Existência

Abbi Glines · Capítulo 12 de 22

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Existência

Capítulo 12

— O que fez durante todo o im de semana? Leif disse que você não se sentiu bem depois do show. Achei que fosse ouvir algo de você, mas não recebi nada, nadinha. A Alma Fria foi sensacional. Você deveria ter icado depois. Conhecemos a banda, exceto o vocalista, Dank. Ele saiu mais cedo ou algo assim. Eu não me importei, porque foi incrı́vel! Eu poderia ter beijado o rosto do papai por isso. — Miranda enganchou seu braço no meu enquanto tagarelava sem parar. Olhei de um lado para o outro pelo corredor, necessitando ver Dank em algum lugar no mar de rostos. — Quem você está procurando? — Havia um toque de interesse na voz de Miranda.

Dank não estava em nenhum lugar na multidão. Kendra, no entanto, não só estava, como lertava abertamente com Justin. Aquilo me parecia estranho.

— Você viu o Dank esta manhã? — indaguei, olhando para Miranda e rezando para que ela não entendesse nada nas entrelinhas da minha pergunta.

Ela franziu a testa, fazendo uma cara de incompreensão.

— Dank, tipo Dank Walker, o vocalista da Alma Fria?

Fiz um sinal a irmativo com a cabeça e lancei um olhar para os armários.

— Sim, o Dank — repeti.

A expressão confusa no rosto de Miranda disparou um alarme na minha cabeça.

— Hum, você está tomando aqueles analgésicos de novo, querida? Por que o vocalista da Alma Fria estaria aqui?

Havia algo de muito errado. O pânico cresceu no meu peito.

— Bom dia — cumprimentou Leif ao se aproximar de mim e passar o braço pelos meus ombros.

Miranda olhou para ele com um sorriso preocupado.

— Bom dia, Leif. E tão fofo que você vá buscar todos os livros dela assim que vocês dois chegam. Que tal dar algumas dicas para o Wyatt?

— De jeito nenhum. — Leif riu e apertou meus ombros de leve.

Normalmente, tê-lo por perto me ajudava quando eu estava à beira do pânico. Entretanto, naquele exato momento, eu precisava saber onde Dank estava e por que Miranda não parecia saber do que eu estava falando.

Olhei para Leif.

— Você viu o Dank?

Leif fez a mesma cara de confusão.

— Quem? — Ele pareceu igualmente confuso.

— Ela me perguntou a mesma coisa. Estou achando que ela pode ter tido que tomar analgésicos de novo esta manhã. Você ainda está com dor? Sua mãe sabe? Porque, garota, você está sob o efeito de alguma coisa se acha que Dank Walker está na nossa escola. — Miranda e Leif me olhavam como se eu fosse motivo de preocupação. Lancei um olhar para Kendra, que estava enrolada em volta de Justin.

— Kendra está namorando Justin agora? — perguntei em um tom que eu esperava que fosse coloquial e não traı́sse o pânico que rugia dentro de mim.

A expressão contrita de Leif se aprofundou.

— Eles estão namorando há seis meses. Você está bem, Pagan?

Forcei um sorriso e assenti.

— Ah, hum, eu esqueci. Não, estou bem. Só preciso fazer uma parada no banheiro antes de ir para a primeira aula.

Fiquei na ponta dos pés, beijei Leif rapidamente e segui para o outro lado. Eu precisava escapar dos olhos atentos deles para poder pensar. Dank tinha ido embora e ninguém se lembrava dele.

O banheiro estava vazio, o que era uma benção. Larguei os livros no balcão úmido e me inclinei contra a parede para me apoiar. Meu coração se contraiu tão dolorosamente no peito que temi que fosse parar de funcionar. Alguém apareceu e eu me virei para entrar em uma cabine. Eu precisava de privacidade para o meu colapso mental, mas, depois de apenas dois passos, percebi que a porta do banheiro nunca tinha chegado a se abrir. Eu congelei, respirei fundo, e depois olhei para a outra ocupante. Uma adolescente de cabelos escuros havia atravessado a parede. Virei-me e dei um passo em direção a ela, que então me notou. Ela pareceu surpresa que eu conseguisse enxergá-la, e um sorriso apareceu em seu rosto.

