Guia Prático em Saúde (GPS): Enfermagem
Modalidades Terapêuticas Avançadas
MODALIDADES
TERAPÊUTICAS
AVANÇADAS
Hemoterapia e Cuidados Transfusionais
Complicações Renais e Métodos Dialíticos
INTRODUÇÃO
A hemotransfusão é uma modalidade de cuidado muito importante como suporte na realização de tratamentos, como os transplantes, quimioterapias e diversos tipos diferentes de cirurgias. E a medicina transfusional é um processo complexo que depende da atuação de vários pro ssionais. Desde a captação de doadores ao manejo das bolsas e controle de qualidade do armazenamento e distribuição, os riscos envolvidos na transfusão de sangue e componentes podem ser consequentes de procedimentos inadequados, erros de classi cação de pacientes e imprudência durante as transfusões. Nesse sentido, é fundamental conhecer um pouco desta prática, e este capítulo abordará as principais características dos hemocomponentes e hemoderivados, bem como os cuidados envolvidos nestes processos.
O QUE É SANGUE?
Sangue é um tecido conjuntivo especializado constituído por células sanguíneas (eritrócitos [hemácias], plaquetas e leucócitos), imersas em um líquido extracelular chamado plasma.
ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DA FISIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA DO SANGUE
O sangue é formado por meio de um processo chamado hematopoese. Trata-se da gênese de diversos tipos de células do sangue a partir de um número de células da medula óssea, chamadas de células-tronco hematopoéticas. Estas têm a capacidade de autorreplicação, proliferação e diferenciação em eritrócitos, leucócitos e plaquetas.
Nas primeiras semanas de gestação, o principal local de hematopoese é o saco vitelino. De 6
semanas a 7 meses, os principais órgãos envolvidos na hematopoese são o fígado e o baço. A partir dos 7 meses da vida fetal, na infância e na vida adulta, a única fonte de células sanguíneas é a medula óssea, que ocupa a parte interna dos ossos esponjosos e a cavidade central dos ossos longos do esqueleto.
CADA COMPONENTE SANGUÍNEO TEM FUNÇÕES PRÓPRIAS
ERITRÓCITOS OU HEMÁCIAS
Atuam no transporte de oxigênio (O2) e dióxido de carbono (CO2), tendo como principal função a oxigenação dos tecidos do organismo. A eritropoetina pode ser um hormônio que controla a eritropoese ou a produção de hemácias. É produzida no fígado no período fetal e perinatal, e nos rins durante a idade adulta.
LEUCÓCITOS
Os leucócitos são classi cados em dois grupos; granulócitos e agranulócitos. Os leucócitos granulócitos constituem 50 a 60% de todos os leucócitos e são divididos em três classes: neutró los, eosinó los e basó los. São assim chamados porque contêm grânulos com diferentes substâncias químicas, dependendo do tipo de célula. Os leucócitos agranulócitos dividem-se em: linfócitos e monócitos. Os linfócitos constituem 30 a 40% de todos os leucócitos; eles se dividem em dois subtipos principais: B (amadurecem dentro da medula óssea – são responsáveis pela produção de anticorpos) e T (amadurecem no timo – são responsáveis pelo reconhecimento do antígeno). Os monócitos constituem até 7% de todos os leucócitos e diferenciam-se em macrófagos. De modo geral, a função primordial dos leucócitos é atuar na defesa do organismo e também em processos in amatórios; assim, são chamados de células de defesa do organismo.
PLAQUETAS
São pequenos fragmentos originados de uma célula chamada megacariócito, cruciais no controle do sangramento (hemostasia), ou seja, está envolvida na coagulação sanguínea.
PLASMA
O plasma é um líquido que contém aproximadamente 90% de água e o restante consiste em proteínas (albumina, globulina e brinogênio) e outras pequenas substâncias moleculares (carboidratos, lipídios, hormônios, enzimas, aminoácidos, gases, eletrólitos e escórias metabólicas).
CLASSIFICAÇÃO SANGUÍNEA
A classi cação sanguínea em laboratório é prática rotineira e é visualizada por meio da formação da aglutinação da amostra testada.
A classi cação direta é de nida como a utilização de antissoros que detectam antígenos em
uma hemácia do indivíduo. A presença de tal antígeno será visualmente detectada pela formação de aglutinação na amostra.
A classi cação reversa é de nida como a utilização de células reagentes com antígenos A1 e
B conhecidos, testando o soro do paciente para anticorpos do grupo ABO que também serão detectados pela aglutinação na amostra.
