Existência
Capítulo 13
Dei uma olhada de relance para o meu crachá. Minha mãe icaria emocionada. Esse fato icaria maravilhoso nas minhas inscrições para a faculdade. Quanto mais serviço comunitário, melhor; bem, desde que fosse voluntário e não compulsório. Eu tinha recebido a tarefa de ler para as crianças, já que era meu primeiro dia e não havia ninguém para me treinar para fazer as tarefas mais difı́ceis.
Saı́ do elevador no andar da ala pediátrica, e três das almas pelas quais eu havia passado no andar anterior icaram me observando. Acenei com a cabeça.
— Olá — eu disse alegremente e todas pareceram surpresas.
Eu me virei e segui as instruções que tinha recebido do voluntário da recepção. Não demorei mais do que alguns minutos para perceber que a ala pediátrica estava cheia de almas errantes. Passei por crianças em cadeiras de rodas me olhando com curiosidade. Sorri e disse “olá” ao passar por elas. Meu coração começou a doer por outras razões além da minha perda. Ver os sorrisinhos em seus rostos pálidos não era fácil. Uma garotinha com cabelos longos, ruivos e cacheados chamou minha atenção. Ela icou na porta de seu quarto olhando ― não para mim, mas de cada lado meu e atrás de mim ― com curiosidade antes de olhar diretamente para mim. Diminuı́ o passo e lancei um olhar rápido para trás, percebendo que a maioria das almas para as quais eu tinha sorrido e falado estavam me seguindo. Ela as via também. Parei e observei atentamente, por um instante, seu rostinho adorável. Ela estava em pé apoiada no que parecia ser um andador. Ela olhou para eles de novo, sorriu calorosamente e então seus olhinhos me encontraram.
— Você os vê? — perguntei em um sussurro, com medo de que outros me ouvissem e pensassem que eu estava louca. Ela fez que sim, balançando a cabeça, o que fez seus cachos ruivos saltitarem.
— Você vê? — ela me devolveu em um sussurro alto. Con irmei. — Legal — respondeu, sorrindo.
Pisquei e continuei meu caminho para a sala de atividades. Eu não podia icar ali parada conversando com uma criança nos corredores sobre as almas que nós duas conseguı́amos ver sem chamar atenção. Nunca conheci alguém que conseguisse enxergar as almas. Era difı́cil simplesmente me afastar de seu rostinho conhecedor, mas sabia que a veria novamente. Eu pretendia encontrá-la mais tarde.
Achei a porta azul-celeste com a frase “Hoje você é Você, isso é mais verdadeiro que verdade. Não há ninguém vivo que seja mais Você do que Você”, do Dr. Seuss, pintada em cores vivas. Aquele era o lugar onde eu deveria icar. Abri a porta e imediatamente encontrei as prateleiras dos livros à direita.
Eu me virei e sorri para as almas que me seguiram para dentro.
— Algum de vocês tem uma sugestão? — Todas me observaram e algumas se aproximaram para me ver de perto ou me tocar. Eu não conseguia senti-las. — Ninguém? — A sala permaneceu em silêncio. Suspirei e voltei para os livros. — Muito bem, eu mesma vou escolher.
— Meu favorito é Onde vivem os monstros.
Eu me virei, pensando que uma alma inalmente tinha falado. As almas estavam todas observando a garotinha ruiva do corredor. Ela estava parada na porta aberta sorrindo para mim.
— Elas não vão falar com você, sabia? Elas não conseguem — disse, ao entrar.
— Elas não conseguem? — perguntei, olhando em seus olhos, que não pareciam ter a mesma idade de seu corpinho.
Ela balançou a cabeça tristemente e suspirou.
— Não. Eu tentei fazer elas falarem. Mesmo assim, elas gostam que a gente fale com elas. — A menina fez uma pausa. — Bem, algumas gostam que a gente converse, mas não conseguem responder. São almas que estão lutando contra o retorno, então elas
icam aqui e vagam sem rumo. — Ela olhou por cima do ombro para
as almas e deu um suspiro. — Mas elas começam a esquecer quem são ou por que estão aqui. E triste, na verdade. Se tivessem seguido para o outro lado, sua alma teria recebido outro corpo e outra vida, em vez dessa existência inútil.
Eu me aproximei e me sentei na cadeira na frente dela.
