Existência

Abbi Glines · Capítulo 19 de 22

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Existência

Capítulo 19

O céu escuro começou a se agitar ao redor de um núcleo de luz. Agarrei o braço de Dank com as duas mãos, como se ele estivesse prestes a desaparecer.

— O que está acontecendo? — perguntei acima do som do vento rugindo à distância. Dank balançou a cabeça, de olho em Gee.

Ela olhou dele para mim.

— Vão levá-lo. Por causa de você, ele será considerado o pior dos piores. Ele caiu. Ele quebrou as regras — Gee começou a gritar acima dos ventos tempestuosos que cercavam a clareira.

Soltei Dank e avancei, sabendo que eu precisava parar aquilo e ele não me diria como.

— O que eu posso fazer? — gritei para Gee.

Ela olhou por trás de mim, para Dank.

— Ela não é como os outros humanos. E por isso que você se apaixonou por ela quando nenhuma outra pessoa jamais foi tentação para você. Deixe-a decidir.

— NAO! — Dank gritou atrás de mim com uma ferocidade na voz que beirava o pânico. Fui correndo para Gee, com medo de Dank me deter.

— Me diga — exigi.

Ela me encarou enquanto suas feições brilhantes pareciam ainda mais etéreas. A tempestade icou mais forte. O cabelo loiro chicoteava descontrolado ao redor dela, criando a aparência da imortal que ela era.

— Ele só pode ser perdoado se você morrer. Ele é a Morte e ele terá que aceitar a sua alma. Eu só posso providenciar a morte do seu corpo, mas, no inal, até Ele não existir mais, a Morte tem que ceifar a sua alma.

— NAO! EU NÃO VOU CEIFA-LA! ELA E UMA ALMA NOVA! MINHA FRAQUEZA NAO A CONDENARA! — Dank rugiu atrás de mim, e seus braços me puxaram para longe de Gee.

Ela ignorou os protestos e continuou a me observar enquanto a tempestade se intensi icava. Eu tinha um poder naquela situação que Dank não queria admitir e Gee estava com medo demais para me dizer. Ela estava tentando. A amiga que eu pensei ter feito na clı́nica psiquiátrica talvez fosse verdadeira, a inal de contas. Não havia malı́cia no olhar dela; não como a que eu vira nos olhos da outra transportadora. Ela me implorava em silêncio. Qual era a escolha? Se Dank se recusasse a ceifar minha alma, então, como ela me mataria se eu fosse direto para os braços dela? Os braços de Dank pareciam lutar contra o empuxo da tempestade que não empurrava nem a mim, nem a Gee. A intempérie estava ali por ele. Olhei para ele e toquei seu rosto angustiado, tão cheio de determinação em me salvar que estava disposto a ser engolido pelo Inferno.

— Eu te amo — confessei, fazendo seu rosto se contorcer de dor.

— Não sou um homem, então não tenho coração para amar como os humanos. Sou um deus imortal que convive com o poder supremo porque guardo as chaves da Morte, mas você é a minha existência. E eu sou seu.

Lágrimas quentes escorreram pelas minhas bochechas enquanto eu olhava no rosto de alguém que compreendia uma emoção muito mais forte do que as minhas débeis palavras de amor. O braço dele foi arrancado de mim pela força do vento e ele se ergueu como o deus que era enquanto um redemoinho escuro se formava ao seu redor. Meu coração batia com força, e eu corri para Gee, sabendo, de alguma forma, que havia algo que eu poderia fazer. Ela poderia me ceifar, eu percebia em seus olhos. Havia uma forma de eu pôr um im a tudo aquilo. Gee observou a minha aproximação e notei a esperança chamejar nos seus olhos.

— Ajude-o! Faça o que puder, mas não permita que o levem, por favor — gritei sobre o rugido atrás de mim que foi arrancado do peito da Morte. Gee fez que sim e olhou por cima do meu ombro.

— Ela fará o sacrifı́cio. Está terminado — Gee anunciou com uma voz de comando alta e profunda. Ela voltou o olhar para mim quando sua mão tocou minha cabeça.

