Existência
Capítulo 1
Não olhe, assim ele vai embora,eu repetia mentalmente enquanto caminhava em direção ao meu armário. Era necessário ter muita força de vontade para não olhar para trás. Não só seria inútil alertá-lo de que eu poderia vê-lo, como também seria idiota da minha parte, pois os corredores já estavam cheios de alunos. Se bem que, se ele tivesse me seguido para dentro da escola, eu o teria visto facilmente em meio à multidão de pessoas. Ele se destacaria como sempre, imóvel, em postura vigilante.
— AH! Você viu o Leif? Quero dizer, fala sério, tem como ele ser mais lindo? Ah, sim, tem sim. — Miranda Wouters, minha melhor amiga desde o ensino fundamental, deu um gritinho ao agarrar meu braço.
— Não, eu não o vi. O acampamento de futebol americano deve ter feito bem a ele — respondi, forçando um sorriso. Se Leif Montgomery era lindo ou não, não tinha como eu me importar menos.
Miranda revirou os olhos e abriu o armário ao lado do meu.
— De verdade, Pagan, não entendo como você pode ser tão imune a uma gostosura desse nı́vel.
Consegui dar uma risada genuı́na e coloquei minha bolsa no ombro.
— Gostosura? Você não acabou de dizer “gostosura”, né?
Miranda encolheu os ombros.
— Não sou um poço in inito de palavras descritivas como você.
Arrisquei uma espiada por cima do ombro. Os corredores estavam cheios de pessoas normais, pessoas vivas. Gente conversando, rindo e lendo seus horários de aulas. Era tudo muito real. Soltei um suspiro de alı́vio. Aquele era o primeiro dia do meu último ano. Eu queria aproveitar.
— Então, que aula você tem primeiro? — perguntei, relaxando pela primeira vez desde que tinha visto o cara morto descansando lá fora, ao lado de uma mesa de piquenique, olhando diretamente para mim.
— Tenho Algebra II, blé! Gostava tanto da Geometria do ano passado… Eu odiava Algebra no primeiro ano e já posso sentir as vibrações negativas vindas do meu livro. — O talento dramático de Miranda para a vida nunca deixou de me fazer sorrir.
— Eu tenho Literatura Inglesa.
— Bem, todos nós sabemos que você está amando isso. OH, olhe, olhe, olhe, lá está ele! — Miranda conseguiu gritar em um tom abafado enquanto acenava com a cabeça na direção de onde Leif estava conversando com outros jogadores de futebol americano.
— Odeio não poder icar por aqui e aproveitar a presença dessa grandiosidade com você, mas esta é a minha parada. — Miranda olhou de relance para mim, revirou seus grandes olhos castanhos e acenou antes de se dirigir a Leif.
Salas vazias eram lugares que eu geralmente evitava a todo custo. Como ainda faltavam cinco minutos para o sinal tocar, aquela sala com certeza permaneceria vazia pelos próximos quatro minutos. Se eu tivesse icado no corredor, teria sido arrastada por Miranda até onde Leif estava cercado por seu grupo seleto. Eu sabia, sem dúvida, que ele não estava interessado em falar com Miranda. Frequentávamos a escola com Leif desde os onze anos. Desde que ele viera de mudança de algum lugar no norte do paı́s para a cidade costeira de Breeze, na Flórida, ele nunca tinha dado trela para nenhuma de nós. Não que eu me importasse. Ele não era meu tipo. Fui até a mesa mais próxima da janela e coloquei a bolsa em cima.
