Existência

Abbi Glines · Capítulo 2 de 22

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Existência

Capítulo 2

— Ei, Pagan, o sr. Yorkley disse que eu precisava falar com você.

A voz de Leif pareceu me tirar do choque momentâneo. Se o sr. Yorkley o tinha enviado, ele precisava de algum tipo de ajuda acadêmica. No entanto, eu não tinha certeza se queria ajudar, nem tinha a intenção de facilitar para ele. Consegui fazer uma expressão de “e daı́?” e esperei em silêncio. Leif pigarreou e esfregou as mãos nos joelhos da calça jeans, como se na verdade estivesse nervoso.

— Uh, hum, bem — começou —, quer dizer, isto é, preciso de ajuda na aula de Retórica. Não é minha praia e o sr. Yorkley falou que você era a pessoa certa para me ajudar.

Ele olhava para a frente enquanto falava. Nem mesmo olhava por cima de mim. Eu realmente não gostava desse cara. Ele en im voltou seu olhar na minha direção. Eu tinha certeza de que ele concedia essa expressão lamentavelmente esperançosa às garotas em todos os lugares, só para conseguir o que queria. Meu estômago me traiu e estremeceu com o efeito que seus olhos azul-bebê suplicantes evocavam. Eu odiava que ele conseguisse fazer meu corpo reagir a ele de forma diferente de vomitar, é claro.

— Estamos no primeiro dia de aula. Como você já pode precisar de ajuda? — perguntei com um tom que eu esperava que parecesse irritado. Eu não era uma idiota afetada que poderia ser comovida por umas piscadelas de seus longos cı́lios, mesmo que meu corpo traiçoeiro não parecesse concordar. Com certeza eu só estava imaginando o leve rubor nas bochechas dele.

— Hum, sim, eu sei, mas eu… bem, a gente está falando do sr. Yorkley e sei que vou ter di iculdade — disse ele, um pouco na defensiva. Leif sempre foi um bom aluno. Eu já tinha feito algumas aulas com ele.

— Por que acham que você vai ter di iculdade? Com certeza, você não tem medo de falar em público na aula.

Ele balançou a cabeça e olhou para a frente de novo.

— Não, não é isso.

Esperei, mas ele não disse mais nada. Curiosamente, iquei intrigada.

— De verdade, não sei por que você precisa da minha ajuda. E muito simples. Você escreve o texto sobre os tópicos que recebeu e depois fala pra turma. Simples, básico, sem sequências extravagantes ou equações difı́ceis.

Ele voltou o olhar para mim com um sorriso triste.

— Pra mim, não é tão fácil. — Leif parou por um instante e agiu como se quisesse dizer mais, mas balançou a cabeça e se levantou. — Deixa pra lá, esqueça que perguntei.

Eu o observei passar pela mesa de seus fãs cheios de admiração e sair pela porta dupla. Senti uma pontada de culpa por ser tão dura com ele. Leif tinha vindo pedir ajuda e eu basicamente tinha acabado de zombar dele. Peguei minha bandeja, com raiva de mim mesma por agir como uma idiota. Aliás, “idiota” era uma descrição do que ele era normalmente, não eu.

Minha mochila pousou no balcão da cozinha com um baque pesado, anunciando meu retorno. Fui para a geladeira. O suco de laranja natural que eu tinha me esforçado tanto para fazer ontem parecia bom.

— Pagan, querida, é você? — a voz da minha mãe chamou do corredor. Ela estava encolhida no canto do seu escritório com uma grande xı́cara de café, digitando sem parar no computador. Eu não precisava vê-la para saber disso. Minha mãe era escritora. Ela vivia de moletom manchado, sempre na frente do computador.

— Sou.

Antes que eu pudesse me servir de um copo de suco de laranja, o som de seus chinelos batendo no chão de madeira me surpreendeu. Era uma ocorrência estranha. Raramente ela parava de escrever quando eu voltava da escola. Era mais comum que me agraciasse com sua presença quando já estávamos mais perto da hora do jantar.

— Bom, estou feliz que tenha vindo direto para casa. Preciso falar com você e depois tenho que me vestir. — Ela apontou para a calça de moletom folgada e uma grande camiseta do Atlanta Braves. — Vou jantar com Roger, mas não se preocupe, vou deixar dinheiro para você pedir uma pizza. — Ela puxou uma banqueta alta, e seu rosto amigável icou sério. Também não era sério do tipo bom. Não, era o tipo de rosto sério que eu reconhecia, mas raramente tinha que lidar com ele.

