Inteligência Ecológica
0 Ensopado Químico 127
Aqui, o velho slogan da década de 1960, "Poder às pessoas", ganha nova força, conferindo poder aos executivos que prom ovem práticas de m ercado m ais verdes, lim pas e hum anitárias.
A transparência radical prom ete criar um m ecanism o de m ercado que potencialize as consequências das escolhas dos consum idores: cada com pra individual, agregada a todas as outras, torna-se equivalente ao núm ero de votos para a natureza das m ercadorias que com pram . À m edida que as em presas respondem introduzindo m elhorias exigidas pelos consum idores, eles podem se sentir fortalecidos, ao perceberem que suas opções éticas são im portantes.
"Você poderia argum entar que seu vidro de m olho de tom ate dá um a contribuição banal, m as os im pactos totais dessa m arca resultam da som a de m ilhões de decisões com o a sua", diz Gregory Norris. "Se puderm os encontrar um a opção m elhor, ganharem os um voto, e todos os votos contam . Dizer que m inhas opções de com pra não são im portantes é com o dizer que não im porta em quem eu voto. As nossas com pras é que im pulsionam a m áquina industrial. As em presas m e dizem : 'Só com eço a prestar atenção quando o consum idor passa a se im portar.—
A sabedoria convencional prevê um a possível calm aria para as em presas que adotarem produtos e processos verdes não apenas em econom ias diretas dos custos de energia, m as tam bém em produtos e processos inteligentes que inovem e resolvam problem as ecológicos. Entretanto, vista de outra perspectiva, a atual m aré de atividade concentrada no aquecim ento global é apenas a prim eira de um a série de ondas que provavelm ente inundarão as em presas no futuro próxim o.
Hoj e, a m aior parte dos produtos com ercializados utiliza a quím ica industrial do século XX. O século XXI trará, inevitavelm ente, um a com preensão m ais apurada da interação entre os ingredientes m ais utilizados e a biologia hum ana. Dado o inexorável avanço da ciência, a im plicação de algum as dessas substâncias em processos que provocam doenças acabará sendo revelada.
O m edo do aquecim ento do planeta ressoa na batida constante do tam bor das descobertas científicas, que chegam aos m eios de com uni cação acom panhadas de um a nova onda de alarm e. Porém , por trás da atual onda de tem ores a respeito do aquecim ento global, a próxim a onda a nos aterrorizar parece estar se form ando um pouco m ais ao largo. Um a força inexorável que provoca essas ondas é a repercussão dos acelerados avanços científicos. Outra vem de zonas de transparência cada vez m aiores, geradas pela disponibilidade de inform ações.
Por exem plo, associe-se a transparência radical às descobertas da m edicina sobre as substâncias quím icas industriais e podem os ver que um a onda provável será form ada por alarm es sobre as toxinas: haverá suspeitas a respeito de um núm ero m aior de com postos que hoj e são ingredientes com uns nos produtos de consum o. Essas suspeitas podem se espalhar tam bém para com postos quím icos industriais aparentem ente inócuos apenas porque os padrões de toxicidade de am anhã talvez sej am m ais rígidos do que os de hoj e, j á que m ais inform ações são divulgadas e a percepção de perigo por parte do público tende a aum entar.
Outro m otivo pelo qual essa pode ser a próxim a grande onda: ainda que o aquecim ento global e outros perigos planetários tenham chegado às m anchetes, parecem atuar em um a escala dem asiadam ente grande, e ao longo de períodos dem asiadam ente extensos para afetar o dia a dia das pessoas. No entanto, quando se trata de proteger a própria saúde e a dos entes queridos, as pessoas passam a prestar m ais atenção.
