Existência

Abbi Glines · Capítulo 14 de 22

Páginas do PDF

Existência

Capítulo 14

As ruas já estavam decoradas com os pisca-piscas cobrindo cada árvore. A decoração das vitrines esbanjava espı́rito natalino. As ruas cheiravam à calda quente e ao caramelo que vinham das lojas de doces espalhadas pelas esquinas. A neve caı́a preguiçosamente e se agarrava aos casacos ao caminharmos por ali. Wyatt já carregava cinco sacolas, cheias das compras de Miranda. Um vento gelado fez meu nariz dormente latejar. Eu me encolhi no cachecol que tinha enrolado várias vezes em volta da parte inferior do rosto. Não estava acostumada com aquele clima. O inverno na Flórida não era frio assim. Leif me puxou para o lado dele.

— Venha, vamos ali na cafeteria tomar algo para nos aquecer.

— Otima ideia. Preciso de um descanso dessas sacolas e tenho certeza de que Miranda não encontrará nada para comprar aqui — Wyatt concordou.

Ri para ele através do cachecol que cobria minha boca. Ergui a mão e o puxei para baixo, olhando para ele.

— Você deve estar brincando. Sabe muito bem que ela pode encontrar algo em qualquer loja que entre. Até agora, já passamos por cinco lojas e você está carregando cinco sacolas.

— Blábláblá — disse Miranda, acenando a mão coberta pela luva de pelinhos. — Para que servem essas lojinhas fofas senão para comprar?

Leif riu atrás de mim e fomos todos até uma mesa. Suspirei quando o calor da cafeteria pareceu descongelar o meu nariz ― a única parte do corpo que eu não tinha sido capaz de cobrir.

— O que você quer? — Leif perguntou, tirando o cachecol e o pendurando junto com o imenso sobretudo preto nas costas da cadeira ao meu lado.

— Caramel latte com chantili — respondi.

Ele se virou e se juntou a Wyatt no balcão e eu olhei para Miranda.

— Parece que meu nariz vai cair por ulceração — resmunguei e o esfreguei com as mãos cobertas por luvas.

Ela fez que sim e esfregou o dela também.

— Sei o que quer dizer. Agora que estou aqui dentro, sem pensar no que comprar, posso sentir a dormência.

Abri a boca para dizer algo quando notei a alma parada no balcão, observando as pessoas fazerem seus pedidos. Ela parecia confusa. Agora que eu sabia o que eram e por que sempre pareciam tão perdidas e confusas, desejei poder fazer alguma coisa para ajudá-las. Poderia viver mais vidas se ao menos seguissem em frente. Em vez disso, o medo as segurava ali e tudo o que podiam fazer era vagar, perdidas.

— Para quem você está olhando com essa cara de choro? — perguntou Miranda, tirando o queixo de dentro do cachecol envolto em seu pescoço.

Desviei meu olhar da alma e a encarei.

— Para ninguém, só estava perdida em pensamentos.

Miranda voltou a olhar para trás, mas tudo o que viu foi Wyatt e Leif vindo até nós trazendo cafés fumegantes para todos. Bem, menos para Leif, que tomaria chocolate quente.

— Aqui está. Vamos ver se podemos fazer o sangue congelado em nossas veias voltar a circular — disse Wyatt, todo jovial, ao colocar o latte na frente de Miranda.

Peguei o meu com Leif e tomei um gole, precisando que um pouco de calor luı́sse pelo meu corpo. Miranda pegou a caneca e a segurou perto da nariz. Eu ri, e Wyatt revirou os olhos.

— Ria o quanto quiser, mas a sensação é maravilhosa.

Observei a caneca e decidi que não me importava se parecesse boba, queria esquentar o nariz também. O calor que vinha dali foi maravilhoso para ele.

— Vocês, meninas da Flórida, passam muito aperto com um pouco de frio.

Miranda abaixou a caneca e encarou Leif, incrédula.

— Um pouco de frio? Está maluco? Parece que está uns dez graus abaixo de zero lá fora! — ela choramingou e segurou a caneca contra o nariz.

— Hum, não. Na verdade, só está fazendo seis graus. Estamos muito longe do zero absoluto.

Coloquei a xı́cara sobre a mesa.

— Hum, parece ser dez graus abaixo de congelante, então eu diria que está muito mais frio do que um pouco de frio.

