Existência

Abbi Glines · Capítulo 17 de 22

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Existência

Capítulo 17

— Pagan. — A dra. Janice entrou no Grande Salão onde eu jogava Banco Imobiliário com Gee, que trapaceava, e com Roberta, que continuava olhando feio para Gee por causa da trapaça.

— Sim?

Ela sorriu para as meninas que estavam comigo e ergueu a prancheta que segurava.

— Está na hora da sua avaliação. Por favor, venha comigo.

Eu me levantei da posição de pernas cruzadas em que estava sentada.

— Ah, merda, eu estava gostando de você, Peggy Ann, e agora vão te dizer que você não tem nenhum problema psicológico e vão te mandar para casa. — Gee mostrou a lı́ngua com o piercing para mim e deu uma piscadinha. Ela havia começado a me chamar de Peggy Ann nos últimos dias. Era um pouco irritante, mas não valia a pena criar caso.

Forcei um sorriso e segui a médica. Ainda não estava pronta para ter alta. Dank vinha todas as noites e eu temia que, assim que eu chegasse em casa, ele pararia de vir. Meu peito doı́a, lembrando-me de que ainda estava oco. A dra. Janice abriu a porta do consultório e a segurou para eu entrar.

— Não repare na bagunça da minha mesa. Repassei os arquivos essa semana e as coisas saı́ram um pouco do controle. — Ela sorriu se desculpando e deu a volta para icar atrás da mesa. — Por favor, sente-se — pediu, apontando para as poltronas de couro preto ao meu lado.

Eu me afundei em uma delas e a dra. Janice pegou a prancheta. Ela colocou, sobre o nariz grande, os óculos que estavam pendurados com uma correntinha de pérolas em seu pescoço.

— Parece, Pagan, que você é a paciente mais psicologicamente saudável que temos em anos. Você é solidária e faz amizade até mesmo com os casos mais difı́ceis, o que só reforça o diagnóstico de que você não tem problemas psicológicos. Fazer amizade com alguém como Georgia Vain não é fácil, e a Jess é a única amiga dela só porque ela parece sofrer de medo da Georgia e por autopreservação. A avaliação de todas as enfermeiras diz que você é gentil e compreensiva. Você reage como alguém que entende estar rodeada por pessoas com doenças mentais e é paciente com elas. Isso não apenas faz de você uma paciente agradável, mas também uma pessoa muito estável. — A dra. Janice colocou a prancheta sobre a mesa, tirou os óculos e, com cuidado, deixou-os cair sobre o peito. — O fato é: seu lugar não é aqui.

Fiz que sim, sabendo que não havia por que discutir com a médica dizendo que eu era um caso psiquiátrico e que precisava

icar. A dra. Janice voltou a olhar para os arquivos na frente dela.

— Analisei com cuidado a recomendação que nos enviaram quando prescreveram a necessidade de você icar aqui para aprender a lidar com o trauma que sofreu. Não é normal eu discordar totalmente das observações de outros médicos, mas, dessa vez, o erro do seu diagnóstico foi grosseiro. Agora, a pergunta que tem me deixado fascinada é, Pagan Moore, por que você se escondeu tanto em si mesma a ponto de a sua mãe ir buscar ajuda médica para você?

Engoli o medo que se construı́a dentro de mim ao pensar que eu seria enviada para casa naquele dia e que eu não teria a presença de Dank à noite. Eu precisava de um motivo para icar. Encarei a dra. Janice e me perguntei se eu poderia ser sincera com ela e se a verdade me manteria ali. Se eu dissesse que via gente morta, ela mudaria de ideia? Comecei a falar, e uma imagem dos olhos marejados da minha mãe de quando ela viera me visitar no dia anterior surgiu em minha mente. Ela sentia saudade e estava preocupada comigo. Eu a estava magoando, ou melhor, a doença que ela pensava que eu tinha a estava magoando. Se confessasse que via almas, eles iriam mesmo me rotular como louca. Seria diagnosticada com um problema totalmente diferente e a preocupação engoliria minha mãe viva. Eu só tentaria icar mais uma noite. Mais uma chance de ouvir Dank e, dessa vez, eu lutaria contra o sono pesado que sempre me impedia de vê-lo. Encontraria uma forma de falar com ele.

— O acidente de carro mexeu comigo e eu me escondi em mim mesma porque não queria pensar no que tinha visto. Concordei em vir para cá para que minha mãe se sentisse melhor, pois eu a estava assustando demais com a minha reclusão. Minha estadia aqui serviu para abrir meus olhos e eu sempre vou guardar essas lembranças com carinho. As meninas daqui são como eu, mas têm problemas psicológicos que tornam difı́cil levarem uma vida normal. Elas ainda são pessoas. Ainda têm sentimentos e querem ser aceitas. Gostei de conhecer todas elas. A senhora está certa, eu não tenho a mesma condição psicológica que as outras pacientes, mas icar aqui me ajudou a aprender a aceitar o que testemunhei.

A dra. Janice sorriu.