O vento cessou. Eu não podia mais sugar o oxigênio para os meus pulmões. Precisei juntar toda a minha força de vontade para não tentar puxar o ar. Se Dank me visse resistir, eu sabia que ele lutaria com qualquer força que o estivesse prendendo só para me libertar do poder de Gee. O solo frio e molhado se ergueu para me encontrar e iquei inerte enquanto a dor lancinante da as ixia queimava meus pulmões. A tempestade que me cercava esmaeceu. Eu não ouvia mais, não sentia mais. Foi diferente de antes. Dessa vez, a dor passou rápido, e a escuridão me engoliu.

 

O cheiro de café e bacon assaltou os meus sentidos quando percebi um cheiro doce tão extasiante que acordei na mesma hora. Sentei e olhei ao redor do meu quarto. Eu estava na minha cama. Engoli em seco e minha garganta se contraiu de dor. Toquei o peito e senti que estava sensı́vel, como se eu tivesse levado um soco bem ali onde os meus pulmões icavam. Tudo tinha sido real. Atordoada,

iquei de pé e fui até a janela para olhar para a loresta que icava

atrás da minha casa. Ela mostraria traços da força do vento que soprara ali na noite passada? O vento que lutou para levar Dank? As árvores estavam iguais a no dia anterior, quando me embrenhei entre elas. As folhas sopravam levemente com a brisa. Aquilo estava errado. Eu me entregara pela Morte. Gee poderia ter me ceifado. Eu tinha visto nos olhos dela. Será que Dank ainda possuı́a o poder de deter aquilo mesmo com o Inferno o sugando para longe? Eu estava viva, e ali, na minha casa, respirando, mesmo tendo pedido para deixar esse corpo para trás e pôr um im na minha vida na Terra.

— Não — sussurrei contra o vidro enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Eu queria morrer. Essa existência que você me deu não vale nada sem você aqui. Não posso viver sabendo que você não…

Um soluço sacudiu o meu corpo, minhas pernas icaram bambas e caı́ no chão. Eu me encolhi como uma bola, tentando lidar com a dor que rasgava o meu peito. Aquilo não era o tipo de existência que eu poderia levar. Eu tinha muita certeza de que Gee conhecia um jeito de salvá-lo.

Isso, essa vida em que Dank tinha sido condenado ao Inferno e eu podia continuar vivendo como se nada tivesse acontecido, seria o meu próprio Inferno.

— Me diz uma coisa, Peggy Ann, você é sempre tão dramática? —

Eu me virei de supetão ao som da voz de Gee e ergui os olhos inchados. Encontrei-a sentada na beira da minha cama. As pernas longas e esguias estavam cruzadas e ela me observava com a cabeça inclinada. — Você é mesmo um ser humano único — falou com um sorriso.

A raiva começou a subir. Fiquei de pé e a fuzilei com os olhos. Ela tinha mentido para mim. Ela tinha me feito pensar que eu poderia impedir a condenação de Dank.

— Calma, Peggy Ann, tire a cara de psicopata desse rostinho lindo e respire fundo. — Ela fez uma pausa e deu um sorrisinho. — Agora que você pode respirar, quero dizer.

Eu odiava o sorrisinho e a atitude irreverente depois do que tinha acontecido com Dank.

— Você mentiu para mim — acusei entre dentes, ao diminuir a distância entre nós.

Gee balançou a cabeça devagar.

— Não, eu não menti. Sinceramente, Pagan, pare com essa coisa de partir para cima de mim. Até parece que você pode me machucar. Sossega o facho, gata. Eu sei que você ama o cara. Merda, eu acho que você tem sentimentos mais intensos por ele do que o amor insu iciente que vocês humanos saem distribuindo por aı́ com tanta facilidade. Quero dizer, a maioria dos humanos não jogaria suas almas às cegas para uma eternidade que não entendem só para salvar a Morte. Uma raridade, sem dúvida.

— Você poderia ter tentado me ceifar com mais a inco. Ele estava sendo puxado por uma força mais forte que ele. Você poderia ter me matado! Eu fui direto para você e me ofereci como um sacrifı́cio. — Cobri a boca quando um soluço escapou e logo ouvi os passos da minha mãe ecoarem pelo corredor.