— O quê? — perguntei enquanto colocava meu copo na mesa.

As costas da minha mãe icaram mais rı́gidas quando ela limpou a garganta. A cara fechada de “estou decepcionada com você” virava o canto de seus lábios para baixo. Rapidamente vasculhei meu cérebro, tentando pensar em algo que eu poderia ter feito para aborrecê-la, mas nada me ocorreu.

— Recebi uma ligação, bem no meio do capı́tulo quinze. Era o sr. Yorkley.

Oh-oh, ela sabia sobre Leif.

— Do sr. Yorkley? — ingi que não sabia do que se tratava.

Ela con irmou e inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse me estudando para ver se acreditava que eu realmente não tinha ideia de por que meu professor tinha ligado. A inclinação da cabeça sempre me deixava nervosa. Eu me preparei. Ela estava prestes a me dar um sermão. Eu tinha sido uma idiota, mas, em minha defesa, não foi como se eu tivesse causado qualquer dano. Eu estava zombando do reizinho da turma, não de alguém com baixa autoestima.

— Aparentemente, há um jovem com transtorno de aprendizagem que recebeu instruções de procurar você para uma aula de reforço. Você se inscreveu como tutora este ano para obter créditos extras. Minha pergunta é: por que, Pagan, você não ajudaria um aluno de sua escola que enfrenta algo tão sério quanto a dislexia? O menino, segundo me disseram, tem a oportunidade de receber uma bolsa de estudos por causa das habilidades atléticas, mas o transtorno exige que ele receba reforço em certas aulas. Ele precisa de alguém para ajudá-lo a colocar no papel o texto das apresentações da aula de Retórica. Não me parece que seja pedir muito. Você falou que queria ser tutora este ano. Me explique por que decidiu recusar esse garoto, e estou lhe dizendo agora que é melhor ser um bom motivo. — Ela se recostou e cruzou os braços no peito, em sua postura de “estou esperando”.

Leif sofria de dislexia? Era uma piada? A gente tinha estudado na mesma escola pela maior parte da minha vida. Garotas, incluindo Miranda, sabiam tudo sobre ele. Caramba, Miranda uma vez me disse exatamente onde icava uma marca de nascença que ele tinha.

Não que eu me importasse. Como Leif Montgomery poderia ter dislexia e ninguém saber?

Fiz uma retrospectiva de Leif me pedindo ajuda no refeitório hoje e a maneira como agi. A revelação de que ele lidava com algo como a dislexia e ainda conseguia tirar notas tão boas me incomodou. Eu não tinha certeza de por qual motivo exatamente, mas me incomodava. Gostava de pensar nele como um atleta. Alguém sobre quem baldes de boa sorte eram derramados. Agora, tudo que eu conseguia pensar era na maneira como ele parecia naquele dia, mais cedo, quando tinha vindo me pedir ajuda. Um nó de enjoo se irmou na boca do meu estômago.

Olhei para minha mãe e balancei a cabeça lentamente.

— Eu não fazia ideia de que ele tinha transtorno de aprendizagem. Ele é sempre tão arrogante e seguro de si. Fiquei surpresa por ele ter vindo me pedir ajuda e imediatamente questionei por que ele, dentre todas as pessoas, precisaria de reforço.

Minha mãe se inclinou para a frente na banqueta e sua cara fechada relaxou um pouco.

— Bem, você pode resolver isso. A ilha que eu criei teria mais compaixão.

Balancei a cabeça e peguei a mochila.

— Eu sei e sinto muito. Pode deixar que eu resolvo.

Ela pareceu satisfeita.

— Não gosto de receber ligações da escola sobre você. Ainda mais quando estou escrevendo uma cena de crime intensa.

Sorri e coloquei meu copo na lava-louça antes de me virar para ela.

— Desculpe, vou tentar me lembrar disso. Então, segundo encontro com esse tal de Roger?

Ela corou.

— E, parece que ele e eu conseguimos conversar por horas. Amo a mente dele. Roger viajou por todo o mundo. Minha imaginação sempre começa a girar quando ele fala de lugares e coisas que nunca vi. — Ela deu de ombros. — Você me conhece, estou sempre pensando em uma história por trás de tudo.

