Existência
Capítulo 4
Leif não tinha aparecido na noite anterior para terminar seu discurso e era para hoje. Não aparecer não era tı́pico dele. Quanto mais tarde icava sem eu ter recebido uma ligação, mais irritada me sentia. No im, eu mesma terminei o texto da apresentação e o imprimi. No fundo, eu acreditava que ele teria uma boa desculpa, e deixá-lo tirar uma nota ruim parecia cruel. Coloquei a mão na mochila para tirar o texto enquanto seguia pelo corredor. Eu só esperava que, quando o encontrasse e lhe entregasse o trabalho, ele tivesse uma desculpa plausı́vel para a noite anterior. Admitir para mim mesma que eu precisava que ele tivesse uma desculpa realmente boa não foi fácil. Eu me permitia me preocupar demais com Leif Montgomery.
— E aı́, garota, tudo bem? Senti sua falta. — Miranda passou o braço pela minha cintura e encostou a cabeça no meu ombro.
Eu também tinha sentido falta dela. No ano anterior, quando ela e Wyatt estavam namorando, eu estava com Jay. Não me senti isolada dos meus amigos quando eles se tornaram um casal. Agora, quando eu estava solteira e os outros dois integrantes do meu trio eram um casal, não conseguia evitar a sensação de estar segurando vela.
— Também sinto sua falta. Precisamos sair uma noite dessas. Talvez uma noite de garotas — sugeri, enquanto procurava por Leif na multidão de alunos que obstruı́am o corredor.
— E uma ideia maravilhosa! Vamos fazer isso uma noite neste im de semana. — Ela parou por um instante e então ruborizou. — Ou talvez no próximo. — A careta atı́pica era prova su iciente de que ela odiava me dizer que estava ocupada.
Dei de ombros e forcei um sorriso.
— Não se preocupe. Quando você tiver tempo. — Olhei para trás no corredor e desta vez consegui ver Leif diante de seu armário. Estava de costas para o corredor lotado. Eu me virei para Miranda. — Preciso levar isso para o Leif. Encontro você na hora do almoço.
A multidão parecia ir se dissipando conforme eu chegava ao im da ileira de armários. Assim que atravessei o último grupo de alunos parado entre nós, notei Kendra encostada em seu armário, sorrindo para Leif. Pensei em dar meia-volta, não querendo entregar o trabalho na frente dela, mas me lembrei de que ele tinha Retórica no primeiro perı́odo. Desacelerei e parei atrás dele. Quando me estiquei para dar um tapinha em seu ombro, Kendra estendeu a mão e passou os dedos pelos cabelos de Leif. Foi repugnante de ver. Ele era um cara tão bom e ela, pura maldade.
— Tem certeza de que vir ontem à noite não foi um grande problema? Eu odiaria atrapalhar as coisas com você e sua namorada — ela arrulhou.
— Você sabe que ela não é minha namorada, Kendra. Pare de chamá-la assim. Você vai começar a espalhar fofoca. — A voz dele parecia irritada.
A ideia de que alguém pudesse pensar que ele gostava de mim era tão repulsiva? Um nó de náusea se formou no meu estômago e comecei a virar as costas para sair antes que ele me notasse.
— Você passa muito tempo na casa dela e ela está sempre olhando pra você.
— Ela é minha tutora, e não, ela não ica olhando pra mim. Você está apenas sendo paranoica quando não tem razão para nada disso.
Fechei a mão vazia em um punho apertado, pensando em todas as vezes que ele tinha me enganado me fazendo pensar que era um cara legal. Ele era tão mau e calculista quanto Kendra. Será que tinha mesmo sido adotado ou era uma grande mentira elaborada para me fazer sentir pena dele? Eu até mesmo convenci meu eu estúpido de que Leif poderia ser um cara com quem eu poderia sair. Quando ele viesse à minha mesa na hora do almoço me perguntar de novo se eu iria ao jogo, eu pretendia dizer “sim” e ver se levaria para onde Wyatt parecia pensar que estava levando.
