Existência

Abbi Glines · Capítulo 15 de 22

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Existência

Capítulo 15

Eu não fazia ideia de há quanto tempo estava em casa. O tempo parecia passar em uma linha contı́nua. Nem noite, nem dia. Sair da cama era quase impossı́vel às vezes. Em meus sonhos, Dank estava lá. Eu só queria dormir. Falar era algo para o que eu não estava pronta.

Vi as perguntas e a preocupação nos olhos de Leif no voo de volta para casa, mas não falei com ele. Não queria encará-lo agora que ele sabia que eu tinha problemas, mesmo que ele não soubesse o que eu tinha de verdade. Ele pensava que eu era louca, mas isso não tinha nada a ver com meu problema. Na verdade, o meu problema era amar alguém que não poderia ter. Eu via almas vagando perdidas pela Terra e tinha sido atacada por um espı́rito que tinha a intenção de me matar. Eu era a única pessoa que se lembrava que Dank Walker tinha frequentado a nossa escola, e se voltasse a falar o nome dele, aı́ sim iam pensar que eu havia perdido mesmo a cabeça. Então, sim, eu tinha problemas, mas não eram psiquiátricos. Eram sobrenaturais.

Uma batida na porta do meu quarto me assustou e eu me virei para encarar a porta fechada, sabendo que era a minha mãe ― minha mãe muito preocupada. Como eu poderia explicar a ela que eu sentia uma dor tão profunda e que não tinha certeza de que seria capaz de me recuperar? Tinha vivido uma perda que não se assemelhava a nada do que eu já tinha passado.

— Entre. — Minha voz soou rouca pela falta de uso. Minha mãe abriu a porta devagar e en iou a cabeça para dentro como se para medir a atmosfera antes de entrar.

— Não vai se levantar para ir à escola? — perguntou com um sorriso que não chegou aos olhos.

Esqueci que dia era, mas sabia que não estava pronta para encarar a escola. Não estava pronta para encarar Leif, nem Miranda, nem Wyatt. Precisava icar ali no quarto e encontrar forças para continuar viva. Balancei a cabeça e ela desistiu de ingir o sorriso. Rugas de preocupação se encresparam em sua testa.

— Querida, você já perdeu uma semana de aula. Deixei você icar aqui, esperando que fosse superar esse trauma, mas agora estou

icando preocupada, achando que você não vai sair dessa. Tenho

estudado sobre os seus sintomas na internet e você está com sinais de transtorno do estresse pós-traumático. Está tendo pesadelos terrı́veis e gritando enquanto dorme, gritando por tente, pente, dente… não consigo entender bem por causa dos soluços. Você não sai do quarto e não está atendendo ligações ou recebendo as pessoas. Quando tento falar com você, é como se me cortasse. Você nem me ouve.

Eu me sentei e a escutei falar. Eu estava sofrendo de coração partido, irremediavelmente quebrado, mas não ia dizer isso a ela. Só

iquei em silêncio. Ela pareceu o encarar como encorajamento.

— Fiz algumas ligações e marquei uma consulta com uma psiquiatra. Preciso que converse com ela. E uma médica muito boa que só atende adolescentes. Foi muito bem recomendada e não precisamos contar a ninguém que você vai se consultar com ela. — Lágrimas brotaram nos olhos da minha mãe. Ela as secou e soltou um suspiro entrecortado. — Eu… a verdade é que eu deveria ter te levado há anos. Quando você era pequenininha e falava sobre as pessoas nas paredes. Pensei que fosse imaginação, mas agora eu me pergunto se era algum desequilı́brio quı́mico e se esse trauma acabou desencadeando alguma coisa. — Ela fungou. — Você fala sozinha à noite. Eu te ouço falar com alguém. Querida, você precisa de ajuda.

Fiz que sim. Sabia que aquilo acalmaria os temores dela. Minha mãe estava preocupada e eu não poderia explicar nada sem que ela achasse que eu tinha pirado de vez.

Ela sorriu entre as lágrimas e assentiu.

— Certo, ótimo. Vou te dar um tempinho, mas você precisa se levantar e tomar um banho. Depois se vista e nós vamos ver a dra. Hockensmith. Ela vai nos atender hoje.

Fiz que sim novamente e observei minha mãe sair do quarto, deixando a porta aberta como um lembrete de que eu precisava me levantar. Eu tinha acabado de concordar em ir ver uma psiquiatra. Minha mãe estava desperdiçando dinheiro, mas eu sabia que precisava ir ou ela precisaria se consultar com um psiquiatra por causa do estresse emocional que eu a faria passar. Eu odiava deixar minha mãe preocupada, mas não conseguia ver uma forma de me livrar do desespero que me consumia viva.

