Inteligência Ecológica

Daniel Goleman · Capítulo 16 de 19

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Inteligência Ecológica

Fazer o Bem para Se Sair Bem 211

"Obviam ente, precisam os de cada eficiência ecológica possível, qualquer solução que reduza a insustentabilidade", Ehrenfeld se apressa em observar. "Qualquer coisa que possa tornar o próxim o produto que com pram os m enos negativo é bem -vinda; toda ação aj uda." Entretanto, ele acrescenta: "A visão daquilo que precisam os que sej a realm ente sustentável vai m uito além disso. Precisam os ver a m entalidade do consum idor com o um todo."

Séculos atrás, quando aldeões dividiam o m esm o pasto, alguns abusavam do privilégio, colocando seus rebanhos para pastar excessivam ente e destruindo o valor do pasto para todos. O equivalente m oderno dessa tragédia dos com uns pode ser visto em um m odelo de negócios cham ado "take-m ake-waste" [algo com o pegue, faça e j ogue fora].' Os ativistas am bientais que cunharam a expressão afirm am que o livre m ercado tem um ponto cego bastante evidente: ignora o custo da destruição ou do consum o, pelo com ércio, da natureza em si, patrim ônio com um do planeta.2

Ao longo da história, as em presas puderam consum ir ou poluir o ar, a água ou a terra, sem arcar com suas consequências. Coube ao público em geral arcar com os custos dessas práticas -por exem plo, com os prej uízos causados pelas inundações e os custos do tratam ento de doenças respiratórias ou da lim peza de substâncias tóxicas infiltradas no solo. Independentem ente da form a com o ocorre esse abuso do patrim ônio com um da natureza, o m anej o inadequado e negligente dos recursos naturais pode ser visto com o insustentável e inaceitável do ponto de vista ético. Deixando de lado os j ulgam entos éticos, há um problem a prático quando se lida com esse abuso: calcular o custo real desses danos à natureza.

No entanto, hoj e as novas m etodologias perm item a quantificação do "capital natural", o valor econôm ico gerado pela natureza. Um a dessas m etodologias pode ser observada nos esforços da Canadian Boreal Initiative, consórcio de grupos am bientalistas, e em presas com o Suncor Energy (gás natural) e Tem bec (gigante do setor de papel e celulose), que fizeram enorm es investim entos na vasta floresta que cobre quase todo o norte do Canadá. Trabalhando j unto com povos nativos cuj as terras localizam -se na região, a Canadian Boreal Initiative realizou um a estim ativa sistem ática do valor fiscal anual do Mackenzie Valley , zona de floresta virgem nos territórios do noroeste. O vale constitui um quinto da área do Canadá em si, e um a grande parte da im ensa floresta boreal que recobre a m aior parte do norte do Canadá - a m aior floresta do m undo que continua intacta.

O capital natural do vale - a som a de serviços ecológicos com o a absorção de dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa, pragas com idas pelos pássaros e água doce - foi avaliado em aproxim adam ente US$378 bilhões. Trata-se de um valor insignificante quando com parado com o valor econôm ico anual na m esm a região gerado por setores extrativistas com o o de m ineração, cuj as operações inevitavelm ente destroem um a parte do patrim ônio com um em si -e que, no passado, nunca foram penalizados por essa destruição. A estim ativa serve de m odelo para o cálculo do custo, para o patrim ônio natural com um , de qualquer atividade com ercial que reduza esses serviços ecológicos e, portanto, perm item um a base racional para a taxação da atividade.

Um cálculo paralelo dos riscos à saúde pública gerados pelos processos industriais gera um a m edida sem elhante para analisar as em issões atm osféricas das cadeias de suprim entos industriais. Com binando a Análise do Ciclo de Vida com os bancos de dados epidem iológicos, pesquisadores do National Center for Environm ental Research calcularam o núm ero de casos de câncer adicionais por cada US$1 m ilhão de produção em determ inados setores nos Estados Unidos em decorrência da liberação de substâncias quím icas tóxicas durante os processos de fabricação.'

