Genealogia do direito à saúde

Marconi do Ó Catão · Capítulo 11 de 28

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Genealogia do direito à saúde

Da Renascença aos Tempos Modernos

tinha o direito de conferir diploma oficial de médicos. 22

Durante o século XIII, médicos leigos que mantinham a tradição hipocrática opuseram-se aos escolásticos, que condenavam a experimentação clínica, tendo esse conflito social gerado desfechos funestos, haja vista que Pietro Albano (1250-1316), da escola de Pádua, tentou reunir o raciocínio dedutivo aristotélico com os fatos conhecidos da medicina e devido a isso foi condenado à morte pela Inquisição, acusado de subestimar os princípios espirituais. De forma igual, Arnold de Villanova (1240-1313), da escola francesa de Montpellier, que comungava com a escola de Salerno, também teve

o mesmo destino.23

 

Da Renascença aos Tempos Modernos

Ao reconstruírmos o período da Renascença, inicialmente observamos que, no século XIII, uma importante influência cultural sobreveio com a chegada dos escritos clássicos preservados pelos árabes, que os reintroduziram no mundo ocidental. Ao longo do século XIV e nas primeiras décadas do século XV, evidenciaram-se epidemias de peste, luta civil, guerras, práticas clericais corruptas e reverência à autoridade. Contudo, humanistas como Dante, Boccaccio e Petrarca organizaram um movimento que se afastava das rígidas doutrinas dos escolásticos medievais, que davam ênfase ao mundo do sobrenatural, em direção ao renascimento do respeito

pelos escritos dos romanos e gregos.24 Desse modo, o estudo dos clássicos da antiguidade no original tornou-se o ideal dos humanistas, mas o espírito destes não libertou os homens do jugo da autoridade da antiguidade. Com efeito, a Renascença científica só pôde avançar depois que o homem começou novamente a confiar mais em suas próprias experiências que nas leituras de textos antigos.

Em 1453, quando os turcos conquistaram Constantinopla, uma colônia de sábios gregos fugiu para o Ocidente, onde traduziu os escritos originais dos antigos; e em virtude da imprensa ter entrado em atividade em meados do século XV, foi possível levar tais traduções a um crescente número de leitores. Além disso, o emprego da pólvora e a descoberta de novos continentes com outras rotas comerciais muito contribuíram para a consagração da Renascença nos séculos XVI e XVII. Assim, uma nova classe média estava ascendendo e o velho mundo feudal desmoronava-se.

Mais especificamente no século XVI, Machiavelli descreveu o mundo da política, tal como Copérnico apresentou a realidade geofísica, substituindo a ilusão geocêntrica pela perspectiva heliocêntrica. Nesse período, a autoridade e a tradição cederam à mentalidade inquisitiva, com as instituições e conceitos medievais sendo colocados em dúvida. Então, reformadores como Calvino, Knox, Lutero etc., desafiavam a autoridade da igreja católica; astrônomos atacavam as concepções celestiais dos antigos; anatomistas investiam contra a conotação corporal de Galeno, de inspiração cristã; e, enfim, os pintores da Renascença descobriram o corpo humano.

De fato, o homem como indivíduo concreto havia sido descoberto e tornava-se objeto do artista, do anatomista e do filósofo, tendo em vista que os artistas mostraram como o homem parecia por fora, os anatomistas revelaram sua estrutura interna e os filósofos fizeram a descrição de suas sensações e sentimentos. Portanto, à medida que o homem começou a confiar mais em seus próprios sentidos e experiências sem basear-se na palavra escrita da autoridade, a ciência pôde entrar na Renascença. Em síntese, a opinião medieval de que o corpo nu é pecaminoso foi superada pelos artistas da Renascença, com suas ousadas pinturas e esquematizações da forma humana despida em toda sua realidade nua e voluptuosa. Realmente, as representações dinâmicas do corpo humano nas obras de importantes artistas italianos do fim do século XV e início do século XVI, como Leonardo da Vinci, Botticelli, Rafael, Michelângelo, Ticiano, entre outros, contrastam com os corpos rígidos e empertigados pintados durante a Idade Média.