 

A enorme casa de dois andares e paredes brancas de estuque se erguia sobre pala itas e tinha vista para o Golfo do México. Minha mãe diminuiu a velocidade e encarou a casa grande o bastante para abrigar, com conforto, umas cinco famı́lias. Mas, bem, aquela não era o tipo de casa em que uma famı́lia moraria. A alegre casa de praia era um lugar para curar meninas adolescentes que tinham problemas psicológicos. Olhei de relance para minha mãe, que me esperou fazer o primeiro movimento. Ela tinha me ajudado a fazer as malas em silêncio depois de eu ter concordado com a psiquiatra de que estava com transtorno do estresse pós-traumático e que precisava de ajuda. Estava pronta para concordar com qualquer coisa que me tirasse daquele consultório, onde tinha icado claro que ela queria que eu trocasse de personalidade ou que confessasse que me cortava. Eu não era uma psicopata, e parecia que aquele era o único diagnóstico que ela me daria, então achei melhor mentir.

— Quer fazer alguma ligação antes que a gente entre? Telefones são proibidos aqui, é uma das regras.

A expressão da minha mãe me dizia que ela estava com medo de que a notı́cia sobre a proibição de celulares fosse me fazer jogar tudo para o alto. Concordei balançando a cabeça, pensando em Leif e Miranda. Eu precisava informar aos dois sobre onde eu estaria por um tempo. Minha mãe assentiu.

— Tudo bem. Vou começar a levar as malas e providenciar o seu check-in — ela disse com um solucinho, como se estivesse prestes a romper em lágrimas. Ela estava lidando muito bem com tudo e sendo muito forte, pensando que era daquilo que eu precisava.

Ergui a mão, peguei a dela e a apertei com força.

— Mãe, está tudo bem. Acho que o tratamento vai me ajudar. Não ique tão triste. Vai dar tudo certo.

Ela fez que sim, com os olhos cheios de lágrimas. Eu sabia que precisava melhorar por ela. Precisava achar uma forma de viver com aquele buraco no peito.

Minha mãe seguiu para as escadas carregando as malas, e eu peguei o telefone e liguei para Miranda primeiro.

— Bem, já tinha passado da hora de eu ver o seu nome piscar aqui na tela. Jesus! Pagan, você me deixou preocupada.

Sorri por causa do alı́vio na voz dela.

— Eu sinto muito. — Respirei fundo. — Fui diagnosticada com transtorno do estresse pós-traumático. Estou esperando para dar entrada em um centro de reabilitação para pessoas com problemas parecidos. Não posso icar com o celular, mas me disseram que posso receber visitas, se quiser vir me ver um dia desses.

Miranda icou em silêncio, e comecei a me perguntar se a ligação tinha caı́do.

— Então, eles podem te consertar… quer dizer, consertar o que aconteceu? — ele perguntou devagar, parecendo aterrorizada.

— Sim, podem — acalmei-a, mas eu sabia que não podiam me curar. Eu nunca seria consertada. Eu só precisava aprender a conviver com os vivos, assim as pessoas que eu amava não se preocupariam comigo.

— Você contou ao Leif? — A voz dela tinha perdido a alegria de antes e eu odiei por aquilo ser culpa minha.

— Não, liguei para você primeiro.

Com um suspiro entrecortado, ela disse:

— Eu amo você. — Pela primeira vez, senti as lágrimas brotarem nos meus olhos. Eu a amava também. — Ligue para o Leif e eu vou te visitar o mais rápido possı́vel.

— Tá bom. A gente se vê. Tchau. — Desliguei e liguei para Leif.

— Pagan. — Ele pareceu tão aliviado quanto Miranda.

— Oi — cumprimentei, tentando tranquilizá-lo para, então, dar a mesma notı́cia.

— Está se sentindo melhor hoje? Espero que sim, Pagan, porque estou sentindo muita saudade.

Sorri pelo calorzinho que a voz dele sempre me causava.

— Estou com transtorno do estresse pós-traumático, Leif. Eu fui a uma psiquiatra.

— O que é isso? Vão te receitar um remédio para melhorar as coisas? — Ele parecia em pânico.