Vej am os o caso de um saco de pipoca de m icro-ondas sabor m anteiga. O rótulo garante aos com pradores que o produto contém zero de gordura trans e "zero m g de colesterol". No entanto, a lista de ingredientes não m enciona que o sabor e o arom a de m anteiga, que nos fazem ficar salivando, são cortesia do diacetil, arom atizante artificial que os especialistas em pulm ão há m uito sabem ser causador da bronquiolite obliterante, doença em que as passagens aéreas no pulm ão ficam inflam adas e acabam sendo obstruídas. As vítim as conseguem inspirar profundam ente, m as têm grande dificuldade de expirar. A doença - conhecida tam bém com o "pulm ão de pipoca"' - j á provocou a m orte de pessoas que trabalham em fábricas de pipoca ou em fábricas que produzem balas e produtos de confeitaria, e até m esm o ração para cães, onde o diacetil é usado com o arom atizante.2
Nosso canário na m ina de carvão foi Way ne Watson, de Centennial, Colorado. Quando Watson recebeu o diagnóstico de doença pulm onar, seus m édicos alertaram os órgãos federais de que a am eaça havia saltado os m uros da fábrica e chegado aos lares dos consum idores. Rapidam ente, o alarm e público resultante levou os quatro m aiores fabricantes de pipoca de m icro-ondas dos Estados Unidos a anunciar a retirada do diacetil da lista de ingredientes do produto.'
Na natureza, o diacetil ocorre em baixos níveis na m anteiga, no queij o e em algum as frutas, m as não oferece perigo. Os fabricantes de pipoca não estavam violando a lei ao usar o diacetil; o FDA aprovou seu uso. E Way ne Watson havia corrido um risco incom um ; ganhou o apelido de "Sr. Pipoca", porque devorou dois ou três sacos de pipoca por dia durante 10 anos. Adorava especialm ente encher os pulm ões inalando profundam ente o arom a de m anteiga no m om ento em que abria o saco de pipoca - em outras palavras, a dose m ais forte possível.
Seu fetiche alim entar foi a receita para o desastre. Quando aquecido, o diacetil torna-se um vapor, form a que representa um perigo para o pulm ão. Se inaladas durante um longo período, doses concentradas desse vapor provocam a doença. Quando seu m édico foi à sua casa e m ediu os níveis de diacetil no ar, logo após o preparo da pipoca, descobriu que eram tão elevados quanto os da fábrica de pipoca.
Desse m odo, devíam os evitar o cheiro da pipoca com diacetil? Talvez sim . Talvez não. Com o trouxe um a reportagem sobre o caso: "Não há advertência dos reguladores federais, tam pouco conselhos m édicos sobre com o os consum idores devem tratar a notícia." Esse é o problem a. Os padrões que o FDA, a indústria alim entícia e até m esm o os m édicos adotam para determ inar a segurança do consum idor nem sem pre correspondem às recom endações dos cientistas que estudam os im pactos das inúm eras substâncias quím icas às quais som os expostos.
Afinal, o que querem os dizer com "tóxico"? A pergunta atinge o âm ago de um a batalha relacionada às substâncias quím icas industriais, travada há décadas entre os especialistas em saúde pública e a indústria quím ica. A batalha gira em torno de um a pergunta que pode ser respondida de diversas m aneiras: Quais com postos são tóxicos para quem e em que circunstâncias?
A Flavor and Extract Manufacturers Association calcula que m ais de m il ingredientes arom atizantes e sabores artificiais podem im por riscos respiratórios aos trabalhadores.4 Ninguém sabe ao certo quantos outros com postos quím icos com possíveis riscos existem nos obj etos que utilizam os e alim entos que ingerim os rotineiram ente. Estim ativas bem fundam entadas calculam que o núm ero de com postos quím icos produzidos pelo hom em chega a 104 m il.5 Desses com postos, 10 m il são usados anualm ente em volum es superiores a 10 toneladas. Apenas um a pequena fração dessas substâncias quím icas usadas rotineiram ente passou por testes que avaliaram sua toxicidade para adultos; para fetos e bebês, a fração é m enor ainda.
No que diz respeito ao possível dano causado por substâncias quím icas no que com pram os, usam os e possuím os, em bora desconfiem os da existência de diversos perigos, m uitos ainda não foram "com provados", no sentido de se chegar a um consenso sobre um veredicto. À exceção de um a subclasse relativam ente pequena de substâncias quím icas, com o doses concentradas de diacetil vaporizado, a cadeia de causalidade do com posto quím ico X para a doença X em quase todos os casos ainda precisa ser investigada e definida.