Atualmente, temos quatro grupos sanguíneos: A, B, O e AB, que são identi cados por
classi cação direta e reversa concomitantemente.
O SISTEMA Rh
O sistema Rh foi descoberto em 1931 por Landsteiner e Wiener, que descreveram um anticorpo formado por cobaias e coelhos quando transfundidos com hemácias do macaco rhesus. Tal anticorpo aglutinou 85% das hemácias humanas. Os antígenos do sistema Rh estão localizados em duas proteínas, denominadas RhD e RhCE. O gene RHD codi ca a produção da proteína RhD, que carreia o antígeno D; e o gene RHCE codi ca a produção da proteína RhCE. A existência ou não do antígeno na superfície das hemácias relaciona-se com a presença ou ausência de um membro dessa família, respectivamente, os antígenos D e E/e,C/c.
Os indivíduos que apresentam o antígeno D têm o fenótipo Rh-positivo; os indivíduos que
não apresentam gene RHD devido a sua deleção e, portanto, ausência do antígeno D, são considerados fenótipo Rh-negativo.
O sistema Rh é o maior e mais complexo sistema de grupos sanguíneos e representa um dos
sistemas de maior interesse clínico, por seu envolvimento nas anemias hemolíticas autoimunes, reações transfusionais hemolíticas e doença hemolítica perinatal.
Nesse complexo sistema, cinco antígenos são considerados os que mais induzem a produção
dos anticorpos que estão relacionados com a maioria dos problemas associados à aloimunização (imunização que ocorre na mesma espécie animal) por transfusão e gestação. São eles: D, C/c e E/e.
O antígeno D é o mais importante do ponto de vista clínico, pois é alto o seu grau de
imunogenicidade (capacidade do antígeno de estimular uma resposta do sistema imunológico para formação do anticorpo), e esse fato deve ser considerado em transfusão sanguínea para que seja evitada a formação de anti-D, acarretando problemas para o paciente.
CLASSIFICAÇÃO Rh DOS INDIVÍDUOS
Fenótipo RhD Antígeno RhD
Rh-positivo Presente
Rh-negativo Ausente
O SISTEMA ABO
O sistema ABO foi descoberto em 1900 por Karl Landsteiner ao observar que, ao misturar soro com hemácias de diferentes indivíduos, era encontrada a presença, por vezes, da reação de aglutinação dos glóbulos vermelhos devido à xação de anticorpos aos antígenos especí cos localizados na membrana desses glóbulos. Com base nos padrões de aglutinação, denominou os antígenos encontrados como A e B; os indivíduos que não tinham aglutinação de suas hemácias por ambos os soros foram denominados C que, mais tarde, foram classi cados em O, universalizando a nomenclatura como ABO. Em seguida, foi descoberto o quarto grupo sanguíneo (AB), em 1902, pelos colaboradores de Landsteiner, Sturle e Von Decastello. A classi cação do fenótipo ABO é de nida pela presença e/ou ausência dos antígenos A e/ou B na membrana das hemácias. Esses indivíduos formam naturalmente anticorpos contra os antígenos eritrocitários que não apresentam:
• Indivíduos do grupo A: presença de antígeno A na superfície das hemácias e presença de
anticorpos anti-B no soro e/ou plasma
• Indivíduos do grupo B: presença de antígeno B na superfície das hemácias e presença de
anticorpos anti-A no soro e/ou plasma
• Indivíduos do grupo AB: presença de antígeno A e B na superfície das hemácias e ausência
de anticorpos no soro e/ou plasma
• Indivíduos do grupo O: ausência de antígenos A e B na superfície das hemácias e presença
de anticorpos A e B no soro e/ou plasma.
DOAÇÃO DE SANGUE
TIPO SANGUÍNEO DOA PARA RECEBE DE
A+ A+, AB+ A+, A–, O+, O–
B+ B+, AB+ B+, B–, O+, O–
AB+ AB+ AB+, AB–, A+, A–, B+, B–,
O+, O–
O+ A+, B+, AB+, O+ O+, O–
A– A+, A–, AB+, AB– A–, O–
B– B+, B–, AB+, AB– B–, O–
AB– AB+, AB– A–, B–, O–, AB–
O– AB+, AB–, A+, A–, B+, B–, O+, O–
O–
Doador universal: AB+; Receptor universal: O-.
O sistema de grupo sanguíneo ABO é considerado o de maior importância do ponto de vista
transfusional, visto que os incidentes decorrentes de transfusões ABO incompatíveis são muito graves, podendo levar o indivíduo transfundido à morte. Assim, é importante atenção especial
nos testes pré-transfusionais e na checagem do hemocomponente pelo enfermeiro, a m de veri car se o rótulo da bolsa confere com os dados do paciente.