— Bem, isso só con irma o meu diagnóstico. Você é completamente sã e muito madura para sua idade. Gostaria de ligar para a sua mãe e dizer que já pode voltar para casa?

Aquele era o momento em que eu pedia mais uma noite. Eu precisava dizer adeus. Precisava abrir os olhos naquela noite e olhar para ele; não poderia ir embora até ver Dank.

— Dra. Janice, teria algum problema se eu icasse essa noite e fosse embora logo pela manhã? Eu gostaria de jantar com minhas novas amigas e me despedir de todo mundo.

A dra. Janice me deu um sorriso lento e satisfeito e fez que sim balançando a cabeça.

— Acho que seria perfeito.

Olhei para o telefone na mesa.

— Posso ligar para a minha mãe, então, e contar que vou poder ir embora pela manhã?

Pensei em como a notı́cia da minha volta para casa no dia seguinte colocaria um sorriso no rosto dela. Saber que ela icaria aliviada acalmava um pouco da dor, mas não o su iciente.

 

Carreguei a bandeja de comida e fui me sentar com Gee e Jess. Gee inclinou a cabeça para o lado, como sempre fazia quando pensava em alguma coisa, e bateu o piercing da lı́ngua várias vezes contra os dentes.

— Você está indo embora, não está, Peggy Ann? — Eu sorri para ela e iz que sim. Ela soltou um suspiro dramático. — Imaginei que eles te mandariam para casa, já que você não tem fragilidades psicológicas. Quer dizer, você nem grita à noite. Mas, bem, ele canta para você. Meio que me impressiona, na verdade. Ele me assusta pra caralho quando aparece no meu quarto. Você pode não ser ferrada da cabeça, mas o fato de você não ter medo dele faz de você alguém que não quero irritar.

Congelei, ouvindo o que ela dizia. Ela sabia que Dank vinha todas as noites e cantava para mim. Como ela sabia? Ela o via? Ela via almas? Qual era o meu problema? Eu era esquizofrênica? Ela caiu na gargalhada e piscou para mim.

— Você está pensando que deve ser doida no im das contas, não está, Peggy Ann? Você queria ser pirada assim. Sem chance, garota. Nem fodendo — sussurrou, inclinando-se para mim para que as enfermeiras não a ouvissem xingar e lhe tirassem mais privilégios.

— Do que você está falando? Tomou seus remédios hoje, Gee? Porque você está falando mais loucuras do que o normal — disse Jess, franzindo a testa ao levar uma colherada de feijão-fradinho à boca.

Gee não parou de olhar para mim. Os olhos dela quase brilhavam ao meu observar, gostando da confusão que eu sabia estar estampada no meu rosto.

— Só os que ele veio buscar podem vê-lo, Peggy Ann. Você sabe, não é? Aqueles cujo tempo está próximo. Sei por que ele está aqui. — Ela inclinou a cabeça de um lado para o outro e me encarou de perto. — Mas ele não canta para mim. Não, ele não canta para mim.

Jess soltou um suspiro alto e olhou feio para Gee.

— Se você não parar de falar como uma psicopata, vou chamar a enfermeira Karen para vir aqui te aplicar os remédios na bunda — resmungou ela.

— Quem é ele? — perguntei baixinho para Gee, temendo que ela não soubesse.

Um sorriso triste tocou os lábios vermelhos e ela balançou a cabeça.

— Ah, então ele não está vindo atrás de você. Muito estranho, já que você vê o cara e ele passa tanto tempo com você, e ainda assim ele não veio atrás de você. Ele é o único que pode te dizer. — Gee se levantou, deixou a bandeja intocada sobre a mesa e saiu.

Jess me encarou e balançou a cabeça com tristeza.

— Ela voltou a esconder os remédios sob a lı́ngua e está cuspindo os comprimidos no vaso. Vou contar para alguém antes que ela ique mais louca. Acho que, se ela icar tempo demais sem eles, pode tomar alguma medida drástica. — Jess deu uma garfada no bolo de carne, se levantou e foi falar com a enfermeira Ashley.

Naquela noite, eu estava determinada a perguntar para ele de novo, mas o medo de afastá-lo novamente me assustava mais do que as palavras da minha amiga psicótica.

 

Guardei a última calça jeans na mala e fechei o zı́per. As gavetas estavam vazias, e as minhas coisas não estavam mais no armário. Fui até a mesinha redonda e peguei os cartões que Leif e Miranda tinham me mandado. Lê-los todas as manhãs me deu motivos para sorrir. Eu os guardei na bolsa de viagem e me sentei na cama. Agora eu tinha permissão para vir para o meu quarto sempre que quisesse. As regras de reclusão não se aplicavam mais a mim e eu precisava fazer as malas. O quartinho não era muito maior do que o closet da minha mãe, mas seria difı́cil sair dele pela manhã. Assim como em casa, aquele quarto tinha abrigado Dank. Tinha memórias dele.

