Existência
Capítulo 10
Ele não voltou. Passei o im de semana inteiro fechada no meu quarto esperando por ele, mas ele nunca apareceu. Na segunda de manhã, acordei e me vesti com tanto desespero que quase corri para o meu carro para chegar mais rápido à escola. Quando minha mãe perguntou “Leif não vai te pegar hoje?”, parei com a mão na maçaneta da porta, sem saber como responder. Eu havia deixado as ligações dele caı́rem na caixa postal na maior parte do im de semana. Depois de ouvir suas mensagens suplicantes, inalmente liguei para ele e lhe assegurei que eu só estava de cama. Ele esperaria me levar para a escola naquela manhã. Obriguei-me a sentar e tomar meu café enquanto esperava mais dez minutos pela chegada de Leif. De alguma forma, consegui ingir paciência até entrar pela porta da frente da escola. Eu não conseguia senti-lo. Ele não estava por perto. Os lábios vermelhos e carnudos de Kendra me garantiram de que ele não estava se escondendo de mim. Ele simplesmente não estava ali. Cada aula que passava sem ele parecia um buraco negro em constante expansão no meu mundo. Leif me olhava com uma mistura de preocupação e frustração que eu sabia que ele tentava esconder. Assim que o último sinal tocou, saı́ da biblioteca e fui para casa. Eu precisava que ele estivesse lá.
Mas não estava. Ele icou longe por mais dois dias.
No momento em que entrei na classe de Literatura Inglesa, na terça-feira, eu o senti. O calor formigante a que eu me acostumara era forte devido à sua ausência de quatro dias. Olhei para o fundo da sala e lá ele estava sentado, dando a Kendra seu sorriso torto enquanto acariciava a linha da mandı́bula dela com a ponta do dedo. Ela riu e ele se inclinou mais perto e sussurrou algo em seu ouvido que a fez jogar a cabeça para trás e rir. Ela olhou na minha direção e sorriu de modo triunfante. Olhei dela para Dank, que parecia nem me enxergar. Ele a observava atentamente sorrindo de forma sedutora. Ele havia me beijado e depois me deixado sozinha, confusa, e então desaparecido por quatro dias. Agora, era como se nada tivesse acontecido.
Eu o encarei, desejando que ele olhasse para mim, para demonstrar que notava minha presença. Ele não o fez. Incapaz de ver mais aquilo, me virei e saı́ da sala. Leif ainda estava parado do lado de fora da porta, onde eu o havia deixado. Ele estava conversando com Justin e olhou para mim com um sorriso surpreso.
— Esqueceu de alguma coisa? — perguntou ele, pegando minha mão.
Sacudi a cabeça, temendo que o enorme buraco que Dank acabara de abrir no meu coração fosse visı́vel para o mundo. Aproximei-me de Leif e passei os braços em volta de sua cintura. Os dele me envolveram no mesmo instante.
— Falo com você mais tarde, cara. — Ouvi-o dizer para Justin por cima da minha cabeça.
— O que foi? — ele sussurrou no meu ouvido, ainda me abraçando.
Eu queria chorar porque não o amava. Leif me amava e seria fácil amá-lo. Ele nunca me faria sofrer da maneira que Dank tinha acabado de fazer. Ele era muito bom e honesto. Por que então eu não podia amá-lo no lugar de Dank? Abracei-o com mais força, com medo de que ele pudesse ouvir meus pensamentos e se afastasse de mim a qualquer momento. No entanto, Leif não conseguia ouvir meus temores.
Ele me puxou para mais perto e começou a acariciar minhas costas, fazendo pequenos cı́rculos. Lágrimas brotaram nos meus olhos; eu odiava chorar em seus braços por outro cara. Leif merecia alguém que pudesse amá-lo. Antes, eu o havia odiado porque pensei que ele acreditava ser bom demais para mim. Agora, eu me odiava porque sabia que ele era bom demais para mim. Eu não o merecia e mesmo assim me agarrava a ele. Podia não amá-lo, mas precisava dele. Ele não tinha ideia de que minhas entranhas pareciam estar sendo arrancadas do corpo por causa da maneira como outra pessoa ou outra coisa tinha me rejeitado.
— Sr. Brown, a Pagan não está se sentindo bem. Ela precisa ir para a enfermaria. Se ela for para casa, eu mesmo vou trazer o atestado dela — Leif explicou ao meu professor, ainda me abraçando.
— Muito bem, você vai levá-la, então? — A voz do sr. Brown demonstrava preocupação.
