Existência
Capítulo 18
Fiquei ali olhando a mesa da cozinha repleta de latas de refrigerante amassadas, duas caixas de pizza vazias e metade de um bolo de chocolate com os dizeres: “Bem-vinda, Pagan” em cobertura branca. Leif, Miranda e Wyatt tinham feito a surpresa naquela tarde. Quatro horas antes, eu tinha aberto a porta e encontrado os três com pizza, refrigerante e uma caixa de confeitaria nas mãos. Estar com eles, comer comida com gosto e distraı́-los com histórias da minha temporada na clı́nica psiquiátrica fez parecer que eu estava mesmo em casa. Os rostos sorridentes e as risadas conhecidas tinham aquecido o frio que sempre me invadia. Leif me abraçou enquanto estávamos sentados na sala de estar, me colocando a par de tudo o que eu tinha perdido. Kendra tinha caı́do da pirâmide durante o treino das lı́deres de torcida e agora estava com a perna direita engessada. Miranda parecia feliz demais com a desgraça da garota. Olheiros de faculdade tinham ido ver Leif jogar na inal e agora ele tinha ofertas de bolsas de estudo para duas universidades diferentes.
A vida tinha seguido sem mim. Saber que Leif icaria bem quando eu não izesse mais parte da sua vida amainou um pouco a minha culpa. Eu não podia icar com ele. Não quando ansiava tanto por Dank. Mesmo se eu não pudesse encontrá-lo, sabia que ele se importava. Ele poderia voltar em algum momento. Dank sabia que eu precisava dele e tinha vindo a mim. Mesmo eu não podendo vê-lo, sabia que ele estava por perto. Olhei para as escadas, sabendo que ele não viria naquela noite. Meu quarto agora era um porto seguro para mim. Se ao menos eu pudesse vê-lo e dizer que o amava e que faria qualquer coisa para estar com ele… mas ele não me deixaria nem mesmo saber ou entender.
Joguei as latinhas na lixeira reciclável da porta dos fundos e subi as escadas, indo para o meu quarto. Aquele tinha sido um dia exaustivo e eu voltaria para a escola no dia seguinte. A carteira vazia que Dank ocupava na aula de Literatura Inglesa cintilou na minha mente, e o buraco no meu peito doeu.
A música estava tocando. Levei um momento para abrir os olhos e perceber que Dank tocava a minha canção de ninar. Eu me sentei na cama, olhei para a poltrona e a vi vazia, mas a música ainda tocava. Por estar entre o sono e a vigı́lia, levei um momento para perceber que a melodia não estava no meu quarto e nem mesmo na casa. Ela vinha lá de fora, lutuando pela janela aberta. Dei um salto e corri para ver de onde. Será que Dank estava lá? O quintal estava escuro e enevoado. A música chegava em mim vinda de algum lugar no meio da escuridão. Peguei o casaco, calcei os sapatos e desci as escadas, indo em direção à porta dos fundos. Então, fechei-a com cuidado às minhas costas para não acordar minha mãe. Se ela me pegasse vagando no escuro, era capaz de fazer as minhas malas e me devolver para a clı́nica.
Parecia que a música vinha da loresta. Fui até o galpão do jardim para procurar uma lanterna. Eu sabia que minha mãe guardava uma ali na prateleira que icava por cima da bancada de jardinagem. Assim que a encontrei, veri iquei as baterias e segui para o quintal escuro.
Por que Dank estaria ali naquela escuridão tocando a minha canção de ninar? Segui a trilha que minha mãe tinha aberto para que pudesse fazer caminhadas partindo do quintal e indo até o lago que havia na loresta. As folhas estalaram ao meu redor e reprimi um grito. Eu precisava encontrar Dank antes que alguma criatura estranha me encontrasse. A música fez eu me embrenhar ainda mais na vegetação. A lanterna ajudava muito pouco. Por causa da névoa espessa, a visibilidade era quase zero. Continuei repetindo na minha cabeça que Dank estava ali em algum lugar. Ele queria que eu o encontrasse. Por que mais ele tocaria a música para eu ouvir se não era para me trazer ali fora?
Uma luz brilhou na escuridão através da névoa. Caminhei em direção a ela, sabendo que a melodia vinha daquele lugar. Quanto mais perto eu chegava, mais brilhante a luz icava.
Rompi a neblina e entrei numa pequena clareira. Uma bolha brilhante lutuava dentro do cı́rculo de árvores que rodeava o lugar. En iei a lanterna no bolso do casaco e, então, dei um passo cauteloso em direção à luz. A música de Dank vinha de lá.