— Quem é você? — indaguei, mas ela só me olhou. — Você consegue conversar comigo? — Eu não estava mais preocupada em ignorá-los. Talvez eles tivessem as respostas. Ela balançou a cabeça e seu sorriso entristeceu. Em seguida, se aproximou de mim, estendeu a mão e tocou meu cabelo. Nada. Sem arrepios ou calafrios. Era como se ela não estivesse ali. Aquilo era o que eu sempre tinha visto das almas. — Por que você não pode falar? — insisti, e ela se moveu até icar na minha frente. Balançou a cabeça para mim como se me corrigisse por fazer essa pergunta. — Você não tem permissão para falar comigo ou não pode? — Eu não estava com medo dela. Sabia que não tinha poder para me machucar. Sua expressão icou nervosa e ela balançou a cabeça novamente e se afastou de mim devagar.

Dei um passo para mais perto dela.

— Por favor, preciso de algumas respostas e acho que você poderia me ajudar. — Sua expressão tornou-se assustada e ela continuou balançando a cabeça e se afastando de mim como se eu fosse algo a temer. — Por favor — implorei e, no meu último apelo, ela se virou e desapareceu na parede.

Fiquei olhando para a parede até que a porta do banheiro se abriu e uma caloura entrou. Ela parou e icou me olhando. Eu devia estar parecendo uma idiota ali olhando para uma parede vazia. Sorri para ela de modo tranquilizador. Talvez esse incidente não virasse notı́cia na escola toda. Não que eu me importasse se as pessoas falassem de mim. Só não precisava da Miranda e do Leif mais preocupados comigo. Além disso, precisava de respostas e estava muito cansada de esperar que Dank me dissesse. A jovem alma não era capaz de me ajudar por razões que eu não conseguia entender. No entanto, eu tinha a sensação de que, se continuasse procurando, logo encontraria alguém que estivesse pronto para falar ou que conseguisse falar.

Os corredores já estavam vazios, o que signi icava que eu estava atrasada para Literatura Inglesa. A dor voltou quando pensei em enfrentar a aula sem Dank. Mesmo quando ele estava me ignorando, eu podia ouvi-lo falar e sentir o calor do seu olhar. Agora, eu não ia ter nem esse pequeno conforto. O que doı́a ainda mais era como ninguém parecia se lembrar dele. Era como se ele nunca tivesse existido. Parei na porta. Entrar parecia insuportável. Abracei meu próprio corpo para segurar dentro de mim a dor que me rasgava e me apoiei na parede. Fiquei olhando para o corredor vazio, desejando que outra alma aparecesse vagando ali.

Em vez disso, o silêncio vazio não se alterou. Pela primeira vez na vida, eu queria ser incomodada pela presença de almas e não havia nenhuma por perto. Se eu pudesse ir a algum lugar infestado de almas errantes, poderia perguntar a todas elas. Poderia perguntar e perguntar até encontrar uma que pudesse e falasse comigo. Algo sobre a jovem alma no banheiro me dizia que ela poderia ter se comunicado se quisesse. Ela estava com medo. Com medo de quê? O que as almas tinham a temer? A inal, elas estavam mortas, ou pelo menos seu corpo estava.

— O hospital — sussurrei em voz alta, lembrando-me de que o lugar onde eu tinha visto in initas almas errantes era o hospital.

Eu me virei e fui em direção às portas para sair da escola. Iria até lá e começaria a perguntar a cada alma que encontrasse. Uma delas teria que me responder. Eu descobriria como encontrar Dank. Ele era real. Eu o tinha conhecido. Eu o amava. Eu o encontraria.

— Srta. Moore? Nossa aula é por aqui — a voz do sr. Brown interrompeu meus pensamentos e eu parei e suspirei em derrota antes de me virar e encarar o professor de Literatura Inglesa.

— Sim, senhor, eu estava… hum, só vou pegar um passe de atraso.

Ele sorriu e balançou a cabeça.

— Não precisa, mas se apresse, por favor, estamos acabando de começar com a beleza que é a icção. Venha agora. — Ele deu um passo para trás, esperando que eu entrasse primeiro.

Voltei em direção à entrada da classe, mas querendo virar e sair correndo na direção oposta. Eu sabia que, se minha mãe recebesse uma ligação por eu estar matando aula, icaria furiosa, e minhas chances de encontrar Dank iriam de pequenas para nulas depois que eu icasse trancada no meu quarto pelo resto do ano.

