Existência
Capítulo 7
No momento em que tentei abrir a porta da frente e a encontrei trancada, soube que estava com problemas. O bilhete da minha mãe no balcão, dizendo que ela e Roger tinham saı́do para uma sessão de
ilme que iria começar tarde da noite, me fez estremecer de medo.
Eu não queria icar sozinha em casa. Não tinha pedido a Miranda para passar a noite comigo porque planejava dormir na cama com minha mãe. Entrei no meu quarto e examinei cada centı́metro em busca de longos cabelos loiros. Nenhum sinal da alma apavorante. Olhei para o banheiro e pensei no banho que eu realmente queria, mas entrar lá, ligar o chuveiro e fechar a cortina me assustava. Eu não parava de ter visões de ilmes de terror a que tinha assistido, nos quais coisas ruins aconteciam quando alguém entrava no chuveiro. Eu nunca seria capaz de tomar banho sem minha mãe em casa. Talvez nem mesmo assim. Ah, que droga! Eu ia me tornar a incrı́vel garota fedorenta! Se eu tentasse convencer minha mãe a entrar no banheiro comigo para que eu pudesse tomar banho, ela pensaria que eu tinha enlouquecido. Larguei o corpo para me sentar na minha cama e soltei um suspiro de derrota.
— Qual é o problema? — uma voz perguntou da porta. Eu me levantei com um sobressalto, gritando. No entanto, o grito morreu quase imediatamente quando vi Dank encostado no batente da porta, me observando.
— Dank. — Respirei fundo para acalmar meu coração acelerado.
— Desculpe, não sabia que você icava tão abalada com isso — disse ele, franzindo a testa e entrando no quarto.
Me acomodei mais para trás na cama e soltei um suspiro de derrota.
— Bem, me desculpe se almas estranhas começaram a aparecer na minha casa, a falar comigo e a me tocar, porque isso me assusta um pouco. — Lancei a ele um olhar acusatório. — Aı́, eu te pergunto sobre isso e você blasfema na escuridão e ica bravinho.
Ele se aproximou e se sentou na ponta da minha cama.
— Me desculpe por aquilo. Eu não deveria ter te assustado daquele jeito. — Não havia como confundir o tom preocupado de sua voz.
— Bem, você pode me dizer o que está acontecendo. Quem ela é? — perguntei. Ele balançou a cabeça e imediatamente desviou o olhar de mim.
— Não, essa é a única coisa que não posso fazer por você. Pode me fazer qualquer outro pedido no mundo, Pagan, e te garanto que vai ser seu, mas te falar sobre isso eu não posso. — Sua voz soava intensa e dolorida ao mesmo tempo. Aquilo me decepcionou, mas eu sabia que pressionar o assunto era inútil.
— Por que você está aqui, então? — indaguei, me lembrando de como menos de uma hora atrás eu o havia deixado em uma mesa de canto com Kendra aconchegada ao seu lado. Ele se levantou, foi até a janela e olhou para fora.
— Até eu saber que está tudo bem… até que eu cuide do que deve ser feito, vou passar as noites aqui no seu quarto. — Ele se virou para mim com uma expressão determinada. — Tenho que proteger você. — Ele apontou para a porta. — Se quiser ir tomar banho, vou cuidar para que esteja completamente segura enquanto isso.
Caramba, como eu queria um banho. Comecei a me levantar e me sentei novamente, olhando para ele.
— Você consegue ler a minha mente? — Aquela não era a primeira vez que ele sabia o que eu estava pensando.
Ele abriu um sorriso malicioso para mim.
— Não exatamente. E mais como se eu pudesse sentir seus medos com tanta força que conseguisse ouvi-los.
Balancei a cabeça e pensei na vez em que ele riu, quando apenas eu podia ouvi-lo, como se ele tivesse me ouvido no refeitório pensando nele e em Kendra.
Eu o encarei.
— Você me ouviu no refeitório quando estava com Kendra; eu não iquei com medo naquela hora.
Ele ergueu as sobrancelhas um pouquinho.
— Você não icou?
Meu rosto esquentou e eu me virei e saı́ do quarto antes que ele pudesse me ver corar.
Comecei a fechar a porta do banheiro, quando me virei e olhei para as paredes, sabendo que uma alma poderia entrar a qualquer momento. Olhei de volta para o corredor, e vi Dank deitado na minha cama. Ele não poderia ver a alma se ela entrasse no banheiro. Ele virou a cabeça imediatamente para mim e um lento sorriso malicioso se formou em sua boca.