— Como você sabe disso? — indaguei, surpresa que uma criança tão pequena pudesse saber muito mais do que eu sobre as almas que eu tinha visto durante toda a minha vida.
Ela encolheu os ombros.
— Acho que ele não queria que eu icasse com medo. Elas têm medo dele, sabe, e ele não queria que eu tivesse também. Ele não queria que eu tivesse medo das almas. E acho que ele não queria que eu me tornasse como elas.
Balancei a cabeça, tentando descobrir de quem ela estava falando.
— Como assim? Quem é ele?
Ela franziu a testa, e as almas que tinham se reunido na sala desapareceram.
— Elas têm medo dele, como eu disse. Ele é a única coisa de que as almas se lembram porque foi a última coisa que viram em vida. E meio bobo, na verdade, porque a culpa não é dele. Só era a hora marcada.
Paralisei com suas palavras e agarrei o braço da cadeira em que estava sentada para me apoiar. Meu coração começou a bater forte no peito quando perguntei:
— O que você quer dizer com “hora marcada”?
Ela me observou com atenção por um minuto e então sussurrou:
— Era a hora marcada para eles morrerem. Assim como a minha vai chegar em breve. Ele me contou. Ele não deveria ter feito isso, mas ele pode quebrar as regras se quiser. Ninguém pode impedi-lo. No im das contas, a decisão é dele.
Engoli a bile na garganta com essa menininha falando sobre a própria morte.
— Quem te contou?
Ela balançou a cabeça.
— Não ique tão triste. Ele disse que este corpo que tenho está doente e, quando eu morrer, vou ter um novo corpo e uma nova vida. As almas não são forçadas a vagar pela Terra. Apenas aquelas que têm muito medo de seguir em frente são deixadas aqui para vagar. Se a gente escolhe deixar a Terra, a gente retorna em um corpo novo e em uma vida nova, mas a nossa alma vai ser a mesma. Ele me disse que o homem que escreveu meus livros favoritos, As crônicas de Nárnia, falou assim: “Você não é um corpo. Você tem um corpo. Você é uma Alma”. — Ela sorriu com a ideia, como se fosse brilhante.
Respirei fundo para me acalmar antes de perguntar mais uma vez.
— Quem é “ele”?
Ela franziu a testa.
— O autor? C.S. Lewis.
Balancei a cabeça.
— Não, o “ele” que te contou tudo isso. O “ele” de quem as almas têm medo. — Ela franziu a testa e se virou para sair. — Não, espere, por favor… eu preciso saber quem ele é — implorei.
Ela olhou para mim e balançou a cabeça.
— Até chegar sua hora marcada, você não pode saber. — Ela se foi.
Eu segurava o livro Onde vivem os monstros, pronta para ler enquanto as crianças entravam, mas ela não veio junto. Forcei um sorriso e um tom alegre ao ler as palavras de que me lembrava da minha infância. Quando terminei, várias crianças pediram outros livros e, entorpecida, peguei cada um da prateleira e fui lendo até que as enfermeiras insistiram que era hora de voltarem aos quartos para jantar.
Depois de vários abraços e agradecimentos, voltei para os corredores. Desta vez, não me incomodei em sorrir para as almas errantes. Elas não podiam me ajudar. Eu tinha certeza de que a única pessoa que poderia me ajudar seria a garotinha que havia falado com “ele” e, no fundo, eu temia saber exatamente quem “ele” era e o que fazia.
— Tenho uma surpresa para você — Leif anunciou ao entrar na sala da minha casa, às sete da noite.
Espiei por cima do livro aberto sobre a mesa e sorri para ele. Ver Leif ajudou a aliviar o vazio dentro de mim. Ele se abaixou, me deu um beijo suave na boca e, em seguida, colocou um folheto na minha frente sobre a mesa.
— Gatlinburg, Tennessee? — perguntei, lendo o folheto com a imagem de uma montanha nevada com um teleférico e ruas festivamente iluminadas.
Ele sorriu e sentou-se na cadeira ao meu lado.
— Um im de semana inteiro de esqui e compras. Meus avós têm um chalé nesse lugar, e nós vamos para lá todos os anos. Falei com a Miranda, e o pai dela já deixou. Ele vai cobrir as despesas de viagem para ela e o Wyatt, e meus pais querem te dar um presente em troca de todo o seu esforço em me ajudar a conseguir um 10 na aula de Retórica. — Ele deu um sorriso travesso. — E porque eles sabiam que eu não iria a menos que você fosse.