Quando se trata de saber qual ingrediente poderia constituir um a am eaça à saúde, trata-se basicam ente de um j ogo de adivinhação. Em alguns casos, a ciência pode identificar determ inados efeitos danosos de toxinas específicas e sugerir um cam inho coerente com esses resultados m édicos. No entanto, a m aior parte da apreensão concentra-se no sim ples fato de que nenhum a substância quím ica sintética faz parte do organism o e, em níveis elevados ou em várias com binações, sua presença talvez não sej a boa.
No entanto, nem sem pre a ciência é capaz de prever os efeitos específicos que essas exposições terão em determ inada pessoa; o labirinto biológico do corpo é sim plesm ente com plexo dem ais. Esses com postos quím icos afetam os tecidos de diversas m aneiras. Alguns im itam a estrutura m olecular dos horm ônios do próprio organism o e acabam se aloj ando no sistem a endócrino; outros im itam os m ensageiros quím icos que m antêm as células do cérebro e do corpo funcionando adequadam ente. Alguns são prontam ente absorvidos na gordura corporal, enquanto outros - em especial os vários com postos quím icos produzidos a partir do petróleo -vazam prontam ente pelas m em branas que envolvem as células (os com postos quím icos baseados em petróleo abrigam anéis carcinogênicos de benzeno). Um a vez absorvidas nos tecidos orgânicos, essas substâncias quím icas podem causar destruição de diversas m aneiras - e nem todas são im ediatam ente óbvias.
A SÍNDROME INFLAMATÓRIA
Se você quiser saber quais com postos quím icos industriais Michael Lerner ou sua esposa, Shary le Patton, carregam em seu organism o, visite a página www.body burden.org. Lerner e Patton são ativos na área de saúde am biental, cam po que estuda os im pactos dos subprodutos quím icos da indústria e do com ércio sobre o corpo hum ano. Eles postaram suas análises na Web com o parte de um a cam panha de conscientização.
Lerner, ao que parece, apresenta níveis relativam ente elevados de m etilm ercúrio, arsênico inorgânico e bifenis policlorados (m ais conhecidos com o PCBs). Esses são apenas alguns dos 102 com postos quím icos industriais dos 214 avaliados ao se m edirem os m etabólitos presentes no sangue e na urina de Lerner.
O corpo de Patton, além desses com postos, apresenta níveis relativam ente altos de dioxinas cloradas, além das doses generosas de outras que não apareceram nos exam es realizados pelo m arido.
Os bancos de dados m édicos associam , com graus variados de certeza, cada um desses com postos a um conj unto específico de doenças. O arsênico inorgânico é um conhecido carcinógeno. O BPA (bisfenol-A), encontrado nos plásticos, em selantes dentais e no revestim ento das latas de estanho, é um com posto suspeito em determ inados defeitos congênitos e atrasos de desenvolvim ento em crianças, em alguns tipos de câncer e em perturbações no sistem a endócrino e horm onal. Tanto as dioxinas cloradas quanto os PCBs chegam até nós principalm ente por interm édio de carnes gordurosas, laticínios e peixes; assim com o o BPA, podem ser associados a defeitos e atrasos de desenvolvim ento em crianças e ao câncer, bem com o a disfunções nos sistem as nervoso e im unológico. Os resíduos do pesticida penetram em nosso organism o através dos alim entos nos quais são usados, bem com o da água que bebem os, e são associados a um a lista de doenças sem elhantes.
A análise da lista de 214 com postos industriais produz a terrível sensação de que nada é seguro: as toxinas flutuam na poeira do ar, na água e no solo, ou desprendem -se de um a longa ladainha de obj etos que vão de tintas a carpetes, passando por consoles de com putador e m óveis.