— Eu adoraria te acompanhar até o banheiro enquanto você toma banho. Se eu fosse realmente tão perverso quanto você pensa, faria exatamente isso. No entanto, posso sentir com antecedência a intenção de qualquer alma que deseje entrar nesta casa antes que isso aconteça. Eu estaria ao seu lado antes de qualquer outra pessoa. Você está segura comigo bem aqui — ele concluiu, dando uma piscadela.
Fechei a porta rapidamente antes que ele dissesse mais alguma coisa que me deixasse envergonhada.
Vesti uma calça de moletom cortada em bermuda e uma regata em vez da camisola habitual. Se eu estava prestes a ter companhia enquanto dormia, precisava usar roupas. Meu coração disparou ao pensar em Dank no meu quarto, na minha cama, e respirei fundo várias vezes para acalmar meus pensamentos e emoções.
— Pagan, querida, você está no banheiro? — minha mãe chamou do corredor. Abri a porta e olhei além dela para a cama onde Dank ainda estava deitado.
— Ela não pode me ver nem ouvir. Acalme-se.
Olhei para minha mãe, que estava sorrindo na porta.
— Você se divertiu com o Leif?
— Sim, ganhamos o jogo e depois fomos com a Miranda e o Wyatt para o Grill. Foi bem legal — contei, pensando nele me beijando, e mais uma vez minha mente voltou para o homem incrivelmente sexy e não humano no meu quarto, que eu não conseguia tirar da minha cabeça.
Minha mãe riu.
— Legal, hein? Pobre garoto, ele não tem a menor ideia de que você é um osso duro de roer. Ah, bem, está tudo bem por enquanto. Um dia, o cara certo vai aparecer e você vai icar tão arrebatada que nem vai conseguir enxergar direito. Aproveite os outros até lá. — Ela beijou minha bochecha e foi para seu quarto.
Quando entrei no meu, olhei para o que parecia ser um Dank adormecido. Fechei a porta do quarto suavemente, não querendo acordá-lo. Ele abriu os olhos e olhou para mim, sorrindo.
— Nenhuma chance de você me deixar dormir na cama também, né?
Balancei a cabeça e ri.
— Não, nenhuma.
Ele suspirou e se sentou.
— Eu já tinha imaginado, mas estava esperando por um momento de piedade da “osso duro de roer”.
Fiz uma careta, odiando que ele tivesse ouvido minha mãe. Eu realmente não queria que Dank soubesse que eu não estava completamente apaixonada por Leif. Era melhor assim. Fui até meu armário em busca do saco de dormir que eu havia comprado para acampar no verão anterior.
— Eu não durmo, Pagan, estava só brincando com você.
Eu me virei e franzi as sobrancelhas.
— Ok, acho que faz sentido… para almas normais. Elas não têm corpo, mas você tem, só que depois não tem mais. E como se você pudesse escolher se quer ser humano ou alma. Isso não é normal, é? — perguntei, sem saber exatamente como aquilo funcionava. A única coisa que eu sabia era que não funcionava da maneira como sempre tinham me ensinado. A Escola Dominical tinha falado tudo errado.
Ele riu e se sentou na poltrona ao lado da minha janela.
— Eu não sou uma alma apenas. Isso é tudo que você pode saber.
Ele pegou o violão que eu não tinha notado, no canto atrás da cadeira.
— Vá dormir, Pagan. Você está segura e precisa descansar. — Ele começou a dedilhar o violão e eu me virei para a cama e puxei as cobertas antes de deitar. As luzes se apagaram e olhei para Dank. — Não precisa dormir com as luzes acesas, porque pra mim tanto faz: consigo enxergar das duas formas — explicou ele.
Fiz que sim e me forcei a fechar os olhos. Eu queria fazer mais perguntas, mas sabia que ele não iria respondê-las naquela noite. O som da música começou a me acalmar. A voz baixa de Dank se juntou ao violão e eu me perdi no som e na segurança de sua presença…
“Você não foi feita para o gelo, você não foi feita para a dor.
O mundo que vive dentro de mim não era o mundo que deveria conter
você.
Você foi feita para castelos e para viver ao sol. O frio que corre em
mim deveria ter feito você fugir.
Apesar disso, você fica. Segurando-se em mim, apesar disso, você
fica, estendendo a mão que eu afasto. O frio não é feito pra você, mas
você fica, você fica, você fica. Quando eu sei que não é certo pra você.
O gelo enche minhas veias e não consigo sentir a dor, mas você está
lá como o calor que me faz gritar de medo.