Além desse sistema sanguíneo, há outros sistemas sanguíneos que dão origem aos
chamados anticorpos irregulares. Estes são encontrados no soro ou plasma, que não sejam os de ocorrência natural (anti-A e anti-B). A imunização a antígenos pode ser resultado de gravidez e/ou transfusão de sangue prévia. Para tanto, antes de cada hemotransfusão, além da tipagem ABO/Rh, é realizada pesquisa desses anticorpos irregulares, além da prova cruzada. Caso a pesquisa dê um resultado positivo, o paciente será submetido a um estudo imunohematológico para descobrir qual o seu fenótipo para ser hemotransfundida uma bolsa o mais compatível possível.
PROCESSO DE DOAÇÃO DE SANGUE
A doação de sangue é o único modo de obtenção dos hemoderivados, visto que, atualmente, não há substâncias sintéticas que possam substituí-lo em todas as suas funções. A doação de sangue deve ser voluntária, anônima e altruísta, não devendo o doador, de maneira direta ou indireta, receber qualquer remuneração ou benefício em virtude da sua realização. No Brasil, atualmente, os esclarecimentos referentes aos processos de doação de sangue estão na Portaria no 2712, de 12 de novembro de 2013, que rede ne o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos. No Brasil, o candidato à doação de sangue ou componentes deve ter idade entre 16 anos completos e 69 anos, 11 meses e 29 dias. Os candidatos à doação de sangue menores de 18 anos, com idade entre 16 e 17 anos, devem ter consentimento formal por escrito de seu responsável legal para cada doação que realizar. De acordo com o Ministério da Saúde, a taxa de doação de sangue no Brasil é de 1,9%; ou seja, apenas 1,9% da população brasileira é doadora de sangue. Essa taxa de doação demonstra que o brasileiro não tem o hábito de doar sangue quando comparados com a taxa de doação de sangue de países desenvolvidos; portanto, é necessário que a população seja estimulada e haja conscientização de que o ato de doar sangue salva vidas e deve ser compartilhado por toda a sociedade. Trata-se de um ato de amor ao próximo e exercício de cidadania.
FLUXOGRAMA DO CICLO DO SANGUE
A doação de sangue inicia-se com o cadastro do candidato à doação na recepção do serviço de hemoterapia, com apresentação de documento o cial com foto. Depois de cadastrado, o candidato recebe um questionário que deverá ser respondido com toda a sinceridade e, feito
isso, assina um termo de consentimento livre e esclarecido, no qual declara consentir a doação de seu sangue, a realização dos testes laboratoriais, a inclusão do seu nome ao arquivo de doadores e o aceite de eventuais medidas contidas na legislação hemoterápica. Em seguida, o candidato à doação passa pela triagem clínica, sendo avaliado o seu estado de saúde e também seu estilo de vida com total sigilo das informações prestadas. Estando apto nesta etapa, o candidato à doação é orientado a realizar uma hidratação (ingestão de sucos) e, em seguida, é chamado pelos pro ssionais da sala de coleta de sangue. Seu sangue será extraído através de uma punção venosa. Após a doação, o doador é orientado a realizar um lanche completo na copa do serviço de hemoterapia.
TRIAGEM CLÍNICA DE DOADORES
A triagem de doadores é a atividade na qual avalia-se tanto o estado de saúde do candidato à doação quanto os fatores comportamentais do indivíduo que possam ser passíveis de risco para o receptor do sangue, o objetivo primordial é a segurança, de modo a impedir a transmissão de doenças durante o ato transfusional. É necessário que os pro ssionais responsáveis pela triagem de doadores de sangue sejam, de acordo com a legislação: pro ssional de saúde de nível superior, quali cado, capacitado, conhecedor das regras legais, e deve exercer suas atividades com supervisão médica. Este pro ssional avaliará o estado de saúde atual do candidato à doação por meio de aferição da pressão arterial, temperatura e teste de hemoglobina, a m de determinar se a coleta poderá ser realizada sem causar prejuízo ao doador e se a transfusão dos componentes sanguíneos a partir dessa doação pode vir a causar risco para o receptor. Como condições básicas para a doação de sangue, temos: estar bem de saúde, pesar mais de 50 kg, estar com a temperatura menor que 37,5°C, frequência cardíaca entre 50 e 100 bpm, pressão sistólica (90 a 180 mmHg) e diastólica (50 e 110 mmHg), hemoglobina das mulheres maior ou igual a 12,5 g/dℓ e nos homens maior ou igual 13,5 g/dℓ.