Congelei, sem saber o que fazer. Parecia que minhas vı́sceras tinham sido arrancadas de dentro de mim. Eu não tinha mais forças para disfarçar a dor que estava sentindo.

A porta do quarto se abriu e minha mãe olhou para a minha cama e sorriu, então fechou a porta devagarinho. Fiquei ali paralisada e confusa com o que tinha acabado de testemunhar. Olhei na mesma hora para Gee, que ainda estava sentada na beirada da cama. Minha mãe não tinha olhado para ela. Gee se virou levemente, deu um tapinha em algo e sorriu para mim. Meus olhos se moveram dela para o lugar que eu tinha deixado vago depois de acordar e, pela primeira vez, percebi que eu ainda estava na cama. Dei um passo para mais perto e olhei para o que parecia ser o meu corpo adormecido.

— Acho que um “desculpa” vai ser su iciente por enquanto. Sabe, por gritar comigo e esse sibilo bizarro que você fez. Meio que me lembrou das pessoas lá de baixo e, bem, elas me deixam apavorada. — Desviei o olhar do corpo e encarei Gee, que parecia extremamente feliz. — Estou esperando pelo pedido de desculpas. Desembucha, Peggy Ann, eu sei que você consegue. — Ela franziu os lábios e inclinou a cabeça de um lado para o outro.

— Eu estou morta? — perguntei e, mais uma vez, olhei para o meu corpo. — Quer dizer, o meu corpo está morto?

Gee soltou um suspiro alto.

— Siiiim, agora, vamos lá: “Me desculpa, Gee, por falar com você de um jeito tão feio depois de você ter feito exatamente o que eu pedi”. Vai, você consegue.

Sacudi a cabeça, observei o meu corpo e fui me olhar no espelho.

Eu parecia igual sob muitos aspectos, só que as minhas imperfeições tinham desaparecido. Eu era uma versão perfeita de mim mesma.

— O quê? Por que estou aqui? Minha mãe não percebeu que eu estou morta? Onde está o Dank? Eles o libertaram? Você vai me transportar? Ou eu sou uma alma penada? Onde está o Dank? — Senti esperança pela primeira vez desde que tinha acordado. Voltei a olhar no espelho e toquei o meu rosto. Minhas bochechas, que as lágrimas deviam ter deixado molhadas e sensı́veis, estavam suaves e macias.

Gee sorriu.

— Leva tempo para se acostumar, a vida toda em um corpo por dezessete anos e, agora, você não tem nenhum. Você esquece e pensa que as coisas são de um certo jeito, e elas não são. Como o fato de você ter soluçado tanto ali no chão com toda a sua veia dramática e você sabe que seu corpo produziu lágrimas, mas você as sentiu porque pensou que elas estariam lá. — Gee deu de ombros e icou de pé.

— Para onde você está indo? Você vai me levar? Onde está o Dank? — perguntei novamente, e ela ergueu as mãos, como se se defendesse.

— Tá bom. Primeiro de tudo, eu não recebi meu pedido de desculpas e você ainda acha que simplesmente pode começar a exigir respostas?

— Desculpa! Agora, onde está o Dank?

Gee fechou a cara.

— Não soou muito sincero. — Fechei os olhos e percebi que, mesmo com eles fechados, eu podia ver. Bizarro. — Seus olhos não estão fechados, Peggy Ann, você só acha que eles estão. Já expliquei como funciona, então para. Você parece estar fazendo aquela cara de assustada tı́pica das almas.

— Por favor, eu sinto muito. Só me diga onde o Dank está — implorei.

Gee sorriu.

— Tá bom, tá bom. A verdade é que eu não sei direito. — Ela deu de ombros e passou por mim.

— O que você quer dizer?

Ela se virou e sorriu.

— E tudo muito confuso. Você me deixou matar o seu corpo, mas claro que o namoradinho não ia tirar sua alma do corpo. No entanto, eu sei, assim como ele, que, se sua alma quisesse muito, poderia sair do corpo sozinha. Então, deixei o redemoinho lá e trouxe o seu corpo morto para cá. Eu sabia que, quando sua alma se recuperasse do trauma da morte do corpo, seria a hora da verdade. Eu paguei para ver, é claro… — Ela fez uma pausa e deu um sorrisinho convencido. — Para ser sincera, eu nunca duvidei. Pude ver seu desejo feroz de salvá-lo. Eu sabia que era a sua alma que estava falando e esperei que deixasse o corpo. Isso, é claro, aconteceu e eu deveria ter sido capaz de te levar imediatamente para cima. — Ela mordeu o lábio inferior e encolheu os ombros.