Não consigo sentir o calor que preciso para sentir o gelo. Quero
segurar tudo e anestesiá-lo até não conseguir sentir a faca.
Seu calor ameaça derreter tudo e sei que não posso suportar a dor se
o gelo derreter.
Então eu te afasto e grito seu nome e sei que não posso precisar de
você, mas você cede mesmo assim, e eu corro, desejando que você
corresse também.
Apesar disso, você fica. Segurando-se em mim, apesar disso, você
fica, estendendo a mão que eu afasto. O frio não é feito pra você, mas
você fica, você fica, você fica. Quando eu sei que não é certo pra você.
A escuridão é meu escudo. Eu o puxo ainda mais para perto.
Você é a luz da qual me escondo, a luz que odeio. Você é a luz dessa
escuridão e não posso deixar você ficar.
Preciso da escuridão ao meu redor como preciso do gelo nas minhas
veias.
O frio é que me cura. O frio é meu lugar seguro. Você não é bem-vinda
com seu calor, seu lugar não é ao meu lado.
Eu te odeio, mas te amo, não quero você, mas te necessito.
A escuridão sempre será meu manto e você é a ameaça para
desvendar minha dor, então vá embora. Vá embora e apague as
memórias.
Preciso enfrentar a vida que é destinada a mim. Não fique e estrague
todos os meus planos.
Você não pode ter minha alma, eu não sou um homem.
A casca vazia em que vivo não foi feita para sentir o calor que você
traz. Eu te afasto e te afasto.
Apesar disso, você fica.”
O som do canto desa inado da minha mãe e o cheiro de bacon me acordaram. Depois de me espreguiçar, apertei os olhos para protegê-los da claridade do sol matinal. A noite anterior voltou lentamente à lembrança, então eu me sentei na cama e olhei para a poltrona agora vazia. Olhei pelo quarto e percebi que estava sozinha. Ele tinha me deixado aqui? Eu tinha con iado nele para me manter segura. Levantei com a necessidade de abrir a porta e icar perto da minha mãe. Ficar sozinha não estava na minha “lista de tarefas”. Eu me virei e percebi que o violão estava no canto. Uma pequena fração de conforto retornou a mim naquele momento, sabendo que uma parte dele estava presente. No entanto, um violão não era ele, então corri escada abaixo.
— Bom dia, lor do dia — saudou minha mãe, do fogão. Ela colocou um pedaço de bacon em um prato forrado com papel toalha.
— Bom dia — respondi em uma voz rouca do sono profundo em que estivera.
Um hum-hum de uma garganta masculina me assustou e me virei para ver Dank sentado no sofá, me olhando.
— Você pensou que eu tinha ido embora. Eu te falei que icaria — disse ele, sorrindo.
Soltei um suspiro de alı́vio e abri um sorriso fraco.
— Aqui, querida, vá buscar uma panqueca antes que esfriem e pegue um pouco de bacon. O café está fresco, se você quiser. — Ela riu. — Parece que você precisa de algo que te dê ânimo.
Sorri e fui preparar um prato.
— O cheiro está gostoso — elogiou Dank, de seu lugar no sofá. Franzi a testa, preocupada por ele não ser capaz de comer.
Ele riu.
— Não tem problema, Pagan, eu não preciso de comida. E uma vantagem. — Servi uma xı́cara de café e coloquei açúcar e leite nela antes de ir para a mesa. — Parece que você dormiu bem — disse ele, observando minha aparência. Corei, pensando no meu cabelo despenteado, o que não tinha resolvido devido à fuga apressada do meu quarto vazio. — Nem pense em escová-lo. Eu gosto assim, é sexy.
Revirei os olhos, afundei na cadeira, e comecei a comer.
— Então, quais são seus planos para esta manhã, lor do dia? — minha mãe perguntou da cozinha. Olhei-a enquanto ela preparava o próprio prato.
— Hum, vou comprar um vestido para o baile com a Miranda, o Wyatt e o Leif.
Dank deu uma risadinha.
— Então Leif vai de vestido?
Olhei para ele e depois me virei para minha mãe quando ela se sentou à mesa na minha frente.
— Ah, então o Leif te convidou para ir ao baile? Que legal! Você pode levar o cartão de crédito. Só não vá trazer nada vermelho ou amarelo. Essas cores não icam boas na sua pele.
Fiz um sinal a irmativo com a cabeça e dei outra garfada.
— Azul, azul-claro — Dank falou baixinho como se estivesse pensando consigo mesmo. Mantive os olhos na minha comida.