COLETA DE SANGUE
A coleta de sangue é realizada em condições assépticas (cuidadosa higienização), dando-se preferência à punção da veia cubital mediana, cuja área não deve ser palpada após a preparação da pele, sendo o sangue transferido para bolsas plásticas com anticoagulante em sistema fechado e estéreis, destinadas especi camente para esse m. O procedimento de coleta será realizado por pro ssionais de saúde treinados e capacitados, sob a supervisão de médico ou enfermeiro. O tempo ideal para a coleta do sangue é de até 12 min. Nesse momento, além de se
fazer a coleta de sangue do doador para bolsas plásticas, também são coletados tubos com amostras de sangue para realização de testes imuno-hematológicos e sorológicos.
TESTES IMUNO-HEMATOLÓGICOS E TESTES SOROLÓGICOS
Para quali cação do sangue do doador, a m de garantir a e cácia terapêutica e a segurança da futura doação, são realizados os seguintes exames imuno-hematológicos: tipagem ABO, tipagem RhD e pesquisa de anticorpos antieritrocitários irregulares.
Além dos testes imuno-hematológicos, é obrigatória pela legislação a realização de exames
sorológicos laboratoriais de alta sensibilidade a cada doação, para detecção de marcadores para infecções transmissíveis pelo sangue, sendo estes para: sí lis, doença de Chagas, hepatites B e C, AIDS e HTLV I/II. Esses testes sorológicos baseiam-se na pesquisa de anticorpos contra antígenos virais presentes no soro do indivíduo infectado. Nos laboratórios do serviço de hemoterapia, são comumente empregados: ELISA (ensaio imunoenzimático), IFI (imuno uorescência indireta), WB (Western blot), aglutinação de partículas (látex ou gelatina) e PCR (reação em cadeia da polimerase). Em alguns laboratórios, também são realizados testes de detecção de ácidos nucleicos do vírus (NAT), que visa reduzir o período de “janela imunológica” entre a infecção e a detecção dos anticorpos especí cos produzidos pelo sistema imunológico. Em amostras nas quais os resultados forem positivos, deverá ser coletada uma nova amostra do doador e realizados novamente os testes sorológicos, além do NAT.
SERVIÇO DE HEMOTERAPIA
O serviço de hemoterapia é também denominado banco de sangue e desenvolve atividades de hemoterapia. É parte da estrutura hospitalar, com uma função de grande relevância no cumprimento da política nacional de sangue, hemocomponentes e hemoderivados, no que se refere a captação, proteção ao doador e ao receptor, coleta, processamento, estocagem, distribuição e transfusão de sangue, de seus componentes e derivados, originados do sangue humano venoso e arterial, para o diagnóstico, a prevenção e o tratamento de doenças.
O serviço de hemoterapia é uma área de competência multipro ssional, sendo atuantes:
médicos, enfermeiros, farmacêuticos, biomédicos, biólogos, assistentes sociais, técnicos em hemoterapia, técnicos de enfermagem, auxiliares de limpeza e higienização, assistentes administrativos etc.
HEMOTERAPIA
Hemoterapia, também conhecida como medicina transfusional, tem como função o tratamento de doenças por meio do uso do sangue – sejam hemocomponentes e/ou hemoderivados.
HEMOCOMPONENTES
São produtos obtidos a partir do fracionamento do sangue total, após processos físicos, tais como sedimentação, centrifugação ou congelamento.
Há dois meios de obtenção dos hemocomponentes: a coleta do sangue total e a coleta por
meio de aférese (procedimento caracterizado pela retirada do sangue do doador, seguida da separação de seus componentes por equipamento próprio, retenção da porção do sangue que se deseja retirar na máquina e devolução dos outros componentes ao doador).
Os hemocomponentes produzidos nos serviços de hemoterapia são:
• Eritrocitários: concentrado de hemácias (CH)
• Plasmáticos: plasma fresco congelado (PFC), plasma isento de crioprecipitado (PIC), plasma
fresco congelado de 24 h (PFC24) e o crioprecipitado (CRIO)
• Plaquetários: concentrado de plaquetas (CP).
Na hemoterapia moderna, o hemocomponente é usado de maneira racional (transfundindo
apenas o componente que o paciente necessita), não sendo mais indicado o uso do sangue total na atualidade. A solicitação de transfusão deve ser prescrita somente por médico.
