Existência

Abbi Glines · Capítulo 6 de 22

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Existência

Capítulo 6

— Acredito que este é seu primeiro jogo de futebol americano — minha mãe disse, sorrindo da pia da cozinha, onde ela estava escorrendo macarrão de gravatinha.

Dei de ombros.

— Acho que sim.

Ela olhou para mim.

— E você vai sair com o quarterback quando acabar?

Comecei a responder, quando uma alma entrou na cozinha pelas portas fechadas do pátio. Enrijeci. Já fazia muito tempo que a última alma tinha vagado pela nossa casa. Essa parecia jovem. Seu cabelo caı́a nas costas em longos cachos loiros encaracolados, que pareciam lutuar em torno da cintura. Comecei a seguir o padrão e a agir como se não a visse, mas ela parou bem na minha frente e começou a me estudar. Seus olhos pareciam translúcidos e seus cı́lios eram incrivelmente longos, mas tão loiros que eram quase imperceptı́veis. Ela inclinou a cabeça de lado enquanto se aproximava de mim, me olhando como se eu fosse algum tipo de experimento cientı́ ico que a intrigava.

— Querida? — A voz da minha mãe me acordou do transe. Desviei o olhar da alma, o que foi difı́cil porque ela estava tão perto de mim que eu podia estender a mão e tocá-la.

— Hum, sim, desculpe.

Minha mãe não parecia mais estar achando graça. Ela franziu a testa, olhando para mim com o escorredor de macarrão esquecido em suas mãos.

— Você está bem, Pagan? Talvez devesse icar em casa e descansar. Uma semana inteira de escola deve ter sido difı́cil depois do que você passou.

Obriguei-me a não tremer quando uma mão fria tocou meu cabelo.

— E bonito. — O som musical da voz da alma me assustou. Eu me afastei dela bruscamente.

— Pagan?

Respirei fundo para me acalmar e forcei um sorriso que eu esperava que fosse normal.

— Estou bem, só um pouco nervosa. Preciso terminar de me arrumar antes que Miranda e Wyatt cheguem aqui.

Mamãe assentiu e seu sorriso voltou.

— Tudo bem, então. Acho que o nervosismo é compreensı́vel quando alguém está saindo com um gatinho daquele. — Ela piscou e eu segurei um sorriso falso antes de me virar e fugir da cozinha. Fechei a porta do quarto e me virei para observar se a alma me seguia.

— Você está me procurando? — A voz musical veio atrás de mim.

Eu me virei, surpresa, e soltei um grito assustado.

— O que você está fazendo? — perguntei, confusa.

Por que as almas tinham começado a falar comigo? Ela riu e o som era semelhante às badaladas de sininhos.

— Está marcada — ela disse simplesmente e se aproximou de mim. Estendi as duas mãos como se isso fosse impedi-la.

— Não chegue mais perto — alertei, percebendo pela primeira vez na vida que estava completamente apavorada com uma alma.

Ela franziu a testa.

— Você não é muito amigável.

Deixei escapar uma risada curta.

— O quê? Não sou amigável com um fantasma que entra lutuando na minha casa e começa a me tocar? Bem, desculpe a grosseria, mas isso é um pouco perturbador.

Sua expressão intrigada pareceu assumir uma expressão compreensiva.

— Ah, sim. Bem, acho que presumi que você estava acostumada com a gente.

Então ela sabia que eu podia ver almas.

— Quem é você? — perguntei, desejando que minha voz pelo menos soasse irme em vez de tremer de forma tão evidente. Ela não respondeu, mas voltou a me estudar em silêncio. — Preciso me preparar para sair antes que meus amigos cheguem. Se você não tem nenhum propósito para estar aqui, poderia simplesmente ir vagar em outra casa?

Sua risada tilintante encheu meu quarto novamente.

— Eu não saio vagando pelas casas das pessoas — ela respondeu como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais idiota que ela já tinha ouvido. — Está marcada — ela repetiu, abrindo um grande sorriso.