O organism o é um tipo de ecossistem a, um a m assa singularm ente coordenada de unidades distintas que operam dentro do todo. E, com o qualquer ecossistem a, o corpo pode ser invadido por substâncias estranhas que atrapalham esse trabalho. A quantificação dos invasores existentes em nosso corpo é o alvo dos estudos sobre bioacum ulação com o aqueles dos quais Lerner e Patton participaram , na tentativa de avaliar esse acúm ulo biológico ao longo da vida. A bioacum ulação conquistou lugar de destaque na ciência m édica, e os estudos sugerem que praticam ente todas as pessoas vivas no planeta abrigam um "ensopado" de substâncias tóxicas.
Hoj e, m ilhares de pessoas j á foram testadas, e os exam es revelaram que todos abrigam um a ou outra versão desse ensopado m olecular. Atualm ente, o program a de biom onitoram ento dos Centros para Controle de Doenças dos Estados Unidos tem um grande proj eto que m ede a exposição das pessoas a substâncias tóxicas avaliando os m etabólitos de toxinas presentes no sangue e na urina. Isso produz um quadro detalhado do que realm ente foi absorvido por nosso organism o e do que está a nosso redor. Essa providência - no sentido de m edir os poluentes na água, no ar ou no solo para analisar o que se m isturou em nossa biologia - provocou alterações sem elhantes na m aneira de pensar sobre a etiologia m édica e o risco quím ico.
Um m odelo m édico em ergente dessas invasões quím icas afirm a que os efeitos prej udiciais podem surgir lentam ente, ao longo de décadas, provenientes da exposição cum ulativa a substâncias quím icas em doses tão baixas que são m edidas em partes por m ilhão. Para a toxicologia, isso m arca o afastam ento da abordagem tradicional de buscar o risco de um com posto quím ico apenas em altas doses, a partir de exposições de curto prazo. O m odelo altas doses/curta exposição aplica-se m elhor, digam os, a um pintor que usa solventes em seu trabalho. Entretanto, o m odelo alternativo de baixas doses ao longo de décadas parece m ais adequado a um a criança que cresce com pequenas exposições diárias a com postos quím icos perigosos provenientes de obj etos utilizados no dia a dia - ou a qualquer um de nós.
Por exem plo, hoj e há um consenso em ergente em oncologia de que a exposição de um a pessoa, ao longo da vida, a baixas doses de diversos agentes carcinógenos pode ser tão tóxica quanto a exposição a altas doses, por m enos vezes. Esse m odelo de causação rej eita a busca de um único culpado - um a substância que, em si, seria causadora do câncer - e se volta para a análise da exposição cum ulativa de um a pessoa, ao longo da vida, a um a am pla variedade de substâncias quím icas que provocam m utações celulares. Esse ataque contínuo de m utagenes pode finalm ente sobrecarregar a capacidade do sistem a im unológico de elim inar as células m utantes e, assim , resistir ao câncer. Nosso risco de câncer, desse ponto de vista, reflete a som a total das doses diárias de m oléculas carcinogênicas existentes no ar, nos alim entos e na água.
Martha Herbert, neuropediatra da Harvard Medical School, m enciona as dezenas de m ilhares de com postos m anufaturados que hoj e são encontrados na natureza em cerca de três bilhões de possíveis com binações, e o fato de ninguém conhecer ao certo todas as m aneiras com o essas m isturas quím icas poderiam afetar o desenvolvim ento neural do bebê.6 Um dos m aiores riscos desse ensopado de m oléculas para o ser hum ano, pondera Martha, ocorre quando os órgãos, o sistem a nervoso central e o m etabolism o acelerado das crianças são expostos a pequenas quantida des de m oléculas estranhas - e as incorporam vorazm ente -, sustentando o dano biológico que só se m anifestará anos m ais tarde.
