Existência
Capítulo 20
Minha mãe mandou Leif para a escola sem mim e explicou que eu iria mais tarde. Leif era um problema com o qual eu teria de lidar. Se eu tinha que viver essa existência, não podia continuar a usá-lo. Jamais o amaria do jeito que ele merecia. Ele era meu amigo e uma fonte de consolo. Arrastar ainda mais aquele relacionamento não era só errado com ele; seria traição porque eu jamais pertenceria a alguém que não fosse Dank. Eu não poderia viver daquele jeito. A vida não seria fácil para mim. Eu precisaria cortar todos os laços que tinham dilacerado minha alma já dani icada.
Quando inalmente cheguei à escola, já tinha perdido a aula de Literatura Inglesa. Os corredores estavam cheios de estudantes. Segurei os livros junto ao peito e apertei a autorização de entrada na mão. Eu podia fazer aquilo. Repeti o lembrete de novo e de novo na minha cabeça. Miranda saiu do meio da multidão, e icou radiante quando me viu.
— PAGAN! Viva, você veio! Senti uma saudade louca de você. Agora os almoços não vão ser tão chatos e, ai, meu Deus! Advinha só? — Lutei para acompanhar a torrente de palavras, então levei um momento para perceber que ela queria que eu interagisse com o “advinha só”.
— Ah, é, o quê? — Não pude nem dar um sorriso forçado.
Ela me deu um sorrisão e sondou os arredores para se certi icar de que ninguém estava ouvindo, então, voltou a olhar para mim.
— Dank Walker está aqui. Tipo, na nossa escola. Tipo, aqui, matriculado na nossa escola. Acredita? Quer dizer, eu sei que ele fazia ensino médio em Mobile, lá no Alabama, até o ano passado, quando a banda dele estourou com aquele hit e eles começaram a se apresentar no paı́s todo, em vez de apenas aqui no Sudeste. AH! Você consegue acreditar que ele está aqui!? Na nossa escola? Acho que, já que ele tinha que voltar a estudar, vir para a nossa cidadezinha costeira pitoresca seria melhor do que qualquer lugar no Alabama. Mesmo assim, não consigo acreditar.
Congelei enquanto registrava aquelas palavras no meu cérebro. Dank estava aqui? Como? O roqueiro de quem ela acabava de falar não existia mais.
Pânico misturado com descrença apertou meu peito e eu tive que respirar fundo.
— Onde? — consegui perguntar, sabendo que não conseguia disfarçar o desespero estampado no meu rosto. Miranda sorriu e apontou para Leif.
— Melhor tirar esse olhar abobado do rosto. O seu cara está vindo.
Eu mal olhei para ele, e peguei a mão dela.
— Me diz onde ele está. Por favor, agora.
Os olhos dela se arregalaram com o meu súbito pedido ofegante. Ela ia pensar que eu estava pirando de novo.
— Ah, é, por aı́, em algum lugar — disse com a voz tensa, e olhou para Leif, forçando um sorriso que não combinava com os olhos preocupados.
— Você sabia que a Pagan é super fã da Alma Fria?
Leif olhou para mim, mas eu não tinha tempo para lidar com ele naquela hora. Eu precisava encontrar Dank.
— Tenho que ir. Vejo vocês depois — respondi a tı́tulo de explicação, e atravessei a multidão correndo. Lutei contra o desejo de chamar por ele em voz alta.
— Você vai ser enviada de volta para a clínica psiquiátrica se não se acalmar. — A voz suave de Dank provocou no meu ouvido, e eu me virei. Ele não estava, é claro, sussurrando no meu ouvido, nem estava perto de mim.
— Cadê você? — sibilei.
Ouvi uma risadinha e me virei para trás, mas só vi um casal de calouros se beijando.
— Na mesa de piquenique — ele se limitou a dizer.
Dei meia-volta e fui para a entrada da escola. Ele esperava por mim no lugar em que o vira pela primeira vez. Empurrei a porta com as duas mãos e saı́ correndo.
Ele estava largado lá, relaxando, como da primeira vez, sorrindo para mim enquanto eu fazia a volta. Joguei os livros no chão e me joguei em seus braços abertos. O choro sacudiu meu corpo. Ele estava ali! Ele estava ali. Eu não podia falar, então mantive o rosto enterrado em seu peito, soluçando descontroladamente. Queria olhar para ele, beijá-lo e perguntar como, mas parecia que eu não podia controlar as emoções que tomavam conta de mim. Ele me puxou para o colo e voltou a se sentar sobre a mesa.