Certamente, um dos mais expressivos representantes da combinação de talentos artístico e cientifico da Renascença foi Leonardo da Vinci (1452-1519), que compreendeu que o artista precisava ter conhecimento da estrutura anatômica por meio do estudo de corpos vivos e mortos; por conseguinte, ele desenhava o que via, sendo seus trabalhos tão importantes que os médicos fizeram uso deles durante muitos séculos depois de sua morte. Assim, esse pintor foi além dos humanistas, pois rompeu completamente com a autoridade dos antigos; mas seus estudos anatômicos foram relativamente desconhecidos de seus contemporâneos. Logo, a ideia de desenhar corpos dissecados foi atribuída ao médico Berengarius (1470-1530), de Capri, que acreditava na vantagem de fazer observações em primeira mão, todavia este médico não se libertou totalmente do ponto de vista humanista de que as descobertas essenciais haviam sido feitas

pelos sábios da antiguidade. 25

De modo geral, um forte clamor daqueles que defendiam a autoridade dos antigos foi erguido contra muitos anatomistas, sobressaindo-se entre estes Andreas Vesálius (1514-1564), que muito contribuiu com a medicina moderna. Este médico iniciou seus estudos na Universidade de Paris, porém, não mais tolerando que lhe ensinassem a anatomia galênica, decidiu transferir-se para a Universidade de Pádua, que tinha uma forte reputação de liberdade intelectual. Esta instituição de ensino conferiu-lhe um diploma de Doutor em Medicina em 1537 e no ano seguinte nomeou-lhe professor de anatomia. Registre-se que Vesálius escreveu De Humani Corporis Fabrica, que trata dos aspectos da anatomia humana, possuindo mais de trezentas ilustrações, sendo esta obra uma das grandes contribuições à ciência ocidental. Tal livro revolucionou o estudo da anatomia e liquidou de uma vez por todas com os escritos de Galeno que, como Vesálius, conseguiu provar, mas suas descrições das dissecações eram baseadas em animais, e não em corpos humanos. De forma que, De H. C. Fabrica e o Tratado de Copérnico, que revolucionou os conceitos prevalentes sobre o sistema solar, ambos publicados em 1543, provavelmente

representam o início da ciência moderna.26

Em conformidade com essa concepção, a confiança na observação mais que na teoria refletiu-se também no fato de terem os médicos do século XVI começado a olhar seus pacientes de perto e a registrar o que viam. Então, Giovanni Montanus (1498-1552), na Itália; Johann Lange (1485-1565), na Alemanha; e Jean Fernel (1497-1558), na França, foram relevantes em suas observações clínicas. Nesse contexto, o primeiro defensor do método experimental na medicina foi Ambroise Paré (1510-1590), que começou como simples cirurgião barbeiro no exército de Francisco I. Neste período, os soldados franceses que sofriam ferimentos de pólvora recebiam tratamento conforme o antigo costume, com óleo fervente; porém, Paré observou que essas lesões geralmente contraiam infecções, mas quando, por falta de óleo, só eram aplicadas ataduras nas feridas de alguns soldados, estes saravam rapidamente e sem quadro infeccioso. E foi assim que Paré sustentou a tese de que os ferimentos deveriam ser tratados simplesmente de maneira que o processo natural de cura pudesse ocorrer sem interferências, introduzindo então o princípio de

“experiências controladas” na ciência médica. 27

Logo, a procura de mais conhecimentos e informações aliada à liberdade intelectual manteve o método experimental vivo nas universidades italianas, principalmente nas de Pádua e Veneza. Em suma, o século XVI proporcionou grandes expectativas de progresso, no âmbito das ciências biológicas, visto que a instrumentalização e mecanização facilitavam a ampliação desse método de pesquisa.

Ainda na Renascença, Girolamo Cardano se destacou como clínico geral na aldeia de Sacco e escreveu vários livros populares, sobressaindo-se entre estes o “Sobre as Más Práticas de Medicina do Uso Comum”, que elogiava a Sociedade Médica de Milão.