O cérebro tem um a vulnerabilidade especial à interferência dos com postos quím icos invasores porque, entre todos os órgãos, é o que utiliza a m aior variedade de m oléculas para enviar m ensagens quím icas que coordenam nossa vida m ental e nossas funções biológicas. Esse próprio design significa que existem diversas outras m aneiras com o m oléculas de fora do corpo podem afetar o que se passa se resolverem interagir com um a das inúm eras reações quím icas neurais. Outro m otivo para a vulnerabilidade do cérebro é seu acelerado m etabolism o: o cérebro utiliza um terço do suprim ento de energia do organism o, e m ilhares de substâncias quím icas afetam seu funcionam ento m etabólico, que adm inistra com o nossas células lidam com a energia.7
Um a análise sofisticada realizada por Martha Herbert e colegas nos genes que costum am ser encontrados em pessoas autistas revelou que um grande núm ero nada tem a ver com os aspectos neurais específicos do autism o, m as refletem a vulnerabilidade da pessoa ao estresse am biental e à inflam ação.8 Martha propõe que as crianças autistas têm vulnerabilidade genética a perturbações, pelo m etabolism o, na m aneira com o suas células lidam com o oxigênio e produzem energia, e nas reações de seu sistem a im unológico a infecções e alérgenos.
Essas crianças não precisam ser subm etidas a estresse am biental intenso para desenvolver a doença. Dois fatores que podem levar a essa condição são inflam ação sistêm ica e o que cham am os de "estresse oxidante", quando o excesso de radicais livres - m oléculas que podem causar grandes estragos em nossas células - causa m utações no DNA e vulnerabilidade a doenças. Essas duas condições andam de m ãos dadas e, associadas a um a susceptibilidade singular proveniente de outros padrões genéticos, expressam -se no espectro das doenças relativas ao autism o (bem com o em sintom as aparentem ente não relacionados, com uns em crianças com autism o, com o diabetes, alergias e asm a).
"Estam os assistindo ao colapso da resiliência de nosso organism o, da capacidade física de nos recuperarm os dos desafios", afirm a Martha. Ela vê essa vulnerabilidade com o parte de um quadro m édico m aior, que poderia aj udar m uito a explicar o m istério dos m otivos pelos quais essas cham adas "doenças da civilização" são cada vez m ais com uns em sociedades afluentes e relativam ente raras nas m ais pobres. Entre elas, estão doenças endócrinas com o lúpus, esclerose m últipla e asm a.
Com o m e disse Martha Herbert, ela e seus colegas "com eçaram a se perguntar se todas essas diferentes doenças não seriam , na verdade, o m esm o processo biológico subj acente com resultados finais, visíveis, distintos. Estam os sem pre produzindo radicais livres e, na quantidade certa, eles fazem parte do equilíbrio das células. Se, contudo, eles superarem a capacidade do organism o de elim iná-los, haverá três consequências: inflam ação, estresse oxidante e enferm idades de form a geral".
O sistem a im unológico norm alm ente produz inflam ação duradoura ao com bater infecções, m as, quando ocorre um defeito na desativação da inflam ação, um a condição que deveria ser apenas tem porária torna-se constante. Martha Herbert explica: "Se os sistem as naturais que elim inam os radicais livres forem atingidos por um com posto quím ico que desacelere seu funcionam ento ou interfira de algum outro m odo, você ficará preso em um estado de estresse oxidante em que o nível de antioxidantes se torna traiçoeiram ente baixo, gerando estresse oxidante e inflam ação crônica."
O m odelo se enquadra em um a área da ciência biológica denom inada "epigenética", que estuda, entre outras dinâm icas do genom a, com o as m oléculas de dentro ou de fora do corpo ativam e desativam os genes. Entre os com postos quím icos que com provadam ente causam estresse oxidante e inflam ação crônica, segundo Martha, estão "chum bo, m ercúrio, álcool, diesel, pesticidas - a lista inclui centenas delas. Todos nós estam os sendo inflam ados por esse coquetel tóxico. Esse parece ser um cam inho com um para diversas doenças. Quanto m ais toxinas geram os, m ais cedo essas doenças ocorrerão, e m ais pessoas serão afetadas".
