Inteligência Ecológica

Daniel Goleman · Capítulo 5 de 19

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Inteligência Ecológica

A Nova Matemática 46

1. Conheça seus im pactos.

2. Defenda m elhorias.

3. Com partilhe o que aprender.

Essa inteligência coletiva resultaria em um aperfeiçoam ento contínuo de nossa inteligência ecológica pela conscientização das verdadeiras consequências do que fazem os e com pram os; a determ inação de m udar para m elhor, e a divulgação dos conhecim entos adquiridos, para que os outros possam fazer o m esm o. Se cada um de nós, na colônia hum ana, seguir essas três regras sim ples, j untos poderíam os criar um a força que m elhorará nossos sistem as hum anos. Nenhum de nós precisa ter um plano-m estre ou com preender todos os conhecim entos essenciais. Todos nós estarem os cam inhando rum o à m elhoria contínua do im pacto hum ano sobre a natureza.

Os sinais dessa m udança na consciência coletiva j á são am plam ente visíveis em âm bito global, das equipes de executivos que trabalham para tornar as operações de sua em presa m ais sustentáveis aos ativistas do bairro que distribuem sacolas de com pras de tecido para substituir as sacolas plásticas - sem pre que as pessoas estão envolvidas na criação de um a m aneira de interagir com a natureza e transform ar nossa propensão aos ganhos im ediatos em um relacionam ento de longo prazo m ais saudável. Im portantes investigações sobre os inúm eros danos que a atividade hum ana im põe aos ecossistem as de nosso planeta, assim com o o crescente estudo sobre o aquecim ento global, são apenas o com eço. Esses esforços aj udam a aum entar nossa sensação de urgência. Entretanto, não podem os parar por aqui. Precisam os reunir dados realistas, detalhados e sofisticados que possam orientar nossas ações. Isso exige um a análise m inuciosa e contínua, extrem a disciplina - e a busca da inteligência ecológica.

Com pre um saco da batata frita de saquinho inglesa da m arca Walkers Salt e Vinegar Potato Crisps e você verá no rótulo o rastro de carbono do produto, 75g de em issões de carbono (para efeito de com paração, um j um bo cheio, voando de Frankfurt a Nova York, em ite 713.000g por passageiro). Na em balagem , está escrito tam bém que a Walkers trabalha com um a em presa cham ada Carbon Trust desde 2005 para analisar o rastro de carbono de seus produtos e encontrar m eios de reduzi-lo.

O cálculo desses 75g exigiu um enorm e esforço. Para com eço de conversa, os pesquisadores da Carbon Trust calcularam quanto de energia se utilizava quando as sem entes dos dois ingredientes do produto, batata e óleo de girassol, foram plantadas. Depois, som aram o carbono em itido pelos tratores a diesel que colheram as batatas, e tam bém durante sua lavagem e corte, fritura e em pacotam ento, arm azenam ento e transporte. Som aram tam bém os gases de efeito estufa em itidos quando os sacos foram im pressos, e as batatas fritas, em pacotadas. Finalm ente, incluíram no cálculo o que acontece quando o saco vazio é j ogado no lixo, incluindo a coleta e o transporte até o aterro sanitário.

Os produtos que encontram os em um superm ercado típico nos Estados Unidos viaj am um a m édia de 2.400km do cam po até o depósito - m as os quilôm etros viaj ados pelos alim entos não equivalem diretam ente a seu rastro de carbono. Por exem plo: o transporte m arítim o produz cerca de um sexto das em issões do transporte aéreo e cerca de um quinto do transporte rodoviário.' Para um a pessoa que está em Boston, um a garrafa de vinho Bordeaux vinda por navio de um vinhedo francês terá um rastro de carbono m enor do que um a garrafa de Chardonnay da Califórnia transportado de cam inhão (o ponto geográfico em que os vinhos da Califórnia e os da França atingem equivalência em term os de custos de carbono está em algum lugar perto de Colum bus, Ohio).

Além da distância de transporte, há diversas outras variáveis relacionadas ao carbono envolvidas na produção de alim entos, dos m étodos de colheita ao tipo de fertilizante usado e o com bustível consum ido na preparação da em balagem . Por isso, os cientistas am bientais na Lincoln University , em Christchurch, Nova Zelândia, calculam que a carne de cordeiro da Nova Zelândia expedida para a Inglaterra tem um rastro de carbono de apenas um quarto da carne de cordeiro inglesa - em parte porque, na Nova Zelândia, grande parte da eletricidade vem de fontes renováveis e a abundância de sol e chuva significa que os pastos neozelandeses precisam de m enos fertilizantes do que os da nublada Inglaterra.2 (Por outro lado, os navios usam o com bustível m ais poluente, o cham ado "iogurte negro", resíduo do processo do processam ento do petróleo em gasolina; por causa dos poluentes que geram , em alguns portos os navios precisam ligar seus m otores à eletricidade em terra, em vez de desligar os m otores quando atracam no porto.)