Miranda sorriu para mim por eu ter saı́do em sua defesa e lançou um sorriso todo cheio de si para Leif. O braço dele deslizou ao meu redor e eu me permiti ingir, por ora, que minha vida era normal, que eu amava Leif e que meu coração não estava irremediavelmente dani icado por estar apaixonada por alguém que eu não poderia encontrar e temia nunca mais voltar a ver. A risada sonora da minha melhor amiga e sua felicidade por estar rodeada pelos amigos e pelas compras pareciam muito normais. Eu poderia ingir estar inteira. Poderia ingir que era feliz e que uma alma errante não tinha acabado de vagar pela parede às costas de Wyatt procurando dentre as pessoas ao seu redor por alguém que pudesse ter a resposta para seu problema. Ninguém poderia ajudá-la naquele momento. Foi mais difı́cil manter meu sorriso falso no lugar, mas mantive, porque ignorar o sobrenatural ao meu redor era o que eu vinha fazendo por toda a vida.

 

— Acho que é melhor não sairmos esta noite. Quer dizer, sei que não é lá muito legal icarmos no chalé com os nossos pais, Leif, mas está congelando lá fora. — Miranda fazia careta ao olhar pela janela lateral do Hummer que os pais de Leif tinham alugado para nós.

— Estamos dentro de um monstro, amor, não se preocupe. — Wyatt se inclinou e deu um beijo no pescoço de Miranda, fazendo-a rir. Voltei a olhar a estrada à minha frente, desviando o foco do casal feliz no banco de trás.

— Wyatt está certo, Miranda. Meus pais alugaram esse carro para que a gente pudesse se locomover com facilidade no clima gelado. Além do mais, a Pancake House não é algo que você vai querer deixar passar. Pilhas de panquecas cobertas com tudo quanto é tipo de coisa que você pode imaginar. Estou babando só de pensar — concluiu Leif, sorrindo.

— AFF! Vou estar com uns cem quilos quando for embora daqui. A gente só come. Se você me izer parar em mais uma dessas lojas de doce, eu acho que fujo gritando. — Miranda fez beicinho.

Wyatt riu.

— Ou vai testar cada provinha que eles te derem.

Miranda deu um soquinho de brincadeira no braço dele.

— Ah, sai pra lá. Não me lembre da minha fraqueza e do desastre que causei nos meus quadris.

— Eu gosto muito dos seus quadris — Wyatt respondeu em um sussurro rouco que pudemos ouvir com bastante clareza ali da frente.

— Tá bom, prestem atenção, vou fazer os dois irem a pé para o restaurante se não pegarem leve aı́ atrás — avisou Leif, sorrindo para eles pelo espelho retrovisor.

Mantive o foco na estrada enquanto a neve parecia cair com mais força. Toquei o cinto de segurança e senti uma isgadinha de dor ao me lembrar de Dank parado no quarto em que eu estava no hospital dizendo que o cinto de segurança tinha salvado minha vida. Ainda assim, minha mãe dissera que eu havia sido atirada para fora do carro e que não usar o cinto foi o que salvou minha vida. Eu teria sido esmagada se tivesse icado dentro do carro. A lembrança do peso sobre o meu peito, da di iculdade de respirar, surgiu na minha cabeça. Eu estava no carro quando ele inalmente parou de capotar. Pensei que sufocaria por causa de todo aquele peso sobre mim. Então, fui tirada do carro e colocada sobre a grama. A dor tinha sido tão intensa que eu não conseguia abrir os olhos. Como saı́ do carro? Alguém me tirou. Alguém desa ivelou o cinto, me tirou do carro esmagado e me colocou em segurança sobre a grama. Nunca voltei a perguntar a ele sobre o cinto de segurança.

Agora, ao passarmos pelas estradas congeladas da montanha, a icha foi caindo. O alguém que me havia me tirado do acidente tinha

que ser a única pessoa que sabia que eu estava usando o cinto de segurança. Por que não perguntei de novo? Esqueci que estava de cinto. Leif tinha aparecido e eu me permiti esquecer sobre o acidente e os eventos que levaram a ele.

— Você está bem? — A mão de Leif deslizou pela minha perna e segurou a minha.

Disfarcei a dor e me virei para lhe dar um sorriso tranquilizador.

— Estou.

Ele apontou com a cabeça em direção aos pinheiros cobertos pela neve que passavam pela minha janela.

— E lindo, não é?

Fiz que sim, porque ele estava certo, era lindo, mas também porque me dava uma desculpa para continuar encarando a escuridão.

— LEIF! CUIDADO! — A voz de Wyatt invadiu o silêncio tranquilo do Hummer como uma bala e Leif puxou o veı́culo para fora da estrada e derrapou pela encosta da montanha até parar completamente a poucos metros de um carro que tinha acabado de atingir um pedaço de gelo e virado bem na nossa frente.

Leif abriu a porta de supetão.