INDICAÇÕES DE USO DOS HEMOCOMPONENTES
• Concentrado de hemácias: utilizados em casos de anemias com hipoxia tecidual
considerável, com comprometimento das funções vitais e em casos de hemorragias agudas
• Plasma fresco congelado: sua indicação está relacionada com a prioridade em conter as
proteínas da coagulação. São utilizados em: sangramento ou risco de sangramento causado por de ciência de múltiplos fatores da coagulação, sangramento grave por uso de anticoagulantes orais antagonistas da vitamina K (varfarina) ou necessidade de reversão urgente da anticoagulação, púrpura trombocitopênica trombótica (PTT)
• Crioprecipitado: utilizado em tratamento de hipo brinogenemia congênita ou adquirida,
dis brinogenemia ou de ciência de fator XIII, quando da inexistência de fator VIII recombinante e derivados de fator XIII pós-inativação viral
• Concentrado de plaquetas: a principal indicação clínica para o seu uso é em casos de
plaquetopenias por falência medular.
HEMODERIVADOS
São produtos obtidos através de processo físico e químico de processamento do plasma, produzidos industrialmente. São eles: fatores de coagulação (VII, VIII e Feiba® [complexo protrombínico parcialmente ativado]), albumina e globulinas.
TRANSFUSÃO DE SANGUE
A transfusão de sangue nem sempre foi do modo como é atualmente. No século 17, Richard Lower realizava experimentos de transfusão entre animais; mais tarde, em 1667, Jean Baptist Denis realizou transfusão de sangue de animais em humanos. No entanto, a transfusão com bases racionais foi realizada por James Blundell, um obstetra em Londres, principalmente para intervenções em mortes por hemorragias pós-parto que lhe incomodavam muito. Nos dias atuais, a transfusão de sangue e seus componentes são realizados buscando a total segurança do ato. No Brasil, a transfusão de sangue e seus componentes devem ser utilizados criteriosamente na medicina, uma vez que toda a transfusão traz em si um risco ao receptor, seja imediato ou tardio, devendo, portanto, ser indicada de maneira criteriosa.
TRANSFUSÃO DE EMERGÊNCIA
Na hipótese de transfusão de emergência, quando não houver tempo para tipagem do sangue do receptor, é recomendável o uso de hemácias O RhD-negativo. Estando o médico solicitante ciente dos riscos das transfusões e responsável pelas consequências do ato transfusional, e assinado um Termo de Responsabilidade para transfusão sem prova cruzada.
Na hipótese da inexistência de hemácias O RhD-negativo em estoque su ciente no serviço
de hemoterapia, poderá ser usado O RhD-positivo, sobretudo em pacientes do sexo masculino ou em pacientes de qualquer sexo com mais de 45 anos de idade. Observação: a equipe médica deve observar que, na maioria das emergências, pode-se realizar a tipagem ABO do receptor, possibilitando o uso de sangue do mesmo grupo do paciente.
A liberação do sangue para o paciente nessa situação não dispensa a realização de testes
pré-transfusionais, que deverão ser realizados em amostra coletada recentemente do paciente.
TRANSFUSÃO MACIÇA
Entende-se por transfusão maciça o paciente que tiver recebido sangue total ou concentrado de hemácias aproximadamente igual à sua volemia, em período inferior a 24 h; ou, ainda, o paciente que tiver recebido mais de 10 unidades de sangue total ou concentrado de hemácias em período inferior a 24 h.
TRANSFUSÃO EM CRIANÇAS
A indicação da dose e o modo de administração de transfusão de concentrado de hemácias em pediatria seguem os mesmos princípios da transfusão em adultos, no que se refere a riscos e benefícios. Para crianças pequenas, a transfusão de 10 a 15 mℓ/kg de peso deve elevar hematócrito e hemoglobina em aproximadamente 6 a 9%/2,3 g/dℓ, respectivamente.
EXEMPLO DE ROTINA DE UMA UNIDADE DE HEMOTERAPIA HOSPITALAR
Ao iniciar a sua atividade, o funcionário do serviço de hemoterapia deve inspecionar o livro de ordens e ocorrências, veri car se todos os reagentes e demais insumos estão dentro da validade estabelecida e se estão em perfeito funcionamento. Bem como o perfeito funcionamento da cadeia de frios e aparelhagens.
É importante veri car o estoque de hemocomponentes.