— E exatamente o que parece ser. Estou com problemas para agir normalmente devido ao trauma pelo qual passamos. Todos vocês lidaram normalmente com a situação, e eu não. Pode ser um desequilı́brio quı́mico; eles não têm certeza, mas vou icar em um centro de psiquiatria por um tempo. Teoricamente, eles podem dar um jeito em mim. Não vou poder icar com o telefone, mas posso receber visitas.

Leif pareceu estar respirando fundo.

— Então, eu posso ir te ver? Quanto tempo você vai icar aı́?

— Sim, pode, e eu não tenho certeza.

— Sinto muito por isso ter acontecido a você, Pagan. Sinto muito mesmo. — A voz dele parecia cheia de dor e culpa.

— Escuta, Leif, estou enfrentando tudo isso por causa das coisas que estão erradas comigo. O que você viu foi só o estopim. Eu vou

icar melhor.

Eu precisava ouvir essa mentira tanto quanto ele. Depois de o reassegurar várias vezes de que tudo icaria bem, desliguei e deixei o celular no banco do passageiro. Minha bolsa de mão tinha sido tudo o que icara no assento de trás. Eu a peguei e subi as escadas, indo para o meu novo lar provisório.

 

O quarto amarelo-claro que me deram tinha uma janelinha tipo escotilha que dava vista para a praia. Dera um abraço de despedida na minha mãe lá embaixo há uns trinta minutos. Eu me lembrei de que estava fazendo aquilo por ela. Estar ali a ajudaria a lidar com seus temores da minha possı́vel loucura. E estar longe do meu quarto, o lugar que abrigava tantas lembranças de Dank, me ajudaria a encontrar uma forma de viver sem ele.

Uma senhora estava na areia com um saquinho do que parecia ser pão de sanduı́che, jogando migalhas para o alto enquanto as gaivotas circulavam sua cabeça. Ou ela não era dali e não percebia que aquela era uma boa forma de levar cocô de passarinho na cabeça, ou era uma paciente de psiquiatria que estava muito doida para se importar com um pouco de cocô de pássaro.

Virei as costas para a revoada de aves famintas e observei o cômodo pequeno que tinha a metade do tamanho de um quarto normal. Levando em conta que aquele lugar abrigava vinte pacientes por vez, dez enfermeiras e dois médicos, os quartos não podiam ser grandes demais, mesmo aquela sendo uma casa de dois andares e enorme. Uma cama de solteiro estava ali no meio e uma mesinha redonda e branca servia de apoio para um abajur coberto de conchas. Um único espelho oval estava preso na parede sobre a cômoda de três gavetas. Um armário minúsculo, com tamanho apenas su iciente para pendurar umas quinze peças de roupa e guardar três pares de sapato, icava na parede oposta. Durante o dia, eu só podia passar uma hora no quarto. Era a maneira de manterem os pacientes cercados por outras pessoas. O “isolamento levava à depressão” era a regra de ouro por ali.

Olhei para o despertador que tinham deixado na mesinha redonda. Já havia usado dez dos sessenta minutos que tinha de permissão para icar no quarto. Eu precisava ir dar uma volta e ser vista, assim teria tempo disponı́vel para icar ali mais tarde. Fui até o corredor, fechei a porta e a tranquei com a chave que me tinham me dado e que eu guardara no bolso. Ao que parecia, havia razões para nos preocuparmos com medo de sermos roubadas por algum paciente. Não podı́amos trazer nenhum objeto de valor, mas os que sofriam de transtornos de personalidade podiam levar qualquer coisa, e eu precisava das minhas roupas. Só pude trazer uma quantidade limitada e eu precisava do que tinha.

Uma porta se abriu mais abaixo no corredor e uma menina com o cabelo castanho e rebelde e óculos grandes e redondos me encarou e logo bateu a porta. Ouvi o clique da fechadura. Ela se assustava e se a ligia com facilidade. Devia sofrer de um caso severo de transtorno do estresse pós-traumático, ou TEPT, como o chamam ali. Encarei as portas fechadas e me perguntei se alguém naquele corredor tinha o mesmo problema. Se sim, as noites seriam bastante barulhentas com todos os gritos causados pelos pesadelos.

Desci as escadas e fui até a sala principal, ou o que eles chamavam de Grande Salão. Lá icavam os televisores que transmitiam os seriados de comédia e os jogos de tabuleiros arrumados nas mesas. Não havia computadores ou internet para o uso dos pacientes. Uma enfermeira me deu um sorriso de orelha a orelha ao passar com uma cesta cheia de lanchinhos.