Uma viagem para esquiar não era algo em que eu queria pensar naquele momento. Emocionalmente, eu mal estava me aguentando e precisava encontrar Dank. Eu só não conseguia pensar em como exatamente iria encontrá-lo.
— Nossa. — Forcei um sorriso.
Ele tomou meu sorriso falso como incentivo, abriu o folheto e começou a falar sobre todas as coisas para fazer no topo da montanha. Eu estava tentando pensar em como recusar, quando minha mãe entrou.
— Olá, Leif, você já jantou? Trouxe comida chinesa do encontro com meu agente literário. Vocês estão com fome? — ela perguntou.
— Estou morrendo de fome — respondeu Leif, com entusiasmo.
— Não, obrigada — falei. A ideia de comer alguma coisa me revirava o estômago.
Percebi que Leif estava contando para a minha mãe sobre a viagem para esquiar e entrei em pânico, tentando pensar em uma maneira de impedir aquilo de prosseguir.
— Ah, isso seria perfeito, Pagan. Tia Margie nos convidou para ir ao rancho no Dia de Ação de Graças, mas eu odiaria a ideia de ter que te levar de volta para lá e fazer você ser testemunha do sofrimento dela no primeiro Dia de Ação de Graças sem o Ted. Ela precisa de mim e eu poderia ir se você fosse passar o feriado nas montanhas com seus amigos. Não vou sentir como se você estivesse sofrendo. Isso é simplesmente perfeito. Leif, obrigada. Preciso ligar para seus pais esta noite e perguntar os detalhes. Mas quero que ela leve dinheiro. Não posso aceitar que seus pais paguem todas as despesas.
Leif negou com a cabeça.
— Ah, não, não é necessário. Eles querem pagar. Ela foi a resposta às preces deles em relação ao meu desempenho na aula de Retórica este ano. Eles não poderiam ter pagado um tutor melhor. — Ele lançou um sorriso malicioso na minha direção e depois sorriu de forma educada para minha mãe outra vez.
Eles já estavam planejando aquilo como se fosse algo certo. Minha mãe não ia me dizer não ou questionar. Eu não tinha saı́da, a menos que quisesse magoar não só Leif, que não merecia, mas Miranda também. Sem dúvida, ela estava empolgada com a viagem e, mesmo que tudo o que quisesse fosse procurar Dank, eu não podia. No momento, nem mesmo sabia por onde começar. Meu plano havia esbarrado em um obstáculo instransponı́vel. Em uma súbita explosão de esperança, procurei no eBay por ingressos para shows da Alma Fria, pensando que, se eu fosse a algum, iria vê-lo e saberia que ele era real. Eu poderia acabar com todos aqueles medos agitados dentro de mim de que era alguma coisa que eu não podia ter ou tocar. Mas, mesmo se eu pudesse pagar os ingressos, não poderia pagar as despesas de viagem para chegar aos locais dos próximos shows.
— Acho que é isso que precisamos fazer amanhã — minha mãe disse alegremente. Eu não fazia a mı́nima ideia do que ela estava falando.
Olhei para ela e iz uma careta.
— O quê?
Ela revirou os olhos.
— Comprar seu equipamento de neve, bobinha. Você também vai precisar de roupas de inverno mais pesadas. Ah, isso vai ser tão divertido! Estou superanimada com tudo isso. Vocês dois façam sua lição de casa enquanto ligo para a Margie e conto que estarei lá no Dia de Ação de Graças.
Minha mãe nos deixou e Leif se virou, sorrindo triunfante, uma caixa de arroz frito em uma das mãos e os pauzinhos na outra.
— Ela é incrı́vel, eu juro. Os pais de Wyatt resistiram um pouco. Com ela foi muito fácil. — Ele beijou o topo da minha cabeça e deu a volta para se sentar à mesa. — E melhor você ligar para Miranda e contar as boas novas antes que a gente comece. Ela está esperando notı́cias suas.
Assenti e peguei meu celular. Teria que ingir animação pelo bem de Leif e dela. O celular tocou uma vez antes de um grito intenso explodir do outro lado da linha.