— Feliz por me ver? — ele perguntou no meu ouvido. O fôlego quente fez cócegas na minha orelha. Eu ri em seu peito e iz que sim, ainda incapaz de falar. — Eu teria vindo antes, mas não tinha certeza. Precisava esperar até… — A voz dele esvaneceu e eu me afastei para olhá-lo no rosto.
— Esperar o quê? — indaguei, precisando me assegurar de que ele não iria embora.
Dank secou minhas lágrimas com o dedo e inclinou meu queixo para cima, para que eu pudesse olhar dentro daqueles olhos parecidos com joias.
— Eu não podia voltar até que você escolhesse. Ao que parece, se você izesse o sacrifı́cio inal, a regra que eu quebrei seria reparada.
Balancei a cabeça, sem entender de que sacrifı́cio ele estava falando.
— Você quer dizer a minha morte? Eu me sacri iquei voluntariamente ontem à noite. Por que você demorou tanto? A Gee apareceu no meu quarto e ela estava tão confusa quanto eu.
Ele sorriu para mim.
— Não, não a sua morte, embora aquela decisão tenha sido levada bem a sério. No entanto, poderia ter sido interpretada como egoı́smo pela Divindade. Olha só, humanos desistem de viver quando não conseguem lidar com a dor. E uma fuga fácil. O sacrifı́cio de que estou falando não é o de morrer, mas o de viver.
Ele encostou a testa na minha.
— Veja bem, Gee estava fazendo a parte dela. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo. Ela não é uma Divindade, mas é imortal e está por aqui desde o princı́pio do tempo. Ela sabia que tudo se resolveria com o autossacrifı́cio. Um ato totalmente altruı́sta.
Balancei a cabeça e franzi a testa.
— O que você quer dizer?
Ele riu e eu percebi que aquele era o som mais lindo do mundo.
— Você escolheu viver uma vida que não queria mais só para aplacar a minha dor. Você não queria viver sem mim, ainda assim, quando soube que isso tornaria a minha extinção inútil, não suportou aceitar essa ideia. Você escolheu viver por mim.
Eu iz que sim, concordando com ele, mas sem saber o que aquilo tinha a ver com a razão para ele estar ali na minha frente.
— Minha linda alma — ele murmurou e acariciou minha bochecha. — Seu sacrifı́cio inal pagou pelo meu erro. Você se provou digna da minha devoção. Do… amor da Morte.
Toquei seus lábios perfeitos com meus dedos, querendo beijá-lo. Estar tão perto dele quanto possı́vel.
— Então, por eu ter escolhido a vida, você continuou existindo? — perguntei, maravilhada.
Ele fez que sim.
— Na verdade, ica ainda melhor. — Beijou o meu queixo, seguindo até a bochecha, me fazendo esquecer do que ele estava falando.
Sua proximidade me deixava fraca de prazer e um gemido baixinho escapou da minha garganta.
— Ah, que som maravilhoso — murmurou ao trilhar beijos pelo meu pescoço, indo até a clavı́cula.
Eu me agarrei aos ombros dele, sabendo que a qualquer momento eu desmaiaria de prazer. Senti sua lı́ngua quente na minha pele e arquejei, tentando chegar mais perto, pronta para implorar por mais, bem ali no pátio da escola. Ele se afastou e sua respiração estava saindo entrecortada.
— Consegui icar com você — disse, me olhando com uma intensidade que me fez tremer.
— Ficar comigo? — indaguei, me esticando para beijá-lo no queixo e ir descendo até seu pescoço perfeito.
— Não aqui. Não posso aguentar muito mais, Pagan. Não sou tão forte assim — ele pediu com a voz rouca ao me puxar para o seu peito. — Você é minha agora. Enquanto você caminhar pela Terra, será minha. Nada poderá te machucar. — Ouvi um pouco de humor na voz dele. — E praticamente impossı́vel ferir o que a Morte protege.
Sorri em seu peito, querendo icar naqueles braços para sempre, mas havia muitas perguntas que eu sabia que precisava fazer. Poderia me refastelar em sua presença mais tarde.
— Posso icar com você por toda a eternidade, então?
Um leve franzir tocou sua boca perfeitamente esculpida.
— Não exatamente. Você é minha enquanto caminhar pela Terra. Seu corpo vai icar velho, e a velhice não é algo que possamos deter. Um dia, você terá que deixar esse corpo e começar uma vida nova.