— Sim, senhor. — A porta se fechou e o corredor silenciou.
Eu não queria ser examinada por uma enfermeira, mas sabia que não poderia icar no corredor o dia todo, deixando Leif me abraçar. Embora tivesse certeza de que, se eu quisesse, era exatamente o que ele iria fazer. Recuei apenas o su iciente para olhar no seu rosto. Seu semblante era uma máscara de preocupação enquanto ele enxugava uma lágrima da minha bochecha.
— O que há de errado, Pagan? — ele insistiu, perguntando baixinho.
Consegui dar um sorriso fraco.
— Acho que eu estar me sentindo mal acabou pesando. Quero me sentir bem de novo. Esse im de semana foi horrı́vel — admiti, precisando adicionar um pouco de verdade ao que estava dizendo.
Ele fez que sim e me puxou de volta para seus braços.
— Sinto muito pela minha contribuição nessa situação. Eu não aguento ver você chorar. Isso me mata — disse ele baixinho e me abraçou mais forte. Leif era meu elo com o mundo real e minha fonte de conforto, especialmente agora que meu coração parecia quebrado além de qualquer reparo. O que mais me assustava era o fato de o meu coração ter sido despedaçado por alguém que eu nem conhecia.
Fui até a enfermaria, mas só iquei lá tempo o su iciente para que a aula de Literatura Inglesa terminasse. Assim que soube que seria seguro seguir para Algebra II, garanti à enfermeira Tavers que me sentia muito melhor e queria voltar para a aula. Coincidentemente, Algebra II era a única aula que eu não fazia com Dank nem com Kendra. Por essa, eu conseguiria passar. Leif estaria comigo em História Mundial, então a presença de Dank seria mais fácil de ignorar.
Entrei no corredor e o alerta agourento na minha cabeça de que alguém estava me observando fez os pelinhos dos meus braços se arrepiarem. Olhei de um lado para o outro do corredor vazio, mas ninguém estava lá. O medo pareceu obstruir minha garganta e eu me forcei a respirar para me acalmar antes de ir para Algebra II com meu passe da enfermeira Tavers. Andei mais rápido que o normal, querendo estar perto de outras pessoas. Estar sozinha no corredor trouxe de volta memórias assustadoras. Especialmente agora, eu não tinha certeza de que Dank viria em meu resgate. Ele nem olhava para mim, então por que viria me ajudar se uma alma me assombrasse? A sensação de que alguém estava ali me observando se intensi icava à medida que eu caminhava pelo corredor.
Por que a sala de Algebra II tinha que ser no inal do corredor? Espiei por cima do ombro e ainda assim o local permanecia vazio. Um arrepio se propagou pela minha espinha e então comecei a correr. Eu não podia vê-la, mas sabia que ela estava lá. Meu coração bateu forte no peito. Mantive os olhos na porta da classe de Algebra II. Ainda parecia muito distante, mas eu sabia que, se gritasse, alguém me ouviria. O frio se intensi icou e o ar icou mais denso, o que di icultava a respiração. Eu precisava parar de correr para que pudesse forçar o oxigênio a entrar nos meus pulmões, mas então ela estaria comigo sozinha por muito mais tempo.
Uma porta se abriu exatamente quando minha visão começou a icar turva pela falta de oxigênio, e o ar encheu meus pulmões em chamas de repente. O frio desapareceu. Larguei meus livros e coloquei as mãos nos joelhos, ofegando para conseguir mais ar, puxando-o e tentando acalmar meu coração acelerado. Passos me assustaram e eu me levantei pronta para correr novamente quando vi Dank se afastando. O que quer que estivesse atrás de mim antes, agora, tinha fugido por causa dele. Sorte minha que ela não tivesse percebido que Dank não se importava mais em me manter segura. Meu coração não estava mais disparado de medo, mas doı́a pela dor da rejeição. Peguei os livros do chão e observei Dank se afastando mais uma vez antes de entrar na minha sala.
— Se você não está pronta para começar minha dissertação, não estou com pressa — Leif se inclinou e sussurrou no meu ouvido. Pedimos pizza e nos aninhamos no sofá para assistir televisão.