— Tem certeza de que ela sabe que não é sua namorada? Porque parece que ela está te perseguindo — Kendra ronronou.
Eu me virei, odiando o calor que comecei a sentir nas bochechas. Meu rosto provavelmente estava vermelho-vivo.
— Hum, é… Pagan. Eu ia te procurar para explicar sobre ontem à noite.
Fiz que sim com a cabeça, não querendo discutir sobre esse assunto depois de tudo o que eu tinha ouvido, e entreguei o trabalho a ele.
— Achei que você pudesse precisar disso.
Ele olhou para o papel na minha mão antes de pegá-lo. Eu me virei para ir embora.
— Espere, eu ia te ligar ontem à noite. Acabei icando amarrado. Obrigado — disse ele ao pegar o trabalho.
Kendra entrelaçou um braço no dele e sorriu docemente.
— Isso não é verdade, Leif, eu nunca amarrei você. — Ela então dirigiu o olhar para mim e me deu um sorriso de triunfo.
Enquanto eu tinha icado sentada até tarde terminando seu texto de apresentação, ele estava com Kendra. Tinha como eu ser mais idiota? Perdi meu tempo escrevendo um discurso para alguém que achei que precisava da minha ajuda, pensando, todo esse tempo, que ele era um cara legal de quem eu poderia, possivelmente, gostar de verdade. Talvez eu não o tivesse julgado tão injustamente antes. Talvez Leif Montgomery se encaixasse na descrição que eu tinha feito dele durante todos esses anos. Doeu descobrir que o cara que imaginei que ele fosse era uma ilusão. Que iz papel de idiota quando iquei acordada, escrevendo o trabalho para ele. Isso me fez parecer uma de suas fãs apaixonadas.
Consegui abrir o armário e encontrar os livros de que precisava para a primeira aula em meio à minha névoa de raiva. Parei, fechei os olhos e respirei fundo. Eu tinha acabado de aprender uma lição e não precisava esquecer dela. Duas lágrimas escorreram e eu rapidamente as enxuguei antes de fechar a porta do meu armário. Agora ele estava me fazendo chorar. Perfeito.
— Pagan.
Droga! Ele tinha vindo atrás de mim. Eu não podia deixar que ele me visse chorando. “Humilhação” não seria uma palavra forte o su iciente para o que eu sentiria se Leif soubesse que eu tinha derramado uma lágrima por causa daquela situação. Forcei uma expressão indiferente no rosto e me virei de frente para ele.
— Sim?
Ele parecia chateado. Eu gostaria de poder me convencer de sua sinceridade.
— Olha, sobre ontem à noite, eu realmente sinto muito. Eu não esperava que você terminasse o trabalho para mim. Eu pisei na bola e ia aceitar a nota ruim. Eu deveria ter ligado, mas…
Balancei a cabeça para que ele parasse de falar.
— Não tem problema. Apesar disso, de agora em diante, será que você poderia me avisar com antecedência quando não puder chegar no horário marcado? Então, se você me dá licença... — Eu o contornei e comecei a ir para a aula.
— Pagan, espere, por favor.
Parei e considerei mandá-lo para o inferno, mas decidi em contrário; então me virei de novo para a frente e perguntei:
— O quê?
— Eu estava indo, mas a Kendra ligou.
Balancei a cabeça.
— Eu não me importo. Da próxima vez, me avise, por favor. — Eu me virei e fui em direção à minha classe, mas, quando cheguei lá, não parei de andar. Entrar atrasada em uma sala de aula, com todos os olhos direcionados a mim, não parecia possı́vel naquele momento.
Abri a porta de saı́da da escola e saı́. Eu normalmente não me expunha para ninguém. Naquele dia, porém, tinha cometido o erro de fazer isso e me queimei. Eu só queria ir para casa e lidar com meu orgulho ferido sozinha.
