im de semana?

Dessa vez, não consegui conter o grito de susto que escapou da minha boca. Felizmente, minha mãe não estava em casa para me ouvir. Eu me virei para encontrar a alma falante sentada na minha cama, me observando.

— Você poderia, POR FAVOR, parar de aparecer do nada e fazer meu coração sair pela boca toda vez? E o que você está fazendo no meu quarto? Vá embora!

Para garantir, joguei nele a camisa que estava prestes a pendurar no armário. Isso estava perdendo a graça. Ele precisava parar de me seguir.

Uma de suas sobrancelhas escuras se ergueu.

— Você normalmente não ica tão irritada.

Rosnando alto, caminhei até a janela, abri e depois me virei para ele.

— Voe pra fora daqui, por favor. Fique fora do meu quarto. Eu poderia estar nua!

Uma risada profunda provocou um estranho calor pelo meu corpo. A tontura parecia me afetar, mas só um pouquinho.

— Você quer que eu voe pra fora? Que fofa.

Eu não queria ser fofa, mas também não conseguia mais icar brava. Uma estranha letargia apoderou-se de mim. Será que era a risada dele que tinha causado aquele calor relaxante no meu corpo?

— Não, não exatamente, mas tenho a capacidade de controlar a ansiedade ou o pânico. Minha risada realmente não teve nada a ver com isso.

Ele acabara de ler meus pensamentos ou eu tinha dito aquilo em voz alta? Ele parecia me achar divertida se seu sorriso fosse indı́cio de qualquer coisa. Outra razão pela qual eu deveria estar furiosa. Estúpido morto falante.

— Saiba que sinto muito por ter assustado você. Não era minha intenção, mas, se eu tivesse aparecido na sua frente, dentro do seu armário, teria sido menos assustador?

Pensei nele aparecendo na minha frente, e uma pequena risada escapou dos meus lábios. Ele estava certo. Eu provavelmente teria desmaiado, mas ele poderia ter experimentado bater na porta antes ou algo assim. Espere, os fantasmas conseguiam bater ou será que o punho simplesmente atravessava a porta?

— Entendo o que você quer dizer — respondi e comecei a fechar a janela, mas decidi não fazer isso. Eu me sentia mais segura com a janela aberta. — Por que você está aqui?

— Por que você está aqui? — ele ecoou.

O cara tinha começado a falar em enigmas?

— Eu moro aqui.

Ele encolheu os ombros.

— Sim, mas você é jovem. Tem amigos. E im de semana. Eu sei que eles estão se divertindo, então por que você está aqui?

Otimo, a alma falante agora queria ser intrometida.

— Não estou com vontade de sair.

— Por causa do jogador de futebol americano?

O que ele sabia sobre Leif? Aproximei-me dele e me sentei na poltrona de veludo que mantinha no canto oposto do quarto para ler. Ao que parecia, eu teria que usar minha lábia para fazer o cara sair.

— Na verdade, não, principalmente porque não quero icar segurando vela pra Miranda e pro Wyatt.

— Mas ela ica te chamando e convidando para você sair com eles. Para mim, parece que ela te quer por perto.

Como ele sabia que ela havia me chamado? Me sentei mais ereta na poltrona e coloquei os pés embaixo do corpo, tentando acalmar um pouco a raiva por ele icar mexericando, mas não consegui.

— Você anda me vigiando? — indaguei, estudando sua expressão em busca de qualquer sinal de mentira.

Ele me deu um sorriso malicioso, colocou as mãos atrás da cabeça e se deitou.

— Há semanas, Pagan, há semanas.

Semanas? Abri a boca e depois fechei sem saber o que dizer. Ele tinha me visto nua? Será que eu realmente queria saber se ele tinha visto ou não? Como ele se escondia de mim? Ele icava no meu quarto quando eu estava dormindo? Balancei a cabeça, tentando apagar as perguntas que se atropelavam na minha mente.

— Vejo você mais tarde. Sua mãe está em casa.

Levantei o olhar bruscamente. Eu estava com a cabeça baixa, o olhar ixo nas mãos que eu estava retorcendo no colo com nervosismo, mas minha cama estava vazia.

— PAGAN! Venha me ajudar a levar as compras para dentro! — minha mãe chamou ao pé da escada. Suspirei e me levantei, olhando mais uma vez para a minha cama vazia, antes de descer correndo para ajudá-la a descarregar o carro.