— Eu tenho um encontro com o computador hoje. Meu manuscrito mais recente está quase terminado. Estou mais animada com esse mais do que com qualquer outro. — A voz dela assumiu o tom alegre que só tinha quando ela falava de sua escrita.
— Ou, melhor ainda, um rosa bem clarinho — disse Dank, e eu enrijeci. Suas palavras pareceram uma carı́cia e eu precisei de todas as minhas forças para não tremer. Ele riu, levantou-se e caminhou em direção à porta. Eu queria perguntar para onde ele estava indo, mas não podia fazer isso com minha mãe sentada ali.
— Finalmente, podemos ir comer. Estou morrendo de fome. — Wyatt deu um suspiro de alı́vio com a sacola contendo o vestido de Miranda pendurada em seu ombro.
— Ah, fala sério, não foi tão ruim assim. Quer dizer, conseguimos encontrar os vestidos perfeitos em menos de quatro horas. Eu diria que foi bastante impressionante. — Miranda deu um sorriso presunçoso.
Wyatt riu.
— Não, você demorou quatro horas. A Pagan escolheu o dela em uma. Leif já teve tempo de levar a sacola dela para o carro e comer um taco enquanto esperávamos por você.
Leif ergueu as duas mãos.
— Me inclua fora dessa. — Ele passou o braço pela minha cintura e se abaixou para beijar o topo da minha cabeça. Estar com ele era tão fácil, tão tranquilo…
— Vamos te alimentar, então, Wyatt, por todo o seu trabalho árduo — provoquei, e Miranda deu uma risadinha.
— Qual foi o seu trabalho árduo? Sentar em uma cadeira e dizer: “Que lindo, leva esse”, para todos os vestidos que experimentei?
Eu ri e Wyatt encolheu os ombros.
— O quê? Não posso te achar bonita, não importa o que você vista?
Miranda sorriu e passou o braço pela cintura dele.
— Eu te amo — disse ela, sem hesitar.
Fiquei um pouco desconfortável nos braços de Leif. Eu esperava que ele não fosse alimentar nenhuma ideia, porque aquelas não eram palavras que eu estava pronta para usar de forma alguma.
— Eu te amo mais — Wyatt respondeu, sorrindo de volta para ela.
— Arranjem um quarto — brincou Leif, e minha tensão diminuiu. Ele parecia sempre ser capaz de fazer isso por mim.
Observei a alma de um homem andar por perto, analisando atentamente as pessoas como se estivesse perdido. Isso também acontecia às vezes. Eu sempre me perguntava se eram almas novas e ainda estavam confusas sobre o que havia acontecido com elas. Era uma coisa que sempre me deixava triste. A alma olhou para mim, e eu dei um pequeno sorriso, mas rapidamente me virei. Eu não queria que ele viesse até mim e falasse; não estava com humor para almas falantes no momento.
— Então, Pagan, onde você quer comer? — Leif indagou, e eu olhei para Wyatt, que murmurava “mexicano” para mim.
Sorri e me voltei para Leif.
— Tacos parecem uma boa ideia.
Leif deu uma risadinha.
— Tem certeza? Eu também consigo ver e ler lábios, viu, embora o Wyatt ache que não.
— Não, sério, eu quero comida mexicana. Salsa e nachos me parecem uma boa.
— Então vai ser comida mexicana.
Todos nos viramos e fomos para o restaurante mexicano dentro do shopping. A sensação de formigamento de que alguém estava me observando me fez olhar para trás. A alma que eu notara antes nos seguia e estava a alguns metros de distância, olhando para mim. Eu podia perceber por sua expressão perdida que ele era uma alma normal. O tipo com que eu tinha lidado a vida toda. Eu me virei como se não pudesse vê-lo, pois ignorá-lo era a melhor saı́da. Assim, ele seguiria em frente, em vez de perder tempo comigo. Não havia nada que eu pudesse fazer por ele agora.
Por favor, esteja no meu quarto, por favor, esteja no meu quarto. Eu repetia esse mantra na minha cabeça enquanto subia as escadas, passando pelo quarto da minha mãe, onde a ouvia digitando vigorosamente no computador. Entrei e quase suspirei de alı́vio ao ver um Dank com uma expressão de grande divertimento acomodado confortavelmente na minha cama.
— Eu disse que estaria aqui. Por que você duvida de mim?
Dei de ombros e pensei sobre o fato de que ele não tinha estado comigo o dia todo.