Que diferença faz deixar de usar sacolas de plástico no m ercado para levar as com pras para casa, dim inuir a potência do ar-condicionado ou apagar as luzes quando saím os do quarto? Trocar as lâm padas incandescentes pelas de néon, que econom izam energia? As respostas nos levam a um a zona de com plexidade que pode criar pequenas incertezas m orais ao longo do dia.

Precisam os dom inar um novo tipo de m atem ática para responder a essas perguntas, um a m atem ática que explicite, com m uito m ais clareza e um nível de detalham ento m uito m aior, as consequências de nossas escolhas e com pras no dia a dia. As respostas podem ser surpreendentes. Um a análise do rastro de carbono realizada na Cranfield University , Inglaterra, concentrou-se na avaliação do ciclo de vida de 12 m il rosas de caule longo à venda em Londres durante os dias de inverno em fevereiro, algum as vindas da Holanda, outras do Quênia. A análise revelou que as rosas holandesas - por haverem sido cultivadas em estufas - tinham um rastro de carbono seis vezes m aior do que a variedade cultivada no Quênia.3

O clim a quente e úm ido do Quênia, associado às pequenas fazendas, à escassez de tratores e ao uso de adubo natural, em vez de fertilizantes quím icos, reduziu o rastro de carbono das rosas, em com paração com os custos do cultivo das rosas em estufas - m esm o quando as em issões de CO2 do transporte aéreo das rosas de Nairobi à Inglaterra entraram no cálculo. Por essa razão, seria m ais "verde" para os ingleses com prar rosas trazidas de avião do Quênia do que rosas cultivadas na Holanda.4

Os benefícios da aquisição de produtos locais não estão sendo colocados em dúvida - por um lado, protegem a econom ia da com unidade através de em pregos e salários; por outro, de um m odo geral, proporcionam rastros de carbono m enores (apesar da estranha exceção citada). No entanto, a Análise do Ciclo de Vida levanta a seguinte questão: O que querem os dizer exatam ente com o adj etivo "local"? Um a ecologista industrial de Montreal m onitorou a geografia dos ciclos de vida dos tom ates cultivados em estufas perto de Montreal. Disse-m e: "Não havia m uito de local no produto 'local'. Em bora as atividades de P& TD do tom ate tenham sido realizadas na França, as sem entes eram cultivadas na China e levadas de volta para a França, onde eram tratadas e enviadas para Ontário, onde as sem enteiras germ inam . Por fim , essas sem enteiras são levadas de cam inhão para Quebec, onde a planta final é cultivada e o fruto, colhido. Até um tom ate 'local' tem um passado global."

Outra coisa que não devem os esquecer é que qualquer intervenção em um sistem a com plexo tem efeitos colaterais não-intencionais. As so luções adotadas aqui podem criar novos problem as em outro lugar. Um caso clássico de consequências não intencionais pode ser o boom no cultivo do m ilho com o fonte subsidiada para a produção do biocom bustível etanol. Os fazendeiros, é claro, tam bém utilizam o m ilho com o alim ento básico para o gado: assim , os porcos engordam , as vacas dão leite e galinhas botam ovos. O xarope de m ilho adoça refrigerantes e um a série de outros alim entos processados. Portanto, a dem anda acentuada de m ilho com o fonte de com bustível aum enta as consequências im previstas. À m edida que os fazendeiros subsidiados buscam a calm aria - o m ilho com o resposta ao petróleo! -, a escassez de m ilho eleva os preços dos itens que o utilizam , com o carne, tortillas e cereais para o café da m anhã.

É claro que o aum ento dos preços dos alim entos é causado por outros fatores, além da escassez de m ilho, com o observou Gregory Norris, m eu guia em ecologia industrial: "Quando se coloca pressão nas terras cultiváveis, os preços dos alim entos aum entam , m as esse im pacto pode ser responsável por um a pequena parte da elevação dos preços dos alim entos", diz Norris. "Não podem os responsabilizar apenas os biocom bustíveis por isso; é preciso levar em conta tam bém os aum entos do preço da gasolina e a crescente afluência na Ásia, onde as pessoas estão passando a incluir m ais carne em sua alim entação. Mas, se as pessoas de um a região rural pobre podem encontrar m aneiras de cultivar um biocom bustível em terras m arginais que não estej am cultivadas e não é floresta, haverá um grande im pacto positivo, um a fonte de renda onde antes não havia nenhum a."