— Ligue para a emergência! — gritou para nós, e Wyatt saltou do veı́culo com ele. Procurei minha bolsa às cegas, não querendo tirar os olhos do carro fumegante no caso de vê-las: as almas que sairiam dali, se o acidente tivesse feito vı́timas. Eu logo saberia se tivessem morrido… não saberia?

— Teve um acidente bem feio na nossa frente. — A voz de Miranda soou detrás de mim e eu soube que ela tinha encontrado o telefone e feito a ligação. Soltei a bolsa e engatinhei até o assento de Leif para sair pela porta dele, já que o meu lado estava bloqueado pela montanha. Fagulhas começaram a voar do carro virado e Wyatt agarrou o braço de Leif e o puxou para trás.

— Não, cara, pare — ele disse, e Leif parecia dividido entre ajudar as pessoas ou recuar. Fagulhas e fumaça muito perto de gasolina signi icavam que o carro poderia pegar fogo a qualquer momento, talvez até explodir.

— PARA TRAS! — gritou Miranda, saltando do carro e correndo na nossa direção com o telefone na mão.

— A moça no telefone disse para nos afastarmos. A fumaça e as fagulhas são um mau sinal e ela disse que os paramédicos e os bombeiros estão a caminho e que eles não precisam lidar com mais feridos; isso não vai ajudar as pessoas no carro.

— Ela está certa, Leif, vem. Vamos voltar.

Leif olhou para mim, desesperado.

— Afaste-se, Pagan! — gritou ele.

Antes que alguém pudesse reagir, o carro à nossa frente pegou fogo. Um grito ecoou nos meus ouvidos e eu me encolhi ao pensar que não poderı́amos ajudar as pessoas lá dentro. Congelados por causa do terror, todos icamos parados ali e observamos, incapazes de fazer qualquer coisa para salvá-los. O pranto de Miranda foi abafado pela voz calma de Wyatt. Os braços de Leif me envolveram e me puxaram para longe do calor das chamas. Eu deixei que ele me puxasse, mas não tirei os olhos do carro. Eu precisava ver se eles estavam mortos.

— Não olhe, Pagan — a voz de Leif suplicava baixinho no meu ouvido. Ele não entendia por que eu tinha que olhar, e eu não podia dizer a ele.

Então, eu o vi. Ele saiu da escuridão e foi direto para o fogo. Eu me libertei dos braços de Leif e fui correndo em direção ao carro. Ele estava lá. Dank estava lá.

— Pagan, NAO! — a voz de Leif soou detrás de mim.

— FAÇA ELA PARAR! — Miranda gritou em pânico, mas eu não parei. Dank estava ali! Ele estava lá dentro. O fogo não o machucaria. Eu entendia agora. Braços me envolveram e me puxaram para trás enquanto eu lutava contra eles.

— Não, pare, não posso… eu preciso ir lá! Eu preciso ver — implorei ao lutar com os braços de Leif, sem tirar os olhos do carro em chamas.

Dank saiu com duas pessoas ao seu lado. Era um casal jovem. Comecei a chamar por ele enquanto Leif me segurava com força, in lexı́vel.

— Por favor, por favor, me solte. Eu preciso ir — implorei, observando Dank parar e olhar para mim. Os olhos dele brilhavam, um azul cintilante em meio à escuridão enquanto ele me observava lutar e chamar por ele, presa nos braços de Leif. Ele estava lá, tão perto, e as pessoas ao lado dele encaravam o carro em chamas do qual tinham acabado de escapar. Ele me deu as costas e, com um aceno, os três desapareceram. Observei horrorizada quando a escuridão voltou. O carro continuou a queimar, e ouvi os bombeiros se aproximarem.

— Vamos lá, Pagan, volte, meu amor — Leif sussurrou no meu ouvido.

— Eles estão mortos — sussurrei, sabendo a razão para Dank ter vindo.

Leif me puxou para si e me abraçou com força. Eu deixei. Ele não fazia ideia do que eu tinha acabado de ver. Ninguém fazia. Tudo o que tinham visto era o veı́culo em chamas. Eu tinha acabado de ver a bela alma que roubara o meu coração emergir da escuridão e tomar as almas das pessoas dentro daquele carro. Ele não era um espı́rito normal. Ele sempre me disse que era diferente. Agora eu entendia. Ele era diferente. A existência dele era fria e solitária. Um soluço sacudiu o meu corpo e desabei contra Leif. Chorei ao perceber que Dank jamais teve a chance de amar. Ele vivia em meio à tristeza, tinha que andar de mãos dadas com a morte. Ouvi a voz de Leif tentando me consolar, mas não podia aceitar aquelas palavras. Nada do que ele dissesse faria as coisas icarem bem. Dank não tinha a chance de viver e ser feliz. Meu fôlego saı́a ofegante por causa da dor que disparava pelo meu coração. Tudo aquilo era demais. Eu tinha um limite, e não havia dúvida de que acabara de atingi-lo.