 

O sono não veio fácil no im de semana. Até dormi com a porta aberta e com a luz do closet acesa. Era ridı́culo que ele tivesse me feito icar com medo do escuro. Minhas olheiras tinham sido impossı́veis de cobrir completamente naquela manhã. Puxando a mochila mais alto sobre o ombro, fui andando pelo corredor lotado. Passei por Leif e ele fez um cumprimento educado com a cabeça. Das outras vezes em que eu o tinha visto naquele dia, ele nem demonstrou me notar. Por que motivo sua indiferença me fazia querer voltar para casa e rastejar para a cama, eu não sabia. Se bem que talvez eu quisesse ir para a cama justamente porque o cara morto, sexy e stalker estava me fazendo perder o sono, e eu estava exausta.

— Não olhe para ele da próxima vez. Isso vai deixá-lo louco. — O sotaque familiar não me assustou. Era quase como se eu o esperasse. Mesmo que ele estivesse frustrantemente ausente desde que me dissera que andava me observando havia semanas, na tarde de sábado. Claro, não havia como responder a ele agora e ele sabia disso. Eu me virei e segui para o meu armário. — Ele está tentando se fazer de difı́cil. Isso prova que é infantil, mas posso ver que isso está incomodando você.

— Não está me incomodando — eu disse entre os dentes enquanto abria o armário.

— Sim, está. Há sempre uma pequena ruga que aparece entre suas sobrancelhas, e você mordisca o lábio inferior quando algo a incomoda.

Eu sabia que não precisava olhar para ele, mas não pude evitar. Virei a cabeça e olhei-o através do meu cabelo. Ele estava encostado no armário ao lado do meu com os braços cruzados no peito, me observando. Ninguém nunca havia prestado atenção su iciente em mim antes para realmente ser capaz de descrever minha expressão facial de incômodo. Era estranhamente adorável.

— Você está perdendo a demonstração pública de afeto entre seus dois amigos no corredor. Talvez precisem que você jogue um balde de água gelada neles. — Mordi o lábio para não rir. Não precisei me virar para saber do que ele estava falando. Miranda e Wyatt, às vezes, sabiam ser um pouco nojentos. — Assim está melhor. Eu gosto quando você sorri. Se o jogador continuar fazendo você franzir a testa, vou resolver o problema com minhas próprias mãos.

Abri a boca para protestar, mas ele havia desaparecido.

 

Olhei no relógio. Leif chegaria a qualquer minuto. Fazia meia hora que minha mãe tinha saı́do para outro encontro com Roger. Passei um tempo sozinha andando pela casa e procurando pela alma da qual não conseguia me livrar. Não tinha certeza de onde esperava encontrá-la. O garoto espı́rito realmente não parecia ser do tipo que

icava sentado sem fazer nada. Se ele estivesse presente, não estaria

tentando me dizer o que fazer ou me perguntando coisas que não eram da sua conta? Procurei por ele mesmo assim. Eu queria discutir o comentário que ele tinha feito antes. A campainha interrompeu minha caça e voltei para a sala para abrir a porta.

— Oi. — Recuei e dei passagem para Leif entrar.

Eu o havia ignorado pelo resto do dia. Não sabia para que isso serviria, mas decidi que não o queria pensando que eu me importava se ele falasse comigo ou não.

— Oi — respondeu ele e entrou. Eu o levei até a mesa da cozinha e esperei enquanto ele colocava os livros na mesa.

— Sexo seguro — anunciou.

Congelei e olhei para ele, sem saber se eu tinha acabado de ouvir aquilo direito. Seu rosto sério se abriu em um sorriso e ele começou a rir.

— Queria que você pudesse ver seu rosto agora — disse, entre gargalhadas.

— Você acabou de falar “sexo seguro”? — perguntei, tentando determinar o que era tão engraçado. Era ele quem estava falando de sexo.

Ele con irmou balançando a cabeça e ergueu seu papel.

— O assunto da apresentação desta semana.

Dei uma risadinha fraca.

— Ok, bem, foi um jeito e tanto de anunciar — falei enquanto ia até a geladeira pegar nossas bebidas.

— Espero que você seja bem informada sobre esse assunto, porque eu não tenho a menor ideia.