Parece haver um m om ento em que a carga de com postos quím icos prej udiciais do organism o supera a capacidade de lidar com eles. De form a irônica, nossa capacidade de lidar com esses com postos pode ficar paralisada diante dessa sobrecarga j ustam ente quando m ais precisam os dela. A doença específica resultante depende da substância à qual som os expostos e da reação genética singular de nosso organism o. Talvez, em algum as crianças, o resultado sej a o autism o. No entanto, outras pessoas, com perfil genético diferente, que tenham sido expostas em um m om ento diferente da vida, poderiam desenvolver um a gam a de problem as de saúde, desde diabetes e doença cardíaca isquêm ica até doença pulm onar obstrutiva crônica (DPOC) e asm a.'
Esse m odelo causal em ergente afirm a que todas essas doenças têm um a única fase inicial: a inflam ação crônica. Anos de inflam ação m inam os sistem as endócrino e cardiovascular, bem com o a capacidade do sistem a im unológico de com bater o desenvolvim ento de alguns tipos de câncer, enquanto a irritação constante do tecido pulm onar abre cam inho para a DPOC. Assim , hoj e, a m edicina propõe um novo term o: "síndrom e inflam atória sistêm ica crônica", que pode acabar colocando a vida em risco de diversas outras m aneiras.10
Vej am os a DPOC, precursora do enfisem a pulm onar, que sem pre foi visto com o o desolador quadro term inal dos fum antes. Um estudo de âm bito m undial sobre a DPOC gerou um resultado surpreendente: a crescente incidência de enfisem a em pessoas que nunca haviam fum ado." Um núm ero cada vez m aior de pessoas vive nas cidades, respirando um ar repleto de particulados; assim , m uitos não fum antes tam bém estão desenvolvendo DPOC. Som ente na China de hoj e, a exposição dos não fum antes aos vapores poluídos será responsável por quase dois m ilhões de m ortes, segundo um editorial sobre descobertas relacionadas à DPOC publicado no periódico The Lancet.'2
A DPOC reflete o acúm ulo da carga de exposição a irritantes pulm onares no ar - a descarga dos autom óveis, a fum aça do cigarro, poeira e com postos quím icos com o os que flutuam no escritório, gerados pela im pressora de seu com putador. Todos nós som os suscetíveis. Acredita-se que a incidência m undial de DPOC vá aum entar porque as partículas aerotransportadas, com o a fum aça das fábricas, a descarga dos autom óveis e os poluentes em am bientes fechados, estão aum entan do. A incidência de DPOC entre não fum antes na m eia-idade é igual à dos fum antes.
Nos casos em que o acúm ulo de exposições m ínim as ao longo da vida prepara o palco para a doença, qualquer exposição a substâncias quím icas capaz de exacerbar a inflam ação ou prej udicar o funcionam ento do organism o, de algum outro m odo, é um a preocupação para a saúde. Sob essa perspectiva, qualquer com posto quím ico sintético pode ser visto com o um j ogo com a natureza: Quem sabe quais reações biológicas im previsíveis ele pode provocar? Ninguém , pelo m enos no que diz respeito à m aioria das substâncias quím icas produzidas pelo hom em às quais o organism o é exposto diariam ente. Em nosso cotidiano, participam os do j ogo do acaso, esperando que as substâncias que entram na com posição das coisas que consideram os absolutam ente úteis não nos prej udiquem no longo prazo.
Os atuais padrões federais vigentes nos Estados Unidos para determ inar a toxicidade dos produtos baseiam -se no fato de exposições únicas a um a substância quím ica específica causarem ou não determ inado problem a à saúde. No entanto, um núm ero crescente de indícios m édicos sugere que as substâncias quím icas que encontram os ao longo de nossa vida podem se acum ular, causando doenças.