Da perspectiva do ciclo de vida do produto, não sabem os até que ponto os im pactos prej udiciais são transm itidos ao público em geral. Se um a fábrica libera toxinas que aum entam a incidência de câncer ou m atam os peixes no rio da cidade, ou se o descarte de um produto libera toxinas com o m ercúrio em um aterro sanitário, a em presa transm itiu custos ocultos do produto às pessoas e com unidades que sofrerão ou arcarão com os custos para reparar os danos.

Um a solução para esse dilem a que vem sendo proposta com um a frequência cada vez m aior nos últim os anos é taxar as em presas pelos danos que seus produtos causam durante seu ciclo de vida. O im posto poderia assum ir a form a de um pagam ento proporcional a um a organização que repare esses danos, com o um a fazenda cólica que reduza a quantidade equivalente de gases de efeito estufa em itidos por um processo industrial. Tal im posto converte os danos ao patrim ônio com um em um custo operacional com o qual a em presa terá que arcar, forçando o preço da com m odity resultante a refletir seus im pactos adversos. Transferir o custo do dano para a em presa que o causou geraria fortes incentivos fiscais para encontrar form as de fazer negócios que proporcionassem a redução desses custos.

Um dilem a fundam ental da tragédia dos com uns resum e-se ao seguinte: com o lidar com desafios de grande m agnitude e regular em presas em escala global. As em presas enviam navios pesqueiros ao m ar com o incentivo de capturar o m aior núm ero de peixes possível - o que esgota a população de peixes disponíveis para todos. As Ilhas Maldivas estão am eaçadas pela elevação do nível do m ar provocada pelo aquecim ento global, e os Estados Unidos são o país que m ais gera gases de efeito estufa. A poluição da China afeta o Japão. E nenhum desses j ogadores tem de arcar com os custos - os peixes estão lá para ser pescados; os povos das Ilhas Maldivas não têm capacidade algum a de reduzir a em issão de gases de efeito estufa pelos Estados Unidos; as pessoas que sofrem de doenças respiratórias no Japão nada podem fazer a respeito da queim a de carvão na China.

Com esses dilem as em m ente, o econom ista Joseph Stiglitz argum enta que m anter os interesses das corporações, acim a de tudo, significa que os danos ao m eio am biente global e ao bem -estar público são inevitáveis.4 Para ele, seria necessário recorrer a norm as de governo ou órgãos com o a OMT (Organização Mundial do Turism o) para rem ediar os abusos. Nas palavras de um quím ico que faz pesquisas básicas sobre toxicidade: "A função do governo é oferecer incentivos por m eio de regulam entações. Assim , as novas pesquisas tornam -se parte da estrutura de custos."5

Entretanto, nem sem pre podem os esperar soluções do governo. As realidades políticas podem tornar atraentes as prom essas de m udanças benéficas, m as não o incôm odo provocado por essas m udanças - não raro, os políticos adiam o incôm odo até o fim de seu m andato. Depender do governo e de suas políticas para patrulhar o m undo do com ércio tem notórias arm adilhas; os governos são notoriam ente lentos e canhestros quando tentam regular atividades com erciais. E o interesse das em presas, em geral, exige que elas se oponham às restrições governam entais. A im posição de lim ites à em issão de carbono, a proibição do uso de substâncias quím icas, os piquetes form ados pelos ativistas am bientais nas sedes das em presas - tudo isso estim ula o m undo do com ércio a adotar a transparência ecológica. Certam ente há lugar para essas intervenções. Mas elas são apenas as varas.

A cenoura é a transparência radical. É a prom essa de oportunidades de negócio à espera de aproveitam ento. O livre m ercado, em si, poderia estim ular um m ecanism o alternativo ou fazer as em presas assum irem as consequências dos danos produzidos ao patrim ônio com um , revelando esses danos, de m odo sistem ático, aos consum idores. E se um a em presa adotar as m edidas necessárias para com pensar os danos que provocou (por exem plo, com o m em bro do Forest Stewardship Council, que exige que a em presa plante árvores para repor as derrubadas por ela) ou m elhorar os padrões locais de saúde e educação gerando em pregos em áreas pobres, isso tam bém consistiria em ser transparente.