A verdade é que eu não estava com vontade de trabalhar na dissertação dele. Tudo o que eu realmente queria era aproveitar o pequeno calor dos seus braços. Ficar sentada no sofá, abraçada ao meu namorado, me ajudava a manter meu medo sob controle. Quando Leif fosse embora, eu teria que ir para o meu quarto sozinha. A ideia de enfrentar minha classe depois da experiência no corredor naquele dia me apavorava. Ver Dank se afastar de mim como se fosse apenas um cara qualquer sem nenhuma preocupação no mundo, enquanto eu estava curvada tentando respirar, me deixou com uma sensação de desespero. Estendi a mão para baixo e peguei a mão de Leif. Ele estava aqui. Tudo bem, ele não era proteção contra almas psicopatas. Só Dank poderia impedir aquela… aquela… o que quer que ela fosse, mas Dank não estava ali. Leif era tudo o que eu tinha e eu queria me aquecer em sua presença mais um pouco. Ele segurou minha mão na sua e nós nos sentamos em silêncio. Eu nem sabia direito ao que estávamos assistindo. Ele ria alto às vezes e o som me fez sorrir. Eu gostá-la de vê-lo feliz. As vezes, eu esquecia como era a sensação de felicidade. O toque de seu celular interrompeu meus pensamentos e eu dei um pulo. Eu estava com os nervos à lor da pele naquela noite.
Ele sorriu.
— E meu celular, não o alarme de incêndio. Caramba, como você está nervosa hoje.
Ele en iou a mão no bolso e pegou o aparelho.
— Alô? — Ele fez uma pausa. — Estou na casa da Pagan agora… Eu sei disso, mas estou ocupado… Ainda não terminamos. — Leif olhou para mim se desculpando. — Tudo bem, estou indo — disse ele, franzindo a testa ao desligar o telefone. — Era meu pai. Ele precisa que eu vá com ele deixar o carro da minha mãe no mecânico. Vão trabalhar nele logo pela manhã. Ele não pode ir dormir antes de deixar o carro lá e está exausto depois de trabalhar dois turnos seguidos na delegacia.
Sentei e forcei um sorriso. Minha mãe ainda não estava em casa e a ideia de icar sozinha me deu vontade de me encolher e chorar.
— Ah, sim, vai lá. Podemos fazer a dissertação amanhã.
Ele franziu a testa e deslizou a mão no meu cabelo, roçando o polegar na minha orelha.
— Você parece tensa. Eu odeio deixar você assim toda nervosa.
Abri um sorriso e encolhi os ombros.
— Vai ver só preciso dormir um pouco — menti, esperando que ele acreditasse.
Ele se abaixou e me beijou de leve. Deslizei as mãos atrás do seu pescoço e intensi iquei o beijo. Leif segurou meu rosto e o inclinou para cima a im de encaixá-lo perfeitamente no seu. Mergulhei no conforto da sua proximidade e do seu calor. Eu sabia que precisava deixá-lo ir para que pudesse ajudar seu pai, mas o abracei mais forte. Soltá-lo signi icava que ele iria embora e eu icaria sozinha. Eu me pressionei contra seu corpo sem pensar de que forma minha necessidade de conforto seria mal interpretada como paixão. Um gemido saiu do peito de Leif, e ele gentilmente me empurrou de costas no sofá e me cobriu com seu corpo.
Nunca tı́nhamos deixado as coisas irem tão longe antes. Dank sempre estava presente, em algum lugar no meio ― uma força invisı́vel que me mantinha contendo Leif a certa distância. Agora seria errado permitir que as coisas fossem mais longe. Levar Leif a acreditar que poderı́amos ir mais longe em nosso relacionamento não era justo para nenhum de nós. Dank sempre estaria na minha mente. Leif merecia mais do que ser o segundo melhor. Mesmo agora, com ele pressionado a mim e sua respiração parecendo irregular, eu não sentia nada além de segurança. Sua mão deslizou por baixo da minha blusa e eu sabia que era hora de parar. Assim que ele tocou a parte inferior do meu sutiã, eu me afastei do beijo.
— Não — sussurrei, e sua mão lentamente recuou. Sua respiração parecia pesada e eu podia sentir seu coração batendo forte contra o meu.
Devagar, ele se sentou e pegou minha mão para me levantar também. Em seguida, passou a mão pelo cabelo loiro despenteado e deu uma risada trêmula.
— Nossa! — exclamou ele, sorrindo. Eu não sabia ao certo o que dizer porque “nossa” não era o que eu estava sentindo. — Me desculpe, eu me empolguei — disse, olhando para a minha blusa, que ainda estava levantada logo acima do umbigo. Eu a puxei para baixo e sorri a im de tranquilizá-lo. Não era como se ele tivesse acabado de tentar me estuprar.
— Não precisa se desculpar. Só precisávamos parar. Seu pai está esperando.
Leif assentiu, sua expressão ainda um pouco paralisada, e se levantou. Ele vestiu a jaqueta e pegou os livros e as chaves.