Comecei a perguntar ao que se referia, quando, mais uma vez, iquei sozinha no quarto. Girei em um cı́rculo, esperando vê-la

vagando, mas ela havia desaparecido. Precisando ouvir a normalidade do canto desa inado da minha mãe enquanto ela preparava o jantar, abri a porta do quarto. Eu precisava ver Dank. Eu queria respostas. Antes dele, as almas não falavam comigo. Eu gostava daquele jeito; gostaria que continuasse daquele jeito. Não me agradava a ideia de almas vindo até mim, me tocando e falando comigo. Eu conseguia lidar com a presença delas, mas preferia ignorá-las em troca de ser tratada como todo mundo. Fiz mais uma varredura rápida no quarto com o olhar e fechei a porta silenciosamente. Colocando alguma distância entre mim e a porta, fui até o outro lado do quarto. A última coisa de que eu precisava era minha mãe ouvindo o que eu estava prestes a fazer.

— Dank — chamei em voz alta.

Ele tinha falado comigo do outro lado de um corredor lotado. Achei que poderia me ouvir em qualquer lugar, mas eu não era nenhuma especialista em chamar almas. Nunca senti a necessidade de chamar nenhuma antes. Esperei, mas nada aconteceu. Eu me virei para olhar atrás de mim.

— Dank? — repeti, me sentindo estúpida. O quarto permanecia vazio. Com um suspiro de derrota, voltei para a porta do meu quarto e a abri novamente. Eu precisava parar de brincar com o sobrenatural e me preparar.

 

— VAI, PIRATES! — Miranda gritou, de seu assento ao meu lado. Só faltavam dois touchdowns, e o público começava a gritar loucamente. A quatro minutos do im do jogo, eu não tinha visto Dank em lugar nenhum. Aparentemente, Kendra também não, porque eu a via no campo de futebol torcendo. Ela não parava de procurar por ele na multidão. Os motivos dela para querer vê-lo eram completamente diferentes dos meus, é claro; sem mencionar o fato de que os dela não eram tão importantes. Com cada franzido em seu rosto, eu sabia que ela não tinha visto o evasivo Dank Walker. Eu precisava encontrá-lo antes que o jogo terminasse. Sair com Leif depois para comemorar a vitória seria prejudicado pelas perguntas não respondidas que continuavam na minha cabeça.

— Quer parar de icar procurando a estrela do rock na multidão e cuidar do seu namorado? — Miranda sibilou no meu ouvido. Eu deveria saber que ela me entenderia.

Fiz uma careta.

— Não estou procurando a estrela do rock. Futebol americano simplesmente me entedia.

Miranda riu e revirou os olhos.

— Só você para sair com o quarterback de dar água na boca e depois admitir que está entediada com o futebol.

Dei de ombros e voltei minha atenção para o que estava acontecendo no campo. No momento em que meus olhos pousaram em Kendra, vi seu rosto se iluminar. Ela estava se aproximando de alguém no im das arquibancadas. Eu não conseguia vê-lo de onde estava sentada, mas sabia que ele tinha chegado. Essa seria a única razão pela qual Kendra teria trocado sua expressão irritada por uma de prazer absoluto. Olhei para Miranda e Wyatt, que estavam assistindo ao jogo. A expressão de Kendra não era algo em que eles estavam prestando atenção.

Peguei minha bolsa.

— Vou pegar uma bebida, vocês querem? — ofereci, esperando que dissessem “não”. Eu não queria ninguém me apressando. Precisava encontrar Dank sozinha e conseguir algumas respostas.

Miranda olhou para mim enquanto eu me levantava e balançou a cabeça.

— Não, o jogo está quase acabando e vamos comemorar no Grill. Podemos comprar bebidas lá.

Coloquei a bolsa no ombro.

— Estou com sede agora. Encontro vocês no campo quando o jogo acabar.

Miranda espiou ao meu lado, procurando na multidão. Não tive que perguntar para saber que ela estava procurando Dank. Felizmente, ele não estava à vista.

Miranda olhou para mim e encolheu os ombros.

— Tá.

Virei as costas e me afastei rapidamente antes que ela visse Dank ou decidisse que queria algo da lanchonete.

Dank estava com os braços cruzados, como se estivesse entediado, assistindo ao jogo no campo. Seus olhos encontraram os meus no momento em que apareci virando de um canto. Um pequeno sorriso tocou seus lábios. Não tinha tempo de lidar com seus comentários engraçadinhos sobre eu ter ido procurá-lo.

— Preciso falar com você a sós, agora — eu disse em um sussurro enquanto passava por ele e entrava no estacionamento escuro. Não me virei para ver se ele me seguia. Eu podia sentir sua presença. Assim que soube que estávamos fora da vista de todos, me virei e o encarei. — Quem é ela? — questionei.

Dank franziu a testa.