— Não vá embora. Ele não vale a pena. — A voz profunda familiar quase soou como uma súplica. Ele estava caminhando ao meu lado. Seu rosto era tenso, e o sorriso com o qual eu me acostumara estava ausente.
— Não quero icar. Estou com raiva e só quero ir embora.
— Por favor, Pagan, não entre no carro. Volte para dentro. Esqueça o garoto estúpido e aproveite o resto do dia. Não deixe que algo que aquele idiota fez te dê vontade de fugir correndo.
Parei de andar e olhei para ele.
— Por que você se importa que eu saı́? Você é o novo monitor do corredor e eu perdi a circular de aviso?
Sua expressão fechada se acentuou; olhos azuis se tornando azul-gelo, como se um fogo tivesse acendido atrás deles.
— Estou te implorando para voltar para a escola.
— Por quê?
Ele passou a mão pelo cabelo escuro e sedoso e rosnou de frustração.
— Você tem que questionar tudo? Será que não pode apenas me dar ouvidos para variar?
Foi isso. Eu já tinha enfrentado mais do que o su iciente por um dia. Primeiro, Leif provava que era um idiota de primeira grandeza, e então a alma que não me deixava em paz decidia se irritar comigo.
— Estou saindo. Você não pode me impedir e eu não tenho que te ouvir. Se você não tiver uma boa desculpa, não há razão para eu
icar. — Girei na ponta dos pés e comecei a caminhar em direção ao
meu carro. Os garotos eram irritantes, vivos ou mortos; isso não parecia importar.
Rapidamente liguei o carro e me concentrei em sair do estacionamento da escola. Não queria que ninguém me visse e me denunciasse antes que eu pudesse dar o fora dali. Eu não conseguia acreditar que realmente havia derramado uma lágrima por causa da situação com Leif. Chorar não era minha praia; eu achava que tinha sido a humilhação. Não estava acostumada àquilo e, obviamente, não sabia como lidar.
Ajustei o espelho retrovisor para ver se eu estava com uma aparência tão péssima quanto temia, caso minha mãe saı́sse da toca de escrita quando eu chegasse em casa. Se o rı́mel estivesse borrado, minha mãe notaria. Eu não seria capaz de esconder a frustração, pois sorrisos falsos não eram um dos meus talentos.
Suspirando, olhei de volta para a rua. Tentar consertar meu rosto sem a ajuda de água e sabão era uma causa impossı́vel. A placa de Pare em que eu havia parado o carro um milhão de vezes me surpreendeu. Eu não estava prestando atenção e esqueci de desacelerar ― era tarde demais para pisar no freio. Olhei bem a tempo de ver um caminhão vindo na minha direção e, uma fração de segundo depois, a compreensão chegou: eu não seria capaz de parar a tempo.
Tudo escureceu, e o guinchado de pneus cantando e da buzina repetitiva silenciou. Uma sensação vertiginosa e uma dor aguda percorreram meu corpo. Tentei gritar por socorro, mas não saiu nada. Comecei a sufocar. Algo pesado pressionava meu peito e eu não conseguia respirar. Engasguei e procurei ajuda na escuridão. Acabaria morrendo as ixiada se não tirasse o peso do peito. Lutei para abrir os olhos, mas a escuridão me segurava abaixo da superfı́cie. O calor se espalhou por mim enquanto eu agarrava algo na escuridão. Congelei no lugar, sem ter certeza do que havia encontrado, quando percebi que podia respirar outra vez. As luzes voltaram de repente, e o mundo tornou-se incrivelmente brilhante. Não conseguia abrir os olhos por causa da dor. Alguém me carregou por uma curta distância e então senti o solo frio debaixo das costas. As mãos anormalmente quentes que me envolviam desapareceram. Tentei protestar. Eu não queria que meu salvador me deixasse, mas não conseguia encontrar minha voz. Tentei me sentar e uma dor intensa tomou conta do meu corpo. O mundo icou em silêncio.