Um movimento passando pelo canto do meu olho fez os pelos dos meus braços se arrepiarem. Eu sabia que não deveria icar naquela sala vazia, mas estava ali agora e fugir tornaria tudo pior. Virei e dei de cara com a mesma alma que tinha visto lá fora, sentada em uma cadeira no fundo da sala de aula com os pés apoiados na mesa à sua frente e os braços cruzados casualmente no peito. Como ele sabia que eu conseguia vê-lo? Eu não tinha dado nenhuma indicação disso lá fora. Normalmente, os fantasmas precisam de uma pequena pista minha para perceber que eu não era tão cega quanto o resto do mundo. Tinha algo de diferente com esse. Baixei o olhar e comecei a me virar. Talvez eu devesse ir me juntar à Miranda e ao grupinho dos atletas no corredor. Se eu agisse como se não o tivesse visto e casualmente voltasse para o corredor, ele poderia pensar que tinha cometido um erro e lutuaria para longe, atravessando uma parede ou algo assim.
— Você realmente não quer se sujeitar a uma companhia tão sem sentido, não é? — disse uma voz fria e suave, quebrando o silêncio.
Agarrei a cadeira de plástico duro ao meu lado com tanta força que meus dedos icaram brancos. Lutei contra um pequeno grito assustado ― quase um berro ― no fundo da minha garganta. Devo ignorá-lo? Devo responder? Alertá-lo de que seu palpite estava certo podia não acabar bem, mas ignorar seria impossı́vel. Ele falava. Almas nunca falavam comigo. Desde o momento em que percebi que os estranhos que frequentemente me observavam ou apareciam na minha casa e vagavam pelos corredores não eram visı́veis para ninguém além de mim, comecei a ignorá-los. Ver pessoas mortas não era uma coisa nova para mim, mas que elas falassem comigo foi de initivamente uma reviravolta.
— Supus que você tivesse mais coragem. Vai me decepcionar também? — Seu tom suavizou. Havia um sotaque familiar um pouco arrastado agora, tı́pico do Sul.
— Você consegue falar — eu disse, olhando diretamente para ele, precisando que ele soubesse que eu não estava com medo.
Vinha lidando com almas errantes, que é como gosto de pensar nelas, por toda a minha vida. Não me assustavam, mas eu gostava de ignorá-las para que fossem embora. Se achavam que eu conseguia vê-las, elas me seguiam. Esse continuou a me observar com uma expressão divertida no rosto. Notei que seu sorriso de canto de boca produziu uma única covinha, que não parecia combinar com o comportamento frio e arrogante. Por mais que sua presença me irritasse, não pude deixar de admitir que essa alma só poderia ser rotulada como absurdamente linda.
— Sim, eu falo. Você esperava que eu fosse mudo?
Apoiei o quadril na mesa.
— Sim, na verdade, eu esperava. Você é o primeiro que fala comigo.
Um franzido toma sua testa.
— O primeiro?
Ele parecia surpreso de verdade por não ser o primeiro morto que eu conseguia enxergar. Era de initivamente a alma mais incomum que eu já tinha visto. Ignorar uma alma que poderia falar seria difı́cil. No entanto, eu precisava superar sua habilidade e me livrar dele, pois conversar com amigos invisı́veis poderia prejudicar minha vida social. Eu acabaria parecendo uma garota maluca que fala sozinha.
— Pagan Moore, hoje deve ser meu dia de sorte. — Ao som do meu nome, me virei para ver Wyatt Tucker entrando na classe, cheio de ginga.
Forcei um sorriso como se não estivesse falando com uma sala vazia.
— Acho que é. — Inclinei a cabeça para trás, olhei para cima e encontrei seus olhos. — Você continua crescendo, não é?
— Não consigo evitar. — Ele piscou e então passou uma longa perna por cima da cadeira em frente à minha antes de se sentar. — O que você andou aprontando neste verão? Não tenho tido muitas notı́cias suas.
Arrisquei uma olhada de volta para a alma, mas encontrei a cadeira vazia. Uma mistura de alı́vio e decepção tomou conta de mim. Querer fazer mais perguntas não era exatamente uma boa ideia, mas eu não conseguia evitar. Eu tinha feito perguntas a outras almas antes, tipo, “Por que você está me seguindo?”, ou “Por que posso ver você?”, e elas sempre permaneciam mudas. Muitas vezes, desapareciam quando eu começava a fazer indagações.