Cardano apud Ore 28 realizou também, a partir de sua autobiografia, um estudo bastante significativo do espírito da Renascença, o De Própria Vita (1575), que revelava as incoerências da época em que vivia, assinalando esse autor que:

A natureza fez-me capaz de todo trabalho manual. Deu-me o

espírito de um filósofo e aptidão nas ciências, gosto e boas

maneiras, voluptuosidade, alegria, tornou-me piedoso, fiel,

amante da sabedoria, meditativo, inventivo, corajoso,

determinado a aprender e ensinar, ansioso por igualar os

melhores, por descobrir coisas novas e fazer progresso

independente de caráter modesto, um estudioso da medicina,

interessado em curiosidades e descobertas, misterioso,

industrioso, diligente, engenhoso, vivendo apenas de um dia

para outro, impertinente, desdenhoso da religião, resmungão,

invejoso, triste, traiçoeiro, mágico e feiticeiro, miserável, odioso,

lascivo, solitário, desagradável, rude, adivinhador, obsceno,

mentiroso, obsequioso, atento ouvinte da tagarelice dos velhos,

mutável, irresoluto, indecente, apaixonado pelas mulheres,

briguento e, devido aos conflitos entre minha natureza e minha

alma, não sou compreendido nem mesmo por aqueles aos

quais me associo mais frequentemente. (VITA, 1575).

Ao século XVII, deve-se atribuir o mérito de haver lançado as primeiras bases do mundo moderno, pois para alguns historiadores, com quem concordamos plenamente, as realizações intelectuais desta época, nos campos da literatura, artes plásticas e filosofia são bastante significativas, mas foi a ciência que se tornou o foco do esforço humano nessa era. De maneira que convém apresentarmos uma breve lista dos responsáveis pelos principais avanços cientificos nesse período: Galileu e Kepler, na astronomia; Boyle, Robert Hooke e Newton, na física; Descartes, Newton e Pascal, na matemática; Thomas Sydehan e William Harvey, na medicina; entre outros.

Nessa perspectiva, é pertinente salientarmos que na base do desenvolvimento do século anteriormente citado, havia dois métodos intelectuais de conhecimento científico: o primeiro deles dava ênfase ao raciocínio dedutivo (analítico e matemático); e o segundo, ao raciocínio indutivo (empírico). A primeira metodologia era utilizada por Descartes, Hobbes e Spinoza; já a segunda era usada por Francis Bacon e John Locke. Essas duas escolas de pensamento partilhavam de uma importante característica, que era a dúvida no conhecimento existente e a crença em que o mundo era governado por uma ordem racional suscetível de descoberta, seja pelo método dedutivo ou por meio da observação. Tais tendências encontraram integração no trabalho de Galileu Galilei (1564-1642), com quem a ciência no sentido moderno começa como um novo fenômeno na história humana, tendo em vista que ele combinou o método experimental com presunções hipotéticas, e em virtude disso, a experiência servia para verificar a validade da hipótese. Portanto, apesar da autoridade dos racionalistas, a influência dos defensores da observação empírica foi gradualmente prevalecendo; consequentemente, durante muito tempo, o empirismo contribuiu com o progresso das ciências naturais experimentais bem mais que a inclinação racionalista que, apesar disto, ganhou um certo impulso no século XVIII, particularmente na França. Mas, a corrente racionalista só atingiu plena concretização nos últimos anos do século XIX.

Após essas considerações, compreendemos que o contínuo desenvolvimento das concepções científicas não pode ser nitidamente dividido em séculos, pois a herança empírica e racional do século XVII continuou progredindo durante todo o século XVIII, traduzindo-se como um forte impulso para o surgimento do período de tempo que se vem rotulando como a época do “Iluminismo” ou Século Iluminado. Por outro lado, foi também uma era cheia de contradições porque, embora se utilizasse o conceito da bondade do homem, ideias destruidoras encontravam causa em violentas revoluções. Assim, a característica relevante desse período é que a crença na razão substituiu a tradição e a fé no âmbito da sociedade; e, devido a isso, a experimentação ocupou definitivamente o lugar das abstrações dedutivas nas investigações científicas e médicas.