Um som assustadoramente doce tocava na escuridão. Virei a cabeça e encontrei a fonte da música. Meu pescoço estava rı́gido e minha cabeça começou a latejar tão forte que abafou o som da melodia que eu estava tentando encontrar. Parei de me mover e mantive os olhos fechados, esperando que a dor parasse.
— E ela acorda… — disse uma voz na escuridão. Eu o reconheci e, em vez de temê-lo, o som me acalmou. A música começou a tocar novamente e percebi que era a melodia suave de um violão. Um zumbido baixo se juntou a mim e eu iquei imóvel, ouvindo na escuridão, feliz que a música preenchesse o vazio, me garantindo que eu não estava sozinha.
Precisando vê-lo, abri os olhos e percebi que as luzes estavam apagadas. Fiquei imóvel enquanto meus olhos se ajustavam ao espaço escuro. Eu não estava no meu quarto. O aparelho ao meu lado e a agulha no meu braço eram as únicas pistas de que eu precisava. Eu estava em um quarto de hospital. O violão parou de tocar. Com medo de virar a cabeça novamente, em vez disso, mexi o corpo com cuidado.
A alma estava sentada em um canto escuro, me observando.
— O que você está fazendo? — consegui perguntar em um sussurro rouco.
Ele sorriu, se levantou e se aproximou de mim.
— Bem, eu pensei que seria óbvio. — Ele segurou o violão. Essa alma não só podia falar, mas também tocava instrumentos musicais. Eu queria perguntar mais, mas minha garganta doı́a muito. Ele estava sentado em uma cadeira que alguém havia puxado ao lado da minha cama. — Você provavelmente não precisa falar. Você teve um acidente de carro, que te fez sofrer uma concussão grave e quebrar uma costela. Fora isso, está apenas cheia de hematomas.
Lembrei-me do sinal de pare e do caminhão vindo na minha direção, rápido demais. Eu sabia que não seria capaz de frear a tempo.
— Você estava usando cinto de segurança e o caminhão bateu na lateral traseira do seu carro, fazendo você capotar algumas vezes.
Será que minha mãe sabia? Ela icaria apavorada. Quanto tempo fazia? E por que uma alma era a única pessoa comigo? Olhei para o aparelho em que meus ios estavam conectados e, se eu estava lendo direito, então estava realmente viva. O medo repentino com a perspectiva de morte diminuiu e eu olhei de volta para aqueles intensos olhos azul-escuros.
— Mãe? — consegui perguntar com a garganta seca e dolorida.
A alma sorriu.
— Ela saiu para tomar um café, há alguns instantes. Deve voltar em breve.
Minha mãe estava aqui e eu a veria dentro de alguns minutos. Me senti como uma criança, com medo do escuro. Lágrimas izeram meus olhos arderem enquanto eu olhava para a porta, esperando que ela abrisse para revelar minha mãe. Uma mulher com cabelo castanho curto e cacheado entrou no meu quarto lutuando sem usar a porta. Eu a observei atentamente e ela sorriu para mim, mas olhou direto através da outra alma na sala. Certa vez, quando tinha dez anos, fui internada por pneumonia e percebi que almas perdidas e errantes perambulavam em abundância nos hospitais. Esta
lutuou até algumas lores que eu não tinha notado antes, perto da
janela. Ela parecia as estar cheirando e deu um puxão suave no monte de balões que me desejavam “Melhoras” presos a uma dúzia de margaridas amarelas. Olhei de volta para a alma do garoto, sentada ao meu lado. Ele parecia estar me observando atentamente.
— Você a enxerga, não? — ele perguntou, e eu assenti. Ele observou a mulher enquanto ela olhava para mim mais uma vez antes de voltar a atravessar a parede. — Você sempre as enxergou?
Consegui sorrir com o fato de que ele se referia às almas como se ele mesmo não fosse uma. Levantei as sobrancelhas e olhei para ele incisivamente.