Ergui as sobrancelhas e me inclinei para perto dela.

— E ele é uma delicinha.

Minha mãe riu, o que não era um som tı́pico, vindo dela.

— Ah, mas, bem, não é por isso que eu gosto dele. E a mente e a conversa.

Eu ri alto.

— Claro que é, mãe, continue contando essa mentira para si mesma.

— Tudo bem, ele é bem atraente.

— Mãe, ele é uma delicinha e você sabe disso. Tá, admito, ele é um velho delicinha, mas mesmo assim.

— Ele não é velho. Ele tem a minha idade.

— Exatamente.

Observei sua tentativa de parecer magoada antes de desistir e rir.

— Tudo bem, estou velha. Seu dinheiro vai estar no balcão quando você quiser pedir a pizza.

Ficar em casa sozinha não era algo de que eu gostava. Quando estava desacompanhada, as almas que eu via vagando sem rumo me incomodavam. Em especial porque hoje, eu tinha conversado com uma. Era mais fácil me lembrar de que eram inofensivas quando

icavam mudas. Agora eu estava um pouco assustada. Assim que

fechei a porta do quarto, peguei o celular do bolso e liguei para Miranda.

 

— Deixe-me ver se entendi direito. — Miranda se sentou no sofá com um pedaço de pizza na mão e um refrigerante entre as pernas, olhando para mim. — Leif “gostoso-de-derreter-corações” Montgomery pediu para você o ajudar no seminário e você recusou? Você é tão louca quanto estou achando que é? Quer dizer, fala sério, Pagan, pensei que a loucura de que você tanto se gabava era apenas para se exibir e que, no fundo, você tinha um pouco de bom senso.

Frustrada, coloquei um pedaço de pizza no prato na minha frente.

— Vou resolver isso amanhã de manhã. Até parece que roubei um banco. Pare de fazer tanta tempestade em copo d’água. Eu sei que estraguei tudo. Ele realmente precisava de ajuda, e me inscrevi como tutora. Se eu quiser os créditos extras, tenho que ajudar aqueles que o sr. Yorkley manda vir falar comigo.

Miranda revirou os olhos.

— Oh, e Deus me livre de ele mandar o garoto mais gostoso da cidade para você! Quero dizer, pelo amor de Deus, qual é o seu problema?

Era impossı́vel não encontrar diversão em todo aquele drama. Miranda nunca deixava de fazer a gente sorrir das pequenas coisas, transformando tudo em um espetáculo dramático.

— Errei por não oferecer ajuda. Acho que meu preconceito em relação aos atletas atrapalhou, mas não vou ajudá-lo só porque você acha que ele é gostoso. Eu só vou fazer isso porque ele realmente precisa de ajuda e me inscrevi para ajudar a quem precisa.

Miranda revirou os olhos e congelou, segurando a pizza no ar entre o prato e a boca.

— Espere… ele vai, tipo, vir à sua casa e tal? Porque, se for, eu também quero estar aqui. Ele pode me notar e perceber que está perdidamente apaixonado por mim e então podemos namorar durante o ensino médio e, depois da formatura, podemos nos casar e ter ilhos.

Refrigerante espirrou da minha boca e cobriu meu prato de pizza.

— O quê? — Ela sorriu e encolheu os ombros. Em seguida, deu uma mordida em sua fatia de pizza, que pelo menos estava livre de refrigerante.

— Para inı́cio de conversa, você precisa terminar a faculdade antes mesmo de pensar em se casar e ter ilhos. E NAO, ele não virá aqui. Mesmo se ele viesse, eu não deixaria você estar aqui depois de um comentário tão maluco. A última coisa que quero fazer é arranjar pra minha amiga icar com um cara com quem ela está fantasiando sobre casamento e ilhos logo depois de terminar o ensino médio.

Miranda suspirou em derrota e me mostrou sua expressão de sobrancelhas franzidas, fazendo beicinho, uma cara em que ela era ótima.

— Você não é divertida, Pagan, não é nadinha divertida.

Peguei outro pedaço de pizza da caixa que tinha colocado na mesa de centro.

— Sério? Então, por que você me mantém por perto? — perguntei.

— Porque eu amo você!