Com a solicitação de transfusão, é necessário proceder da seguinte maneira:
• Coletar amostra recente do paciente para a realização dos testes pré-transfusionais,
identi cando os tubos no momento da coleta, com nome completo do receptor sem
abreviaturas, seu número de identi cação, identi cação do coletor e data da coleta. Tubos não identi cados corretamente não serão aceitos pelo serviço de hemoterapia. As amostras coletadas terão validade de 72 h
• Realizar a desinfecção da bancada de trabalho
• Para concentrado de hemácias, realizar: tipagem ABO (direta e reversa) e RhD e pesquisa de
anticorpos antieritrocitários irregulares no sangue do receptor; retipagem ABO (direta) e RhD do componente sanguíneo e a realização de uma prova de compatibilidade entre as hemácias do doador e o soro ou plasma do receptor (prova de compatibilidade maior)
• No caso de a pesquisa de anticorpos e a prova de compatibilidade estarem negativas, é
obrigatória a separação de um pedaço do segmento da bolsa, que deverá ser armazenado na geladeira do serviço de hemoterapia. Em seguida, o concentrado de hemácias poderá ser liberado após todos os dados do paciente, da bolsa a ser transfundida e dos testes pré-transfusionais terem sido registrados no livro de registro transfusional
• A bolsa disponibilizada para a transfusão deve ter rótulo ou etiqueta que indique: nome
completo do receptor; instituição de assistência à saúde, enfermaria ou leito em que se encontra o receptor; número de identi cação da bolsa de componente sanguíneo e sua tipagem ABO e RhD; conclusão do teste de compatibilidade maior; data do envio do hemocomponente para transfusão e nome do responsável dos testes pré-transfusionais e pela liberação do componente sanguíneo
• Registrar a bolsa liberada em livro de protocolo, que deverá ser assinado e carimbado pelo
enfermeiro; registrando neste a hora da entrega do hemocomponente
• Acondicionar o componente em caixa de transporte própria, transportando o componente
com todo o cuidado, entregando-o ao enfermeiro da enfermaria na qual o paciente se encontra
• Ao retornar ao serviço de hemoterapia, proceder à desinfecção da bancada de trabalho e ao
armazenamento dos reagentes utilizados em geladeiras próprias para o seu armazenamento.
Observação. Para componentes plaquetários e plasmáticos, não há necessidade da realização de prova de compatibilidade antes da transfusão. Esses componentes devem ser preferencialmente isogrupo ou ABO compatíveis.
PROCEDIMENTOS ESPECIAIS
Em alguns casos, os hemocomponentes devem passar por procedimentos especiais, que são realizados pela equipe de hemoterapia antes da expedição do hemocomponente. São eles:
• Deleucotização: procedimento realizado por ltros especí cos (de bancada ou beira de
leito) para remoção de leucócitos do doador de um componente sanguíneo. É indicado na prevenção de complicações relacionadas com transfusão de hemocomponentes alogênicos; na prevenção de aloimunização; na prevenção de transmissão de vírus (p. ex., CMV); e na prevenção de reação febril não hemolítica
• Irradiação: é realizada para a prevenção da doença enxerto versus hospedeiro associada à
transfusão, por meio da inativação dos linfócitos pela irradiação
• Lavagem em solução salina: realizada com a nalidade de eliminar o maior volume
possível de plasma. Indicada em pacientes com antecedentes de reações alérgicas graves, associadas a transfusões não evitadas com uso de medicamentos.
ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM NO ATO TRANSFUSIONAL
A resolução do COFEN 306/2006 regulamenta o exercício da equipe de enfermagem no ato transfusional, sendo necessária a implantação, em todas as unidades de saúde onde se realiza o ato transfusional, de uma equipe de enfermagem capacitada e habilitada para execução desta atividade. De acordo com a resolução, o ato transfusional consiste nas seguintes etapas: recebimento da solicitação; identi cação do receptor; coleta de amostra e encaminhamento para liberação do produto solicitado; recebimento do hemocomponente/hemoderivado solicitado e checagem dos dados de identi cação do produto e receptor; instalação e acompanhamento de hemocomponente/hemoderivado solicitado; identi cação e
acompanhamento das reações adversas; descarte dos resíduos produzidos na execução do ato transfusional, respeitando-se as normas técnicas vigentes e registro das atividades executadas. Como os pro ssionais de enfermagem de nível médio e os enfermeiros são os responsáveis pelo ato transfusional, suas atividades serão desenvolvidas de acordo com a Lei do Exercício Pro ssional, sob a supervisão e orientação do enfermeiro do setor de hemoterapia.