Isso sim plesm ente m ostra que os sistem as são com plexos. Precisam os de m étricas sistem áticas para entender os inúm eros im pactos de nossos produtos. A ecologia industrial é a disciplina que busca dom inar essa nova m atem ática. Nossas ideias sobre riscos, com o as toxinas presentes em brinquedos, am eaças com o o aquecim ento global e os im pactos das coisas que fabricam os, plantam os, distribuím os, consum im os e descartam os eram , na m elhor das hipóteses, unidim ensionais, concentrando-se em um único problem a e ignorando todo o resto. Muitas vezes, a grande quantidade de guias sobre com o levar um a vida m ais verde tam bém oferece detalhes que escondem a realidade.

Por exem plo: as obj eções ao rastro de carbono da água m ineral engarrafada levaram m uitos restaurantes a deixar de oferece-la e algum as pessoas passaram a reutilizar as garrafas de plástico depois que a água acabava. Mas a resposta ecologicam ente correta aos im pactos am bientais das garrafas deixaram de lado outro aspecto negativo: o uso de garrafas plásticas im punha im pactos potencialm ente adversos para a saúde, em função das substâncias quím icas que vazam para a água engarrafada. O bisfenol-A (BPA), substância à qual se atribuem problem as no sistem a endócrino, presente em m uitos plásticos, é transm itido aos líquidos 55 vezes m ais rápido do que o norm al se o líquido estiver aquecido - um a prática com um entre adeptos da escalada em clim as frios e a rotina dos pais que aquecem o leite artificial dos bebês em m am adeiras de plástico?

Um a m aneira de estim ular nossa inteligência ecológica coletiva é nos conscientizarm os a respeito de várias form as de classificar os im pactos dos produtos e de refletirm os sobre eles. O ideal seria entenderm os as consequências adversas de um item em três áreas interligadas:

•a geosfera (que inclui solo, ar, água e, é claro, clim a)

•a biosfera (nosso organism o, o de outras espécies e a vida vegetal)

•a sociosfera (preocupações hum anas com o as condições dos trabalhadores)

A GEOSFERA

O aquecim ento global é com o um a criança que faz um anúncio sobre os danos contra a geosfera, fornecendo detalhes sobre as em issões de CO2 e os danos ao ciclo de carbono da Terra, atraindo a im aginação popular e a atenção dos responsáveis pela elaboração de políticas. É um problem a sério, m as se trata apenas de um a pequena parcela de um quadro m uito m aior. Ao nos concentrarm os unicam ente no aquecim ento provocado pelo carbono, ignoram os as outras m aneiras com o as atividades hum a nas interferem nos ciclos naturais essenciais para m anter saudáveis nosso solo, nosso ar e nossa água. Aqui, "saudáveis" significa "capazes de sustentar a vida" - m ais especificam ente, o tipo de sustentabilidade no qual os seres hum anos, entre outras espécies, prosperam (afinal, há organism os, com o os que prosperam em águas profundas do leito do oceano, capazes de sobreviver em am bientes nos quais nós não conseguiríam os).

Os rastros de carbono, em bora sej am a celebridade do m om ento em term os de m edidas am bientais, são apenas um a das várias m aneiras de se avaliar o im pacto de um produto no ciclo do carbono, veículo para as trocas contínuas entre as coisas vivas, a geosfera e a atm osfera terrestre. O próprio ciclo do carbono, em si, é apenas um processo afetado pela atividade hum ana. Entre as várias outras m edidas, está o carbono em butido, que representa o CO, por quilo liberado na fabricação, transporte, uso e elim inação de um produto. O cálculo do carbono em butido em um a garrafa de xam pu, por exem plo, exige a avaliação do CO, ao longo do ciclo de vida do produto para cada ingrediente separado (pode haver 50 ou m ais ingredientes em um recipiente de xam pu), e tam bém para o tipo de plástico no recipiente.