Entrei na sala de aula e fui até meu lugar vazio perto da janela. A cadeira atrás de mim estava vazia. Olhei para Kendra e na carteira atrás dela estava Justin. Ele tinha acabado de entrar e tomar o lugar que tinha sido de Dank. Contrariada, eu me virei de novo para a frente. Como ela podia ter sido tocada por Dank, beijada por ele, e esquecer tão facilmente que ele existira? Eu não tinha esquecido. Como ela poderia? Como ela poderia não sentir a dor da ausência? Ele era bom demais para ela. Por que Dank tinha perdido tanto tempo com Kendra? Afundei na cadeira e engoli o nó de emoção que foi brotando dentro de mim. Eu não poderia assistir àquela aula sem ele ali.

— A tarefa de leitura de hoje deverá ser feita individual e em silêncio. Não conversem com os colegas. Quero silêncio completo enquanto inalam a beleza da palavra escrita. Absorvam. Deixem que penetre na veia de vocês e a encham de tal maravilhamento glorioso que vocês comecem a brilhar. — Gemidos começaram a se propagar pela classe. — Tsc, tsc, tsc. Vamos nos excitar com a palavra. Excitar com sua beleza.

Os resmungos continuaram enquanto o som de páginas virando enchia a sala. Esse seria um momento para a maioria dos alunos tirar uma soneca atrás dos livros didáticos. Abri o meu, querendo encontrar algo para tirar meus pensamentos de Dank. Quando o dia acabasse, eu iria para o hospital e começaria a fazer perguntas. Alguma alma em algum lugar tinha respostas.

— Argh, isso é coisa de poeta — uma voz resmungona veio do fundo da sala.

O sr. Brown ergueu os olhos do livro em suas mãos.

— Ah, sim, é, sr. Kimbler, que gentileza sua notar.

Mais gemidos irromperam e eu achei a página que estava indicada na lousa. Era o trabalho de William Wordsworth. Eu também senti a necessidade de gemer de desespero. Estudar o inı́cio da Era Romântica não era algo de que eu precisava agora. Onde estavam os dramaturgos trágicos quando a gente precisava deles?

— Como essa loucura ajuda a gente no mundo real? — Justin questionou com uma voz arrogante. Risadinhas maliciosas irromperam pela sala de aula.

— Apoiado — alguém concordou alto com uma batida na mesa.

O sr. Brown ergueu os olhos mais uma vez com uma expressão ligeiramente irritada no rosto.

— Senhores, se não estudarem as palavras de famosos poetas românticos, como aprenderemos a cortejar a mulher que um dia amarão? Posso garantir que P. Diddy não tem palavras de instrução em suas criações lı́ricas. — As palavras do professor causaram algumas risadas.

Eu teria achado tudo isso muito divertido se o conceito de ler as letras de P. Diddy não parecesse tão atraente no momento. Olhei para o poema que ı́amos ler para escrever uma dissertação de duas páginas. Para uma jovem, de William Wordsworth. Eu só podia esperar que não fosse um poema de amor duradouro.

Cara Filha da Natureza, deixe-os reclamar!

― Há um ninho em um vale verde,

Um porto e uma fortaleza,

Onde uma Esposa e uma Amiga verás

Teus próprios dias deliciosos, e será

Para jovens e velhos uma clareza.

Lá, saudável como um Menino Pastor,

Como se sua herança fosse auspício,

E o prazer fosse teu o ício,

Tu, enquanto teus Bebês ao teu redor se agarram,

A nós mostrarás como algo divino

Pode se tornar o poder Feminino.

Teus pensamentos e sentimentos não morrerão,

Nem com os cabelos grisalhos eles te abandonarão,

Uma escrava melancólica

Mas uma velhice viva e esperta,

Como a beleza que a noite da Lapônia desperta

Levará a ti para a cova certa.

― O prazer pela terra se espalha

Em presentes perdidos a serem reclamados por quem os encontra.

Meu coração despedaçado latejava. Comecei a escrever. A dor dentro de mim se derramava sobre o papel. Era quase como se eu estivesse sangrando com cada palavra que rabiscava. Perdida na minha necessidade de expressar a alguém a dor que eu sentia por dentro, levei um susto quando meu papel foi tirado das minhas mãos. Levantei a cabeça bruscamente. O sr. Brown me deu um pequeno aceno e limpou a garganta antes de falar.