CUIDADOS NO ATO TRANSFUSIONAL
• Todo o sangue coletado de doadores é testado para HIV, HTLV, doença de Chagas, sí lis,
hepatites B e C
• Toda transfusão implica riscos: doenças transmissíveis pelo sangue, reações transfusionais,
aloimunização
• Conhecer a condição clínica prévia do paciente
• Garantir a instalação de um produto compatível
• Acompanhar o ato transfusional
• Detectar precocemente sinais de reações adversas
• Obter dados para avaliação da resposta à terapêutica
• Conhecer os hemocomponentes transfundidos.
CUIDADOS PRÉ-TRANSFUSIONAIS
• As amostras devem ser transportadas em recipiente próprio e armazenadas por até 72 h
• Em casos de dúvidas ou discrepâncias, deve ser obtida uma nova amostra
• A amostra deve ser exclusiva para testes pré-transfusionais
• Aplicação da técnica correta de coleta e de homogeneização
• Antes de a amostra de sangue ser enviada, con rmar os dados na solicitação transfusional
com os dados no tubo e da prescrição médica
• Encaminhar para a o laboratório de imuno-hematologia para preparação do
hemocomponente.
INSPEÇÃO DO HEMOCOMPONENTE ANTES DE TRANSFUNDIR
• Conferir as informações do rótulo, da requisição, da prescrição médica e do receptor
• Conferir o grupo sanguíneo do paciente no prontuário
• Avaliar as condições do hemocomponente:
○ Cor do hemocomponente
○ Integridade do sistema: unidade/bolsa
○ Integridade do hemocomponente: presença de hemólise, de coágulos e/ou grumos
○ Data e hora de validade
○ Procedimento especial.
CONTATO COM PACIENTE/RECEPTOR
• Apresentação do pro ssional
• Veri car o estado geral do paciente
• Consentimento informado: o paciente tem direito à recusa
• Con rmação dos dados de identi cação
• Pergunte: “Qual é o seu nome? Qual é o seu grupo sanguíneo?”
• Paciente torporoso: veri que outras fontes de identi cação – pulseira de identi cação,
presença de cuidador ou familiar
• Veri cação dos sinais vitais pré e pós-transfusão e registro em prontuário
• A identi cação do receptor que consta na bolsa deve ser conferida com a identi cação
do paciente
• Em caso de qualquer discrepância, a transfusão deve ser suspensa até que haja
esclarecimento
• Monitorar os primeiros 10 min ao lado do paciente.
TEMPERATURA AXILAR (TAX)
• Tax elevada: acima de 37,5°C
○ Solicitar avaliação médica
○ Retardar a infusão, se possível
○ Caso urgência: antitérmico; compressas frias
○ Iniciar a infusão
○ Veri car a Tax: de 30 em 30 min
○ Interromper caso elevação > 1°C
○ Comunicar médico
• Tax baixa: abaixo de 36°C
○ Avaliação médica
○ Aquecer o paciente
○ Infusão em gotejamento lento.
PRESSÃO ARTERIAL ELEVADA – ACIMA DE 140 × 90 mmHG
• Avaliação médica
• Retardar a infusão
• Caso de urgência: administrar medicação sintomática prescrita
• Iniciar infusão lentamente
• Paciente sentado/Fowler
• Monitorar pressão arterial (PA) durante a transfusão
• Interromper caso haja elevação da PA.
ACESSO VENOSO PERIFÉRICO
• Escolher acesso: calibre adequado (cateter intravenoso – Jelco® 20 ou 22) e possível, maior
mobilidade e conforto
• Antissepsia rigorosa
• Manter acesso com (SF; NaCl 0,9%)
• Não apertar a bolsa de transfusão caso o acesso seja difícil.
ACESSO VENOSO PROFUNDO
• Respeitar as técnicas assépticas de manipulação
• Manter acesso com SF
• Realizar ush com SF após cada transfusão.
ATENÇÃO
• Não colocar o equipo na bolsa de sangue antes da veri cação dos sinais vitais
• Ao instalar, registrar horário de início da hemotransfusão e os sinais vitais pré-transfusão
• Não esperar o concentrado de hemácias adquirir a temperatura ambiente para instalar.
Caso não vá instalar o concentrado no período de 30 min, devolvê-lo ao banco de sangue.
CUIDADOS DURANTE A TRANSFUSÃO
Durante a transfusão, o paciente deverá ser periodicamente observado para possibilitar a detecção precoce de eventuais reações adversas.
CUIDADOS PÓS-TRANSFUSIONAIS
A infusão de qualquer hemocomponente não deve exceder 4 h. O tempo ideal de infusão é de:
• Concentrado de hemácias, de 1 a 2 h
• Concentrado de plaquetas, de 20 a 30 min
• Plasma, em 1 a 2 h.