— Você vai icar bem até sua mãe chegar em casa?
Eu queria rir da resposta para essa pergunta. Em vez disso, iz que sim e sorri. Não que eu pudesse dizer a ele que uma alma perturbada queria me matar por razões que eu não entendia.
A porta se fechando atrás de Leif fez o peso de chumbo no meu peito vibrar. Pensei em sair e icar no quintal para ver outras casas iluminadas e as pessoas dentro delas. De alguma forma, saber que havia outras pessoas lá fora parecia seguro. Olhei de volta para as escadas e a ideia de subir para o meu quarto me fez estremecer. Me aproximei e parei na porta da frente. Eu poderia icar ali até minha mãe chegar. Se alguma coisa aparecesse, poderia sair correndo rua abaixo, gritando. Tudo bem, todos pensariam que eu era louca, mas ainda assim chamaria alguma atenção.
— Não acho que medidas tão drásticas sejam necessárias. Vá para a cama, Pagan, eu estarei aqui.
Eu me virei ao som da voz de Dank. O alı́vio e a raiva tomaram conta de mim simultaneamente. Eu queria jogar os braços em volta dele, mas também queria dar um soco em seu nariz perfeito.
— Pre iro que você não faça nenhuma das duas coisas. Vá para a cama.
Seu tom frio doeu mais do que o medo. Ele não estava olhando para mim, mas para uma revista esportiva que Leif deixara para trás. Seus coturnos estavam apoiados na mesa e ele se reclinava em uma cadeira. Lágrimas izeram meus olhos arderem, mas eu não choraria na frente dele. Essa era uma humilhação que eu me recusava a lhe dar. Em vez disso, corri escada acima.
A água quente do chuveiro lavou minhas lágrimas durante o banho mais longo do que o necessário. Ali, meu pranto estava camu lado. Assim que as lágrimas pararam de rolar e tudo o que restou foi uma dor oca, desliguei a água, pisei no tapete branco fofo e enrolei uma toalha em volta de mim. Observei atentamente a garota do espelho. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Nenhuma quantidade de água quente poderia lavar a tristeza que re letiam. Ele estava ali e eu estava segura. Havia algo para motivar minha gratidão. O porquê de sua presença eu não tinha coragem de perguntar. Não queria que ele me visse chorar. Não queria que ele soubesse que eu acabara de passar trinta minutos no chuveiro chorando por ele. Dank podia ter roubado meu coração, ou será que havia levado minha alma? Eu não tinha certeza, mas me recusava a deixá-lo tomar também o meu orgulho.
Enrolei a toalha mais apertada no corpo e me dirigi para o meu quarto. Entrei sabendo que estaria vazio. Dank não queria icar perto de mim. Uma pequena parte minha tinha esperanças de encontrá-lo sentado na poltrona de canto com o violão nas mãos. Novas lágrimas surgiram nos meus olhos. Eu precisava obter controle sobre aquela agonia ou o que quer que fosse. Peguei minha bermuda cortada de moletom, mas não consegui icar perto de nada que me lembrasse de Dank e das noites que ele tinha passado cantando para eu dormir. Em vez disso, peguei a camisola e a vesti sobre a cabeça. Era rosa-clara. Dei um sorriso triste, percebendo que nunca tinha pensado nisso antes. Imediatamente a tirei e a deixei cair no chão. Eu também não poderia usá-la. Abri o closet e tirei uma camiseta de Leif que eu tinha e vesti. Eu ainda conseguia sentir o cheiro dele, o que me causou uma sensação de poder, de ser capaz de desprezar meu ruı́do por Dank e de abraçar Leif com minhas ações, embora meu coração estivesse diferente. Fui até a cama e deitei, pensando na música que não ouviria. O silêncio ecoava pela casa, mas eu sabia que não estava sozinha. Ele estava vigiando. Eu não queria fechar os olhos, esperando que ele viesse se sentar em sua poltrona e tocar música só para mim. O único som que eu conseguia ouvir era o lento gotejar da torneira do banheiro e o os ruı́dos de acomodação da casa. Se Dank não estivesse lá embaixo, cada pequeno som teria me feito pular e correr para a porta. No entanto, com ele de vigia, fui capaz de fechar os olhos e ser suavemente embalada pelo silêncio até dormir.
Música invadiu meus sonhos. Música assustadoramente doce preencheu o buraco rasgado no meu coração. Sorri, procurando a origem do som, mas não encontrei nada. Era apenas um lindo sonho.