Ressalte-se que, nos séculos XVII e XVIII, foram introduzidos importantes instrumentos de diagnóstico no campo da medicina: Stephen Hales (1677-1761), teólogo inglês, desenvolveu um método para verificar a pressão do sangue e investigou a dinâmica da circulação sanguínea; René Laennec (1781-1826), médico francês, inventou o estetoscópio; René de Réaumur (1683-1757), naturalista, também da França, estudou os princípios do processo digestivo; entre outros. Realmente, a riqueza dos dados médicos e científicos estabelecidos, nessa época, foi tão grande que se tornaram necessárias sínteses e sistematizações, haja vista que a ciência precisava organizar os fatos verificados, tendo sido criado um sistema de ordem com suas generalizações.

Com efeito, no século XVIII, Carolus Linnaeus (1707-1778), médico e botânico sueco, aplicou os princípios de organização à matéria viva em seu Systema naturae (1735), classificando todos os espécimes botânicos em gêneros e espécies, incluindo o mundo animal, onde colocou o homem na ordem dos Primatas e lhe deu o nome de Homo sapiens; já na Alemanha, a embriologia foi modernizada com o trabalho do microscopista Kaspar Friedrich Wolff (1733-1794); e na Suíça, Albrecht von Haller (1708-1777) realizou pesquisas no campo da fisiologia, compilando, com seu Elementa physiologiae corporis humani, todo o conhecimento

fisiológico existente naquele período histórico. 29 De modo que as doenças passaram a ser diagnosticadas com mais exatidão e localizadas com mais precisão; sendo, neste sentido, o conceito de localização, proposto por Giovanni Battista Morgagni (1682-1771), essencial nas descobertas anatômicas.

Já no século XIX, Virchow defendeu que, sob o microscópio, as células de um corpo doente revelavam diferenças concretas em relação às células encontradas em órgãos sadios, tendo sido tal noção relevante na transformação do pensamento médico deste século; logo, Virchow expandiu seus conceitos de patologia celular com a publicação, em 1858, do Die Cellular-pathologie in ihrer

Bagründung auf physiologische und pathologische Gewebelehre30, livro que assinala o início da era moderna na medicina. No ano seguinte, Charles Darwin publicou sua obra, The origin of species by means of natural selection, introduzindo na biologia as regras de mudança e probabilidade que se haviam mostrado tão úteis nas ciências físicas. Assim, a teoria de Jean Lamarck, segundo a qual as qualidades adquiridas pelos animais, durante sua luta pela sobrevivência, eram transmitidas às novas gerações por meio da hereditariedade, foi então substituída por uma concepção teórica que podia ser verificada em experimentos de criação, visto que Darwin propôs que as diferenças ocasionais entre indivíduos pertencentes à mesma espécie tornam alguns deles superiores em sua luta pela existência e, em consequência de sua sobrevivência,

disseminam-se características que resultam em adaptação.31

De acordo com o que foi apresentado, percebemos que, embora a era moderna da medicina tenha se intensificado em 1858 e 1859, com os trabalhos de Virchow e Darwin, a ciência médica já vinha utilizando os princípios da física e da química há duas décadas, tendo em vista que Julius Robert Mayer (1814-1878) propusera, em 1842, a lei da conservação de energia em organismos animais, que cinco anos depois seria ampliada, por Helmholtz, a toda matéria; além do mais, a química fisiológica teve início no começo da década de 1840, com o trabalho de Justus Von Liebig (1803-1873), que juntamente com outros químicos conseguiram isolar os componentes da molécula de proteína. De modo igual, Albert Kölliker (1817-1905), deu um grande impulso à embriologia, com seus estudos sobre o amadurecimento celular; já Karl von Baer (1792-1876), descreveu a estrutura do óvulo e o desenvolvimento da medula espinhal. Com relação ao aspecto contagioso das doenças infecciosas, o italiano Agostino Bassi realizou relevantes pesquisas; na década de 1850, Louis Pasteur (1822-1895) deu início às investigações bacteriológicas que levaram à teoria de germes na doença; já no decênio seguinte, o cirurgião inglês Joseph Lister (1827-1912) introduziu a prática da antissepsia; entre outros