— Seja mais especı́ ica, por favor.

Suspirei e fechei os olhos para me proteger da distração que seu olhar sempre me causava. Vê-lo ao luar di icultava a minha concentração.

— A alma que entrou na minha casa, me tocou e falou comigo. Ela disse “está marcada” para mim duas vezes.

Dank icou visivelmente tenso e se aproximou de mim.

— O quê? — ele perguntou com um olhar de surpresa no rosto.

— Uma alma entrou na minha casa. Ela me tocou e falou comigo. As almas nunca falaram comigo antes de você. Ela até entrou no meu quarto — sussurrei, com medo de que alguém pudesse me ouvir.

— Ela disse “está marcada”? — ele indagou com um tom tenso na voz.

Eu notava que ele estava tentando se conter; só não sabia por que estava com raiva. Con irmei balançando a cabeça, observando-o atentamente. Ele adentrou mais na escuridão e então voltou seu olhar furioso para o céu.

— Não brinque comigo, porra — disse ele com uma voz alta, fria e dura. Recuei, sem ter certeza de com o que ele estava gritando. Ele

icou de costas para mim, respirando fundo, e eu esperei,

arrependida de tê-lo trazido ali para a escuridão sozinho.

Ele se virou lentamente. Mesmo na escuridão, eu podia ver claramente seus olhos azuis, que me lembravam de sa iras brilhantes re letindo os raios do sol.

— Vou icar de olho. — Sua voz soou muito mais profunda do que antes. Dei um passo para trás, apavorada com o brilho assustador em seus olhos e com o rosnado que eu podia ouvir vindo do fundo de seu peito.

— Se ela chegar perto de você ou se qualquer outra… alma… chegar perto e falar com você de novo, avise que você vai contar pra mim. Está entendendo?

Fiquei com medo. Não de Dank, mas de… alguma coisa.

— Quem é ela? — insisti.

Um olhar torturado surgiu em seu rosto antes que ele se afastasse de mim.

— Alguém que veio consertar um erro.

Eu me aproximei dele, precisando saber mais, mas ele balançou a cabeça em protesto e então se foi. Fiquei sozinha no estacionamento escuro. A luz dos eventos atuais, eu não gostava de estar ali sozinha. Mesmo se eu soubesse que Dank estava perto o su iciente para vir se eu o chamasse. Aplausos irromperam do campo, sinalizando que o jogo havia terminado. Minhas perguntas ainda não tinham sido respondidas. Frustrada com Dank e com sua determinação de ser evasivo, embora ele parecesse ser a causa da minha vida bagunçada no momento, voltei rapidamente para o estádio bem iluminado. O campo estava cheio de torcedores do Pirates comemorando enquanto eu caminhava para a multidão de alunos e pais. Comecei a procurar por Miranda e Wyatt. Uma risada familiar chamou minha atenção, e me virei para ver Kendra com as mãos no peito de Dank enquanto ele olhava para ela com um sorriso. Fiquei dura.

Ele parecia despreocupado e satisfeito com a atenção da lı́der de torcida loira, quando, momentos atrás, ele estava xingando o céu e me dizendo para ameaçar quaisquer outras almas falantes com as quais eu me deparasse. Era difı́cil de resistir ao desejo de caminhar até Kendra e puxá-la pelos cabelos até que ela estivesse a uns bons três metros de Dank. Seus olhos saı́ram de Kendra e me encontraram. Ele acenou com a cabeça como se fosse dizer “olá” e olhou de volta para a garota em seus braços. Engoli o sentimento de traição e desviei meus olhos dos dois. Dank não pertencia a mim, então ele não estava realmente me traindo. Esse lembrete não fez eu me sentir melhor. As vezes, parecia que Dank Walker e a alma eram dois seres completamente diferentes. Na alma, eu con iava. Dank Walker me confundia.

— Pagan! — A voz de Miranda atravessou as vozes em celebração. Eu me virei, não tendo certeza se poderia encará-la agora. Olhei de volta para o estacionamento, pensando em uma maneira de escapar, mas minha casa não parecia mais segura. A bela alma loira me assustava. — Pagan? — Miranda chamou novamente, e voltei minha atenção para a multidão, sabendo que deveria ir até ela. Leif estaria me esperando. No entanto, o eu que ele receberia não era o que ele merecia. Eu não estava feliz por causa da vitória. Em vez disso, estava com medo do desconhecido.