Vam os exam inar a eutroficação, um a m edida de nosso im pacto na água. Quando nutrientes com o nitrogênio ou fósforo entram na água, m uitas vezes por m eio de fertilizantes quím icos, provocam o crescim ento explosivo de algas, o que, por sua vez, reduz o oxigênio na água, sufocando as outras espécies; entre as fontes com uns, estão a efluência dos esgotos e os resíduos dos fertilizantes usados em gram ados e nas plantações. Cerca da m etade dos lagos na Ásia, Europa e Am érica do Norte sofre de eutrofização; a enorm e zona m orta, que abrange grande parte do Golfo do México, é testem unha dos resíduos de fertilizantes que descem o rio Mississippi.

Apesar da am eaça do aquecim ento global, há quem argum ente que há um a urgência ainda m aior decorrente da destruição das florestas, da depleção dos aquíferos, da extinção das espécies e de outras perdas ou danos às reservas naturais do planeta.6 O aquecim ento global atua durante décadas ou séculos; com o esforço hum ano concentrado, talvez sej am os capazes de retardar ou talvez até revertê-lo. Entretanto, quando a atividade hum ana destrói as fontes naturais cuj a form ação levou eras - a destruição e desaparecim ento de um a floresta tropical, a depleção de um aquífero, o esgotam ento de reservas niberais -, a perda é, ao m esm o tem po, im ediata e irreversível. Medindo a carga de recursos de um produto, podem os ver o quanto de m atéria-prim a foi consum ido e que tipo de contam inação foi gerado ou que valor foi destruído. A dívida de um produto para com a natureza pode ser calculada com o a som a dos recursos não renováveis esgotados, m ais sua "carga" total ou im pacto sobre a natureza, com o os poluentes em itidos na atm osfera, as toxinas lançadas na água ou os contam inantes enterrados em aterros sanitários durante a construção.

Quando j ogam os fora algo que acaba no aterro sanitário local, envolvem o-nos na eterna cam panha da natureza para recuperar m oléculas de m odo a serem usadas em inúm eras outras. O solo contém um a quantidade enorm e de enzim as e outras substâncias cuj a única tarefa é catalisar as reações que decom põem os com postos quím icos, estej am eles no filé que você com eu na noite passada ou no film e plástico da em balagem que envolvia a carne. A biologia se degrada em partes com ponentes que são reutilizadas por bactérias, plantas, insetos e anim ais m aiores. A biodegradabilidade se tornou um a área independente de estudo científico. Das dezenas de m ilhares de com postos quím icos usados nos produtos feitos pelo hom em hoj e, apenas um a pequena porção foi avaliada com o obj etivo de identificar se os m icroorganism os acabarão ou não sendo capazes de decom pô-los em form as úteis na natureza.

É com o o designer industrial Bill McDonough gosta de dizer: "Todo lixo serve de alim ento para outro sistem a." Os produtos finais da indústria podem ser vistos com o nutrientes industriais, substâncias feitas pelo hom em que, ao fim de sua vida útil, podem ser deixadas à m ercê da biodegradação ou ser reutilizadas para se fazer outra coisa.

Essas são apenas algum as das centenas de m étricas utilizadas para se avaliar o im pacto da atividade hum ana sobre a geosfera. Entre outras, estão o consum o da água, as m udanças adversas na utilização da terra, a acidificação de solos e lagos, a depleção da cam ada de ozônio na estratosfera; não há lim ite fixo para a destruição causada pela atividade hum ana - os lim ites aplicam -se apenas a nossos m eios de m edi-la.

 

A BIOSFERA

Nosso organism o, com o a própria Terra, consiste em ecossistem as interligados. Para a ecologia, a "capacidade de sustentação" de um am biente se refere ao núm ero m áxim o de pessoas (ou de qualquer outra espécie) que um am biente específico pode suportar antes de ocorrerem danos. Assim com o os sistem as da Terra têm um lim ite que eles podem suportar antes de com eçar a se degradar e entrar em colapso, os sistem as no interior de nosso corpo têm um lim ite para o acúm ulo de com postos estranhos acum ulados antes de se transform arem em doença.

Nosso ecossistem a orgânico envolve interações altam ente com plexas entre os genes e as substâncias quím icas industriais às quais som os expostos por m eio dos alim entos que ingerim os, do ar que respiram os e dos obj etos que tocam os. Elas se m ostram tão com plexas que raram ente som os capazes de estabelecer ligações específicas entre um a única substância quím ica suspeita e um resultado biológico específico. Com algum as exceções, desconhecem os a consequência biológica exata da exposição a quantidades até m esm o m ínim as de substâncias quím icas sintéticas no dia a dia sobre o organism o hum ano.