A transparência radical deixaria que o m ercado recom pensasse o bem , independente de o dano ter sido ou não "taxado". Com o disse um eco nom ista que j á fez parte dos quadros do governo, m as optou pelo anonim ato: usar a dinâm ica do m ercado dessa m aneira "ignora a inépcia do governo. Perm ite que o m ercado m ostre o que realm ente im porta - não é preciso esperar o governo agir".

Stiglitz propõe que o sucesso econôm ico global depende da obtenção do equilíbrio regulatório correto entre m ercados e governos. Um executivo de um a em presa listada entre as 50 m aiores pela revista Fortune afirm ou: "Mudanças em relação aos clientes e m udanças nas regulam entações governam entais são as duas coisas que podem alterar a realidade dos negócios na direção certa."

Stiglitz, que apontou os efeitos negativos das inform ações inadequadas para os m ercados, vê os indicadores econôm icos, em si, com o m arcadores de eficiência insuficiente na época em que vivem os. O livre m ercado, segundo ele, gera poluição dem ais e pesquisas básicas de m enos -essas últim as necessárias para darm os saltos radicais rum o à sustentabilidade. Ultim am ente, engrossa as fileiras dos que defendem um "produto nacional líquido verde" que, j unto com m edidas fiscais, leve em consideração a depleção dos recursos naturais e a degradação am biental, em substituição ao Produto Interno Bruto (PIB), que m ede a renda e a produção econôm ica de um país, com o índice da robustez de um a econom ia.

Algo sem elhante a essa dupla m edida faz sentido tam bém com o m étrica para resultados finais duplos: a ecoeficiência m edida com o o índice de valor econôm ico agregado versus os im pactos ecológicos. Isso gera um a contabilidade m ais inteligente do ponto de vista ecológico, pois pondera o sucesso financeiro à luz dos danos líquidos por ele causados: tanto a cadeia de valor quanto a cadeia de desvalor. Algum as em presas j á com eçaram a operar dentro desse raciocínio. A alem ã BASF adota essa m edida de ecoeficiência para escolher entre vários processos e opções alternativas, em busca de opções estratégicas que gerem ganhos tanto financeiros quanto ecológicos.6

Quando perguntei ao gerente de inovação de produtos de um a em presa global de que m aneira um sistem a de transparência ecológica poderia alterar a paisagem de negócios no futuro, ele m encionou duas prováveis m udanças no m odo de pensar. A prim eira seria um a m udança na base de valor, acrescentando-se os im pactos ecológicos do produto à equação. A segunda será a necessidade de se repensar o m odo com o os produtos são feitos, a fim de m anter a posição da m arca no m ercado.

Em seguida, há as iniciativas de em presas que abraçam resultados finais triplos, em que os im pactos am bientais e sociais são tão im portantes quanto os resultados financeiros. Historicam ente, a responsabilidade em presarial passou por fases distintas. A prim eira, exem plificada por Andrew Carnegie, viu os barões da indústria acum ularem grande riqueza e, m ais tarde, tornarem -se filantropos; as bibliotecas públicas de Carnegie estão espalhadas por todos os Estados Unidos. Na fase Robin Hood, as em presas cobram um preço alto por produtos verdes e depois doam um a parte dos lucros a causas que consideram m erecedoras.

Na terceira fase, que cresce rapidam ente hoj e em dia, as em presas integram a sustentabilidade à sua estratégia de negócios. Isso "exige que se repensem o negócio, o produto e as soluções, para que se obtenham benefícios que se reforcem m utuam ente", nas palavras de Kevin Hagen, diretor de responsabilidade social corporativa da REI, cooperativa de artigos esportivos. Ele cita que a REI vem reexam inando seu rastro de carbono, tentando "fazer m enos m al e passar a fazer m ais bem ".