— Você é uma delas — a irmei com um sussurro.
— Sim, eu acho, para você, parece que sou. No entanto, existe uma diferença entre mim e as almas.
Fiz uma careta.
— O quê?
Eu sabia que ele conseguia falar comigo e que as almas nunca tinham falado antes, mas ele ainda era uma alma sem corpo.
— Não posso te dizer o que sou. Já quebrei regras su icientes. — Ele ixou-se no aparelho ao meu lado em vez de encontrar meu olhar.
A porta do quarto se abriu e minha mãe entrou.
Seus olhos encontraram os meus e ela ofegou com espanto antes de correr para mim.
— Pagan, você está acordada! Oh, querida, sinto muito por não estar aqui quando você acordou, sozinha e confusa em um quarto escuro de hospital.
Espiei atrás dela e vi a alma parada ali nos observando com aquele sorriso sexy em seus lábios perfeitos, ao qual eu estava começando a me apegar.
— Eu só precisava de um cafezinho e depois corri para comprar essa revista — disse ela, segurando uma sacola plástica verde. — Deixe-me chamar a enfermeira. Não se mexa. Você está um pouco baqueada, mas vai icar bem. — Lágrimas brotaram de seus olhos e ela cobriu a boca com a mão. — Desculpe — pediu, olhando para mim com os olhos marejados. — E só que eu ico pensando no seu carro e como ele teria te esmagado completamente se você não tivesse sido jogada do banco do motorista. Sempre digo para você usar o cinto de segurança e o fato de você não me ouvir salvou sua vida. — Ela soltou um pequeno soluço e sorriu, se desculpando para mim. — Oh, querida, estou tão feliz por você abrir os olhos.
Sorri para ela, tentando mascarar minha confusão.
— Está tudo bem — sussurrei.
Ela se abaixou e beijou minha testa.
— Volto já. Preciso chamar uma enfermeira. Elas estão esperando você acordar.
Ela se dirigiu para a porta e eu encarei o fantasma em pé no canto com o violão na mão. Pareceu-me estranho vê-lo segurando aquele instrumento. As pessoas viam um violão lutuando no ar? Minha mãe não parecia notar; se bem que ela não tinha olhado para nenhum lugar além de mim.
— O cinto de segurança — sussurrei por entre os lábios secos.
Eu estava usando cinto. Eu sempre usava. O garoto espı́rito até tinha dito que era bom eu estar usando. Por que minha mãe achou que eu não estava e que não usar salvou minha vida? Ele deu um passo à frente, me observando de perto. Sua expressão dizia que ele não sabia como me responder. Antes que pudesse dizer algo, a porta se abriu novamente e ele recuou para o canto. Uma enfermeira entrou apressada com minha mãe vindo logo atrás. A resposta à minha pergunta teria de esperar.
A alma partiu antes que a enfermeira terminasse os procedimentos comigo e não havia retornado. Quando acordei de novo, veri iquei rapidamente o quarto, esperando que ele voltasse, mas minha mãe agora estava sentada em seu canto, onde antes a alma se encontrava, trabalhando no laptop. Ela olhou para mim e sorriu.
— Bom dia!
O medo que eu tinha visto em seus olhos na noite anterior havia sumido… ela parecida com minha mãe novamente. Agora que eu tinha acordado e a enfermeira garantira a ela que eu me recuperaria bem, ela parecia menos tensa e mais semelhante à minha mãe de sempre.
Eu sorri.
— Dia. — Minha garganta estava um pouco melhor graças a todos os cubos de gelo que eu havia comido. Fiz menção de pegar o copo d’água e minha mãe deu um pulo rapidamente.