A enfermeira Ashley caminhava pelos corredores, tocando o sino para o anúncio de apagar as luzes. Eu me levantei, puxei as cobertas e deslizei para a cama, estiquei a mão e desliguei o abajur. Ele viria esta noite, e eu falaria com ele. Não precisava temer que ele me deixaria e não voltaria mais, porque eu iria embora pela manhã. Eu queria entender por que Gee sabia quem ele era ou se ela pensava que ele era outra pessoa. Ele era o mesmo “ele” de quem a menininha ruiva tinha falado no hospital? O “ele” que ela disse que a buscaria em breve?

Foi Dank quem tirou o casal do carro incendiado quando eles morreram. Era isso que ele fazia? Ele era a alma que vinha e levava as outras quando morriam? Fechei os olhos e esperei. Pensei nas coisas diferentes que tinha visto e no que Gee e a garotinha disseram. Tudo indicava que Dank era algum tipo de guardião. Talvez um anjo. Eu me virei de um lado para o outro, esperando pela música. Esperando Dank vir cantar para mim.

Ele não apareceu.

O sol da manhã lançava um brilho fraco no quarto amarelo enquanto eu pegava minhas malas e olhava ao redor para veri icar se tinha esquecido alguma coisa. Eu estava partindo sem respostas. Pensei em Gee. Puxei a bolsa de viagem mais para cima do ombro e desci para procurar por ela. Queria falar com Gee uma última vez antes de partir. Dizer adeus e perguntar mais uma vez se ela poderia me explicar quem ela pensava ter ouvido no meu quarto. O Grande Salão estava vazio e o som das conversas vinha do refeitório, onde todo mundo tomava o café da manhã. Gee estaria lá. Coloquei as bolsas perto da porta e fui me despedir pela última vez.

No momento em que entrei na sala de jantar lotada, olhei para a última mesa. Jess estava sentada sozinha na ponta, encarando o prato enquanto en iava comida na boca. Olhei para a ila e as enfermeiras tinham terminado de servir as pacientes. Todas estavam sentadas para comer. A enfermeira Karen olhou para cima e me deu um aceno de cabeça com um sorriso triste. Fui até Jess e me sentei em frente a ela.

— Ela se foi — disse ao comer mais um pouco do mingau de queijo.

— Gee se foi? O que você quer dizer? — perguntei, confusa. Eu a vi bem antes de ir para a cama na noite passada, sentada com umas meninas e jogando cartas.

Jess olhou para mim e franziu a testa.

— Ela partiu para cima deles mais ou menos às quatro da manhã. Começou a gritar e a xingar e tiveram que dar sedativos. Ela está piorando, e a dra. Janice não ica com as que estão perturbadas a ponto de fazer mal para si mesmas. Ela as transfere para o hospital, onde podem manter essas pacientes na ala psiquiátrica trancadas a sete chaves. — Jess sacudiu a cabeça e tomou um bom gole do leite com chocolate. — Eu sabia que ela seria despachada em breve. Os esquizofrênicos sempre são.

Eu iquei enjoada.

— Você sabe para que hospital ela foi?

Jess deu de ombros.

— Não, porque não sou louca o bastante para ser despachada para lá.

Fiquei de pé.

— Bem, tá bom, então. E, foi um prazer te conhecer, Jess. — Falar que a veria outro dia seria estranho porque sabı́amos que não era verdade. Então só sorri e disse: — Tchau.

Ela acenou com a cabeça, encheu a boca de bacon e olhou para além de mim, para as janelas que davam vista para o Golfo. Eu me virei e fui para a porta. A enfermeira Karen veio até mim.

— Precisarei que sua mãe assine os papéis da alta — avisou, indo comigo até a porta.

Eu me virei para ela.

— Gee foi para um hospital? — Eu queria ouvir a notı́cia pela boca de uma enfermeira.

— Infelizmente, sim. Ela não está segura aqui. Precisa de rédeas mais curtas que não podemos oferecer nesse ambiente.

Engoli o nó em minha garganta e caminhei ao lado dela até o corredor. Minha mãe me esperava lá. Ela estava no Grande Salão observando a nossa aproximação. Olhei para trás, para a enfermeira Karen, antes de nos aproximarmos o bastante e minha mãe acabar ouvindo a pergunta.

— Em que hospital ela está? — Eu queria vê-la.

A enfermeira Karen sorriu para mim.

— Mercy Medical.

O hospital no qual eu tinha me inscrito como voluntária. Porém, agora que eu tinha um diagnóstico de doença psicológica, eles não iam me deixar trabalhar lá, mas eu tinha certeza de que ainda poderia fazer visitas.

— Pagan, parece que você perdeu uns cinco quilos — minha mãe disse, assim que eu estava perto o bastante para ouvir. Ela veio até mim e me abraçou com força. — Estou tão feliz por você poder voltar para casa. Vamos recuperar esse seu peso perdido rapidinho.

Sorri e aproveitei o conforto de seus braços.

— Tenho certeza de que a pizza e a comida chinesa serão ilimitadas — provoquei, e ela riu, afastando-se de mim.

— Eu não disse que iria cozinhar a comida que vai te fazer recuperar o peso. — Os olhos dela estavam marejados, mas eu sabia que, daquela vez, as lágrimas não eram de tristeza.