A form a de pensar dos reguladores a respeito da toxicidade dos produtos faz toda diferença em term os dos com postos aos quais acabam os nos expondo. Ao avaliar os com postos quím icos, os toxicologistas europeus com eçam m edindo a toxicidade inerente a determ inada substância. Em seguida, se houver potencial de toxicidade hum ana, um painel de especialistas pondera os indícios científicos, a fim de avaliar o potencial de danos da substância em análise. Os toxicologistas são guiados por um a abordagem em que é m elhor prevenir do que rem ediar - o cham ado "princípio da precaução" -, o que significa que, caso se desconfie que um com posto quím ico provoque danos, seu uso será proibido.
A abordagem utilizada nos Estados Unidos pressupõe que, m esm o que um com posto quím ico tenha algum a toxicidade inerente, seu uso em condições norm ais - ou, pelo m enos, em certas condições norm ais - ainda será considerado seguro.13 O governo norte-am ericano exige provas concretas de que as pessoas expostas àquele com posto sofreram algum dano e só então proíbe sua utilização. Às vezes, é difícil reunir provas definitivas; nos Estados Unidos, a lista de com postos quím icos considerados "seguros" é m uito m ais extensa do que na Europa. Resultado: os produtos norte-am ericanos contêm rotineiram ente inúm eros com postos quím icos (o m esm o se aplica a outros países com padrões sem elhantes, ou sem padrão algum ) que são proibidos nos países europeus.
O palco para esse dilem a foi m ontado tem pos atrás, por um a decisão tom ada em 1979, quando a recém -form ada Agência de Proteção Am biental dos Estados Unidos elaborou um a lista de aproxim adam ente 62 m il com postos quím icos e determ inou que poderiam continuar sendo usados sem a realização de qualquer tipo de teste ou análise. Entre esses com postos "apadrinhados", estavam algum as substâncias com provadam ente tóxicas, com o etil-benzeno, solvente industrial que, segundo estudos m édicos, é um a potente neurotoxina. No entanto, o problem a m ais perturbador, segundo um relatório elaborado pelo Governm ent Accounting Office, é que, 30 anos depois, a Agência de Proteção Am biental exigiu o teste de apenas algum as centenas desses com postos quím icos. Os outros continuam sendo um m istério.
Isso contrasta com a abordagem que vem sendo adotada na Europa por um program a intitulado Reach (Registration, Evaluation, and Authorization of Chem icals - registro, avaliação e autorização de com postos quím icos). O program a REACH tem um obj etivo am bicioso: testar e avaliar todas essas dezenas de m ilhares de com postos quím icos cuj a utilização foi perm itida pela Agência de Proteção Am biental em 1979 - além de todas as outras novas que vêm sendo utilizadas desde então, m as que ainda não foram rigorosam ente avaliadas por um órgão independente. A partir de 2009, a European Chem icals Agency com eçará a publicar um a lista de com postos quím icos a serem testados sucessivam ente, um a boa notícia aos fabricantes que pretendem com eçar a buscar alternativas. No caso dos com postos quím icos que fluem pela econom ia m undial, o pro gram a REACH gerará um novo tipo de tabela periódica, tabulando seu grau de risco, e não sua estrutura m olecular.
"Teoricam ente, concordo com o que o program a REACH está tentando fazer", com entou um toxicologista da Procter fr Gam ble. "Existem m uitos com postos quím icos hoj e que foram apadrinhados pelos sistem as regulatórios e sobre cuj a segurança existem poucos dados disponíveis. O program a REACH é um a m aneira de disponibilizar essa inform ação." A PEG, acrescentou, há tem pos tem os próprios padrões de segurança, independentem ente de o governo exigir o preenchim ento de form ulários sobre a toxicidade quím ica de com postos utilizados. Segundo ele, "nunca colocam os no m ercado um com posto quím ico que não fosse seguro".
Quando perguntei a outro toxicologista sobre a possibilidade de a exposição cum ulativa, ao longo da vida, a com postos quím icos considerados "seguros" provocar síndrom e inflam atória, ele respondeu que a ideia era novidade para ele. Com o cientista, ele levantou questões pragm áticas. Por exem plo, com o quantificar um a reação inflam atória nas pessoas e estabelecer, por m eio de estudos, um a relação definitiva entre o nível de inflam ação e o acúm ulo de com postos quím icos ao longo da vida de alguém . Sua conclusão: "Trata-se de um a teoria interessante, e adm ito que tem algum m érito. Mas as questões em píricas são m uitas. A ciência da toxicologia evoluiu ao longo dos últim os 20 anos. E desconfio que continuará evoluindo."