— Amo você também.

Miranda se levantou.

— Odeio a ideia de deixar todo o aconchego caloroso dessa conversa, mas eu preciso fazer xixi. — Ela pulou do sofá e seguiu o corredor em direção ao banheiro.

Miranda sempre segurava até o último minuto. Fiquei pensando que ela iria superar à medida que ganhávamos mais idade, mas não foi o que aconteceu. Quando ela decidia que precisava ir ao banheiro, era sempre uma corrida maluca.

— Amiga interessante que você tem aı́. Ela é muito divertida.

A pizza que eu estava levantando em direção à boca caiu das minhas mãos e pousou no meu colo. Segurei o grito na garganta. Ele me assustou, mas reconheci o sotaque marcado e grave.

A alma falante sentou-se em uma das minhas banquetas. Simplesmente ótimo. O cara morto realmente sexy, mas assustador porque sabia falar, devia ter me seguido até em casa.

— Por que você está aqui? — questionei, querendo que ele me deixasse em paz e fosse assombrar outro lugar. A intensidade de seu olhar irme fez meu pulso saltar de nervosismo, ou talvez uma descrição melhor fosse medo.

— Não posso te dizer isso. Agora não é a hora, mas posso dizer que não vou embora tão cedo.

Depois de uma olhada rápida para ver se Miranda estava voltando, eu o encarei.

— Por quê? Se eu te ignorar, você e todas as outras almas, vocês sempre vão embora.

Ele franziu a testa, inclinou-se para a frente e me observou com atenção.

— O que você quer dizer com ignorar “as outras almas”?

Não me sentindo muito segura sentada no chão e olhando para ele, tirei a pizza do meu colo e me levantei para que pudesse estar no mesmo nı́vel de seus olhos.

— Você não é especial. Tenho visto fantasmas, almas ou espı́ritos, ou seja lá o que você for, por toda a minha vida. As almas estão por toda parte: na minha casa, na rua, nas lojas, na casa dos outros; sempre consigo vê-las. Eu apenas as ignoro e elas vão embora.

Ele se levantou lentamente e deu um passo em minha direção. Sua altura era intimidante, mas a proximidade teria me feito recuar, mesmo que ele fosse baixo.

— Você vê almas?

— Eu posso te ver, não posso?

Ele balançou a cabeça lentamente.

— Sim, mas sou diferente. Você deveria me ver. E mais fácil assim, mas as outras… você não deveria vê-las.

A porta do banheiro se abriu com um clique. Virei a cabeça para ver Miranda retornando com um sorriso no rosto.

— Você estava falando sozinha agora?

Dei de ombros e forcei um sorriso.

— Hum, sim.

Ela riu e se sentou no sofá. Respirei fundo e olhei para trás, para a alma que havia voltado para o mesmo banco de vime branco da cozinha e continuava me observando. A única maneira de encerrar essa conversa e fazê-la ir embora seria mandando Miranda para casa. Falar com uma alma que ela não conseguia ver não seria muito bom. Minha capacidade de enxergar os fantasmas não era algo que eu tinha contado para ela, e não pretendia começar agora.

O fantasma parecia estar esperando que eu tomasse uma decisão. A ideia de icar sozinha com ele me assustava. Ele podia ser sexy, mas estava morto e tinha me seguido para casa. Assustador nem começava a descrever a situação. Permitir que Miranda me deixasse ali sozinha não entraria nos planos naquela noite. Coloquei alguma distância entre mim e a alma, caminhando até o sofá para me sentar ao lado de Miranda.

— Quer assistir The Vampire Diaries? Tenho os dois últimos episódios gravados — perguntei a ela, esperando que a alma entendesse a dica e desaparecesse.

— OH! Sim, perdi na semana passada.

Peguei o controle remoto, examinei os programas gravados na minha lista de DVR e cliquei em reproduzir. Eu precisava desviar minha mente do cara morto na sala. Depois de pelo menos dez minutos ouvindo Miranda babar pelo Damon e reclamar da Elena, eu segurei minha respiração e arrisquei uma espiada na direção do espı́rito. O banquinho onde ele estava sentado agora se encontrava vazio. Soltei um suspiro de alı́vio.