Voltando a atenção para Wyatt, forcei um sorriso antes de responder:
— Fiquei na Carolina do Norte durante todo o verão, no rancho de cavalos da minha tia.
Wyatt recostou-se na cadeira e balançou a cabeça.
— Eu simplesmente não entendo por que as pessoas iriam querer icar todo o verão fora, quando vivemos em uma das praias mais bonitas do mundo.
Para mim, não era realmente uma escolha, mas eu não queria explicar o motivo nem a Wyatt nem a ninguém. Mais alunos começaram a entrar na sala, seguidos por nosso professor de Literatura Inglesa, o sr. Brown.
— Wyatt, e aı́, magrelo? — Justin Gregory gritou, vindo em nossa direção. Ele jogou a mochila na mesa em frente ao amigo. Por aquele instante, a atenção de Wyatt desviou-se de mim graças à interrupção de Justin. Quando me virei para a frente da classe, meus olhos mais uma vez encontraram o fantasma. Encostado na parede diretamente na diagonal em relação à minha mesa, ele icou me observando. Olhei feio para ele, que pareceu achar divertida a minha antipatia óbvia. Sua covinha apareceu e eu odiei o fato de achá-la sexy. Aquilo ali não era um humano; bem, não mais. Foi preciso muita força de vontade para desviar meu olhar dele e focar a atenção no quadro, onde o sr. Brown havia escrito nossa tarefa. Eu sempre tinha ignorado esses espı́ritos irritantes antes e eles tinham ido embora. Só teria que superar o fato de que esse conseguia falar comigo. Se não o ignorasse, eu icaria refém de sua assombração.
— Odeio, quero dizer, eu odeio, tipo, grandão — Miranda resmungou enquanto largava a bandeja do almoço na mesa com um estrondo. — Já que eu tinha que icar sentada durante toda a aula de Algebra e a de Quı́mica, a manhã toda, no mı́nimo, eu merecia um colı́rio para os olhos em uma das duas, mas nãããão! Fiquei com Gretchen com suas fungadas implacáveis e Craig com seus problemas de gases.
Engasguei com o sanduı́che e peguei minha garrafa de água para tomar um gole rápido e engolir a comida. Assim que tive certeza de que não iria morrer sufocada, olhei para o rosto preocupado de Miranda.
— Você tem que dizer coisas assim quando estou de boca cheia? — perguntei.
Ela encolheu os ombros.
— Desculpe, só estou comentando. Eu não queria que você se esquecesse de mastigar a comida. — Ela estendeu a mão e apertou meu braço. — Lá se vai a perfeição dele agora. Você acha que ele vai voltar a icar com a Kendra este ano? Quero dizer, eles realmente terminaram feio no ano passado, com todas as traições e tudo mais. Com certeza ele vai partir pra outra.
Dei outra mordida no sanduı́che, não querendo responder. Eu não me importava com quem Leif Montgomery icaria, mas, sim, eu tinha certeza de que ele voltaria com Kendra. Acontece que eles eram o “casal de ouro”. Todos sabiam e esperavam por isso. Eles pertenciam a uma categoria de pessoas que sempre fazia jus à fama.
— Puxe a lı́ngua de volta para dentro da boca, Miranda. Você parece um cachorro precisando de água. — Wyatt sentou-se à nossa frente, rindo de sua própria piada, e Miranda fez uma careta para ele.
— Não estou com a lı́ngua de fora, muito obrigada.
Wyatt piscou para mim e encolheu os ombros.
— Pra mim, pareceu que estava. O que você acha, Pagan, ela estava babando ou o quê?
Dei mais uma mordida no sanduı́che. Eu não ia me meter nesse assunto. Wyatt começou a rir quando apontei para minha boca cheia. Miranda me deu uma cotovelada na lateral do corpo.