— Por favor, diga que ela deixou, por favor, por favor, por favor — cantou a voz de Miranda.
— Ela deixou — respondi com um sorriso na direção de Leif.
— FANTABULOSO! Nós vamos nos divertir muito. Fazer compras na neve. Não é romântico demais? Quer dizer, de verdade, tem como ser melhor do que ver neve em ruazinhas pitorescas cheias de lojas? Não, não tem. Só que já te aviso agora: não vou colocar meu pé em esqui nenhum. De jeito nenhum. Eu quero é fazer compras, não ir para o pronto-socorro e ganhar um gesso grande e feio. Você vai esquiar?
Olhei para Leif de relance, já que obviamente ele podia ouvir a voz dela pelo telefone. Ele estava balançando a cabeça em a irmação com um grande sorriso.
— Não sei se tenho escolha.
— Ai, bem, eu tenho, e não vou esquiar. Sabe, a pessoa cai e ica com a bunda gelada e molhada. De jeito nenhum. Nem pensar.
Leif deu risada.
— A gente veste um macacão de neve, Miranda, que mantém o traseiro seco — gritou ele, longe do celular.
— Tanto faz, eu não vou esquiar. Ah, eu preciso ligar pro Wyatt e contar pra ele. Temos que comprar roupas de inverno de verdade. Você vai ter que abandonar seu serviço comunitário por uma tarde ou possivelmente duas. Bom, é isso! IIIEEEII! Depois a gente se fala.
Desliguei a ligação e coloquei o celular sobre a mesa.
— Pode ser um pouco difı́cil conviver com ela pelas próximas duas semanas — brinquei.
Leif assentiu.
— Acho que você pode estar certa. — Ele recostou-se na cadeira. — Então, me fale sobre esse serviço comunitário.
Eu não queria falar com ele sobre esse tema. Em vez disso, iquei olhando ixo para o caderno na minha frente.
— Bem, estou trabalhando como voluntária no hospital. Atualmente, estou lendo livros para as crianças.
Eu esperava que fosse toda a informação de que ele precisava. Olhei para ele e a admiração em seus olhos me fez sentir uma pessoa terrı́vel. Eu não tinha ido ser voluntária porque estava preocupada com os outros; tinha ido atrás de respostas. No entanto, já havia encontrado todas as respostas que provavelmente encontraria lá. Ela era apenas uma criança, mas se expressava como se soubesse exatamente do que estava falando. No dia seguinte, eu planejava conversar com os idosos que eu sabia que não tinham mais muito tempo de vida e ver se algum deles me contava se tinha visto esse “ele” a quem ela se referira.
— Você é uma garota especial, Pagan Moore, e eu sou um cara de sorte — comentou Leif, olhando para mim com um sentimento nos olhos que eu não merecia.
Balancei a cabeça.
— Não; mais normal que eu, impossı́vel. Acredite. Bom, agora, vamos fazer a lição de casa.
Eu precisava mudar de assunto antes que começasse a chorar e admitisse o quanto, na verdade, eu era uma pessoa horrı́vel. Eu usava Leif como conforto e já o estava usando fazia muito tempo. Agora, estava usando pessoas doentes para me ajudar a encontrar Dank. Será que não me deteria por nada para encontrá-lo? Por que o amor tinha que ser tão intenso?
— Certo, esta semana nós nos deparamos com uma questão desa iadora: alunos do ensino médio devem depender do auxı́lio do café pela manhã? Bem profundo, hein? — Dei uma risada nada sincera e estendi a mão para meu laptop. — Acho que precisamos pesquisar esse assunto no Google. Porque eu mesma acredito que o café é o néctar dos deuses e, sim, precisamos dele desesperadamente. Só que me parece que seu professor tem uma opinião diferente.
Leif encolheu os ombros.
— Eu odeio esse negócio, então não sirvo de ajuda. Você realmente acha que a internet vai ter informações sobre isso?
Olhei para ele enquanto apertava “Enter”.
— Hum, sim, eu acho. Teremos os argumentos dos grupos preocupados com a saúde e os argumentos da Starbucks ao nosso alcance em apenas um segundo.
Leif se inclinou, olhou para a tela e sorriu.
— Legal, então de que lado eu devo icar nessa argumentação?