Vá até eles. Estou aqui. Você está segura.

A voz de Dank soou alta e clara por cima das vozes animadas da multidão. Assim como antes, ninguém mais parecia ouvi-lo. Procurei entre os rostos ao meu redor pela sua face familiar.

— Caramba, Pagan, você é surda! Onde você estava? Vamos. — Miranda agarrou meu braço e começou a me puxar de volta através da multidão vitoriosa. Eu a deixei me puxar e me forcei a sorrir. Leif esperava que eu sorrisse. Miranda e Wyatt esperariam que eu sorrisse. Eu acabaria sendo diagnosticada como maluca se não conseguisse me controlar. — Ali está ele! — Miranda gritou de volta para mim enquanto me puxava para Leif.

Ele tinha acabado de sair do vestiário, recém-trocado, vestindo um jeans desbotado e uma camisa limpa. Respirei fundo e coloquei um sorriso no rosto. Ele olhou em nossa direção e eu acenei. Um enorme sorriso apareceu em seu semblante e ele correu em minha direção. Antes que eu percebesse, ele estava me puxando contra seu peito. Não tive tempo de me preparar para seus lábios cobrindo os meus. Seus braços ao meu redor eram gentis por causa das minhas costelas que ainda estavam se recuperando. Ele me despertava lembranças de calor e segurança. Corri as mãos em seu peito, na esperança de abraçá-lo um pouco mais e ingir que realmente estava segura. Suas mãos deslizaram no meu cabelo e inclinaram minha cabeça para trás enquanto ele aprofundava o beijo. Eu o absorvia. Eu precisava daquele senso de normalidade, da falsa sensação de segurança. Leif era real e representava todas as coisas seguras ― eu precisava dessa conexão com o mundo. Precisava do que ele oferecia agora. No entanto, dançando perigosamente no fundo da minha mente, estavam os pensamentos de outra boca, que parecia agitar coisas muito mais selvagens dentro de mim, um desejo que representava todas as coisas que eu temia. Fechei os olhos com mais força, tentando lutar contra a vontade de ter os braços de Dank me puxando para perto, seus lábios perfeitamente esculpidos contra os meus. Isso era seguro. Leif era saudável para mim.

Ele interrompeu o beijo e se afastou apenas um pouco. Sua respiração, eu percebi, era irregular, ao contrário da minha. Ele parecia atordoado.

— Foi ainda melhor do que eu imaginava — disse ele, sem fôlego. A familiar pontada de culpa com a qual eu vinha lidando desde que Dank me irritara me lembrou que Leif era a escolha certa.

— Ok, vocês dois precisam ir para um maldito quarto ou parar para respirar para que possamos ir comer um pouco. Estou faminto. — A voz zombeteira de Wyatt invadiu o pequeno mundo em que estávamos perdidos no meio da multidão.

Leif piscou para mim e passou o braço em volta do meu ombro.

— Vamos comer — concordou ele, sorrindo como um garotinho que acabava de receber um doce. Eu me apegava a Leif por causa do que ele representava na minha vida, não porque eu o desejava, mas empurrei essa constatação para fora da minha mente. Pensar nisso só piorava a culpa.

 

— Depois do jogo de hoje, não vejo como os olheiros podem icar longe — disse Wyatt, sorrindo em nosso nicho no restaurante, na frente de mim e Leif.

Leif deu uma risadinha.

— Um único jogo não vai trazer os olheiros da faculdade, você sabe disso.

Wyatt levou uma batata frita à boca.

— Mais alguns como esse e eles vão vir — garantiu ele, seguro de si.

O polegar de Leif esfregou minha mão. Ele tinha começado a segurar minha mão sempre que estávamos juntos. Era fofo.

— Oh, droga, eles tinham que vir para cá? Quero dizer, fala sério, por que ele simplesmente não leva a garota-polvo para um motel e nos deixa comer em paz? — Miranda reclamou, irritada, lançando um olhar cheio de signi icado na minha direção. Olhei e vi Dank entrando pela porta com uma Kendra muito pegajosa ao seu lado. Peguei meu refrigerante e decidi estudar os cartões de visita colocados embaixo do acrı́lico da mesa.

— Acho que a única maneira de ela chegar mais perto dele seria agarrá-lo com as pernas e ele ser forçado a carregá-la no colo — disse Miranda, em um tom de repreensão.

Wyatt riu.