— Não se mexa. Sua costela quebrada vai exigir que você ique quieta por um tempo. — Ela colocou o canudo nos meus lábios e eu tomei pequenos goles de água fria. A sensação era maravilhosa na minha garganta. — Miranda já ligou hoje de manhã e eu disse que você acordou ontem à noite. Ela está a caminho, com Wyatt. — Ela fez uma pausa e olhou para trás, na direção da porta. — E Leif Montgomery icou na sala de espera a noite toda. Ele até dormiu lá. Eu fui e disse a ele que você tinha acordado e pedi para ele voltar pra casa porque você não poderia receber visitas, mas ele permaneceu. As enfermeiras icaram com pena e lhe deram um travesseiro e cobertores. — Ela parou, como se não tivesse certeza exatamente de por que ele ia querer icar na sala de espera a noite toda. As memórias de Leif não ter aparecido em nossa sessão de estudos por causa de Kendra ressurgiram na minha mente. Eu não me sentia mais triste ou decepcionada. As lágrimas que eu havia derramado por ele eram inúteis.
Minha mãe mordeu o lábio inferior.
— Leif disse que foi ele o motivo de você ter saı́do chateada da escola. Não perguntei por que você não estava na escola ou o que tinha acontecido, porque eu não queria te aborrecer. — Ela parou de falar e me observou atentamente, esperando que eu dissesse alguma coisa.
O que eu poderia falar? Realmente não queria ver Leif. Eu quase havia me matado por agir como uma garota boba apaixonada.
— Ele icou aqui a noite toda? — perguntei, querendo ter certeza de que tinha entendido bem.
Ela fez que sim.
— Ele está aqui desde que soube do seu acidente. Veio com Miranda e Wyatt, mas não quis ir embora com eles.
— Ok, hum… se ele quiser entrar, tudo bem.
Minha mãe pareceu aliviada. Acho que estava preocupada que eu pudesse dizer ao pobre garoto, que tinha icado esperando a noite toda em uma desconfortável sala de espera, que eu não queria vê-lo. Ela correu porta afora, e ouvi Miranda sussurrar algo quando cruzaram caminho uma com a outra. Sem dúvida estavam discutindo o fato de eu ter concordado em deixar Leif entrar para me ver. Miranda entrou, colocou as mãos na cintura e me deu um grande sorriso alegre.
— Olhe pra você, toda acordada e maravilhosa — disse ela, aproximando-se de mim e sentando-se na cadeira ao lado da cama.
Agarrou minha mão e eu vi nos seus olhos o brilho das lágrimas que ela tentava conter. Apertei sua mão, e ela deixou as defesas caı́rem. Um soluço escapou enquanto as lágrimas começavam a escorrer por seu rosto. Olhei para Wyatt, que estava atrás dela me observando. Ele encolheu os ombros e me deu o que eu poderia chamar de um sorriso forçado.
Miranda engasgou com um soluço.
— Sinto muito. Eu disse que não ia chorar; eu realmente me esforcei para ser positiva e alegre, mas ico me lembrando do seu carro e ouvindo sem parar na minha mente as palavras “ela foi levada às pressas inconsciente para o hospital”. — Miranda enxugou o rosto molhado e sorriu em meio às lágrimas. — Estou muito feliz por você estar bem. Ontem foi o pior dia da minha vida. — Ela levou nossas mãos unidas à boca e as beijou.
— Eu sei — respondi simplesmente. Porque eu sabia. Se tivesse sido ela naquela cama em vez de mim, eu teria icado apavorada.
— Irônico, não é? No dia em que você decide quebrar as regras, matar aula e não usar o cinto de segurança, o que é estranho, já que você é a nazista do cinto de segurança, tudo explode na sua cara. Faz você querer continuar andando na linha, não faz? — Wyatt perguntou com um sorriso.
Sorri, porque rir doı́a, e Miranda revirou os olhos, mas um sorriso apareceu no canto de sua boca.
— Sim, acho que sim. — Eu queria esclarecer o fato de que estava usando o cinto de segurança, mas não conseguia explicar algo que não entendia, então mantive a boca fechada. Uma batida soou na porta e Miranda olhou para mim, mordendo o lábio inferior com nervosismo.