avanços. 32

Em síntese, a medicina clínica realizou notáveis progressos na primeira metade do século XIX, haja vista que síndromes e agentes etiológicos de várias moléstias foram cuidadosamente descritos, como, por exemplo, uma forma de patologia renal que foi relatada por Thomas Addison (1793-1860); um tipo de paralisia convulsiva que James Parkinson (1755-1824) analisou; etc. Nas últimas décadas do século XIX, a ciência médica dedicou-se muito ao estudo da anatomopatologia e às investigações bioquímicas, destacando-se o médico alemão Wilhelm Griesinger (1817-1868), que prestou valiosas contribuições através de pesquisas com doenças infecciosas, anatomia patológica e enfermidades

mentais. 33 Ademais, as viagens e as técnicas de comunicações haviam melhorado de tal modo que os cientistas de inúmeros países podiam manter contato entre si com frequência e, em virtude disto, editavam-se publicações descrevendo as experiências de várias especialidades médicas. Portanto, no final do século XIX, tornou-se evidente que o futuro político e econômico de uma nação dependia de seu progresso na ciência e, devido a isso, as investigações cientificas eram incentivadas e subvencionadas pelos países mais poderosos.

Para 34 Michel Foucault, a medicina moderna, científica, que nasceu nos fins do século XVIII entre Morgagni e Bichat, com o aparecimento da anatomia patológica do encéfalo, é uma prática social que investe politicamente no corpo como força de trabalho. Mas, em conformidade com esse autor, a evolução da medicina no ocidente tem a particular característica de inicialmente não ter se preocupado com o corpo que trabalha, pois não foi o proletariado o objeto de preocupação inicial da medicina; de fato, foi somente na segunda metade do século XIX que se considerou o problema do corpo, da saúde ao nível da força produtiva da pessoa que trabalha. Nesse contexto, Foucault, ao fazer a reconstituição do desenvolvimento da medicina social, apresenta três etapas: medicina do Estado, medicina urbana e medicina da força de trabalho. A primeira fase, que se desenvolveu principalmente na Alemanha no início do século XVIII, apresentava como suporte a estrutura estatal do programa de polícia médica, que consistia em um complexo sistema de observação da morbidade, bem como num importante fenômeno de normalização da prática e saber médicos; já o segundo momento é representado pelo exemplo da França, onde, em fins do século XVIII, aparece uma medicina que tinha como fundamento o fenômeno da urbanização, com seus aspectos político e econômico, surgindo, por conseguinte, o “medo urbano” e

o “plano de urgência”, inerentes a uma medicina urbana 35 ; e a terceira etapa pode ser analisada por meio do exemplo inglês no século XIX, quando a força de trabalho, o operário, enfim, quando os pobres aparecem como perigo, sendo, desse modo, a fase da “medicina dos pobres”. Então, inicialmente o Estado, em seguida a cidade e finalmente os pobres e trabalhadores foram objetos de preocupação médica.

Assim, com base nas palavras de Foucault, podemos afirmar que, diversamente da medicina urbana francesa e da medicina de Estado da Alemanha, ambas do século XVIII, surge no século XIX, especialmente na Inglaterra, uma medicina exteriorizada por um controle da saúde das classes mais pobres, tornando-as mais adequadas para o trabalho e oferecendo menos perigo às classes mais ricas.