Confusa, olhei ao redor rapidamente, procurando por ele. O lugar ainda estava vazio, exceto por mim e a luz musical. Por que essa coisa estava tocando a música dele? O medo começou a percorrer meu corpo. Dank não estava ali. Ele jamais me faria ir sozinha até o meio da loresta escura. Outra pessoa, sim. Alguém que queria que eu saı́sse da cama e vagasse para longe da proteção da minha casa.
— Tum-tum, tum-tum, esse seu coração está bem acelerado, não é, Peggy Ann?
Me virei ao ouvir a voz de Gee. Ela estava no canto mais afastado da clareira, me observando. Não se parecia com a Gee da clı́nica. O cabelo loiro e curto se agitava com a brisa noturna, e os lábios vermelhos agora pareciam brilhar como glitter prateado ao luar. Dei um passo para trás, querendo interpor distância entre nós.
— O que você está fazendo, Gee? — perguntei, tentando manter o pânico afastado da voz. Ela franziu os lábios brilhantes e inclinou a cabeça de um lado para o outro.
— Hummm. A pequena Miss Espertinha não é tão inteligente, a inal de contas. A única menina sã da casa, rá! Você foi a única idiota o bastante para ser minha amiga.
Desesperada, olhei ao redor, tentando traçar uma rota de fuga.
— Jess era sua amiga — respondi, querendo atrasá-la enquanto tentava pensar em uma forma de me afastar dela.
Gee começou a gargalhar.
— Jess é uma lunática. Consegui controlar a mente dela com muita facilidade. Você, por outro lado, se aproximou de mim sem precisar de qualquer incentivo. Foi por conta própria. Você con iou em mim. — Ela parou de falar e começou a se aproximar, rindo de um jeito manı́aco. — Fui enviada para consertar o que está errado. Eu estava lá por causa de você. Na primeira noite, eu ia te ceifar. Era para ser assim — grunhiu. — Mas ele já estava lá. Eu nem tinha te matado e lá estava ele. Protegendo você. Humana tola que é. A alma simplória dentro de você, ele a protege.
Ela começou a andar para lá e para cá na minha frente, como se fosse um gato enorme perseguindo a presa. Dei mais um passo para trás e ela abriu um riso cruel, como se minha tentativa de fuga fosse tão insana quanto ela.
— E o TRABALHO dele! Fui enviada para consertar o malfeito dele! Ele quebrou uma regra com você. Ele não pode quebrar regras. Se ele não consertar, ele pagará. Isso tem que ser corrigido. — Ela começou a inclinar a cabeça para lá e para cá novamente, me analisando como se eu fosse um espécime desconhecido.
Percebi que seus olhos não pareciam mais insanos; eram mais como os de um gato. Todos os seus traços tinham assumido um brilho… ela não era humana. Ela não era uma paciente psiquiátrica. Ela era… outra coisa.
— O que você é, Gee? — perguntei.
Ela sorriu.
— Quer mesmo saber? — Ela parou de me seguir e olhou ao redor da clareira, como se esperasse mais alguém. Havia outros como ela por ali? — Acho que, já que chegou a sua hora, você pode saber. Deveria ter sabido esse tempo todo. Sua hora já passou há muito tempo. E como se você fosse um livro de biblioteca com prazo de entrega atrasado. Tique-taque, tique-taque, você está me custando um tempo valioso. Esse não é o meu trabalho. E o DELE — ciciou, esquadrinhando a clareira novamente, e eu percebi que ela esperava por Dank.
— Quem é o Dank? — indaguei.
Ela sorriu para a pergunta e ergueu uma das sobrancelhas que agora eram tão loiras quanto o seu cabelo.
— Quem você acha que ele é, Peggy Ann? — provocou.
— Ele leva os que morrem para onde quer que eles tenham que ir — respondi aos sussurros, quase temendo ouvir a mim mesma dizer as palavras.
Gee começou a dar a sua gargalhada manı́aca.
— Bem, se você estiver certa, então isso fará tudo ser muito mais fácil, mas ver o quanto está meio por fora di iculta as coisas. Dank não é um transportador. Eu é que sou.
Fiquei ali encarando os enormes olhos escuros que pareciam brilhar como os lábios.