— Tudo bem, Miranda, deixe a pobre garota em paz. Parece que a estrela do rock está ocupada impedindo que ela o moleste em público. Ele não precisa que você faça comentários maliciosos.

Miranda riu, se inclinou e colocou a cabeça no ombro de Wyatt.

— Molestar? Gostei dessa. Queria ter pensado nisso.

Wyatt balançou a cabeça enquanto colocava outra batata frita em sua boca sorridente.

Leif suspirou.

— Ela tem problemas que a fazem agir desse jeito.

Olhei para ele e percebi que ele parecia estar mais preocupado do que achando graça.

Miranda revirou os olhos.

— Você saberia. Namorou com ela por três anos.

Leif olhou para mim.

— Sim, namorei, mas só porque a única garota que eu realmente queria parecia me detestar.

Sorri e apertei sua mão.

— Eu fui idiota. — Era verdade. Conhecer Leif havia me ensinado que julgar os outros não era apenas errado, mas fazia com que a gente perdesse amizades com pessoas especiais.

Seus olhos icaram sérios e ele se inclinou, mas parou logo antes de seus lábios tocarem os meus.

— Você é brilhante. Talvez um pouco lenta na arrancada, mas brilhante mesmo assim.

Ele me beijou de leve. Mais uma vez, eu me senti segura. Um rosnado profundo me assustou e me afastei, olhando para Leif para ver se era ele que estava rosnando. A cara franzida e surpresa me disse que não tinha sido ele. Seu polegar roçou meu lábio inferior e o rosnado recomeçou. De initivamente não era Leif que estava fazendo ruı́dos animalescos.

— Você está bem? — ele perguntou baixinho.

— Desculpe, pensei que você tinha dito alguma coisa — expliquei, forçando um sorriso.

Ele sorriu também e tirou a mão do meu rosto. O rosnado diminuiu e eu olhei ao redor pelo salão. Dank estava sentado a uma mesa de canto ao lado de Kendra, que parecia estar conversando animada com outra lı́der de torcida ao lado deles. Seus olhos escuros me observavam com um brilho possessivo. Tinha sido ele. Ele havia rosnado. Como ele estava fazendo aquilo? Eu podia sentir Miranda me observando e não queria que ela me izesse mais perguntas. Voltei para minha comida e forcei uma batata frita na boca. Leif e Wyatt recomeçaram a falar sobre o jogo, então tive tempo de voltar a me concentrar nos meus amigos e em Dank. Leif se recostou no assento do nicho e soltou minha mão, deslizando a sua por trás dos meus ombros e, em seguida, gentilmente me puxando para junto dele.

Miranda sorriu e me perguntou:

— Então, quando vamos escolher nossos vestidos para o baile?

Fiz uma careta para ela. Leif e eu não tı́nhamos conversado sobre o baile. Estávamos juntos, mas ele não tinha dito nada sobre me levar. Eu já tinha decidido icar em casa e assistir a ilmes antigos e comer pipoca na noite da festa. Miranda desviou os olhos de mim para Leif algumas vezes, como se estivesse avaliando a situação.

— Você a convidou, né? — ela indagou com um tom irritado.

Leif virou a cabeça e olhou para mim.

— Achei que estava subentendido. Eu deveria convidar? — Sua expressão preocupada era adorável. Sorri para ele, na esperança de tranquilizá-lo. Eu não queria chateá-lo. Ele parecia muito sensı́vel emocionalmente.

— Leif, você sempre deve convidar uma garota para um baile. Presumir é uma coisa ruim. — O tom corretivo de Miranda me fez rir.

A expressão de Leif relaxou um pouco e ele deslizou o dedo embaixo do meu queixo e gentilmente acariciou minha mandı́bula com a ponta do polegar.

— Pagan, você me faria a honra de ir comigo ao baile? A perspectiva de não poder ter você em meus braços a noite toda é de partir o coração.

Miranda suspirou do outro lado da mesa.

— Tá, isso foi lindo. Por que você não me convidou assim? — ela perguntou para Wyatt, que fez uma cara aborrecida para Leif.

— Valeu, cara. Será que, da próxima vez que decidir esbanjar seu lado romântico, você poderia fazer isso sozinho?

Eu ri, e Leif continuou olhando para mim. Fiz que sim e ele se inclinou para me beijar. Eu me preparei mentalmente para o rosnado e, no momento em que o ouvi, baixo e raivoso nos meus ouvidos, eu sorri.