Ela baixou a voz para um sussurro.
— Ele não saiu desde que chegou aqui com a gente ontem. Até perdeu o treino.
Observei Leif entrar no quarto. Seus olhos encontraram os meus e ele parou por um momento antes de entrar mais. Eu não sabia exatamente o que dizer ou o que ele poderia falar para mim. Ele era um cara que eu ajudava nos estudos e tinha dormido na sala de espera a noite toda porque eu tinha agido como uma ridı́cula só por ele ter faltado na nossa sessão de estudos. Ele estava obviamente nervoso e eu sabia que a presença de Wyatt e Miranda não ajudaria em nada. Não pretendia contar a todos que meu acidente tinha sido culpa dele. Eu mesma não acreditava nisso; sabia que a culpa era minha. Livrá-lo seria até que fácil. No entanto, com meus dois melhores amigos no quarto, isso seria estranho. Eu não queria que eles fossem embora, porque tê-los ali parecia um cobertor de segurança. Olhei de volta para Leif e pude ver em seus olhos que ele queria falar comigo sem plateia, mas não pediu que os outros saı́ssem. A ideia dele dormindo na sala de espera a noite toda porque se sentia culpado parecia injusta. Eu precisava aliviar sua consciência para que ele pudesse ir para casa.
Eu me virei para Miranda e Wyatt.
— Vocês dois podem nos dar um minuto?
Miranda olhou feio para Leif e assentiu. Eu vi quando ela se levantou. Encarar Leif não era algo novo para Miranda, mas olhar feio para ele, sim. Depois de reti icar essa situação com ele, eu também precisaria esclarecer as coisas com meus amigos. Assim que a porta se fechou, voltei minha atenção para Leif.
— Ontem, eu…. Deus. — Ele passou a mão pelo cabelo loiro bagunçado e fechou os olhos. — Você está aqui por minha causa. Eu sei que você saiu da escola porque estava chateada. Eu percebi nos seus olhos, mas não sabia como fazer você falar comigo. — Ele parou novamente e olhou para mim. — Nunca vou poder expressar pra você o quanto lamento por tudo isso.
Balancei a cabeça de um lado para o outro.
— Não foi culpa sua. Eu tomei uma decisão idiota.
— Não, a culpa é minha. Eu vi as lágrimas nos seus olhos, Pagan, e aquilo estava me matando, mas eu não conseguia encontrar as palavras certas. Eu queria explicar, mas fui um desastre.
Eu não podia deixá-lo levar a culpa pela minha estupidez.
— Pare de se culpar. Tenho que admitir que agi como uma ridı́cula por você não ter aparecido ou ligado. Eu deixei o fato de você estar com a Kendra me aborrecer, o que foi bobo. Não sei por que deixei isso me chatear tanto. Chorar por um cara não é algo que faço. O fato de estar lutando para segurar as lágrimas me confundiu e eu fui embora.
Ele estendeu a mão e tocou suavemente uma das duas dúzias de rosas cor-de-rosa que estavam em uma mesa perto da janela.
— Você foi embora porque eu te magoei, o que faz disso culpa minha — ele respondeu simplesmente.
Eu não queria que ele se culpasse. Ele precisava superar e ir para casa.
— Leif, eu sou sua tutora. Não somos nem sequer amigos. Você pode perder uma sessão e esquecer de me ligar, e eu não deveria deixar isso me magoar. Interpretei o nosso relacionamento mais do que deveria. Você nunca deu a entender que éramos mais do que parceiros de estudo. Não conversamos na escola; não somos da mesma turma; a gente só se vê na minha casa, pra fazer a lição. Foi tudo culpa minha. Pare de se culpar e vá para casa. — Eu disse a última parte com suavidade para que não soasse grosseira. Ele franziu a testa e caminhou até icar ao lado da minha cama.