— Vou envelhecer e ter que te deixar, e depois o quê? Começar uma vida nova na qual eu não vou te conhecer? Você vai esperar até eu estar com a idade certa e ir me ver? Não. Dank, NAO! Eu não quero fazer isso. Quero icar com você para sempre, para todo o sempre.
Dank prendeu meu rosto e me olhou dentro dos olhos.
— Pagan, você é uma alma. Deve viver a eternidade dada a elas. Não há escolha. O fato de eu poder te amar e te proteger enquanto você está aqui é um presente que não ousei ter esperança de receber. E tudo o que podemos ter. Eu sou a Morte; sou uma Divindade. Não sou e nunca fui uma alma. Ceifo almas frias ou almas cujos corpos acabaram de morrer e as enviaram para o lugar que merecem. Fui criado para isso.
Balancei a cabeça, passando os braços ao seu redor, como se ele fosse desaparecer a qualquer momento.
— Quero ser imortal. Quero icar com você para sempre. Não há nada que você possa fazer?
Ele fez que não com tristeza, e então parou, olhando por cima do meu ombro com uma careta raivosa.
— Vá embora, Gee, não é da sua conta. — A voz dele gotejava um gelo frio que só a Morte poderia invocar.
Eu me virei e vi Gee ali perto com uma mão na cintura, sorrindo como se tivesse acabado de vencer uma competição.
— Ah, mas eu não me importo. E a beleza de tudo isso — ela disse, animada, e me encarou. — Ele não está te dizendo tudo o que há para saber, porque acha que a sua mente é frágil demais para entender a complexidade da coisa. Não o deixe escapar assim tão fácil, Peggy Ann.
Atrás de mim, Dank rosnou.
— Não a chame assim.
Gee sorriu e me deu uma piscadinha.
— Tá certo, tá bom. Pei-Gan.
Olhei para Dank.
— Do que ela está falando, Dank? Me conta. Farei o que precisar para que eu nunca tenha que te deixar. Não quero envelhecer. Quero
icar do jeito que estamos agora, para sempre. Vou para onde quer
que você for. Por favor.
Dank suspirou, passou a mão em volta da minha cintura e apertou.
— Eu vou te dizer, um dia. Quando for a hora. Há uma forma, Pagan, mas não é fácil. Ela exige mais concessões do que você pode imaginar. A escolha nunca foi feita e para uma alma pode ser impossı́vel. Almas são prejudicadas por suas emoções, que são fracas demais.
Gee gargalhou por trás de mim.
— Supõe-se que as almas sejam frágeis emocionalmente, mas essa aı́ não é nada fraca. Dê um voto de con iança a ela. Ela acabou de fazer uma escolha que nenhuma outra alma faria ou teria o poder de fazer. A alma dela é incomum ou você jamais a teria tomado para si.
Ele me olhou e sorriu com carinho.
— Eu sei.
A calidez em seus olhos fez o resto do mundo desaparecer.
— A gente se vê, Pei-Gan — Gee gritou às minhas costas.
Eu odiava desviar o olhar do de Dank, mas o afastei para poder me despedir de Gee. Ela já tinha ido.
Dank soltou um suspiro frustrado.
— Se não gosta muito dela, cuidarei para que não tenha que voltar a vê-la.
Eu enrijeci.
— O quê? Não.
Ele sorriu.
— Relaxa, Pagan, ela está a salvo da minha ira. Ela te faz sorrir e se importa com você. Isso a deixa eternamente segura e a faz ser estimada.
Sorri e passei as mãos pelos cachos escuros.
— Então, Morte, o que fazemos agora?
— Para começar, você precisa terminar com o Leif e eu vou com você.
Já me sentia bastante mal só de pensar em partir o coração de Leif. A culpa me consumia viva a cada vez que eu pensava em magoá-lo. Balancei a cabeça e lhe dei um olhar de súplica.
— Por favor, me deixa ir sozinha. Você não pode estar lá, só vai piorar as coisas.
A expressão de Dank permaneceu in lexı́vel.
— Eu sinto muito, Pagan, mas não posso te deixar ir sozinha. Ele não é quem você pensa. Não con io na reação dele.
Sorri por Dank pensar que precisava me proteger de Leif. Ele era inofensivo. Estaria magoado, mas não seria perigoso.
Dank se levantou, me colocou de pé na frente dele e deslizou a mão na minha.
— Pagan, não sei bem como te dizer isso, mas… o Leif não é humano.