— Não, senhor, ela não está ferida. Não estávamos perto o bastante do carro e todos usávamos cinto de segurança quando joguei o Hummer para a encosta. Ela só não está encarando bem o que acabamos de testemunhar… — A voz de Leif esvaneceu.

Um desconhecido falou às suas costas:

— Ela precisa ser levada para o hospital e tomar algo para se acalmar. Esse tipo de trauma emocional pode ter efeitos devastadores.

Segurei Leif com mais força. Não podia ir para o hospital agora. Não queria ver mais doença nem almas perdidas. Balancei a cabeça com violência contra o peito dele.

— Ela está aterrorizada e eu não posso permitir que ela vá sem mim. Não posso me separar dela. — Ouvi Leif argumentar.

— Você pode ir com ela, mas essa menina precisa de atendimento médico. Não é normal lidar com algo dessa forma. A outra menina está indo muito bem. Essa parece ter enlouquecido.

— Tudo bem, mas não vou sair do lado dela — insistiu Leif, o tom de voz pondo im à discussão.

— Eu não quero ir para o hospital — falei, em pânico. Eu me afastei de Leif, tentando sair dali e ir atrás de alguém que me desse segurança; alguém que não me obrigaria a ir. Ninguém entendia o que eu veria lá. O que eu tinha visto aquela noite.

— Não, não faça isso. — Ouvi Leif protestar e, por um momento, pensei que ele estivesse falando comigo, quando senti a picada da agulha. O mundo icou difuso e logo esvaneceu na escuridão.

 

— Não, eles aplicaram uma injeção e ela apagou. Tentei impedir, mas aconteceu antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. — Escutei a voz de Leif.

— Liguei para a mãe dela, e ela está muito a lita. Eu disse para ela não vir. Estou cuidando dos preparativos para partimos em algumas horas. — A voz da sra. Montgomery parecia preocupada.

— Como estão Miranda e Wyatt? — perguntou Leif ao acariciar meus braços com os dedos. Eu sabia que era o toque dele.

— Estão bem. Miranda está bem. Ela está preocupada com Pagan. Assegurei-a de que Pagan só está descansando.

Houve mais alguns minutos de silêncio. Deixei a carı́cia de Leif me confortar. O gesto me ajudava a lutar contra o terror que eu mal conseguia conter. Eu sabia que a dor esperava por mim, mas não estava pronta para enfrentá-la.

— Querido, ela é sempre instável assim? Eu sei que foi algo horrı́vel de se testemunhar, mas ela perder o controle desse jeito? Bem, acha que ela tem algum problema psicológico do qual não sabemos?

Leif não disse nada de inı́cio e eu me perguntei se ele tinha balançado a cabeça ou encolhido os ombros.

Eu o ouvi suspirar.

— Não sei, mãe — disse baixinho.

Leif sempre pareceu completamente cego para os meus problemas. Sempre me perguntei se ele só não notava a forma como eu encarava e observava coisas que ele não podia ver. E também havia as minhas grandes oscilações de humor que ele parecia relevar. Talvez visse mais do que eu imaginava. Um golpe de pânico apertou o meu peito e percebi que talvez perdesse Leif também. Dessa vez, ele não seria capaz de ignorar os meus graves problemas. Eu não era normal. Nunca tinha sido.

— Você precisa pensar sério sobre o seu relacionamento com ela. Não é saudável se envolver com uma pessoa psicologicamente vulnerável. Pessoas com emoções frágeis podem ser perigosas.

A mão de Leif parou de acariciar o meu braço.

— Não pedi a sua opinião. Não volte a dizer coisas assim sobre Pagan. A senhora me entendeu? Não há nada errado com ela, nada que seja perigoso ou nocivo. Ela só tem sentimentos mais intensos do que os outros.

Pensei no amor profundo que eu sentia por Dank e não pude discutir com ele. Eu realmente tinha sentimentos mais intensos do que o normal.

— Desculpe, querido. Eu não deveria ter dito nada; é só preocupação de mãe, nada mais que isso. Quero o melhor para você e ter certeza de que ela é o melhor para você.

Queria abrir os olhos e dizer “Ouça a sua mãe. Não sou boa para você, Leif”, mas não iz isso. Porque eu era egoı́sta e estava apavorada.