Na medicina moderna, a clínica como uma disposição de conjunto aparece para aprimorar a experiência dos médicos através de uma nova distribuição dos elementos do corpo e de uma reordenação das partes que constituem o fenômeno patológico, sempre buscando fazer a articulação entre a doença e o organismo. Então, o surgimento da clinica como um fato histórico é identificado com essas reorganizações, pois havia a necessidade de um ensino prático por meio de visitas aos hospitais pelos estudantes de medicina, juntamente com seus professores; além disso, a constante observação e atenção para com o doente possibilitou a medicina conservar sua continuidade histórica. Portanto, a partir dessas narrativas, que foram reunidas no final do século XVIII e no começo do século XIX, houve a concepção da clínica como a instituição responsável pela origem da história da medicina. Logo, do ponto de vista da prática médica, a clínica diz respeito às instruções dadas pelo professor aos seus alunos, não sendo uma experiência em si mesma, mas sim o resultado de uma vivência anterior, para ser utilizada em outras pessoas. Nessa ótica, Foucault

36 esclarece que:

A clínica […] é uma determinada maneira de dispor a verdade

já adquirida e de apresentála para que ela se desvele

sistematicamente. A clínica é uma espécie de teatro nosológico

de que o aluno desconhece, de início, o desfecho. […] a arte de

demonstrar, mostrando. Foi assim que Desault compreendeu as

lições de clínica cirúrgica que ministrava a partir de 1781 no

Hôtel-Dieu: ‘Sob os olhares de seus auditores, ele fazia trazer

os doentes mais gravemente afetados, classificava sua doença,

analisava suas características, traçava a conduta a seguir,

praticava as operações necessárias, explicava seus

procedimentos e seus motivos, informava diariamente as

mudanças ocorridas e apresentava, em seguida, o estado das

partes depois da cura […] ou demonstrava, sobre o corpo

privado de vida, as alterações que tornaram a arte inútil’.

Em outras palavras, a medicina clínica, tecnicamente, era iniciada com uma reunião dos dados pessoais do paciente, incluindo a qualificação, profissão, enfermidades anteriores, medicamentos utilizados, queixa principal com relação à doença atual etc.; em seguida, era realizado um exame físico geral, considerando as funções fisiológicas de forma generalizada; continuando, a partir de hipóteses e com a finalidade de se chegar a uma conclusão definitiva, isso através de exames físicos específicos; por último, na ocasião em que era diagnosticada a doença, eram apresentadas as propostas terapêuticas com o respectivo prognóstico.

Ademais, a ênfase que é dada à medicina, no século XIX, ocorre concomitante a organização de uma política de saúde e da construção de uma concepção da doença como um problema político e econômico, que se colocava às coletividades que, por sua vez, deveriam tentar resolver com suas decisões em conjunto, sempre procurando elevar o nível de saúde em geral. Mas, foi principalmente no plano estatal, por meio da forma ampla de “polícia médica”, com suas atribuições e serviços, que foram evidenciadas as iniciativas de estruturação e controle das políticas no campo da saúde; de igual modo, observaram-se outras iniciativas políticas voltadas para os problemas médicos através de grupos religiosos, de associações de socorro e beneficência, de sociedades cientificas, entre outras organizações.

Registre-se, também, que a higiene foi priorizada no funcionamento da medicina como instrumento de controle social, pois as necessidades higiênicas exigiam uma intervenção médica autoritária sobre tudo o que estaria diretamente relacionado com as doenças, como, por exemplo, as prisões, os navios, as instalações portuárias, os hospitais, entre outros espaços. De maneira que no âmbito urbano foram isoladas determinadas regiões de urgência, onde seriam intensificadas as práticas de um poder médico; além do mais, os médicos deveriam ensinar à população as regras fundamentais de higiene (na alimentação; na habitação; no estímulo a se fazer tratar em caso de doença etc.), objetivando a saúde de toda a coletividade. Com efeito, torna-se evidente a existência histórica de um poder médico, como oportunamente explana

Foucault 37 :