— Você realmente quer que eu vá junto ao seu encontro? — ele perguntou. Sorri e iz que não balançando a cabeça. — Achei que não. Além disso, você estava com amigos e em público. Estava tudo sob controle. Eu me certi iquei disso. — Ele falava em um tom casual como se não estivéssemos conversando sobre seres sobrenaturais. Ele acenou com a cabeça em direção ao vestido pendurado no meu armário. — Rosa-clarinho. Gostei.
Senti o rosto ruborizar, pensando no fato de só ter experimentado vestidos que fossem rosa-claro. A maneira como me senti quando ele sugeriu rosa-claro não parava de se repetir na minha mente, e eu não conseguia pensar em nenhuma outra cor de vestido para provar. Baixei a cabeça e fui pegar minhas roupas de dormir.
— Kendra vai de vermelho — ele revelou, e uma súbita explosão de ciúme me assustou.
Que droga! Por que eu me importaria? E por que ele tinha que me dizer o que ela ia vestir? Kendra era a última pessoa na face da Terra de quem eu queria ter notı́cias. Ele podia ouvir ou sentir meus pensamentos. Naquele exato momento, controlar minhas emoções seria muito positivo.
— Que maravilha. Tenho certeza de que ela estará deslumbrante. — Consegui dizer isso com uma quantidade bem pequenininha de veneno escorrendo das minhas palavras.
— Odeio a cor vermelha quase tanto quanto odeio cabelos loiros — disse ele, em tom divertido.
Comecei a responder, mas parei. Eu não acreditava nele, mas de que adiantaria tirar satisfação? A inal, eu o via com Kendra todos os dias, o dia todo. Era como se ele constantemente socasse meu estômago cada vez que a tocava ou sussurrava em seu ouvido. Virei as costas para ele e caminhei até minha caixa de bijuteria para encontrar alguma que combinasse. Era melhor do que pensar em Kendra de vestido vermelho com as mãos de Dank sobre ela.
Um calor pressionou minhas costas e provocou um arrepio pelo meu corpo. Estiquei a mão para a borda da cômoda a im de não perder o equilı́brio e cair no chão. Eu sabia que Dank estava atrás de mim. Mesmo que não entendesse, eu sabia que apenas seu toque causaria aquela forte reação. Deixei a cabeça cair para trás no calor sólido de seu peito.
— Ela não signi ica nada pra mim. — A voz de Dank provocou arrepios por meu pescoço e peito — Eu nunca mentiria para você, Pagan — disse ele com urgência no meu ouvido.
Abri os olhos, querendo ver o azul de suas ı́ris. Seus lábios tocaram a ponta da minha orelha e izeram um rastro pelo meu rosto. Suas duas mãos agarraram minha cintura, me puxando com força contra seu corpo.
— Você é uma tentação pra mim. Eu não posso ser tentado. Não fui feito para ser tentado, mas você, Pagan Moore, é uma tentação. Desde o momento em que vim te buscar, fui atraı́do. Tudo em você… — Uma de suas mãos deixou minha cintura e subiu para acariciar suavemente meu braço. — Você me deixa louco de vontade. Com desejo. Eu não entendia no começo, mas agora eu sei. E sua alma que me chama. Almas não signi icam nada para mim; pelo menos não deveriam signi icar. Mas a sua se tornou minha obsessão.
Ele baixou a cabeça no meu ombro e beijou a curva do meu pescoço. Sua mão se moveu para deslizar por baixo da minha blusa, e o calor de sua palma repousou sobre minha barriga desnuda. Uma pulsação de calor me percorreu e ele me pressionou com força contra si para me impedir de cair.
— Quero matar aquele menino toda vez que vejo as mãos dele em você. — Ele beijou um caminho até meu pescoço e eu o arqueei em resposta para lhe dar melhor acesso. Eu nunca havia sentido nada como aquilo. Seu toque era como uma droga. — Quero arrancar os braços dele do corpo para que ele não possa mais tocar em você. — Um rosnado baixo e familiar vibrou nas minhas costas. — Apesar disso, não posso ter você, Pagan. Você não era para ser minha.
Sua voz parecia torturada. Eu queria confortá-lo. Ele havia me reclamado também. De alguma forma, ele tinha entrado no meu mundo e se tornado o centro. Ele era tudo o que eu queria. Comecei a dizer o quanto ele signi icava para mim quando ele me pegou e me deitou cuidadosamente na cama e veio pairando sobre o meu corpo. Estendi as mãos para ele, querendo sentir seu corpo contra o meu, mas ele recuou.
— Por favor — sussurrei.
Dank fechou os olhos com força, como se estivesse com dor.
— Não posso, Pagan. Isso destruiria a nós dois. — E então ele desapareceu.