A principal desvantagem de nos exporm os a m ilhares de substâncias quím icas sintetizadas consiste no fato de a natureza ser econôm ica, reutilizando um a dada estrutura m olecular de inúm eras m aneiras diferentes para diversos propósitos. Um a resina alcaloide secretada no ovário do broto de um a papoula im ita as endorfinas no sistem a opioide hum ano, a fim de criar um estado de entorpecim ento. Um quím ico industrial pode valorizar um com posto m olecular que evita que as panelas grudem ou m ata a erva-daninha no quintal, enquanto a natureza encontrará outras finalidades para esse m esm o com posto assim que ele entrar na fábrica quím ica altam ente com plexa em que consiste o organism o hum ano.

Tam pouco isso leva em consideração o que acontece quando essas substâncias quím icas são absorvidas pelo organism o de outras espécies. Os com postos feitos pelo hom em que vão parar no solo, na água e no ar não desaparecem ; m isturam -se aos com plexos ecossistem as da natureza dos quais os anim ais dependem . Fizem os um a série de descobertas sobre os danos causados por substâncias quím icas produzidas pelo hom em - dos pesticidas ao Prozac - nos sistem as naturais que invadem . Mesm o doses m ínim as de algum as substâncias quím icas podem ter efeitos colaterais j am ais previstos. A prom essa de um a vida m elhor oferecida pela quím ica pode se transform ar no pesadelo da natureza.

Vej am os, por exem plo, todos aqueles m edicam entos que costum am os ter em casa, no arm ário de rem édios. As substâncias farm acêuticas são desenvolvidas especificam ente para iniciar um a reação biológica precisa com doses extrem am ente baixas. Essas substâncias quím icas se transform am em algo sem elhante a proj éteis biológicos quando acabam na natureza, sej a através do esgoto ou pela infiltração dos depósitos de lixo.7 Doses m ínim as de um a form a sintética de estrogênio encontrado em anticoncepcionais orais "fem inilizam " peixes m achos; cientistas que colocaram um pouco do com posto quím ico em um lago canadense descobriram que alguns dos peixes m achos deixaram de produzir esperm a e passaram a produzir óvulos. Em três anos, os peixes haviam desaparecido e o núm ero de trutas do lago que se alim entavam deles dim inuíra quase 30%.8

Quanto m ais a ciência avança em sua capacidade de detectar perigos ainda m ais sutis dos efeitos colaterais das substâncias feitas pelo hom em , m ais a lista cresce. Os geneticistas que estudam as bactérias do solo e dos lagos afirm am que o uso m aciço de antibióticos gera inadvertidam ente germ es que resistem a esses próprios antibióticos - e, quanto m ais usam os, m ais essas bactérias resistentes aos antibióticos se espalham na natureza. Em bora m atem um a bactéria específica, os antibióticos tam bém favorecem a difusão das com binações de DNA im unes a seus efeitos; essas cepas resistentes acabam trocando seus genes com outras bactérias, que adquirem sua im unidade. Os m ais de 11 m ilhões de quilos de antibióticos usados na engorda acelerada de ovelhas e vacas - barateando sua com ercialização - acabam gerando enorm es quantidades de bactérias que resistem a esses próprios antibióticos anim ais. Qualquer pessoa que tom e antibióticos ou use sabonetes antibióticos contribui para o problem a.

Essa é apenas um a das inúm eras m aneiras com o as substâncias quím icas industriais interferem na natureza. Eis um a lista da longa relação de avaliações da Análise do Ciclo de Vida de com o os com postos quím icos afetam nossa saúde ou a biosfera:

•O im pacto do câncer avalia um processo ou com posto quím ico industrial em term os dos

cam inhos esperados dos carcinógenos despej ados no m eio am biente, sua persistência depois que estão ali presentes, a probabilidade de exposição hum ana a eles, a potência cancerígena de cada com posto quím ico e exatam ente onde, na cadeia de suprim entos, todos esses im pactos cancerígenos têm origem . Para 116 substâncias quím icas altam ente tóxicas liberadas no ar pelos processos industriais nos Estados Unidos ao longo de um ano, os cientistas am bientais calculam a ocorrência de 260 casos de câncer a m ais por US$1 m ilhão de produção industrial envolvendo essas substâncias; os principais culpados foram os com postos arom áticos policiclícos liberados na produção do alum ínio e as dioxinas liberadas pelas fábricas de cim ento.

•Os anos de vida aj ustados por incapacidade (DALY - Disability Adj usted Life Years) m ede

a quantidade de vida saudável perdida devido aos im pactos de em issões de toxinas, carcinógenos etc. Isso pode ser calculado m esm o para quantidades m ínim as de um a substância e traduzido em sua contribuição para a incidência crescente de câncer infantil ou de enfisem a para as pessoas afetadas. A unidade básica, um DALY, representa a perda de um ano de saúde plena.