"Há um a diferença entre sim plesm ente tentar ser verde e encontrar soluções de negócios sustentáveis", observa Hagen. "A prim eira pode ter consequências não intencionais e funcionar ou não em suas im plicações para os negócios. A segunda é elaborada intencionalm ente, tem m étricas e contribui para o negócio de m aneira rentável. Estam os indo além do que é um a coisa ou outra, sustentável ou lucrativo - um a coisa não exclui a outra. O sucesso ocorre quando as duas se reforçam m utuam ente - quanto m ais verdes puderm os ser, m ais vam os lucrar."

Hagen cita um a decisão tom ada quando a REI avaliou seu rastro de carbono, que envolvia deixar de usar energia elétrica e gás natural em suas operações e passar a usar energias renováveis. "Identificam os a volatilidade dos preços com o um risco em presarial que não havíam os identificado antes", afirm a Hagen. "Assim , tanto para elim inar as em issões de CO, quanto para reduzir os preços da energia, buscam os fontes renováveis por toda parte - hoj e, utilizam os 20% de energia renovável. A decisão nos protegeu um pouco do aum ento nos custos da energia."

Quando os resultados financeiros são um fator determ inante nos processos decisórios, algum as ou m uitas das m udanças que a transparência ecológica dem anda podem parecer m etas estratégias disparatadas ou pelo m enos arriscadas. Podem ser realizadas m ais prontam ente caso haj a vantagens com petitivas claras ou prováveis. Mas essa decisão torna-se m uito m ais fácil para as em presas que tiverem adotado um parâm etro ético de resultados, segundo o qual os im pactos sobre o planeta sej am im portantes, bem com o os im pactos sobre a saúde e as pessoas. Quando esses im pactos entram na equação, ao lado do custo, os cálculos geram decisões diferentes.

Mike Hardim an m e disse que, há vários anos, a legislação do estado de Wisconsin exigia que todos os órgãos governam entais adquirissem papel reciclado, independentem ente de seu custo. "Quando essa exigência entrou em vigor, o diferencial de custo entre o papel virgem e o papel reciclado era alto, m as hoj e j á não é m ais assim . Se um a pessoa não iniciar um a tendência assum indo um a posição, não verem os as m udanças necessárias nos m étodos industriais e nos m ateriais utilizados."

As em presas variam m uito quanto à questão da responsabilidade social corporativa; algum as estabelecem padrões altos para si e seu setor, enquanto outras fazem esforços desanim ados ou idiossincráticos; outras, ainda, usam m edidas ineficazes, apenas da boca para fora, "para inglês ver". "Os resultados finais triplos são um desej o, não um a m étrica real", afirm a Pavan Sukhdev, contador que dirige o Green Indian States Trust em Nova Delhi, e tam bém consultor da InfoSy s e da WinPro. "Com as atuais definições vagas de resultados finais triplos, você pode contar sua história da m aneira que bem entender. No entanto, nunca perm itim os essa m esm a faixa de flexibilidade para a contabilidade fiscal."

Os piores casos são as em presas em que a responsabilidade social corporativa tornou-se a linha de frente em um a am arga guerra entre ética em presarial e valor para o acionista, em que as em presas adotam aspi rações que as realidades fiscais im pedem . Com o revela o chefe de um a em presa do ram o de vestuário, para m uitos m em bros da alta gerência, exigências éticas com o as da responsabilidade social corporativa são apenas um fator "irritante" - algo que eles têm de aceitar ou dizer que adotam , m as apenas da boca para fora. Nas palavras desse executivo, "se eu pudesse entrar na sala do CEO de m inha em presa e dizer: 'Vej a, aqui estão as provas de que os clientes estão deixando de com prar determ inadas m arcas por problem as éticos', então eles prestariam atenção".7

 