Alguns toxicologistas argum entam que pode haver um ponto cego na disciplina no que diz respeito ao ensopado de com postos quím icos que respiram os, bebem os ou absorvem os de outra m aneira ao longo da vida. Um passo para essa conscientização veio do periódico Neurotoxicology , que questionou os m étodos adotados durante décadas pelos toxicologistas para testar os riscos dos com postos quím icos.14 Deborah Cory -Slechta, toxicologista da Robert Wood Johnson Medical School, descobriu que a exposição de anim ais de laboratório aos pesticidas m aneb e paraquat causou degeneração nos circuitos de dopam ina subj acentes à doença de Parkinson em seres hum anos. O dano ocorria som ente se a exposição a um dos com postos fosse repetida (nesse caso, no útero e na idade adulta) ou por m eio da exposição aos dois pesticidas j untos. Paraquat e m aneb são m oléculas m uito distintas, m as a m istura, ou o núm ero de exposições, produziu os danos típicos da doença de Parkinson.
Descobertas desse tipo - e existem dezenas de outras exatam ente iguais a essas - criam um desafio no paradigm a da toxicologia: expor-se um a única vez a um desses com postos quím icos não gerou danos discerníveis. E, até esse ponto, o m étodo utilizado - avaliar os danos aos tecidos decorrentes da exposição a um a única substância quím ica ou um a classe de substâncias durante um período lim itado - tem sido o padrão de ouro nos testes da toxicidade de um com posto, nosso sinal de advertência inicial para proteção. No entanto, nada nos diz sobre a m aneira com o determ inado com posto quím ico poderia danificar um tecido se form os expostos a ele em associação com outros, ou ao longo de toda a nossa vida. A realidade é que nós todos som os continuam ente expostos a um grupo de com postos quím icos, situação para a qual os toxicologistas ainda não dispõem de um m étodo de avaliação.
Com o observa Cory -Slechta: os m étodos-padrão utilizados para avaliar níveis seguros de exposição a um com posto quím ico não abordam a realidade am biental. A sinergia entre os com postos quím icos sintéticos aloj ados em nosso organism o desafia o pressuposto subj acente aos cálculos das análises de risco. Em prim eiro lugar, esses testes sim plesm ente tentam verificar se um com posto m ata células. No entanto, doses m uito baixas podem não m atá-las e, ainda assim , danificar sua capacidade de enviar sinais a outras células ou interferir de outro m odo em seu funcionam ento. Além disso, acrescenta Cory -Slechta, a exposição de adultos saudáveis a um único com posto, um a só vez, nada nos diz sobre o im pacto dessa m esm a substância em crianças, portadores de doenças crônicas ou idosos - grupos m ais suscetíveis -, tam pouco sobre a realidade, digam os, do ar poluído que respiram os, um a m istura de diversos tipos de partículas m inúsculas cuj a com posição quím ica varia de um lugar para outro e de um dia para o outro.
Cory -Slechta afirm a diplom aticam ente a seus colegas neurotoxicologistas: "As inform ações sobre o escopo e a extensão da exposição quí m ica nos seres hum anos, ainda que estej am se tornando cada vez m ais disponíveis, continuam lim itadas." Cory -Slechta propõe um a m udança na form a de pensar adotada em sua disciplina para um m odelo no qual os insultos a diferentes alvos dentro de um sistem a biológico específico - sej a ao longo do tem po a partir de um a só m olécula ou em um único m om ento a partir de várias m oléculas -, danificam o sistem a biológico. Esse, acrescenta, seria o prim eiro e im portante passo para a principal m issão da toxicologia, qual sej a, proteger a saúde hum ana. À luz dessa nova ótica, os atuais m étodos podem oferecer proteção inadequada.