Ao nal da transfusão, é necessário registrar os sinais vitais completos e o horário de
término da transfusão.
CONDUTA DE ENFERMAGEM FRENTE A INTERCORRÊNCIAS NA TRANSFUSÃO
• Interromper imediatamente a transfusão ao primeiro sinal de reação e comunicar o médico
responsável pela transfusão
• Manter acesso venoso com solução salina a 0,9%
• Manter cabeceira elevada e instalar cateter de O2 se houver insu ciência respiratória
• Veri car os sinais vitais do paciente, anotando em prontuário
• Veri car todos os registros, formulários e identi cação do receptor, bem como veri car, à
beira do leito, se o hemocomponente foi corretamente administrado ao paciente conforme o desejado
• Avaliar a reação, manter o equipo e a bolsa intactos e encaminhar esse material ao serviço
de hemoterapia
• Administrar a medicação prescrita conforme critérios clínicos e/ou hemoterápicos
• Observar o volume e a coloração da diurese para veri car alteração
• Coletar e enviar amostra de sangue e/ou urina para o laboratório clínico, quando indicado
pelo médico
• Registrar as ações no prontuário do paciente.
REAÇÕES TRANSFUSIONAIS IMEDIATAS
As reações transfusionais imediatas são as intercorrências que acontecem como consequência da transfusão sanguínea durante ou após a sua administração, em um período de até 24 h da transfusão, diferentemente das reações transfusionais tardias, cujas intercorrências são veri cadas após 24 h da transfusão. As reações transfusionais são classi cadas em dois grupos: imune e não imune.
REAÇÃO SINAIS E CONDUTA PREVENÇÃO
SINTOMAS
Hemolítica aguda Inquietação, Medidas intensivas e Atenção! relacionada com ansiedade, dor, de suporte incompatibilidade Identi cação correta febre, hipotensão e
ABO Manter diurese de do paciente calafrios
100 mℓ/h
Infusão lenta dos
primeiros 50 mℓ
Febril não hemolítica Aumento da Antipirético, Uso de ltro de
temperatura de 1°C, antiemético leucócitos para casos calafrios, tremores, recorrentes
cefaleia, náuseas,
vômito
Alérgica (leve, Prurido, urticária, A maioria é benigna Anti-histamínico moderada, grave) eritema, pápulas, e pode cessar sem antes das próximas
tosse e rouquidão tratamento anti- transfusões
histamínico
Casos graves:
lavagem do HC
Sobrecarga volêmica Hipertensão Suporte de O2 e Controle da
diuréticos velocidade de
Aumento de 30 infusão mmHg na sistólica
ou diastólica
TRANSMISSÃO DE DOENÇAS PELA TRANSFUSÃO
As infecções transmitidas pelo sangue são inúmeras, no entanto, podemos citar as hepatites B e C, os HIV-1 e 2, vírus linfotrópicos humanos de células T (HTLV) I e II, doença de Chagas e malária transfusional, contaminação bacteriana de hemocomponentes, sí lis, herpes-vírus, príons (partículas proteicas infecciosas menores que vírus), citomegalovírus, parvovírus e outras doenças infecciosas.
TRANSPORTE DE HEMOCOMPONENTES
Os hemocomponentes são transportados, pelos funcionários do serviço de hemoterapia, em caixas apropriadas para esse m, com extremo cuidado, pelo fato de o sangue ser um tecido vivo. Esses hemocomponentes devem ser corretamente identi cados. No rótulo de identi cação do componente a ser transfundido, deverá constar: nome completo do receptor, enfermaria ou leito em que se encontra o receptor, registro e tipagem ABO e RhD do receptor, número de identi cação da bolsa de componente sanguíneo e sua tipagem ABO e RhD, conclusão do teste de compatibilidade, data do envio do componente sanguíneo para transfusão e nome do responsável pela realização dos testes pré-trasnfusionais e pela liberação do componente sanguíneo. Todos esses dados devem ser conferidos pelo pro ssional de enfermagem antes da transfusão.
DESCARTE DE RESÍDUOS DE HEMOTERAPIA
• Os hemocomponentes que forem suspensos por causa de reação transfusional devem
ser devolvidos, mantendo transporte pelo banco de sangue
• Os hemocomponentes que excederem o tempo de infusão devem ser devolvidos,
mantendo transporte pelo banco de sangue
• Não descartar a bolsa com resíduo de mais de 50 mℓ de sangue
• Descartar o resíduo da transfusão em saco de lixo infectante.
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