CONSUMO COMPASSIVO

"Durante anos", lam enta Robert B. Reich, professor de políticas públicas da University of California em Berkeley e ex-secretário de trabalho dos Estados Unidos, "preguei que a responsabilidade social corporativa aj uda os resultados finais das em presas. Respeite o m eio am biente, seus em pregados e a com unidade - argum entei - e eles não apenas o respeitarão de volta, com o tam bém com prarão seus produtos".,'

Reich continua explicando por que m udou de ideia, afirm ando, de form a provocativa, que os gestos socialm ente responsáveis que as em presas fazem são m eras m anobras de relações públicas, m odos de polir sua im agem pública, reduzir custos ou evitar regulam entações governam entais. E acrescenta: "E é assim que deveria ser. As em presas não são seres m orais. Existem para gerar lucros para seus acionistas com o apoio dos clientes."

Isso praticam ente resum e um debate crucial sobre ética em presarial, um a situação clássica que confronta duas posições: fazer o bem e sair-se bem . As duas bíblias dessa discussão são Capitalism o e liberdade, de Milton Friedm an, que argum enta que o lucro da em presa é a única base m oral para as operações em presariais, e Um a teoria da j ustiça, de John Rawl, que m oldou a visão dos que argum entam que a base m oral das em presas deve ser a responsabilidade social.

Na difícil arena das decisões em presariais do dia a dia, na m edida em que os executivos consideram o lucro o m aior propulsor da estratégia, outros obj etivos tornam -se secundários. Com o Reich observa, obj etivos com o responsabilidade social ou m inim izar im pactos am bientais só podem ser buscados se aj udarem os resultados finais - com o as econom ias fáceis obtidas pela redução dos custos de energia. No entanto, quando o preço de fazer o certo am eaça os lucros, essas coisas boas são deixadas de lado.

Com o disse Milton Friedm an em sua célebre frase: "A única responsabilidade social das em presas é aum entar os lucros." Nos term os do argum ento de Friedm an, poder-se-ia defender a não realização de m udanças - por m ais virtuosas que sej am - se elas puderem prej udicar os lucros. Isso prepara um a situação do tipo ganha-perde: fazer o bem ou se sair bem .

Nesse m om ento, Reich afirm a que não tentará argum entar ou m oralizar as em presas a adotarem a virtude. Mostra-se a favor da coação por m eio de regulam entação governam ental -não sem antes colocar um ponto final no lobby dos interesses em presariais que, segundo ele, paralisam a ação governam ental nos Estados Unidos. Essa tática poderia levar anos, décadas ou até m esm o durar para sem pre.

A transparência radical oferece um a terceira via para resolver esse dilem a: fazer o bem com pensar. A ecotransparência transform a os pressupostos básicos dessa discussão em si, transform ando o m odelo de negócios de m odo a criar um a realidade de m ercado em que fazer o bem se torna sinônim o de sair-se bem (ou sej a, de sucesso).

Tornar visíveis os im pactos ocultos de nossas escolhas é um a solução audaciosa, que vai além da extenuada tática de instilar m edos am bientais e m esm o além da esperança de alternativas inovadoras m ais verdes e m ais lim pas para a indústria. Essas tecnologias virtuosas pouco im portarão se o m ercado não as tornar vencedoras financeiras.

Além desses m edos e esperanças, encontra-se a transparência total a respeito dos im pactos daquilo que com pram os. Na m edida em que a transparência perm ite aos com pradores apostarem , com seu dinheiro, em tecnologias, ingredientes e design ecologicam ente m ais inteligentes - conquistando, assim , participação de m ercado -, o com ércio se refor m a, não apenas em nom e da responsabilidade, m as tam bém na busca dos lucros.