 

Durante toda a manhã, iquei repetindo exatamente o que diria a Leif. Eu não tinha certeza se deveria contar que eu sabia sobre a dislexia, ou se deveria apenas falar que poderı́amos começar assim que ele estivesse pronto e pular as explicações. Eu também me preparei para ele me dizer que não precisava mais da minha ajuda. Se já tivesse conseguido encontrar outro tutor, toda essa confusão estaria acabada. Eu não seria forçada a ajudar alguém de quem realmente não gostava, mas seria um golpe negativo nos meus créditos extras. De um jeito ou de outro, eu saı́a perdendo nessa situação. Isso também não era algo que eu queria fazer com Miranda ao meu lado, piscando sedutoramente e rindo quando ele falava. A inal, o tempo seria de extrema importância. Depois de Quı́mica, no corredor, esperei que ele saı́sse da única aula que fazı́amos juntos naquele semestre. Felizmente, ele saiu sozinho.

— Hum, Leif, posso falar com você um minuto? — indaguei assim que ele saiu pela porta.

Ele olhou para mim e um franzido imediatamente vincou sua testa. Ele parecia estar pensando seriamente em se afastar e me ignorar quando se virou e caminhou até icar diante de mim. Encostado na parede, ele cruzou os braços na frente do peito e esperou. Tive a sensação de que não iria facilitar.

— Sobre ontem, sinto muito pela grosseria quando você me pediu ajuda. Eu me inscrevi como tutora para créditos extras e não deveria ter te tratado daquela maneira. — Parei e hesitei, esperando que ele falasse alguma coisa. Ele não se moveu nem fez menção de agir como se fosse responder. Respirei fundo e me lembrei de que aquilo era culpa minha. — Se você ainda quiser que eu seja sua tutora, eu icaria feliz — concluı́, embora não muito feliz, mas parecia algo educado a se dizer, e seu olhar silencioso tinha acabado me deixando nervosa.

Ele parecia entediado e era preciso extremo autocontrole para não icar brava com ele e ir embora. Lembrar exatamente de como eu tinha sido sem educação no dia anterior ajudava a permanecer esperando pacientemente por sua resposta. Ele se endireitou e olhou para o corredor por cima do meu ombro como se não estivesse considerando de verdade o que eu tinha acabado de dizer.

Bem quando tive certeza de que ele não queria mais minha ajuda, ele focou a expressão entediada em mim e perguntou:

— Você está oferecendo por causa do sr. Yorkley? Ele obrigou você?

Pensei nas palavras da minha mãe ontem e me perguntei. Se ela não tivesse insistido para que eu “resolvesse”, será que eu estaria oferecendo minha ajuda agora? Esse cara popular, talentoso e venerado havia con iado em mim seu segredo. Eu não gostava dele. Caramba, eu não o conhecia, mas por algum motivo queria ajudá-lo.

— Eu agi da maneira que agi só porque não gosto muito de você. Estava errada e, sinceramente, nem te conheço bem o su iciente para formar uma opinião a seu respeito. Estou me oferecendo para ajudar porque você precisa. Foi para isso que me inscrevi e é por isso que estou aqui agora.

Ele pareceu pensar no que eu tinha dito por um momento, e então um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Então você não gosta de mim?

Eu me endireitei um pouco e puxei meus livros para mais junto do peito, sentindo-me assumir uma postura defensiva. De forma surpreendente, tinha sido bem difı́cil receber um de seus sorrisos encantadores. Ainda mais depois de eu admitir que não gostava dele. Por que ele tinha que ser tão frustrantemente fofo? Fiz um pequeno movimento negativo com a cabeça e ele riu.

— Bem, talvez tenhamos que trabalhar para fazer você mudar de ideia. — Ele deslizou a mochila mais para cima no ombro e me lançou outro sorriso. — Vejo você mais tarde.

Ele se afastou, deixando-me um pouco confusa. Lutei contra a vontade de me virar e vê-lo sair andando. Um barulho lento de palmas me assustou e me virei para ver a alma falante encostada nos armários com aquele sorriso assimétrico e maldito.

— Impressionante. Uma mulher com coragem su iciente para admitir que pode estar errada, pedir desculpas e se oferecer para corrigir a situação.

Revirei os olhos e suspirei, sabendo que o corredor não estava completamente vazio, então responder não seria possı́vel.

— Vá embora — sibilei mesmo assim, antes de me virar e seguir para o refeitório.