A medicina como técnica geral de saúde, mais do que como

serviço das doenças e arte das curas, assume um lugar cada

vez mais importante nas estruturas administrativas e nesta

maquinaria de poder que, durante o século XVIII, não cessa de

se estender e de se afirmar. O médico penetra em diferentes

instâncias de poder. A administração serve de ponto de apoio e,

por vezes, de ponto de partida aos grandes inquéritos médicos

sobre a saúde das populações; por outro lado, os médicos Geralmente, os cientistas têm consciência que trabalham com reduções, com objetos laboratoriais simplificados e não com objetos reais complexos. Mas, de modo paradoxal, com frequência, eles acreditam que a simplificação laboratorial desvela a essência do objeto complexo real. Contudo, a crença ainda hoje predominante é a de que a redução mecânica é mais verdadeira do que a complexidade real; sendo que é isso o que prevalece também para as pessoas de um modo geral, haja vista que os próprios cientistas cultivam esse mito da cientificidade, ou seja, o que é científico vale mais, é mais verdadeiro, pois foi “ provado ” laboratorialmente,

consagram uma parte cada vez maior de suas atividades a

tarefas, tanto gerais quanto administrativas, que lhe foram

fixadas pelo poder. Acerca da sociedade, de sua saúde e suas

doenças, de sua condição de vida, de sua habitação e de seus

hábitos, começa a se formar um saber médico-administrativo

que serviu de núcleo originário à ‘economia social’ e à

sociologia do século XIX.

Portanto, a preocupação da ciência médica, não só para com a saúde, mas com a própria vida e com o corpo, ocorre pari passu à consolidação da instituição médica, envolvendo a profissionalização da atividade médica e um conjunto de conhecimentos e práticas

que, no dizer de 38 Boltanski, constituem a legalidade médica. Assim, a história da instituição médica revela o esforço em reafirmar a autoridade do médico, conferindo-lhe o monopólio dos atos terapêuticos e a desapropriação do saber popular em saúde. Em outros termos, a medicina, sob as influências da ciência, da técnica, da industrialização e da urbanização, transforma-se em uma instituição normativa dotada da racionalidade e da burocracia típicas da sociedade capitalista moderna.

Na explicação do desenvolvimento da ciência médica moderna, é também pertinente destacar os estudos sobre medicina

experimental propostos por 39 Claude Bernard, onde afirma que “para encontrar a verdade, basta que o cientista se ponha frente à natureza e a interrogue seguindo o método experimental com a ajuda de meios de investigação cada vez mais perfeitos”.

Certamente, foi, sobretudo, a partir de 40 Bernard que a Biologia se referencia sobre a vida, que passa a ser um objeto da ciência biológica, devido ao fato de que ao reduzir-se a vida à categoria de objeto científico, foi perdido seu caráter particular, real. Nesse

mesmo sentido, salienta 41 François Jacob que a ciência biológica não expressa mais a vida, mas apenas estabelece uma lógica do ser vivo, pois “hoje nos laboratórios não se interroga mais a vida […]. Esforça-se somente em analisar os sistemas vivos, sua estrutura, sua função, sua história […]. É pelos algoritmos do ser vivo que se interessa hoje a biologia”.

cientificamente. 42 Então, para a biologia e a correlata medicina contemporânea, que se pretende “científica”, os corpos objetivados dizem respeito aos organismos reais que adentram às portas dos serviços médicos apresentando suas queixas, sofrimentos, sentimentos, afecções, afetos, expectativas, alegrias e tristezas etc. Por conseguinte, o reducionismo não é mais o instrumento adequado para analisar a vida em toda sua concretude, bem como a ciência não deve cuidar apenas do que é redutível e objetivista.

Por fim, convém também mister destacar o comentário de Roberto Machado, quando afirma que a arqueologia de Michel Foucault “pretende ser uma crítica à própria noção de racionalidade”, desprezando, consequentemente, as ideias de cientificidade e neutralidade e o próprio conceito de “ciência”, substituindo-o pelo de “saber”. Outrossim, Foucault apresenta a concepção da medicina como ciência do “homem” e não da “vida”, o que por sua vez aponta a medicina como uma ciência social, política e histórica, e não apenas biológica. Em resumo, este autor ressalta que por detrás do desejo de cientificidade e neutralidade da biologia e da medicina, existe uma ideologia e um poder; e, enfim, considera a medicina não apenas a partir do conhecimento do organismo, fundado sobre a

biologia, como sintetiza 43 Joel Birman : “[…] a ênfase é dada no indivíduo e não no organismo, de maneira que é importante destacar as múltiplas relações das individualidades no espaço social”.