— O quê? — gritei em resposta.

Ele riu de novo e eu iquei esperando ele se controlar.

— Me desculpe. E que você ica muito fofa quando está chocada.

Enrijeci com a palavra “fofa” e desejei não ter feito isso. Esperando que ele não percebesse minha reação, respirei fundo e rezei em silêncio para que meus olhos não me traı́ssem quando me virasse. Não que eu quisesse que Leif me visse de outra forma, mas eu não queria exatamente que ele me achasse fofa. Talvez atraente ou bonita, mas não fofa. Se bem que o fato de ele se referir a mim como fofa ajudava a me lembrar de em que pé estava a situação entre nós. Qualquer ilusão que eu pudesse ter de sermos outra coisa senão amigos se dissipou.

— Acho que não é necessário ter experiência de causa. Basicamente é para falar das suas opiniões sobre o assunto, ou a importância dele.

Não consegui olhar nos olhos de Leif.

Ele estendeu a mão e ergueu meu queixo para que eu não tivesse escolha.

— Você está envergonhada. — Desviei os olhos e ele riu. — Que fofa.

Argh! Estávamos de volta a eu ser fofa. Olhei para ele mais uma vez.

— Por favor, pare de dizer que sou fofa. E meio insultante.

Ele franziu a testa enquanto tirava a mão do meu queixo.

— Como seria insultante?

Dei de ombros, não querendo falar sobre isso e desejando ter mantido a boca fechada.

— Apenas isso. Ninguém quer ser fofa. Cachorrinhos são fofos.

Peguei seu caderno, mantive os olhos ixos no papel e li sobre o assunto, ou pelo menos tentei agir como se estivesse lendo.

— Bem, você de initivamente não parece um cachorrinho — disse ele com uma risada.

— Pelo menos já é alguma coisa.

Precisávamos mudar de assunto e eu precisava aprender a conter minha lı́ngua.

— Ok, então quais são os três principais motivos pelos quais você acredita que sexo seguro é importante? — Talvez agora poderı́amos deixar de falar sobre mim e sobre a minha fofura. Ele não respondeu e eu ergui os olhos. Leif estava me observando com uma expressão séria. — Você não tem certeza?

Ele não respondeu.

— Hum, ok, e gravidez na adolescência? Esse é um bom ponto. Ninguém precisa ser pai ou mãe enquanto ainda é criança.

Novamente, ele não respondeu, então eu anotei.

— Você está ofendida — concluiu ele, baixinho. Eu congelei, mas mantive os olhos no papel. — Eu não queria dizer algo para ofender você — continuou.

Eu queria negar, mas achei que aceitar suas desculpas e seguir em frente seria a melhor maneira de lidar com a situação.

— Está bem. Vamos trabalhar na sua redação.

Ele olhou para o papel.

— A gravidez na adolescência é de initivamente um dos motivos — ele concordou.

— Ok, e quanto às DST? — sugeri, anotando enquanto falava.

— Esse é outro argumento bom.

Comecei a escrever, mas ele estendeu a mão e pegou o caderno de mim. Assustada, levantei a cabeça para ver o que ele estava fazendo. Ele me deu um sorriso sem jeito.

— Desculpe, mas não consegui pensar em outra maneira de chamar sua atenção.

Sem saber como responder, iquei sentada em silêncio e esperei que ele terminasse.

— Você não é só fofa. Sim, você faz carinhas fofas e coisas fofas, mas não é só fofa. — Ouvi-lo se explicar fez com que eu me sentisse boba por ter dito qualquer coisa antes.

— Tudo bem — consegui resmungar.

Ele deslizou o caderno de volta para mim.

— Agora veremos… e o fato de que usar camisinha tira um pouco do prazer? Devemos discutir isso?

Engasguei com o refrigerante e comecei a tossir incontrolavelmente enquanto Leif me dava tapinhas nas costas. Assim que me controlei, olhei para cima e o peguei reprimindo um sorriso.

— Mais uma vez: você faz um monte de coisas fofas, mas não é só fofa.

 

1 “Cerveja-de-raiz” é uma bebida doce tı́pica da América do Norte, geralmente não alcoólica, sem cafeı́na e gasei icada, feita com a raiz da planta sassafrás. (N. T.)