— Você acha que só te vejo como minha tutora? — ele perguntou. Balancei a cabeça, sem saber o que ele queria dizer. Ele me deu um sorriso triste. — Isso também seria minha culpa. Nunca tive problema em demonstrar meu interesse por uma garota… até você.
Eu não tinha certeza do que ele queria dizer com isso, então iquei em silêncio. Ele se sentou na cadeira que Miranda havia desocupado momentos antes.
— Eu sabia que você não gostava de mim quando concordou em me dar aulas particulares. Não precisava ter me dito isso naquele dia, no corredor, quando falou que tinha me recusado porque não gostava de mim. Eu sempre soube, mas queria que você fosse minha tutora. Queria que você fosse a pessoa a saber do meu segredo. Nunca esperei que a única pessoa que me olhava com desdém fosse tão divertida. Foi uma surpresa descobrir que a garota em quem eu estava de olho desde o nosso primeiro ano no colégio fosse tão bonita por dentro quanto era por fora. Você me surpreendeu e não demorou muito para me isgar. — Um sorriso triste apareceu em seus lábios. — Mesmo assim, na escola, você ainda parecia tão intocável como sempre, então mantive distância. Tentei falar com você e até tive coragem de convidá-la para sair, mas seu desinteresse me assustou. Eu não queria tornar desconfortáveis as nossas noites juntos, então não pedi mais nada. Eu icava ansioso pelos nossos encontros o dia todo. Eu não poderia estragar nada daquilo.
Ele baixou o olhar para as mãos, que mantinha em seu colo.
— Aı́ a Kendra ligou e começou a chorar, dizendo que precisava falar com alguém e eu era a única pessoa em quem ela con iava. Eu disse a ela que tinha compromisso, mas ela chorou ainda mais e me implorou. Então concordei em passar na casa dela, porque ela está enfrentando umas questões familiares que eu já conhecia e ela precisava de alguém para ouvir. Quando percebi que não seria capaz de me livrar dela, quis ligar pra você, mas não podia fazer isso na frente dela para explicar, então não liguei. Eu só ia lidar com a nota ruim; nem achei que você fosse se importar. — Ele olhou para mim com uma expressão de dor no rosto. — Eu estava errado e nunca
iquei tão bravo comigo mesmo. — Ele se levantou, en iando as
mãos nos bolsos da calça jeans com uma expressão de derrota.
Eu sorri.
— Por favor, não ique bravo consigo mesmo. Não te culpo por nada. — Eu queria falar mais, mas não consegui.
Ele me observou por um momento antes de assentir.
— Existe alguma chance de eu não ter estragado tudo entre nós?
— O que é que você está preocupado em estragar? Eu ainda vou ser sua tutora, se é isso que está perguntando.
Ele riu baixinho e pegou minha mão com delicadeza.
— Estou muito grato por você continuar sendo minha tutora, mas não é isso que estou pedindo. Tive medo de bagunçar as coisas, mas não acho que posso bagunçar mais do que já baguncei. — Ele se recostou na cadeira ao meu lado e me itou com olhos azul-bebê emoldurados por cı́lios tão grossos que era difı́cil não suspirar ao vê-los. — Não quero que você seja apenas minha tutora. Quero que seja a garota que vou procurar nos corredores todas as manhãs e para quem vou guardar um lugar no refeitório. Quero que seja aquela que vai estar esperando por mim quando eu sair do campo depois dos jogos. Quero que seja aquela para quem vou pegar o celular e ligar só para me fazer sorrir. — Ele me observava atentamente. Leif Montgomery parecia mesmo nervoso.
Ele estava esperando que eu dissesse algo; eu podia ver a pergunta em seus olhos. Leif queria levar nossa situação a um nı́vel que antes eu achava que queria também, então por que era tão difı́cil de aceitar agora? O medo cintilou em seus olhos e eu consegui fazer um sinal a irmativo com a cabeça. Eu tinha concordado em deixar as coisas mudarem entre nós, mas, de alguma forma, no fundo, algo não parecia certo.