•A perda de biodiversidade refere-se ao grau de extinção de espécies causado por um

processo ou um a substância específica. Tecnicam ente m edida com o um a "fração potencialm ente danificada", perm ite calcular quanto a liberação de um a substância quím ica específica poderia reduzir um ecossistem a, acelerando o declínio de plantas ou

anim ais.

•A toxicidade personificada calcula quantas substâncias quím icas problem áticas são dispostas

na natureza durante o ciclo de vida do produto. Para um a cortina de chuveiro de PVC (polivinil clorado), tem os de calcular o petróleo extraído e processado e o cloro acrescentado para a produção do polivinil clorado - rico em carcinógenos -, do qual a cortina do chuveiro é feita. Assim , quando usam os a cortina, há as em issões de gases do ftalatos que se m isturam para deixar a cortina m aleável à m edida que suas m oléculas vão se dissolvendo no ar. Quando um a cortina de chuveiro finalm ente term ina seus dias em um lixão, libera lentam ente o gás cloro. Entretanto, o m aior perigo de um a cortina de chuveiro para a vida hum ana afeta os operários durante sua produção ou decorre do cloro liberado quando ela for incinerada em um lixão. A toxicidade geral da cortina considera todos esses fatores ocultos durante o ciclo de vida do produto. A toxicidade incorporada rem odela o que há m uito consideram os "riscos profissionais" - com o o risco aum entado de doença de Parkinson entre os soldadores em decorrência da inalação de fum aça de m anganês - com o problem as de consum o.

Gregory Norris nos adverte contra a m entalidade do tipo "ou tudo ou nada" a respeito desses im pactos, lem brando-nos de que "tudo está conectado". Precisam os entender, diz ele, "que o ciclo de vida de todo produto está ligado à liberação de, pelo m enos, quantidades-traço de poluentes em algum ponto da cadeia de suprim entos". Portanto, a pergunta a ser feita torna-se quantitativa: quanto de qual poluente é liberado e com o podem os reduzir, da m aneira m ais eficaz, essas em issões? Um a vez que toda a cadeia de suprim entos causa tantos im pactos, não podem os m ais ignorar a m udança clim ática, a destruição dos habitats, as substâncias quím icas liberadas ou incorporadas ou as condições dos trabalhadores - tam pouco podem os nos concentrar exclusivam ente em um a delas.

 

A SOCIOSFERA

Recentem ente, os m eios de com unicação divulgaram a notícia de um a em presa brasileira de etanol que planta cana-de-açúcar para a utilização na produção de com bustível. Inspeções no local revelaram que seus 113 trabalhadores passavam fom e e frio, vivendo em lugares superlotados com condições sanitárias precárias.10 Nesse tipo de situação, com o levar em conta qualquer tipo de vantagem am biental da produção de etanol contra as desvantagens hum anas?

É o tipo de pergunta que provocou um m ovim ento para acrescentar dim ensão social à Análise do Ciclo de Vida dos produtos. As preocupações hum anas, com o condições de trabalho ou trabalho infantil, salários j ustos, benefícios para saúde e aspectos afins, atingem cada vez m ais as em presas que adotam padrões éticos e levam a sério a responsabilidade social corporativa.

"Os im pactos sociais há m uito foram negligenciados na Análise do Ciclo de Vida, m as hoj e identificam os essa dem anda", afirm a Norris. "Os governos e as em presas estão pedindo esses m étodos. Percebem os isso no debate sobre biocom bustíveis. Um a im portante em presa internacional que tem revisto os biocom bustíveis para decidir com o devem ser inseridos em sua estratégia de negócios vem m e pedindo um a análise dos im pactos sociais. Eles querem conhecer todas as vantagens e desvantagens. Não se pode pensar apenas nos im pactos am bientais, excluindo o social.""

Norris fez um a ACV das consequências para a saúde na cadeia de suprim entos global da geração de eletricidade na Holanda, com parando os danos provocados pela poluição com os benefícios gerados pelo aum ento da atividade econôm ica. Convertendo os dois resultados em um a unidade de análise com um - os anos de vida aj ustados por incapacidade, ou DALY -, Norris com parou as vantagens e desvantagens em relação à saúde, baseando-se, em parte, em um conj unto de dados do Banco Mundial usado para calcular o aum ento ou a redução nos anos de vida que resultam de cada aum ento de US$1 m ilhão no Produto Nacional Bruto (PNB). Os principais efeitos am bientais adversos acabaram sendo as em issões de particulados das usinas elétricas, bem com o sua contribuição para o aquecim ento global.