— Não ique do lado dele. Ele é malvado.
Com um grande gole d’água, engoli meu sanduı́che e depois olhei ixamente para Miranda e falei:
— Vocês dois podem discutir isso o quanto quiserem, mas eu não vou me meter. Desde que decidiram levar a amizade um passo adiante no ano passado e as coisas desabaram sobre a cabeça de vocês, tudo o que querem fazer é dar um tiro um no outro. Essa briga não é minha. Me deixem em paz.
Rapidamente dei outra mordida para que não fosse requisitada a dizer mais nada. Minha vida se tornaria mais fácil quando os dois percebessem que um estava deixando o outro maluco porque não haviam se superado. Aı́, novamente, eu seria a garota sozinha. Meu namorado Jay Potts havia se mudado meses atrás e eu não falava com ele desde antes de ir para a casa da minha tia passar o verão.
— A questão não é essa! Eu não dava a mı́nima que ele não conseguisse manter a lı́ngua fora da garganta da Katie quando eu não estava olhando — Miranda disse com raiva.
— Eu não coloquei a lı́ngua na garganta de ninguém além da sua, Miranda, mas você não acredita em mim e estou cansado de me defender. — Wyatt se levantou, pegou sua bandeja de comida intacta e se afastou.
— Idiota — ela murmurou, observando-o se mudar para a mesa dos atletas.
Eu odiava vê-los assim. Nós três éramos amigos desde o terceiro ano. Naquela época, Wyatt era só pernas e braços compridos. Agora, ele era mais alto do que todos com seu corpo longo e musculoso. Miranda não tinha icado imune às qualidades repentinas de pegador que ele tinha adquirido no ano anterior. Agora, porém, ela não o suportava.
— Escute, Miranda, eu estava pensando… talvez, se vocês dois falassem sobre o que aconteceu sem você acusá-lo, as coisas pudessem dar certo. — Eu já tinha tentado isso antes, mas ela sempre me ignorava.
Como era de se esperar, ela começou a balançar a cabeça em negativa, fazendo seus cachos castanhos balançarem de um lado para o outro.
— Eu sei o que aconteceu, Pagan. Não quero conversar sobre isso com ele. Ele é um grande mentiroso traidor. — Miranda deu uma mordida violenta em sua maçã e continuou olhando na direção de Wyatt. — Olha ele agindo como se coubesse naquela mesa. Quero dizer, sério, quem ele pensa que é?
Segui seu olhar. Wyatt sentava-se recostado em uma cadeira, rindo de algo que outro jogador de basquete estava dizendo. Todos pareciam satisfeitos por ter Wyatt com eles. Normalmente, ele se sentava com a gente, mas esse ano as coisas seriam diferentes. Suspirei, desejando não ter que ser eu a apontar o óbvio para Miranda.
— Ele é o único cara nesta escola que está na mira dos olheiros de basquete. Ele é esse tipo de pessoa. Leif pode ser o grande astro no campo de futebol americano, mas não vejo nenhum olheiro universitário batendo em sua porta. Você pode estar brava com o Wyatt, mas ele pertence àquela mesa mais do que qualquer outra pessoa.
Miranda voltou o olhar para mim e instantaneamente ele se transformou em uma cara fechada.
— Bem, então ele pode ir para a faculdade com uma bolsa de estudos para jogar basquete e trair todas aquelas lı́deres de torcida. Preciso avisar todas elas. — Sua voz adquiriu um tom derrotado ao se levantar e caminhar em direção às latas de lixo. Eu a observei, desejando poder encontrar uma maneira de consertar essa situação entre os dois.
Alguém se sentou ao meu lado na cadeira que Miranda tinha acabado de desocupar. Eu me virei no assento, meio que esperando ver a alma. Imagine minha surpresa quando não era a alma indesejada, mas o atleta arrogante.