Os ativistas denunciam as am eaças de aquecim ento global, a poluição de nosso corpo, as fábricas e suas práticas desum anas etc., enquanto m uitos em presários argum entam que a responsabilidade social será benéfica às em presas. Os princípios fundam entais do capitalism o puseram esses dois cam pos um contra o outro: os executivos são pagos para m axim izar o valor da em presa para o acionista e os lucros trim estrais, não para apoiar o bem com um . Esse antagonism o entre m etas corporativas e o interesse público gera incerteza para os m uitos executivos que procuram tanto agradar os acionistas quanto defender os interesses do público. No entanto, a transparência radical une o que antes pareciam ser opostos: os interesses da em presa alinham -se aos m elhores interesses e valores do consum idor.

Essa m udança conceitual reorienta o capitalism o, de m odo a abraçar o interesse público com o um a arena de com petição, em que ética, inovação e iniciativa são recom pensadas nas vendas. Essa m udança substitui o pressuposto do ganha-perde de lucros versus virtude por um a proposição do tipo ganha-ganha. Independentem ente de nossas com pras gerarem alguns dólares na loj a local ou m ilhões por m eio de transações B2B, incentivam os as em presas a efetuarem m udanças positivas usando nosso dinheiro. Tornam o-nos, todos nós, j ogadores ativos, determ inando o curso do planeta, de nossa saúde e de nosso destino com um .

O m ovim ento pela transparência prevê o dia em que as operações do livre m ercado serão fundam entadas no interesse público. A transparência radical oferece um m ecanism o para m elhorias baseadas no com ércio, no qual as forças de m ercado, e não os decretos governam entais, proporcionam as m udanças desej adas. Adem ais, cria um im pacto genuinam ente positivo nos resultados financeiros das em presas a partir das m issões de responsabilidade que tantas delas j á consideram seu "segundo resultado final" - m as que hoj e podem causar prej uízos. Catalisa, ainda, um a im ensa arena com petitiva para inovação, criatividade em presarial e planej am ento estratégico inteligente no sentido de criar riqueza. E, ao fazê-lo, nos levaria a todos rum o a um planeta m ais saudável e m ais viável.

Um a das críticas à globalização consiste em afirm ar que ela cria um a raça social e am biental inferior nos países em desenvolvim ento onde as fábricas com petem para fornecer os produtos m ais baratos com m aior rapidez. Muitas vezes, os revestim entos de m árm ore, tapetes artesanais e lingerie que fazem uso intensivo de m ão de obra e são vendidos no Prim eiro Mundo são feitos por trabalhadores no Terceiro Mundo que trabalham longuíssim as horas em troca de um salário lam entável, em condições perigosas e insalubres - entre eles, m ilhões de crianças.

O governo desses países opôs-se a incluir padrões de m ão de obra em seus acordos com erciais; alguns econom istas tem em que esses padrões venham a punir os países em desenvolvim ento, caso as m ultinacionais retirem os investim entos de fornecedores que não os cum pram . Michael Hiscox (professor de Harvard responsável pelo experim ento que dem onstrou que os com pradores pagariam m ais por toalhas produzidas de m aneira ética) argum entou em um a conferência sobre globalização na Princeton University que um a tática baseada no m ercado poderia funcionar m elhor do que os acordos com erciais.1° Um a certificação para produtos que cum prissem padrões m ais rígidos de condições de trabalho, sustentabilidade am biental etc. alertaria com pradores conscientes - m uitos dos quais, segundo seu estudo, estão dispostos a pagar valores m ais elevados em troca de produtos virtuosos. Isso poderia fazer a virtude com pensar lá atrás, na cadeia de suprim entos.

Pense no que isso significaria para o im pacto dos consum idores m ais ricos do m undo nas condições de vida e de trabalho dos pobres. Outra grande inj ustiça do aquecim ento global pode ser vista no fato de que os pobres do m undo serão os que m ais vão sofrer com o aquecim ento global, em bora tenham sido os que m enos contribuíram para o problem a. Os hábitos dos ricos é que abastecem o aquecim ento global - por isso, cabe aos ricos a m aior carga ética da m udança.