— E isso mesmo, Peggy Ann, eu levo as almas para cima ou para baixo — continuou, com um grunhido de desgosto. — E você ia ser fácil. Você ia para cima. Teria um novo corpo e uma nova vida e sua alma teria feito o que almas boas fazem. Elas vivem para sempre, de novo e de novo e de novo, mas NAO! — ela gritou na escuridão quando fagulhas vermelhas voaram da ponta de seus dedos. — NAO! PEI-GAN, não foi o que aconteceu. E POR QUE DIABOS não aconteceu? Bem, dessa vez, a sua alma bonitinha estava em um corpo jovem e bonitinho e você tinha um sorriso bonitinho e um andar bonitinho e uma risada bonitinha e era interessante. Você podia ver outras almas e era corajooosa e blábláblá. Foda-se. — Ela parou e me fulminou com o olhar. — Você mexeu com ele. E espera-se que ninguém mexa com ele.
Ela começou a andar para lá e para cá de novo, me observando como se não tivesse certeza do que fazer comigo.
— Então, agora sou eu que tenho de consertar esse erro. Ele é fraco demais para isso. Ele te quer. Ele não quer despachar sua alma lá para cima comigo, para que você tenha uma vida nova. Ele não suporta a ideia de pôr um im a tudo o que você conhece. — Ela revirou os olhos, jogou as mãos para o alto e soltou um suspiro frustrado. — Fui enviada para te buscar, com ou sem a ajuda dele. Ele estará aqui no im, não faça cara feia. Você verá aquele rosto sexy novamente. — Gee começou a vir em minha direção com sua postura felina.
— Você não me falou quem ele é — disse eu, afastando-me dela.
— O que ele é? Você ainda não sabe? E eu aqui pensando que tinha deixado as coisas muito claras — zombou, parando bem na minha frente para passar a unha vermelha pelo meu rosto.
Estremeci com o toque gelado e conhecido. A loira que tentara me afogar tinha me provocado a mesma sensação.
— Você tentou me afogar — acusei, rouca, buscando alguma semelhança com a loira que eu achava que Dank tinha matado.
Ela sorriu e balançou a cabeça.
— Não, Peggy Ann, não fui eu. Ky era outra transportadora que seu namoradinho aniquilou. Você pode ver agora a razão de eu estar tão apegada ao trabalho que foi con iado a mim. Ele não vai icar feliz comigo. Não quero a raiva dele direcionada para mim quando eu der um im à sua preciosa. A inal, quem iria querer sacanear a Morte?
Engoli o nó de medo que se formou subitamente na minha garganta.
— Morte — consegui sussurrar.
— Deixe-a. — A voz de Dank preencheu a clareira, e Gee enrijeceu.
O aperto se afrouxou por um segundo, e logo voltou a icar mais forte e, então, com ainda mais propósito. Respirar agora era impossı́vel.
— NAO! — A voz de Dank irrompeu na escuridão.
Gee me soltou assim que seu corpo caiu duro no chão. Arfei, encarando-a ao mesmo tempo em que ela olhava feio para Dank com uma mistura de medo e ódio.
— E hora. Eu fui enviada. Você não pode quebrar as regras. Ela é uma alma que receberá outra vida. Você poderá encontrá-la novamente. Acabe logo com isso — implorou Gee, fuzilando Dank com os olhos.
Ele passou por ela e ergueu a mão para tocar o meu pescoço. O calor acalmou a queimação que o aperto gelado de Gee deixara.
— Eu sinto muito — ele sussurrou ao me olhar nos olhos.
Fiz que sim, sem saber pelo que ele se desculpava, mas sabia que o perdoaria por qualquer coisa. A gargalhada desvairada vinda de trás dele fez os olhos azul-escuros se transformarem em sa iras brilhantes. Furioso, ele se virou e olhou para Gee.
— Vá e eu permitirei que você exista. — A ordem fria e severa penetrou a escuridão.
Gee icou de pé, olhando-o com temor.
— Não posso ir até que você faça o seu trabalho e parta com aquela alma. — Dank sacudiu a cabeça, e os olhos pareciam lhe causar dor. A garota sorriu e deu um passo para trás. — Ouça, não pedi para ser aquela que irritaria a Morte. Eles me enviaram. Não tenho escolha. — Ela apontou para mim. — Eu gosto dela. Entendo o que você viu nessa menina, mas ela precisa morrer. Está marcada.
Dank se virou completamente e foi na direção dela.
— NAAAAO — rugiu.
Gee recuou, apavorada. Estendi a mão para Dank, segurando o seu braço.
— Não, Dank, por favor — implorei.
Ele parou e se virou para mim.
— Você entende o que ela quer? Ela não é sua amiga, Pagan, mesmo tendo desempenhado muito bem o papel.
Eu me aproximei dele.
— Você é a Morte e eu estou destinada a morrer. — Desviei meu olhar do dele e olhei para Gee. — E ela vai me transportar.
Dank balançou a cabeça e olhou com raiva para o sorriso de alı́vio no rosto de Gee.