— Vamos tomar o lanche da tarde daqui a pouquinho. Fique por aqui para comer alguma coisa e conhecer alguns dos outros pacientes. Temos vários da sua idade.

Conhecer adolescentes com transtornos psicológicos não me atraı́a nada, nada, mas iquei quieta. Em vez disso, atravessei as portas duplas de vidro que levavam até a sacada.

— Você não vai conseguir abrir essas portas. Eles as trancam. Sabe, para nós, os loucos, que podem ter a ideia maluca de que são capazes de voar. Embora eu ache que a areia não vá nos matar se cairmos nela.

Eu me virei e vi uma menina com o cabelo loiro oxigenado que eu diria que ia até a altura dos ombros. Ela tinha feito marias-chiquinhas no alto da cabeça. E usava um batom vermelho-berrante, que contrastava com a pele pálida.

— Obrigada.

Ela deu de ombros.

— Não foi nada. Se quiser ir lá fora curtir a praia, precisa chamar uma enfermeira para ir junto com você. Elas gostam de ter uma desculpa para sair.

Lembrei da senhora alimentando os pássaros na areia. Ela estava sozinha.

Eu não queria muito saber quem ela era, então voltei a assentir e disse “obrigada”. Ela inclinou o rosto ino de um lado para o outro e agiu como se estivesse examinando algo de forma bem dramática.

— Você não é um caso psicológico, é? — Eu não tinha esperado que essa menina esquisita izesse uma observação tão precisa, a inal de contas, todos os médicos acreditavam que eu precisava de ajuda. Dei de ombros, sem saber o que responder.

— Bem, eles parecem pensar que sou.

Ela ergueu as sobrancelhas escuras que tinha deixado sem tingir.

— Eles podem estar errados. Já erraram antes.

Eu me perguntei se ela falava de si mesma. Olhei para a enfermeira que estava atrás da mesa digitando em um laptop. Ela pareceu não reagir à acusação de que havia pessoas que não deveriam estar ali.

— Karen sabe que é verdade. Ela só não vai admitir. Vai, enfermeira Karen? — A loira sorria para a enfermeira, que olhou para cima e revirou os olhos com carinho e voltou a digitar. — Ela sabe, mas está ocupada demais no Twitter para admitir.

A enfermeira esticou a mão, deu um tapinha na pilha de papéis ao seu lado e voltou a olhar para a loira.

— Estou dando entrada nos dados sobre remédios e resultados de exames.

— Blábláblá. Não deixe que ela te engane, ela é a louca do Twitter. Fica lá a porra do tempo todo.

A enfermeira lançou um olhar de advertência.

— Olha a boca, sim? Você vai perder mais dez minutos de quarto se não tomar cuidado.

A loira deu de ombros e voltou a me encarar.

— Como eu disse, nem sempre eles estão certos. Posso ver nos seus olhos. Você é bem sã. Não tem demônios nos olhos como a maioria das pessoas. — Ela icou de pé e se espreguiçou, mostrando a barriga branca e chapada. Tinha um enorme piercing preto no umbigo. — Eu me chamo Gee, a propósito. — A garota estendeu a mão para eu apertar e, quando fui cumprimentá-la, ela puxou.

— Regra número um, não aperte mãos. Esse lugar está cheio de gente louca.

Sorri.

— Presumo que você não seja um deles.

Ela soltou uma gargalhada.

— Ah, não, eu sou tão doida quanto eles. — Ela se afastou e, ao passar, deu um tapa nos papéis em que a enfermeira estava trabalhando.

— Não tuı́te muito, Karen. Faz mal para os olhos. Você tem que parar com essa merda.

— Dez minutos, Gee — determinou a enfermeira, sem olhar para cima.

Gee olhou para mim e deu uma piscadinha.

— Eles não gostam de palavrões, então, se for boca suja, é melhor se controlar.

— Vinte minutos, Gee — a enfermeira voltou a dizer, ainda concentrada na tela. Gee caiu na gargalhada mais uma vez e foi em direção à sala de jantar.

A enfermeira olhou para mim.

— Gee é um caso especial. Você vai aprender a ignorá-la. Está na hora do lanche lá na sala de jantar, caso queira ir pegar algo para comer e conhecer outros pacientes.

Sorri.

— Obrigada, mas não estou com fome. Posso só icar aqui e ver televisão?

A enfermeira Karen fez que sim e voltou ao trabalho. Eu me aconcheguei na cadeira e olhei para a televisão sem ver, me sentindo mais sozinha do que nunca.