— Ah, parece que a srta. Moore conhece William Wordsworth ou pelo menos já leu o dever de casa. — Ele olhou para a classe por cima dos óculos de meia-lua. — O que é muito mais do que posso dizer sobre o restante de vocês. — Ele olhou de volta para o meu trabalho e endireitou seu fı́sico curto e redondo. — Wordsworth estava se lembrando da irmã, com quem havia sido censurado por fazer longas caminhadas no campo. Ele estava pensando na vida dela e na plenitude que ela experimentaria. Ele a parabenizava ou elogiava por seus esforços para apreciar a beleza ao seu redor em vez de seguir as regras.

O sinal tocou e os alunos começaram a se esforçar para sair da sala de aula com medo de que o sr. Brown os forçasse a ouvir mais do meu trabalho, ou pior, pegasse o deles para ler em voz alta. Ele colocou o trabalho de volta na minha mesa e sorriu para mim.

— Você é realmente um encanto, Pagan. Estou ansioso para ler o resto desse texto amanhã. — Ele se virou e voltou para sua mesa com um gingado corpulento.

Leif entrou na classe sorrindo para mim.

— Você vem, linda? Eu sei que gosta de Literatura Inglesa, mas acabou por hoje.

O sr. Brown sorriu para mim.

— Ah, sim, mas, sempre que você quiser me procurar para discutir a beleza da literatura, esteja à vontade.

— Obrigada, sr. Brown. — Isso não aconteceria, mas ele realmente era um velhinho gentil. Um pouco excêntrico, mas muito gentil.

— Não dê ideias a ela, sr. Brown — Leif brincou enquanto pegava os livros das minhas mãos.

— Ah, o jovem bonito que possui o coração dela não quer dividir — disse o sr. Brown com um sorriso que empurrou suas bochechas volumosas para trás apenas um pouquinho.

Leif deu risada.

— O senhor está certo.

 

— Agora, me diga mais uma vez o que você vai fazer que é mais importante do que comprar botas de inverno perfeitas? — A mão direita de Miranda pousou em seu quadril enquanto ela me olhava boquiaberta como se eu tivesse acabado de falar espanhol. Puxei a mochila mais alto no ombro e mantive os olhos ixos no estacionamento.

— Vou me inscrever para fazer trabalho voluntário no hospital.

Eu não tinha uma explicação moral verdadeira para isso. Não consegui me obrigar a dizer à Miranda como eu sentia a necessidade de me doar ou o que quer que as pessoas que faziam voluntariado davam de justi icativa para ir ajudar os doentes e moribundos. A verdade era que eu odiava hospitais e Miranda sabia disso. Ela não sabia por que eu os odiava; apenas que eu odiava. Eu nunca tinha sido capaz de explicar a ela como as almas errantes que enchiam os corredores dos hospitais me incomodavam.

— Então você superou a aversão a hospitais agora que passou uma semana lá? — ela perguntou, curiosa. Dei de ombros porque minha estadia lá não tinha nada a ver com isso.

— Acho que sim. — Era uma desculpa tão boa quanto qualquer outra.

— Tudo bem, então, se você deve fazer algo para o bem dos outros enquanto eu faço algo para o bem maior do meu guarda-roupa de inverno, então acho que pra mim está tudo bem.

Sorri para ela e fui para o carro de Leif. Ele havia me deixado as chaves dele e dito que pegaria uma carona para casa com Justin. Eu também havia colocado na cabeça dele esse papo de “Quero ser voluntária”. Não era totalmente mentira. Eu decidi que era a melhor maneira de ver almas su icientes sem que alguém me internasse na ala psiquiátrica por vagar pelos corredores falando sozinha. Dessa forma, eu tinha um motivo para estar lá e encontraria muitas almas com quem me comunicar. Em algum momento, eu encontraria uma que pudesse falar.

— Me liga quando chegar em casa depois das suas boas ações e eu levo minhas compras pra te mostrar.

— Ok, boa sorte! — exclamei de longe, destrancando o carro e entrando.

Pela primeira vez em três dias, eu tinha alguma esperança. Eu não conseguia esquecer o olhar de Dank na sexta-feira à noite, quando me pegou nos braços. Ele tinha sido muito real. O fato de ninguém parecer pensar que ele já andara pelos corredores da nossa escola não signi icava que eu estava icando louca. A questão era que, desde o meu nascimento, eu via pessoas que ninguém mais conseguia ver. Havia algo de diferente em mim, não era nenhuma novidade extraordinária. Dank tinha segredos e eu iria desvendá-los. Eu precisava saber, porque precisava dele. A resposta por trás de sua partida estava em seus segredos e eu sabia que, se pudesse descobrir, conseguiria encontrá-lo e trazê-lo de volta.