Os habitantes dos países desenvolvidos consum em em um a velocidade 32 vezes m aior do que os pobres." O rastro deixado por essa proporção da hum anidade no planeta significa não apenas o uso absurdam ente m aior de recursos naturais lim itados com o petróleo, m adeira ou peixes, m as tam bém um a produção m uito m aior de dej etos, com o gases de efeito estufa, plásticos que sufocam a vida m arinha e um m ar de outras coisas que apodrecem nos aterros sanitários.

O geógrafo social Jared Diam ond, que faz essa observação, observa que esse ritm o de consum o tornar-se-á absolutam ente insustentável à m edida que m ilhões de habitantes de países com o China e índia passarem a adotar o estilo de vida dos países m ais afluentes do m undo. Sugere que, se o consum o aum entasse de m aneira m ais eficiente - usando alternativas a com bustíveis que geram gases de efeito estufa, pesca sustentável e replantio das árvores etc. -, teríam os m ais chance de evitar o colapso do planeta decorrente dessa inédita ganância hum ana. Seria m uito m ais fácil alcançar essa m aior eficiência se o m ercado fosse transparente: se soubéssem os com clareza quais produtos com pram os que contribuem para a saúde, sustentabilidade e igualdade social - e quais deles pioram a situação.12

De posse das inform ações certas, os consum idores m ais ricos poderiam fazer m ais do que adotar práticas de consum o m ais sustentáveis. As com pras tornar-se-iam um a oportunidade de exercer a com paixão, com decisões de com pra cuj os efeitos se propagariam por todas as cadeias de suprim entos globais, alavancando, assim , m elhores condições am bientais, de trabalho e de saúde para os pobres do m undo.

Com pradores em Berlim , no Brookly n ou em Pequim poderiam fazer escolhas bem fundam entadas que acelerariam a conversão da grade de energia da China de usinas que queim am carvão para fontes alternativas, reduziriam as nuvens de toxinas que um agricultor m exicano inala, m elhorariam as condições de trabalho em fábricas vietnam itas e tam bém a saúde de m ineiros na África. Isso, por sua vez, significa não apenas m elhores condições de vidas para os chineses, m exicanos, vietnam itas e africanos, m as tam bém opções de com pras m ais virtuosas disponíveis para esses países, na m edida em que eles, por sua vez, se tornariam m ais afluentes. Em um m ercado transparente, as com pras tornam -se um ato geopolítico.

Em sum a, a transparência radical tem o potencial de m elhor alinhar o que vende aos desej os dos consum idores. Ela transform a os consum ido res sem im portância em um a força de peso -sej a esse consum idor um a m ãe preocupada com a saúde de seus filhos ou um gerente de com pras de um a enorm e em presa. Um m ercado transparente altera o equilíbrio fundam ental entre em presas e clientes, perm itindo que os com pradores votem com seus dólares com precisão inédita.

Essa solução, baseada em inform ação, é a peça que faltava no sistem a de livre m ercado, a peça responsável pela prom essa de colocar um fim à eterna tensão entre lucros e bem -estar público. A transparência radical m uda as regras do j ogo dos negócios. Em um a econom ia ecologicam ente inteligente, os executivos serão pagos para m axim izar o valor para o acionista ao serem responsáveis pelo bem do público com o um todo. À m edida que as forças de m ercado alinham os interesses públicos e corporativos, o com ércio assum e um novo papel com o ferram enta para nosso bem -estar coletivo.

O aum ento da inteligência ecológica parece ser essencial para que nossa espécie se adapte aos desafios singulares dos tem pos atuais. lan McCollum , m édico e naturalista sul-africano que escreve sobre inteligência ecológica, observa que, em bora a Terra pareça estar destinada a sofrer, nos próxim os anos, m udanças clim áticas que am eaçam nosso frágil nicho, o planeta em si poderá continuar por m uito tem po depois do desaparecim ento de nossa espécie. Para evitar esse destino, afirm a, o que precisam os não é consertar o planeta, m as sim nossa relação com ele.