— O quê? — perguntei assim que o alı́vio me percorreu, assim que pensei que Dank ainda era a Morte e que ele não estava queimando no Inferno.

— Ah, então, eu não tenho certeza. E que eu gosto de você e tudo, mas estou com o horário meio apertado, e lidar com você nessas últimas semanas levou um tempão. Bem, ao menos desde que Dank expulsou Ky e eu iquei presa ao trabalho de fazer o sr. Teimoso liberar a sua alma. De qualquer forma, veja bem, não iquei enrolando e atrasando a nossa partida para que eu pudesse conversar com você e você me izesse um milhão de perguntas. Eu, é, bem, sua alma não quer vir. Ela não vai ou ela está sendo presa por alguma força.

Ela suspirou e fez cara feia para mim.

— Eu não sei o que está se passando. Você é a primeira com quem acontece algo assim. Talvez a Morte realmente tenha que ceifar a sua alma. Não faço ideia. Meu palpite é que é melhor você voltar para o seu corpo e viver a vida. Temo que não tenham facilitado as coisas para a Morte por causa da rebelião e tudo mais. Se você não voltar para o seu corpo, sua alma vai passar a eternidade vagando por aı́. Eu não preciso te dizer o que é uma alma errante porque nós duas sabemos que você já sabe. Você as vê o tempo todo. Quer ter a mesma existência infeliz que elas? Olha, não permita que ele tenha sido fadado à danação eterna por nada. — Ela foi até onde estava o meu corpo… sem vida. — Se ele tiver que queimar no Inferno por toda a eternidade, não permita que seja condenado a fazer isso sabendo que você virou uma alma perdida. Ele vai saber. Eles vão se certi icar de que ele saiba. Lá embaixo é só dor e tortura. O que um pouquinho de calor não pode fazer com ele, saber que você abriu mão da eternidade que ele brigou tanto para você manter vai fazê-lo sofrer de um jeito que você jamais poderá compreender. — Ela encarou o meu corpo. — A escolha é sua. Volte para lá e viva. Faça isso por ele. — Então, ela desapareceu.

Fiquei olhando para o meu corpo enquanto as lágrimas escorriam mais uma vez pelo meu rosto, mas agora eu sabia que só sentia a memória das lágrimas. Eu era uma alma. Não podia chorar. Toquei meu rosto e o corpo estava frio. Era insuportável pensar em voltar para aquele corpo, para aquela existência, quando Dank não mais vagava pela Terra por causa de mim.

— Você é a razão da minha existência, Dank. Como poderei viver sem você? — sussurrei para o quarto e soube que não importava a dor que a vida reservara para mim, eu não poderia fazê-lo sofrer ainda mais. Eu enfrentaria a vida para que ele não tivesse a culpa pela minha alma perdida para atormentá-lo. Ele desistiu de tudo por mim. Eu poderia sacri icar uma eternidade de pesar, se aquilo fosse aliviar o sofrimento dele. Voltei para a cama e senti um formigamento quente passar por mim ao voltar para o corpo que havia abandonado. Meus olhos se abriram e um soluço escapou dos meus lábios.

— Pagan, querida, você vai se levantar e vir comer? — Minha mãe estava de pé na porta sorrindo para mim, completamente alheia de que, na última visita que fez ao meu quarto, ela tinha visto meu corpo morto.

— Sim, é, desculpa. Acho que estar na minha própria cama me fez dormir demais.

Ela veio até mim e se sentou ao meu lado.

— Foi muito bom ter você em casa ontem à noite. Pode faltar à aula hoje, se precisar de um dia para se ajustar.

Pensei sobre icar em casa, no meu quarto, e soube que seria difı́cil demais. Precisava sair e falar com pessoas. Precisava ver a vida e encontrar uma forma de sobreviver a ela. Eu faria isso por causa da dor de Dank. Eu viveria… por ele.