Entretanto, cerca de 10% da atividade econôm ica relacionada à eletricidade holandesa ocorria em países em desenvolvim ento. Alguns eram extrem am ente pobres, e m uitos de seus habitantes não tinham acesso a saneam ento básico, água lim pa e educação. Nesses países m ais pobres, os benefícios do aum ento da riqueza para a saúde têm um im pacto altam ente positivo se essa riqueza for investida em infraestrutura de saúde e educação, com o em clínicas, hospitais e escolas. Fazendo as contas em term os de DALY, Norris conclui que esses benefícios para os pobres podem reduzir as desvantagens no restante do m undo - a m elhora econôm ica nas regiões m ais pobres do m undo gera enorm e vantagem em term os de saúde.

Por outro lado, quando um órgão holandês analisou o im pacto am biental total no país com o resultado do consum o privado com o um todo, o quadro se reverteu. As consequências negativas do com ércio holandês, na form a de estressantes am bientais, com o depleção de recursos, pesticidas e afins, atingiam pesadam ente os países em desenvolvim ento. Isso pode ser verdade para qualquer país desenvolvido, em bora poucos países tenham sido tão conscienciosos no cálculo de tais im pactos com o os holandeses.12

A form a de pensar atual sobre sustentabilidade reconhece que, para salvar o m eio am biente ou criar produtos m ais seguros, é preciso incluir a m anutenção ou a m elhora do bem -estar das pessoas. Todos os três sistem as - geosfera, biosfera e sociosfera - têm de ser incluídos na equação. É por isso que PNUMA (Program a das Nações Unidas para o Meio Am biente) vem se digladiando com os trade-offs entre considerações am bientais e necessidades hum anas, tentando usar os m étodos da ACV para identificar nas cadeias de suprim entos os pontos em que seria possível encontrar os m aiores benefícios para o m eio am biente, bem com o para os povos de um a dada região. Conversei com Catherine Benoit, cientista social de Montreal, logo depois de seu retorno de um encontro em Freiburg, Alem anha, com um a força-tarefa da Life Cy cle Iniciative, do PNUMA, que estava elaborando um código de prática para avaliar os im pactos socioeconôm icos do ciclo de vida de um produto do berço ao túm ulo.

"Se você realm ente quiser m udar a situação para m elhor, um a ACV social lhe m ostrará onde essas coisas são boas e onde precisam m elhorar", disse-se Benoit. "A dim ensão social fala sobre os im pactos hum anos positivos, bem com o sobre os negativos. Se um a em presa tem um alto grau de envolvim ento na com unidade local, valoriza as m ulheres, pratica filantropia em nível local, paga bons salários, ou participa de m ovim entos internacionais para m elhorar as condições de trabalho, tudo isso tem im pacto positivo." Por outro lado, as escalas sociais tam bém m onitoram a crueldade de locais de trabalho onde trabalhadores m al rem unerados enfrentam longas horas sob condições perigosas, sofrem abusos em ocionais ou físicos, não têm água segura para beber etc.

Às vezes, usar a m etodologia da ACV para quantificar as condições hum anas faz sentido, outras vezes não. Por exem plo: pesquisadores da University of Stuttgart calcularam a incidência de acidentes de trabalhado ao longo da cadeia de suprim entos na produção de diferentes m ateriais de em balagem . A quantidade de acidentes fatais (em bora relativam ente raros) foi m aior com caixas de m adeira, seguidas das caixas de papelão e, finalm ente, dos caixotes de plástico.13 Essas análises produziram dados sobre os quais foi possível tom ar algum a m edida. Mas as ACVs sociais podem se tornar precisas dem ais, fora do alcance da realidade hum ana. Por exem plo: Benoit argum enta que não faz sentido associar condições hum anas a m edidas excessivam ente precisas, com o os benefícios de unidades de trabalho realizados em term os de "segundos de trabalho por processo", com o foi proposto. Em vez disso, ela prefere calcular o percen tual da cadeia de suprim entos de um produto onde, digam os, há trabalho infantil envolvido, ou certificação de com ércio j usto, ou ainda a oferta de assistência m édica aos trabalhadores.14

A avaliação dos im pactos sociais representa desafios únicos, pois os núm eros, em si, podem distorcer a situação hum ana. "Você pode tentar apresentar um núm ero referente à m ão de obra infantil utilizada por um a em presa", disse Benoit, "m as em m uitos países o trabalho infantil é ilegal - por isso, ninguém lhe fornecerá esse dado. É im possível obter o núm ero exato das horas de trabalho infantil em um a cadeia de suprim entos. Seria m ais correto perguntar apenas: "A em presa utiliza trabalho infantil? Por quê?"