— Você fez as coisas parecerem simples? Você a fez pensar que ela só morreria e voaria para longe e teria outra vida? — Um rosnado veio de dentro do peito dele e Gee se afastou ainda mais, o corpo tremendo visivelmente. — Não é assim, não é mesmo, Gee? — questionou ele, com rispidez, e eu senti os músculos em seu braço se contraı́rem sob o meu toque.
— Estou aqui para corrigir o que está errado. Você quebrou uma regra que não pode ser quebrada. Você não pode icar com ela, Morte. Ela não é um bichinho para você brincar. Ela é uma alma e seu único direito sobre as almas é ceifá-las do corpo em que vivem quando chega a hora. Você não é dono delas.
— Eu NAO ceifarei a alma dela. Ela viverá. A morte dela não aconteceu.
Gee jogou as mãos para o alto, exasperada.
— Sim, nós sabemos. Porque VOCE impediu! Era para ela ter sido esmagada naquele carro. Era para você ter retirado a alma dela do corpo. Ky iria levá-la. MAS, NAO! Você pegou o corpo dela e a salvou.
Minhas pernas fraquejaram quando fui atingida pela verdade nas palavras de Gee. As palavras da garotinha do hospital correram para a minha memória.
Não ique tão triste. Ele disse que este corpo que tenho está doente e, quando eu morrer, vou ter um novo corpo e uma nova vida. As almas não são forçadas a vagar pela Terra. Apenas aquelas que têm muito medo de seguir em frente são deixadas aqui para vagar. Se a gente escolhe deixar a Terra, a gente retorna em um corpo novo e em uma vida nova, mas a nossa alma vai ser a mesma. Ele me disse que o homem que escreveu meus livros favoritos, As crônicas de Nárnia, falou assim: “Você não é um corpo. Você tem um corpo. Você é uma Alma”.
Dank estendeu a mão para mim antes que eu caı́sse no chão. Olhei para ele.
— Conversei com uma garotinha no hospital. Ela conheceu você. A menina estava doente e ia morrer, e você disse a ela que o corpo dela estava doente e para não ter medo porque ela teria um novo corpo.
Dank balançou a cabeça com uma expressão atormentada.
— Sei o que você está pensando, e não.
Encarei Gee e ela afastou o olhar de mim. Havia algo que eu não sabia e que era importante. Voltei a olhar para Dank.
— O que você não está me dizendo, Dank? Por que você não pode ceifar o meu corpo e me deixar ter uma outra vida? Eu poderia icar com você, então, quando minha morte não estiver marcada e você não tenha que quebrar uma regra.
Gee balançou a cabeça e me deu as costas.
Dank fechou os olhos com força.
— Você não vai voltar — respondeu ele em um sussurro rouco.
— Por quê? Você disse à garotinha que ela voltaria. Gee disse que eu teria um corpo novo e voltaria a viver; é o que as almas fazem.
Dank avançou e segurou meu rosto com ambas as mãos. O polegar acariciou os meus lábios. Odiava ver a dor nos olhos dele. Queria pôr um im àquilo. Por que ele não deixava?
— Pagan, no momento em que iquei cego por você e escolhi quebrar a regra, tudo mudou. Você é minha fraqueza. Em vez de seguir as regras, eu escolhi você. Assim que sua vida for ceifada, você será guardada. Eu não a verei mais, nem terei a chance de estar perto de você. Sou a Morte. Eu não posso viver com a luz e você viverá com a luz. Para sempre. Nunca mais voltará à Terra. Não posso resistir a você, então eles não deixarão que eu a tenha. — Ele se curvou e beijou o meu nariz com carinho. Estremeci sob o seu toque. Lágrimas queimaram meus olhos. Não podia suportar o pensamento de que nunca mais o veria.
— E se ele se recusar a levar o seu corpo, será levado no lugar. Vai contar essa parte a ela, Morte? Vai contar que você não vai mais poder vagar livre pela Terra como a Morte, mas que será condenado ao Inferno? Você será tão desprezı́vel quanto os anjos caı́dos. Se ela viver, para todos os efeitos, você morre. — Gee pôs as mãos nos quadris e icou olhando para Dank. — A hora de escolher é agora. Assim que perder os seus poderes, você será transportado lá para baixo. E eu odeio muito ir para lá. — Ela desviou o olhar para mim. — Você pode viver a vida eterna enquanto ele queima no Inferno pelo resto da vida junto com os demais anjos caı́dos e pecadores, ou você pode vir comigo e viver na luz e deixá-lo continuar vivendo a vida que ele tem na Terra desde a criação dos seres humanos. Pois ele é, e sempre será, a Morte.