Genealogia do direito à saúde

Marconi do Ó Catão · Capítulo 18 de 28

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Genealogia do direito à saúde

A Disposição do Espaço Físico e sua Simbologia

Com a realização do estudo sobre a adequação do hospital ao modelo de instituição totalitária de Goffman, percebemos que tal abordagem é insuficiente para uma análise da estrutura formal do nosocômio não psiquiátrico. Mas, tal discussão revela-se com capacidade analítica para a descoberta de alguns processos sutis, inerentes ao funcionamento da estrutura formal e que constituem a

estrutura informal 24 da estrutura hospitalar. Ademais, os estabelecimentos hospitalares são sempre possuidores de várias áreas de interação e trabalho, nem sempre visíveis, que são organizadas em conformidade com normas e regras que se afastam da autoridade requerida pela administração burocrática, sendo tais

espaços denominados por 25 Goffman de “áreas de bastidor”.

Por sua vez, a discussão da estrutura informal do hospital nos reconduz ao debate relativo à adequação do estabelecimento nosocomial ao tipo ideal da burocracia racional de Weber, pois a descoberta da relevância dessa estrutura, através do trabalho empírico desenvolvido no âmbito dos valores e comportamentos dos seus integrantes, revelou que o monopólio analítico que tinha usufruído o modelo de burocracia weberiano deveria ser reapreciado levando em consideração o surgimento de novas dimensões a serem analisadas no estudo das instituições hospitalares.

A Disposição do Espaço Físico e sua Simbologia

No hospital, a distribuição dos espaços é determinada de acordo com as especificidades das ações dos principais atores sociais envolvidos: médicos, enfermeiros e doentes. Desse modo, as enfermarias, como também os setores de enfermagem e médico, formam as grandes regiões do serviço médico-hospitalar, representando os espaços onde se preparam as condições para o exercício da função profissional médica. Registre-se que as enfermarias são áreas de atuação do pessoal médico e de enfermagem, enquanto que os setores dos médicos e dos enfermeiros constituem locais de atividades com acesso restrito a estas categorias, autênticas “áreas de bastidor”; porém, é frequente no cotidiano nosocomial evidenciarem-se entradas e saídas de médicos do setor de enfermagem, por motivos ligados aos cuidados para com o paciente.

Na estrutura hospital, as disposições dos lugares traduzem a organização de um controle social, que pode ser observado por meio da posição estratégica de determinados locais que são distribuídos como autênticos postos de vigilância dos comportamentos dos enfermos. Portanto, a ordenação desses lugares, além de obedecer a critérios técnicos de organização do ambiente hospitalar, são igualmente sujeitos a apropriações sociais, como instrumentos de produção da ordem social. Outrossim, a separação dos diferentes espaços no nosocômio não se faz apenas através da segregação física, mas também de modo simbólico; ou seja, identifica-se, nos serviços hospitalares, uma série de elementos que possibilita reconhecer a importância técnica e social dos vários locais. Nessa ótica, o uso de uniformes e objetos distintos assegura o reconhecimento das hierarquias e das respectivas funções hospitalares (médicos, corpo administrativo, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem etc.).

Com relação ao espaço físico delimitado para o doente, são observados a cama, a roupa padronizada e eventuais objetos pessoais, que representam os elementos simbólicos de um restrito universo pessoal. Assim, na parte superior das camas, estão dispostos os meios técnicos necessários para situações de emergência, como tubos para conexão do oxigênio e aspiradores de secreções; já ao lado da cama, com frequência são encontrados recipientes contendo soro conectados ao corpo do enfermo; em suma, esses são os principais elementos simbólicos que cercam o paciente, reduzindo-o à expressão de um corpo vulnerável e acessível. Já as salas dos médicos são facilmente distinguíveis das dependências dos enfermeiros, pois naquelas predomina a sobriedade de um espaço concebido para a atividade intelectual de elaboração do diagnóstico e da terapia a ser instituída, com o destaque do negatoscópio, que é apenas utilizado pelos médicos em suas interpretações das imagens radiológicas; enquanto que, nas salas dos enfermeiros, expõe-se o cenário do trabalho de preparação e execução terapêutica, com armários contendo medicamentos, seringas, compressas etc., constituindo os elementos que serão utilizados no cotidiano hospitalar.