Benoit acrescenta: "Talvez você queira usar dados genéricos para identificar pontos problem áticos em que o risco de trabalho infantil é m aior. No setor têxtil na índia, por exem plo, o risco de trabalho infantil é elevado, m as, m esm o nesse país, há regiões de m aior e m enor risco. Em geral, os pontos m ais problem áticos para o trabalho infantil se situam onde há m uita pobreza, os salários são baixos e os em pregadores não respeitam os direitos hum anos. A identificação dos pontos problem áticos fornece inform ações valiosas quando o que se desej a, de fato, é m elhorar as condições sociais ao longo do ciclo de vida de um produto."

Gregory Norris argum enta: "O paradigm a a partir do qual a ACV trabalha é aquele que o analista conhece m elhor. Podem os nos reunir no laboratório de um a universidade e dizer que as em issões de CO, são im portantes, podem os definir lim ites de desem penho e afirm ar: 'Não querem os saber com o você vai fazer, desde que as em issões de toxinas e de CO2 fiquem abaixo desse nível.' Isso faz sentido, m as, quando se considera o im pacto social, com sua possível m agnitude de benefícios para a saúde decorrentes do desenvolvim ento econôm ico, é m elhor dar autonom ia a produtores e pessoas onde eles operam para que digam aos com pradores: 'Esses são os benefícios com os quais nos im portam os. Aj ude-nos a alcançá-los e relatá-los.' Com eçar de baixo para cim a traz novas vozes para o diálogo entre com pradores e vendedores e expande o diálogo sobre os im pactos que im portam ."

"O m elhor m étodo para detectar o trabalho infantil, por exem plo, em algum ponto da cadeia de suprim entos, ainda é visitar o local de trabalho e entrar em contato com organizações locais, m as isso é um processo dispendioso e dem orado quando é necessário repeti-lo em todo o ciclo de vida", observa Catherine Benoit. "Por isso, é preciso fazê-lo onde é m ais im portante para você: onde há m aior valor agregado no ciclo de vida do produto, onde se detectam lugares problem áticos ou onde se podem tom ar m edidas destinadas a m elhorar as condições. Esses três aspectos não são necessariam ente iguais. Se você é um a em presa de TI que fabrica telefones celulares e m inério para um com ponente extraído na África, esse é um lugar problem ático tanto para trabalho forçado quanto para trabalho infantil. Entretanto, esse com ponente pode ser um a peça m uito pequena de seu telefone, representando pouquíssim as horas de trabalho no ciclo de vida do produto. Portanto, se estiver procurando um lugar no qual possa agir, talvez você não tenha m uito poder nessa situação se for um cliente relativam ente pequeno para aquele fornecedor. No entanto, você poderia colaborar com outras em presas de TI para exercer pressão."

Expandir as Análises do Ciclo de Vida de m odo a incluir o im pacto social pode revelar vantagem para em presas que operam nas zonas de pobreza do m undo. No entanto, nem sem pre o quadro é tão claro. Norris m enciona o caso do ecoturism o. Se o term o se referir a um a cidade rural pobre que, hoj e, atrai m ais visitantes e, com isso, os negócios locais m elhoram e parte do lucro é reinvestido para m elhorar as condições das escolas locais, lim par a água e m elhorar as condições de saneam ento e a assistência m édica, está ótim o.

Por outro lado, se o turism o é "eco" apenas no sentido da conservação da água e da energia e do uso de m ateriais verdes nas construções, surgem outras questões. Os habitantes do lugar perderam acesso a terra e água, que antes eram bens com uns e agora são usadas para o desenvolvim ento? Todos os lucros vão para um a em presa com sede em outro lugar, e nenhum a parte é destinada a m elhorar as condições do local? Os em pregos relacionados ao turism o para os habitantes locais pagam o suficiente para m elhorar seu padrão de vida? Ou o custo de vida, m as não os salários, aum entaram por causa do desenvolvim ento, acentuando a pobreza e a crim inalidade no local ou piorando as condições de saúde da população? Em outras palavras, o que parece ser desenvolvim ento "sustentável" suporta um a inspeção m ais rigorosa de seu im pacto sobre a população local?15